sábado, 14 de maio de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 14


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair

CAPÍTULO 14

PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:

DALVA
MARIA DE LARA
ESTELA
RITINHA
HERNANI
CARMEN
DUDA
PAULA
CEMA
DIANA
JOÃO

CENA 1  -  COROADO  -  FAZENDA DE  BARROS - QUARTO DE LARA  -  INT.   -  DIA.

Maria de Lara, agachada, procurava algo desesperadamente quando a tia Dalva entrou na dependência.

DALVA  -  Que está fazendo, Lara?

MARIA DE LARA  -  Quero encontrar o espelho quebrado que feriu minha perna...

DALVA  -  Por que se preocupa com isso? Não se recorda como se feriu? Claro que não pode. Você perdeu os sentidos. Mas eu vi, e a socorri imediatamente!

MARIA DE LARA  -  Então, onde está o espelho quebrado?

Dalva deu alguns passos até o armário. Mostrou o espelho quebrado. Rachado no centro e esfacelado nas laterais da moldura.

DALVA  -  Está aqui. Não se lembra? Você estava deitada... a dor de cabeça quase a cegava... levantou-se, tonta... abriu o armário... O espelho caiu aos  seus pés. Você se abaixou para apanhá-lo... perdeu os sentidos sobre ele... e não sei como... mas ele a cortou. Quando cheguei, logo em seguida... encontrei você, ferida... Isso foi tudo. Lembra-se,  agora?

Lara retirou a atadura da perna. Estela acabara de entrar no quarto. Ouvira as explicações da cunhada.

ESTELA  -  Que horror! Mais parece uma queimadura!

Lara imobilizou-se com as palavras da mãe.

MARIA DE LARA  -  Queimadura!
 
DALVA  -  (nervosa)  Claro... o espelho não cortou fundo... só raspou. Ficou essa impressão de queimadura.

Uma sombra de dúvida começava a obscurecer o espírito de Maria de Lara.

MARIA DE LARA  -  Já não tenho certeza de nada...  João Coragem, na igreja, falou  de uma queimadura... de uma queimadura. E agora, minha mãe fala a mesma coisa!

CORTA PARA:

CENA 2  -  RIO DE JANEIRO  -  ESTÁDIO DO MARACANà -  INT.  -  DIA.

  
Pela primeira vez, Ritinha assistia a um jogo de futebol. O Maracanã lhe parecia uma loucura. Inundado de gente. A seu lado a torcida organizada do Mengo. Surdos, tamborins, cuícas, agogôs. Gritos. Passos de ginga. O eco descomunal que acompanhou o gol do Flamengo, foi para a moça qualquer coisa de irreal. Parecera-lhe que toda aquela multidão recebera, de uma só vez, terrível ferroada de milhares de marimbondos – um salto só, um grito em uníssono. E o delírio.

Rita via Duda. Torcia por ele. Ansiava tocá-lo.


As rampas de acesso formigavam de gente. O Flamengo ganhara e a cidade estava em festas. Ritinha observava a massa a deslocar-se. Seu pensamento em Duda. Tinha de alcançar o portão de saída dos jogadores. Só assim encontraria chance de falar ao marido.

CORTA PARA:

CENA 3  -  MARACANà -  EXT.  -  TARDINHA.


Ritinha conseguira chegar ao grande portão. Lá estava Duda, rodeado de torcedores frenéticos. Tentava ingressar no ônibus especial do clube. Rita forçava passagem. A onda humana atirava-a para trás. Nova tentativa. Súbito, alguém abraçou e beijou o jovem ídolo do futebol. Os olhos de Ritinha não queriam acreditar. O beijo se estendia, interminável, diante de milhares de olhos.

Reconhecera a moça que retinha seu marido nos braços: Carmen Valéria. Rita imobilizou-se, enquanto Duda se ajeitava nos bancos confortáveis do coletivo.

CENA 4  -  MARACANà -  SEQUENCIA  -  EXT.  - ANOITECENDO.


No Estádio vazio o vento brincava de levantar papéis. Ritinha sentara-se num banco do jardim. Hernani despertou-a da meditação. Era um dos sócios do marido, na partilha do apartamento.

HERNANI  -  Ritinha! Ritinha!

A voz assustara-a. Quem poderia reconhecê-la, áquela hora, naquele lugar?

HERNANI  -  Que custo para te encontrar! Foi uma sorte um sujeito do estádio avisar: tem uma maluquinha ali, no jardim, que não quer ir embora.

Ritinha olhou para o rapaz. Tristonha. Descrente.

HERNANI  -  Desde ontem que estou á tua procura. Vamos, eu te levo em casa.

CORTA PARA:

CENA 5  -  APARTAMENTO DE DUDA  -  INT.  -  NOITE.

Hernani e Ritinha chegaram ao apartamento e encontraram as luzes acesas, o som de música moderna e a presença de uma mulher. 


CARMEN   -  Graças a Deus! Por onde você andou, menina? Um dia inteiro te procurando!

Ritinha evitou o abraço da outra. Lembrava-se dela – esposa do jogador do segundo time.

CARMEN  -  O que é que ela tem?

RITINHA  -  (irônica)  Já acabou a brincadeira?  Já se divertiram bastante ás custas da caipirinha? Quem foi que ganhou a aposta? Andem. Respondam... (esperou alguns segundos)  Uai, não apostaram... pra ver quem enganava mais a idiota do interior?

CARMEN  -  Bem... eu não tenho nada com isto...
 
HERNANI  -  Ela já sabe de tudo, Carmen. Estava no estádio. Paula também. E... você conhece o gênio da minha irmã...

RITINHA  -  (com ódio no olhar e nas expressões do rosto)  Você, então, é a Carmen. Carmen Valéria. E deu seu lugar pra outra? Quanto ganhou com isso?

CARMEN  -  Espera lá...  Não ganhei nada. Eu tentei explicar, Ritinha. Ela chegou antes de mim... não pude fazer nada. Você já havia acreditado nela. Fiquei numa sinuca sem saber o que fazer. Mas estou aqui, desde ontem, tentando desfazer este engano. Me doeu na consciência.

A porta se abriu e Neca e Duda entraram sorridentes.

CARMEN  -  (atirou-se nos braços do marido)  Meu nego, puxa vida, que saudades!

Rita evitava os olhos de Eduardo. Falou, dirigindo-se a todos.


RITINHA  -  Será que vocês querem fazer o favor de me deixar sozinha com meu marido?

DUDA  -  Gente... vão indo, vão. Depois a gente se fala.

Hernani ao sair explicou ao amigo.

HERNANI  -  Se não fosse buscá-la no estádio, ela não saberia voltar para casa. Olha aí, Duda, ela estava desaparecida desde ontem. Tchau!

As últimas palavras do companheiro despertaram a curiosidade do rapaz.

DUDA  -  Que papelão é esse? Que negócio de desaparecida?
  
RITINHA  -  (esforçando-se para não chorar)  Foi ela... a tal de Paula... a sua noiva, que arranjou tudo isso. Foi me buscar no hotel, disse que era Carmen. Confiei nela. Ela disse que eu podia ir na concentração... me fez passar por aquele vexame. Nunca passei tanta vergonha na minha vida!

DUDA  -  Aquela safada! Ajusto contas com ela, sujeitinha ordinária!  Mas você não podia ter vindo pra casa, em vez de ir pro hotel?

RITINHA  -  Eu não sabia o endereço. Me perdi. Me perdi, Duda.

O esforço fôra demasiado. Ritinha não se conteve mais e os soluços a dominaram por completo.

DUDA  -  Não chore, vá... Ninguém esperava que isso acontecesse. Vem cá!

Puxou a esposa para si, abraçando-a. Rita aconchegou-se ao peito do marido.


DUDA  -  Você não fez bobagem nenhuma, não?

RITINHA  -  Não... porque eu fugi. Mas, um sujeito me enganou e me levou num clube... uma boate. Eu passei mal e o tal moço me levou pro hotel.

DUDA  -  Me perdoe, Ritinha... Eu falei pra você como é a vida de jogador de futebol... sempre controlado em tudo...

RITINHA  -  E aquela mulher... Paula... eu vi quando ela te abraçou e beijou na saída do Maracanã!

DUDA  -  Você precisa entender... o caso com Paula é anterior á decisão quase forçada do nosso casamento. Isso merece melhor compreensão sua, Rita.

RITINHA  -  Compreender e aceitar esta situação? Você continuar com ela e comigo? Mas isso é humilhante!

DUDA  -  Você não tem direito nenhum de fazer exigências, Ritinha.

RITINHA  -  Sou sua mulher!  Se não tenho direito... o que é que eu estou fazendo aqui?

DUDA  -  (explodiu)  Eu te avisei, não avisei? Se estiver achando ruim, pode dar o fora! Amanhã mesmo, pode pegar o primeiro ônibus e voltar para Coroado.

Pegou no paletó e dirigiu-se á porta do apartamento.

RITINHA  -  Aonde você vai?

DUDA  -  Uns amigos... estão me esperando... eu volto daqui a pouco.

Duda saiu. Ritinha correu para a janela.

CORTA PARA:

CENA 6  -  RIO DE JANEIRO - APTO. DE DUDA. -  EXT. - NOITE.


Do alto da janela Ritinha avistou a outra. O fusca gêlo estacionado próximo á entrada do prédio. Paula beijou o rapaz e, abraçados, entraram no carro.

CORTA PARA:

CENA 7  - APTO. DE DUDA  -  INT.  - NOITE.


Rita jogou-se de bruços sobre a cama, dominada pela exaustão. As lágrimas banhavam-lhe a face marcando pontinhos úmidos na brancura do lençol.
CORTA PARA:

CENA 8  -  COROADO  -  CASA DE BRAZ CANOEIRO  -  INT.  -  DIA.

Diana voltara a aparecer na choupana de Braz Canoeiro. Cema correra ao garimpo para avisar João Coragem. Aquilo já estava se tornando rotina, pensava a esposa do garimpeiro.


Cema apontou para a rêde, de onde saíam duas pernas alvas e torneadas.

CEMA  -  Aí tá ela. Doida como sempre. Acho que desta vez tá até pior...
Diana notou a presença dos dois. Com as mãos em concha atirou para cima o feixe de cabelos alourados.

DIANA  -  Olá, grandalhão, como é que é? Tudo bem contigo?

João pediu a Cema que se afastasse. Queria conversar a sós com a jovem doidivanas.


JOÃO  -  E agora, como é que eu te chamo? Lara ou Diana?

DIANA  -  Vai encher, vai. Essa tua mania de me chamar por aquela outra cretina, já me encheu a paciência. E... qual é a bronca? Por que tanta raiva? Até que você estava legal comigo! Só porque eu desapareci com o dinheiro da sua mãe? Mas eu precisei dele... não ia sair de lá com a mão abanando...

JOÃO  -  Você provou o que é.

DIANA  -  O que que eu sou? Sou uma mulher sem freio. E você bem que soube aproveitar. Pra que vem agora com essa fita toda... Sai daqui, quadrado. Quadradão!

JOÃO  -  Eu pensei até em me casar com você... Fui vê o padre e tudo...

Diana sorria, como sempre, abusadamente.

JOÃO  -  Mas não era você...era a outra que eu queria.
Diana continuava rindo. Em escala cada vez maior.

DIANA  -  Prometo que rezo toda noite, um Padre Nosso e uma Ave Maria antes de deitar (falou em tom de caçoada)  Mas, casa comigo, casa!

JOÃO  -  De você eu gostei... só porque se parece com ela.
 
DIANA  -  (irônica)  Não diga, grandalhão! Não diga!

E aproximou-se, insinuante, do jovem rude.

DIANA  -  Tem certeza, absoluta? Então, me beije... só depois aceito sua resposta.

JOÃO  -  (evitando o contato com a moça)  Se prepare. Vou te levar daqui.

DIANA  -  Pra igreja?

JOÃO  -  Não. Você não pode entrar numa igreja. Cheia de pecado, como é.

DIANA  -  Uhn... e você... vai me regenerar?

JOÃO  -  Vou te salvar.

Diana abraçou-o, ternamente.

DIANA  -  Antes de me salvar... a gente bem que pode... conversar mais um pouquinho... do pecado... da vida e da morte... do amor e do ódio.

João procurou desvencilhar-se dos braços da moça. Ela o agarrou mais fortemente, encostando os lábios no rosto dele. Dedos carinhosos alisaram-lhe a fronte.

DIANA  -  Gosto um bocado de você, grandalhão. Se não gostasse... não vinha de tão longe só pra te ver... Olha, eu vou te dizer uma coisa. Ela, aquela coitada,  também está começando a gostar de você. Mas, ela luta pra não gostar...

JOÃO  -  Ela...

DIANA  -  A filha de Pedro Barros.

JOÃO  -  Falou com ela?

DIANA  -  Falo sempre...

JOÃO  -  Ela te confessou isso? Que ta gostando de mim?

DIANA  -  É... a cretina sente uma atração por você... mas reage. Pra ela você não serve. É um boçal. Foi ela mesma quem me disse.

JOÃO  -  Vamos embora.

DIANA  -  Espere aí... não disse tudo. Entre nós... não há diferença de educação. A gente é igual... e eu não me importo com essas coisas...

João empurrou-a brutalmente. Pegou duma correia pendurada na perede e amarrou o pulso da jovem ao dele, semelhantemente aos elos de uma algema. Diana sorria, sem dar importância ao ato grosseiro do rapaz.

JOÃO  -  Você, agora, não me escapa mais.

CORTA PARA:

CENA 9  -  RIO DE JANEIRO  -  APARTAMENTO DE DUDA  -  INT.  -  DIA.


Eduardo regressou a casa no dia seguinte. Dia alto. Com as feições abatidas, olheiras arroxeadas e grandes manchas oleosas por toda a roupa.


DUDA  -  Estive desde ontem na concentração.

RITINHA  -  De novo? Depois do jogo, á noite?

DUDA  -  É, depois do jogo, também. Fausto Paiva costuma chamar todos os jogadores para comentar a partida e apontar as falhas. Isso acontece sempre. A gente dormiu lá.
  
RITINHA  -  E... a Paula?

DUDA  -  (aborrecido)  Nâo enche de novo com a Paula!

RITINHA  -  Quando você saiu... ontem, ela estava te esperando. Eu vi.
 
DUDA  -  (embaraçado)    Bem... eu aproveitei para passar aquela bronca! Disse tudo o que tinha a dizer. Foi até bom. Rompi mesmo, no duro, de uma vez!

Duda, intimamente, se julgava um canalha. A consciência o acusava pela ação indigna que cometera, pelo isolamento a que relegara a jovem esposa, desde as primeiras horas do casamento. As coisas efetivamente não andavam bem.

Lembrou-se do perfume que havia comprado. Podia ser uma saída. Quem sabe, um presente?


DUDA  -  Ah, Ritinha. Me lembrei de você e lhe trouxe um presentinho. Vê se você gosta. É o perfume da moçada. Custa uma nota.

RITINHA  -  Não precisava... bastava que você tivesse se lembrado que eu estava sozinha... e voltado.

Com gesto carinhosos, Eduardo Coragem chamou a esposa a seus braços. Beijou-a.

DUDA  -  Estou aqui, não estou, amoreco? Pra que a zanga? Do mundo a gente não leva nada... gostou? Também ataco de filósofo, quando quero. (e meigo)   Me dá um beijo, Rita, e acabe com essa carinha feia...

Ritinha retribuiu o beijo do marido.

FIM DO CAPÍTULO 14
Maria de Lara (Gloria Menezes) e João (Tarcísio Meira)

E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

# PEDRO BARROS ENCONTRA DIANA E FICA CONFUSO, SEM SABER SE É OU NÃO SUA FILHA!

# O PREFEITO DE COROADO É ASSASSINADO!

# RITINHA TENTA CONTAR AO MARIDO QUE  JERÔNIMO E SINHANA, A SEU CHAMADO, ESTARÃO CHEGANDO AO RIO DE JANEIRO!

NÃO PERCA O CAPÍTULO 15 DE

domingo, 8 de maio de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 13


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair

CAPÍTULO 13

PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:

JUCA CIPÓ
PEDRO BARROS
DELEGADO FALCÃO
RITINHA
GERENTE
FAUSTO PAIVA
NECA
DUDA
PLAYBOY

CENA  1  -  COROADO  -  IGREJA  -  EXT.  -  DIA.

 Juca Cipó passeava de um lado para outro, diante da igrejinha. Figura hedionda, detestada pela população de Coroado, que nele via a mão assassina do Coronel Pedro Barros. Juca se benzia, ajoelhado no chão.


JUCA CIPÓ  -  Que Deus Nosso Sinhô me ajude! Que Deus Nosso Sinhô me livre de todo mal! Bala do inimigo e de tudo quanto é praga. Que Deus Nosso Sinhô me ajude...

O coronel viu o ajuntamento. Correu até o local.

PEDRO BARROS  -  Que é que você veio fazer aqui?

JUCA CIPÓ  -  Tenho uma coisa pra lhe dizê, meu patrão...  (e sério)  É uma coisa que eu acabo de saber, na feira da Praça.

PEDRO BARROS  -  Desembucha, home, e deixa de tanta preparação.

JUCA CIPÓ  -  Meu patrão, o Coragem tá pensando que vai ser o presidente da Associação dos Garimpeiros.
  
PEDRO BARROS  -  (estremeceu)  Isso é hora de brincadeira?

JUCA CIPÓ  -  Quem falou, não brincou. O seu Doutor Rodrigo é que meteu na cabeça dele.

PEDRO BARROS  -  Qual dos Coragens?

JUCA CIPÓ  -  O mais moço, o Jeromo.

Pedro Barros atirou, com raiva, o charuto a distancia. Virou-se para o Delegado Falcão.

PEDRO BARROS  -  Como é que deixou acontecer uma coisa destas? É coisa certa, mesmo?

O delegado, terno branco, palito dançando entre os lábios – confirmou a novidade.

DELEGADO FALCÃO  -  Mais do que certo, coronel. No Hotel do Gentil já estão até preparando uma festa, pra essa noite. Vão festejar a decisão do Jerônimo.

PEDRO BARROS  -  Eu não disse? (explodiu)  Tinha que acabar com a raça maldita desse promotor. E agora?

DELEGADO FALCÃO  -  Agora é abrir luta ferrada com eles. A gente não pode facilitar. Agora, é guerra.

CORTA PARA:

CENA 2  -  RIO DE JANEIRO  -  HOTEL GLÓRIA  -  EXT.  -  DIA

Fachada do Hotel Glória. Um taxi pára, Ritinha desce e dirige-se á portaria,  ar desanimado, segurando a pequena mala.

CORTA PARA:


CENA 3  -  RIO DE JANEIRO  -  EXT.  -   NOITE.

A noite invadia a grande cidade. Luzes multicoloridas pintavam o Rio com o brilho dos luminosos.

CENA 4  -  HOTEL GLÓRIA  -  APARTAMENTO DE DUDA  -  INT.  -  NOITE.

Ritinha pegou o telefone e comunicou-se com a portaria do hotel.


RITINHA  -  O senhor podia telefonar de novo pra esse tal de clube? Eu mando chamar ele.

GERENTE  -  Pois não. Antes, permita-me avisá-la de que amanhã, bem cedo, preciso do apartamento onde a senhora está alojada.

RITINHA  -  Sim, senhor. Faça o favor de ligar pra mim.

CENA 5  -  SEDE DO FLAMENGO  -  INT.  -  NOITE.

O telefone tilintou na sede do clube. Fausto Paiva atendeu.


FAUSTO PAIVA  -  Alô! É, é aqui mesmo. Com quem quer falar? Duda? Não pode atender. Está dormindo. Mulher dele? E o que me importa? Nem que fosse a mãe dele. Agora não posso chamar, mais! Podia ter ligado há meia hora. Ele falava. Agora é impossível. A menos que a mulher dele esteja morrendo. É este o caso? Não? Então, não amole. Mande essa guria esperar até amanhã, de noite. Como enche! Boa noite!

Bateu o fone, com raiva, no gancho.

CORTA PARA:

CENA 6  -  HOTEL GLÓRIA  -  SAGUÃO  -  INT.  -  NOITE.

O gerente comunicou o incidente a Ritinha. A moça sentou-se numa poltrona, no saguão de entrada do luxuoso hotel. Pessoas entravam e saíam.

  
RITINHA  -  (insistiu)  Seu gerente!

GERENTE  -  Ás suas ordens.

RITINHA  -  O senhor tem alguma resposta pra mim?

GERENTE  -  Resposta?

RITINHA  -  Sou a mulher do jogador de futebol. Perdi o endereço de minha casa... Estou neste hotel, desde hoje, cedo... porque não sei pra onde ir...

GERENTE  -  Ah, sim. O seu marido está na concentração do Flamengo. Vai jogar amanhã.

RITINHA  -  É Eduardo... o Duda! O senhor ficou de ver se me arrumava o endereço da minha casa. Lembra?

GERENTE  -  Exatamente. Tive todo o interesse em resolver o seu caso. Telefonei para a sede do clube. Do Flamengo. E tenho uma resposta.

RITINHA  -  Falou com meu marido? Sabe onde eu moro?

GERENTE  -  Não falei com seu marido. Do clube me disseram que o jogador Duda não é casado. Desculpe, mas volto a lembrá-la que amanhã vamos precisar do seu apartamento pela manhã.

CORTA PARA:

CENA 7  -  RIO DE JANEIRO  -  SEDE DO FLAMENGO  -  CONCENTRAÇÃO  -  INT.  -  DIA

Aquela hora os jogadores  descansavam, alguns deitados em poltronas ou sofás, outros estendidos no chão, gozando da umidade doentia do cimento. Duda, alheio ás conversas, parecia perdido em seus pensamentos. Neca sentou-se ao seu lado.


NECA  -  Alguma informação da tua mulher?

DUDA  -  Nada, rapaz.

NECA  -  Ela não ligou pra ti?

DUDA  -  Não. Acho que tudo está bem por lá. Senão já tinha dado sinal de vida. E depois... que adianta eu me preocupar? Não posso fazer nada, não é?
 
NECA  -  O melhor é a gente se desligar de vez dos galhos lá de fora. Mulher é assim mesmo, rapaz. A gente casa, a gente compra amolação. Se não gostasse tanto da Carmen, não agüentava ela, não.

Fausto Paiva interrompeu a sesta dos rapazes.

FAUSTO PAIVA  -  Hora de dormir, rapazes!

Em grupos de dois os jogadores seguiram para o dormitório. Silenciosos. Cabisbaixos.

CORTA PARA:

CENA 8  -  RIO DE JANEIRO  -  HOTEL GLÓRIA  -  SAGUÃO   -  INT.  -  DIA.

Durante o incidente com o chefe do hotel, o rapaz de cabelos longos e roupa moderna – medalhão caindo sobre o peito, não tirara os olhos de Ritinha. Ouvira a conversa e a conclusão do gerente: “Duda não é casado”. As últimas palavras ainda soavam em seus ouvidos, encadeando idéias. O rapaz elaborava um plano.


Aproximou-se da moça.

PLAYBOY  -  Pra que toda essa tristeza, garota? Não vejo drama na sua história.

RITINHA  -  Estou... perdida no Rio de Janeiro. Não sei onde moro.

PLAYBOY  -  Amnésia?

RITINHA  -  Não. Burrice mesmo. Esqueci de tomar nota do endereço do apartamento do meu marido. Sou uma tonta, sabe?

PLAYBOY  -  Mas, vem cá... seu marido não é o Duda, do Flamengo?
 
RITINHA  -  É! Conhece ele?

PLAYBOY  -  Se conheço! Ele é legal comigo!

RITINHA  -  É mesmo? Por acaso sabe onde ele mora?

PLAYBOY  -  Sei onde mora, onde se diverte, onde nasceu, o que faz, o que come! Conheço tudo sobre a vida dele.
  
RITINHA  -  (sorria de satisfação)  Então pode me dar o endereço dele?

PLAYBOY  -  Faço mais. Levo você até lá.

RITINHA  -  Ah, que bom! Ainda bem que a gente encontra amizade em todo canto. Espera aí. Vou pagar minha conta. Não quero voltar mais aqui. Sabe? A sorte sempre chega na horinha certa...

Saem ambos. O rapaz segurando as malas. A moça ajeitando os longos cabelos negros.

RITINHA  -  Puxa! Como tudo aqui é diferente da minha terra!

PLAYBOY  -  Sua terra?

RITINHA  -  Coroado.

Um táxi parou ao aceno do rapaz. Entraram ambos.

PLAYBOY  -  Copacabana!

O rosto de Ritinha, colado ao vidro lateral do carro, revelava a admiração que lhe proporcionava a cidade gigante. Os anúncios corriam como um rolo de celulóide colorido. Os postes gigantescos, as vitrines dos grandes magazins, os viadutos, o túnel, a igrejinha de Santa Terezinha, a saída para o mar. Ritinha deslumbrava-se com o panorama do Rio á noite. Esqueceu até mesmo do rapaz que a acompanhava e de sua excessiva proximidade.

O carro parou diante da boate.

CORTA PARA:

CENA 9  -  RIO DE JANEIRO  -  BOATE  -  INT.  -  NOITE.


Lá dentro a música envolvia por completo o ambiente. Os pares que giravam entonteceram Ritinha. Tentou fugir. Os braços do rapaz a envolviam, qual tenazes. Quis gritar, os lábios do playboy não permitiam. Sentiu que flutuava no espaço. Que tudo escurecia repentinamente. Que o mundo e a vida se apagavam.

FIM DO CAPÍTULO 13
Ritinha (Regina Duarte) e Duda (Claudio Marzo)

E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

#  RITINHA DESCOBRIU QUE ESTAVA SENDO ENGANADA POR PAULA E CARMEN VALÉRIA.

#  JOÃO E DIANA ENCONTRAM-SE NA CHOUPANA DE BRAZ CANOEIRO.

#  RITINHA SOFRE AO VER DUDA E PAULA SE BEIJANDO!
NÃO PERCA O CAPÍTULO 14 DE

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 12


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair

CAPÍTULO 12

PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:

PAULA
RITINHA
FAUSTO PAIVA
PORTEIRO
DUDA
JOGADOR 1
JOGADOR 2
DALVA
JOÃO
MARIA DE LARA
TAXISTA

CENA 1  -  RIO DE JANEIRO  -  SEDE DO FLAMENGO  -  EXT.  -  DIA.
  
O táxi estacionou diante da sede do Flamengo. Homens de short, tamanco ao pé, toalhas enroladas no pescoço, transitavam no interior do edifício. Vez por outra, um jornalista era visto tomando apontamentos, enquanto outros batiam fotografias. Paula virou-se para Ritinha.


PAULA  -  Pode descer. É aqui.

RITINHA  -  Não vem comigo?

PAULA  -  Não. Não devo. Vá você. Boa sorte.

A jovem, pegando da pequena mala, desceu do táxi.

RITINHA  -  Obrigada, Carmen. Ah...

PAULA  -  Que foi?

RITINHA  -  Acho que me esqueci da camisola de dormir.

PAULA  -  Teu marido te empresta um pijama.

O táxi largou rápido, enquanto Ritinha entrava na sede do clube.

CORTA PARA:

CENA 2  -  SEDE DO FLAMENGO  -  PORTARIA  -  INT.  -  DIA.

Fausto Paiva, o técnico, apareceu na portaria. Homem rude, desprovido de maneiras humanas, foi logo “atacando”:


FAUSTO PAIVA  -  Que é que há? Que é que está havendo aí?

PORTEIRO  -  Essa dona aí, seu Fausto. Tá querendo falar com o Duda. Disse que veio pra ficar com ele.

FAUSTO PAIVA  -  Ficar ou falar com ele?
  
RITINHA  -  É, com o Eduardo.

PORTEIRO  -  (visivelmente nervoso)  Eu disse a ela que não pode entrar. Ela está insistindo. Não quer entender.
  
FAUSTO PAIVA  -  Moça, o Duda está em concentração.

RITINHA  -  Mas... eu sou mulher dele. Será que não posso ver meu marido?

FAUSTO PAIVA  -  Marido? Que historia é esta? Escute, minha filha, que golpe é esse que você está querendo dar?

Ritinha quase chorava. A voz se embargava na garganta.

RITINHA  -  Não quero dar golpe nenhum. Estou dizendo a verdade. Eu me casei com ele. Sou mulher dele.

FAUSTO PAIVA  -  Ora, menina, vê se toma vergonha, vai andando, vai. (E virando-se para o porteiro)  Jarbas! Bota essa vigarista daqui pra fora!

O porteiro, pegando a jovem pelo braço, forçava sua retirada do clube.

RITINHA  -  (esbravejando)  O que o senhor está pensando? Eu não sou quem o senhor está imaginando... Vim aqui... porque me disseram que eu podia ficar com ele.

FAUSTO PAIVA  -  Então você não sabe que jogador concentrado não pode receber mulher? Mulher da sua laia, então...!

O técnico estava lívido de raiva. Punhos fechados em atitude ameaçadora.

FAUSTO PAIVA  -  Vamos, desguia. Dê o fora. Ande, ande! Essas vigaristas...

Ritinha, chorando, deixou a sede do Flamengo. Fausto Paiva calou um palavrão e retornou ao interior das dependências.

CORTA PARA:

CENA 3  -  SEDE DO FLAMENGO  -  SALA DE  RECREAÇÃO  -  INT.  -  DIA.

Alguns jogadores relaxavam em frente á TV, enquanto outros jogavam cartas ou simplesmente cochilavam no enorme e confortável sofá.


FAUSTO PAIVA  -  (entrando no recinto)  Olha aí, Duda. Uma sujeitinha chegou agora, na portaria, querendo falar com você. Dizia que era sua mulher. E veja só, a imbecil trouxe uma malinha, tipo da roça, e disse que ia ficar com você. Tem cada uma...

DUDA  -  Minha mulher?

Os jogadores riram.

JOGADOR  1  -  Ficar com ele? Essa e boa!

JOGADOR 2  -  Está pensando que isto aqui é hotel...

DUDA  -  (empalidecendo)  Minha Nossa Senhora! Deve ter sido a Ritinha.

FAUSTO PAIVA  -  Disse que é sua mulher.
  
DUDA  -  (confirmou, raivoso)  Mas é minha mulher!

Todos os olhos se voltaram para ele, espantados. Fausto Paiva acercou-se do jogador e fez a pergunta:

FAUSTO PAIVA  -  Você casou, Duda?

DUDA  -  Casei. Esqueci de avisar o senhor, seu Fausto! Me deixe ir falar com ela. Ver se encontro ela por aí.

FAUSTO PAIVA  -   Absolutamente. Daqui você não sai. ( e, irritado)  - Isto é concentração ou parque de diversão? Mais respeito, minha gente! Mais respeito!

CORTA PARA:

CENA 4  -  GÁVEA  -  RUA  -  EXT.   -  DIA.

 
Ritinha perambulava pelas imediações do clube. Não conhecia ninguém. Estava ás vésperas do desespero. Procurou um táxi.


TAXISTA  -  Pra onde, moça?

RITINHA  -  Eu... eu não sei! Eu não sei!

O carro rolava, maciamente. Pela janela estreita, Rita de Cássia via afastar-se a sede imensa. O mundo parecia ruir. Ritinha sentia o mundo esmagar seu frágil corpo. Para onde ir? O táxi se perdia em retas e curvas furando o bloqueio do tráfego a caminho do nada. Ritinha estava perdida na cidade grande.

CENA 5  -  COROADO  -  IGREJA  -  INT.  -  DIA


João Coragem rezava diante do altar da Virgem. Era seu hábito procurar o silencio da casa de Cristo nas horas em que, atormentado por algum problema, não encontrava nas coisas terrenas solução ou saída. Rezava com fervor, desligado do mundo. Nem sequer notou as duas mulheres que se sentaram a um dos cantos da igreja.

Dalva e Maria de Lara benzeram-se. A tia lembrou-se de falar ao Padre Bento.


DALVA  -  Lara, fique aqui. Vou falar com o padre Bento e volto já.

João acabara as orações. Viu Lara sozinha a poucos passos. As atitudes da moça – Lara ou Diana – já não o surpreendiam tanto. Aproximou-se.

JOÃO  -  Diana.

Lara não ergueu os olhos.

JOÃO  -  (insistiu)    -Diana... por que faz isso comigo?
  
MARIA DE LARA  -  (voltou-se para o rapaz)  O senhor de novo, Senhor João Coragem?

JOÃO  -  Você quer me dar uma explicação, pelo amor de Deus?

MARIA DE LARA  -  Eu não sei do que o senhor está falando.

JOÃO  -  Você... você é Maria de Lara... ou é Diana?

MARIA DE LARA  -  Sou Maria de Lara. A explicação para essa confusão que o senhor está fazendo comigo, é que existe outra moça, com esse nome de Diana, que se parece muito comigo.

JOÃO  -  Outra? Então... é outra?

MARIA DE LARA  -  Estou desolada, seu João. Essa criatura faz coisas horríveis, comete atos indignos, rouba, briga, insulta... e talvez... outras coisas piores... que me envergonham... só em pensar. ( E, baixando a cabeça, tímida)   Estou desesperada, mesmo. O senhor nem imagina quanto. Peço que me ajude a desfazer esta confusão.

JOÃO  -  (atônito)  Ajudar!

MARIA DE LARA  -  É. Ajudar. Fale com ela... se a encontrar novamente. Diga que eu preciso vê-la... preciso orientá-la. Coitada! Deve ser tão infeliz!

João não tirava os olhos de um ponto no corpo da jovem. Lembrava-se da queimadura provocada pela água fervente que caíra sobre a perna de Diana, na noite em que a levara para casa. Lara estava ferida no mesmo lugar!

JOÃO  -  Vendo a senhora falar... a gente tem certeza que ela é outra.

MARIA DE LARA  -  Nunca duvide disso, seu João.


JOÃO  -  Mas quando eu vejo... que a senhora... tem um ferimento... no mesmo lugar em que ela se feriu...
  
MARIA DE LARA  -  (assustou-se)  Como?

JOÃO  -  Que foi isso na sua perna?
 
MARIA DE LARA  -  (olhou para a perna enfaixada)    -Isso? Ah, sim... foi hoje de manhã... ou foi ontem de manhã? Não sei... ás vezes eu fico um pouco atordoada... é que sinto esta dor de cabeça. Mas, espere... foi hoje... hoje, mesmo. Eu estava no quarto.

Dalva retornava da sacristia. Lara buscou salvação na presença da tia.

MARIA DE LARA  -  Titia, isso na minha perna... como foi?

DALVA      Um ferimento, hoje de manhã. O espelho do guarda-roupa que quebrou. Por quê?

MARIA DE LARA  -  Ah, sim, o espelho... é mesmo. Eu estava explicando ao senhor João Coragem... a origem de toda essa confusão. A outra mulher que se parece comigo. Ele disse que ela tem um ferimento como eu.

Dalva não escondia o menosprezo que votava á família Coragem. As conversas sucessivas entre a sobrinha e o garimpeiro – jovem, belo, mas pobre e de família detestada pelo irmão, Pedro Barros – tornavam-na irritadiça, nervosa.

DALVA  -  Quando é que o senhor vai deixar minha sobrinha em paz? Será que toda vez que nos encontramos é preciso nova explicação?

JOÃO  -  Eu não tenho culpa...

MARIA DE LARA  -  E por que insiste em falar comigo?

JOÃO  -  É que... eu e aquela outra mulher... a gente... quero dizer... a gente se gosta... a gente se gosta muito. Eu tou quase ficando doido por causa dela... Dona Lara.

As duas – tia e sobrinha – deixaram a igreja. João voltou os olhos para a imagem da Virgem. O rosto da santa confundindo-se com um outro rosto diabólico. No meio da visão, a lembrança de uma perna enfaixada – de Lara ou de Diana? O jovem não podia compreender o fato de tanta coincidência. Mesmo rosto, mesmo ferimento – apenas duas personalidades diametralmente diferentes. Um dia haveria de descobrir tudo.

FIM DO CAPÍTULO 12
Gentil Palhares (Artur Costa Filho) e Diana (Gloria Menezes)

E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

# RITINHA, PERDIDA NA CIDADE GRANDE, ENTRA EM MAIS UMA ENRASCADA, CAINDO NA LÁBIA DE UM PLAYBOY QUE SE OFERECEU A AJUDÁ-LA A ENCONTRAR O MARIDO.

# PEDRO BARROS É INFORMADO DE QUE JERÔNIMO SE CANDIDATOU A PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DOS GARIMPEIROS E FICA POSSESSO!

NÃO PERCA O CAPÍTULO 13 DE

sexta-feira, 6 de maio de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 11


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair

CAPÍTULO 11
PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:

RITINHA
PAULA
CARMEN VALÉRIA
RODRIGO
JOÃO
POTIRA
GARIMPEIRO 1


CENA 1  -  RIO DE JANEIRO  -  APARTAMENTO DE DUDA  -  INT.  -  DIA.

O dia nascera belo. Claro e quente como são os dias de verão no Rio. O apartamento de Eduardo Coragem, num edifício moderno, abria ampla visão para o mar, para as belezas das praias cariocas, coloridas de biquínis, formigando de gente. Ritinha  perdeu minutos na admiração de tudo aquilo. Tão diverso da simplicidade interiorana de Coroado. Assim mesmo iniciou seus afazeres de dona de casa. Aqui, restos de bebidas. Ali, uma camisa de Duda, amarrotada, jogada a um canto do sofá. Ritinha beijou e apertou contra o seio a camisa amarfanhada. Era um pedaço dele.

De repente a porta se abriu e Paula entrou. Ainda na pele de Carmen Valéria, esposa de Neca, amigo e companheiro de Duda, no Flamengo.

RITINHA  -  Bom dia, Dona Carmen. Tudo aqui estava muito sujo. Também, homem não sabe fazer limpeza, não é?

Paula sentou-se, displicentemente. Tirou um cigarro do maço, quase cheio, e o acendeu.


RITINHA  -  Quer tomar um café? Fiz agora mesmo.

PAULA  -  Não. Pode deixar.

RITINHA  -  Zangada, Dona Carmen?
 
PAULA  -  (grosseira)  Não enche!

RITINHA  -  Eu... estava aqui sozinha... e estava pensando... que eu bem podia ir ver meu marido na tal de concentração.

Paula sorriu, soltando uma baforada de fumaça.

PAULA  -  Ah, você quer ir, é?

RITINHA  -  Eu posso?

PAULA  -  Mas, claro que pode! Você chega lá e diz: sou mulher do Duda. Recém-casada. Acho que tenho o direito de ficar com o meu marido. Você vai ver como tudo é fácil.

Ritinha animou-se, em sua inocência.

RITINHA  -  Eles deixam?

PAULA  -  Lógico! Vá, vá se arrumar. Eu te deixo, num carro, no prédio da concentração. Você salta e manda chamar o técnico, Fausto Paiva. Guarde bem o nome. Fausto Paiva. Ele é um anjo...

Ritinha dirigiu-se ao quarto para mudar de roupa. A campainha da porta soou. Paula atendeu. Era Carmen Valéria.

PAULA    -Carmen!   (E em voz baixa, para que Ritinha não ouvisse)   Que é que está fazendo aqui?

CARMEN  -  Me deixa entrar. Quero explicar a confusão que você fez com a mulher do Duda.

PAULA  -  Calma! Calma!

CARMEN  -  Vou dizer a ela quem você é.

PAULA  -  Você vai é complicar as coisas. Dê o fora que eu vou me encontrar contigo longe daqui e te dou todas as explicações.
  
CARMEN  -  (insistiu)  Cadê a guria? Telefonei hoje cedinho e a coitada falou comigo como se me conhecesse. Na hora não entendi. Depois, fiquei queimando as pestanas e dei com a coisa. Você disse que era eu, não disse?

Paula confirmou, balançando a cabeça.

CARMEN  -  Isso é sujeira da grossa! Eu ia pegar a menina no hotel, ontem á noite. Você foi na minha frente. Cheguei lá, ela já tinha saído. Tentei telefonar para cá, ninguém atendia. Mas hoje eu boto esse troço em pratos limpos. Não quero confusão com o Duda. Pra cima da mamãe aqui, não!

Paula percebia a dificuldade da situação. Mais um minuto e tudo estaria perdido. Quem sabe? – até mesmo o Duda – para sempre. Não viu outra saída.

PAULA  -  É pena você botar as coisas em pratos limpos. Eu estava pensando em te dar uma mãozinha na carreira, em troca desse favor.

Carmen ouvia sem dizer nada.

PAULA  -  Pois é, eu ia te apresentar ao Nelson Mota, que pode te arranjar um contrato na Phillips...

CARMEN  -  Você está me gozando...

PAULA  -  Falo sério. Ele é meu chapa. E conheço, também, a turma da pesada da Globo. Sou assim com a mulher do Chacrinha! Sou liga do Borjalo, amiga do Pacote. Andei pelos corredores da Globo e recebi dois imensos sorrisos do Boni! Sabe que eu tenho cara de chegar lá e exigir: olhe aí, quero que vocês dêem uma oportunidade pra minha amiga, a grande sambista Carmen Valéria!
  
CARMEN  -  (voz baixa)  Não sabia que você tinha tantos conhecimentos...

PAULA  -  Aguenta mão aí com o nosso segredo e você vai ver só uma coisa...

Ritinha acabara de aprontar-se e assomara á porta.

RITINHA  -  Estou pronta...

Paula fez a apresentação.


PAULA  -  Esta é a mulher do Duda...  E esta é a esposa de um jogador da reserva.

Ritinha e Carmen Valéria deram-se as mãos.

PAULA  -  Vamos até a concentração do Flamengo.

CORTA PARA:

CENA 2  -  COROADO  -  ASSOCIAÇÃO DOS GARIMPEIROS  -  INT.  - DIA.
 
Em Coroado, o promotor Rodrigo comentava o fim da gestão do Presidente da Associação dos Garimpeiros.


RODRIGO  -  Quem vai ser o novo presidente?

GARIMPEIRO 1  -  Quem escolhe são os garimpeiros. Mas os coitados são obrigados a escolher aquele que Pedro Barros quiser. Sabe como é. Pra essa pouca-vergonha de exploração continuar...

Rodrigo ouvia atento.

GARIMPEIRO 1  -  Olha, eu lhe digo. Um dos Coragens é que devia ir pro lugar do Maneco. Só assim a gente derrubava o Pedro Barros...

RODRIGO  -  (pensativo)  Talvez fosse mesmo a saída para o impasse!

Rodrigo pôs o paletó e saiu apressado.

CORTA PARA:

CENA 3  -  GARIMPO DE JOÃO CORAGEM  -  EXT.  -  DIA.


RODRIGO  -  Alô, João. Quero te dar duas palavrinhas. Pode vir até aqui?

João se impacientou. Não gostava de ser interrompido quando estava no garimpo.

JOÃO  -  Diabo de gente que agora vem atrapalhar o trabalho!

Rodrigo, sorrindo, sentou-se numa pedra enquanto João depositava a peneira em cima do mato rasteiro.

RODRIGO  -  Sabe o que é, companheiro. Eu me preocupo com a próxima escolha do presidente da Associação dos Garimpeiros. Acho que é uma oportunidade de vocês elegerem um homem que  defenda os interesses de vocês e não os de Pedro Barros. Você ou seu irmão podem ser esse homem.

Estava lançada a isca. João balançou a cabeça, negativamente.

RODRIGO  -  (insistiu)  Você pode fazer muito por sua gente, pelos seus garimpeiros. Pode realizar seus velhos sonhos... melhorar a condição de vida deles... pode fazer um trabalho de esclarecimento junto a esses homens, mostrando a eles os seus direitos e o valor daquilo que acham. Vocês podem terminar com o jugo do seu maior inimigo, o Pedro Barros.

O jovem Coragem levantou-se, abriu os braços num ângulo de 180 graus e, mostrando o garimpo, disse ao promotor.

JOÃO  -  Minha esperança toda tá ali. Se eu bamburro... se acho pedra boa... um diamante pra valer... faço tudo isso que o senhor me disse. Preciso só de dinheiro. Dou emprego pra muita gente e boto máquina no garimpo. Largando isso... eu não faço nada por ninguém. Não, seu doutor, o cargo não me atrai.

RODRIGO  -  (sem se dar por vencido)  E o seu irmão? Ele também tem boa fama.

JOÃO  -  Meu irmão é dono da vida dele.

RODRIGO  -  Vou falar com ele. Onde está?

JOÃO  -  Em casa, eu acho.

CORTA PARA:

CENA 4  -  RANCHO CORAGEM  -  COZINHA  -  INT.  -  DIA.


Jerônimo estava chegando do garimpo, ainda sujo de barro, com os cabelos desgrenhados e as botas cobertas de lama. Foi direto ao pote de água, na cozinha. A sêde era muita depois de horas e horas ao sol do rio. Não se deu conta de Potira, que o esperava, fumando, perna estendida sobre uma cadeira. O rapaz assustou-se ao deparar com a cena, a ponto de se engasgar com a água fresca.

POTIRA  -  (rindo)  Que é isso, Jerome?

Aproximou-se do rapaz, imitando os trejeitos mundanos de Diana.

POTIRA  -  Tudo legal?

JERÔNIMO  -  (escandalizado)  Tá doente, índia?

POTIRA  -  Nada disso. Tou morando na minha filosofia.

JERÔNIMO  -  Sua quê?

POTIRA  -  As filosofia da vida. Sabe qual é a minha? Rir, correr, ser livre... amar, quando quero.

Enlaçou o pescoço do rapaz.

POTIRA  -  Me livrar de tudo que angustia... fazer o que der na telha... pôr a alma pra fora... dizer o que sinto. Beijar quando tenho vontade...

As últimas palavras da índia misturaram-se ao beijo desesperado que uniu os seus lábios aos de Jerônimo. Espantado, surpreso com a atitude da irmã-de-criação, Jerônimo se entregou aos apelos da jovem. Ao fundo da sala, dois olhos assistiam a toda a cena: Sinhana. A velha mãe dos garimpeiros se afastou, procurando o sossego do fundo do quintal. Jerônimo reagiu após os primeiros instantes de excitação e com gestos grosseiros, bateu violentamente no rosto de Potira.

POTIRA  -  Jerome, chega! Chega!

JERÔNIMO  -  Sua... sua... doida!

Potira soluçava, cabeça caída ao peito.

JERÔNIMO  -  Desavergonhada! Precisa tomá vergonha nessa cara!

FIM DO CAPÍTULO 11
João (Tarcísio Meira) e Braz (Milton Gonçalves)

E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

RITINHA É DEIXADA POR PAULA NA CONCENTRAÇÃO DO FLAMENGO E É HUMILHADA E EXPULSA PELO TÉCNICO FAUSTO PAIVA.

JOÃO ENCONTRA LARA NA IGREJA E VAI TOMAR SATISFAÇÕES, JULGANDO TRATAR-SE DE DIANA, E DEIXA TIA DALVA INDIGNADA.

NÃO PERCA O CAPÍTULO 12 DE

terça-feira, 3 de maio de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 10


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair

CAPÍTULO 10

PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:

RITINHA
PAULA
DIANA
JERÔNIMO
SINHANA
JOÃO
RECEPCIONISTA

CENA 1  -  RIO DE JANEIRO  -  APARTAMENTO DE DUDA - INT. - DIA.

Ritinha, deitada, voltou o pensamento á sua cidade. Sua gente. Ali, no Glória, tudo era tão contrário da simplicidade de Coroado. O telefone tocou.


RECEPCIONISTA  -  Madame. Tem uma moça na portaria que quer subir para falar com a senhora.

RITINHA  -  Quem é?

RECEPCIONISTA  -  Dona Carmen Valéria.

RITINHA  -  Carmen? Ah, sei! A cantora. Estou esperando por ela. Faça o favor de mandar subir. Ah, e pode ver também a minha conta. Em nome de Eduardo Coragem.

Ritinha levantou-se célere. Ajeitou alguns pertences na mala. Rapidamente contou o dinheiro na bolsa. A campainha soou.

Paula entrou.

PAULA  -  Boa noite! É a mulher do Duda?

RITINHA  -  Sou. É Dona Carmen?

PAULA  -  Sou Carmen Valéria. A mulher do Neca.

RITINHA  -  Que bom que a senhora veio. Estava me sentindo sozinha... parecia que habitava outro planeta... ou que estava perdida, rodando em órbita, no espaço...

Paula examinava-a de todos os ângulos.

PAULA  -  Você, então, é a jovenzinha que agarrou o Duda, do interior, hein?

RITINHA  -  Agarrei? Como?

PAULA  -  Ele me contou, rapidamente, por telefone, em que circunstância teve que casar com você. Foi... obrigado, não foi?

RITINHA  -  Não. Não foi bem assim...

PAULA  -  Vocês, meninas do interior, são mais espertas que as da cidade. Vou te contar! Que golpe deram no rapaz!

Ritinha se sentiu chocada com a grosseria da outra.

RITINHA  -  Eu... eu não forcei ele a nada. Não queria o casamento... Não queria obrigar Eduardo, nem havia motivo pra ele se casar comigo... A senhora me entende?

PAULA  -  Pois é. Mas o fato é que ele está casado. E você vai ser uma pedra na vida dele.

RITINHA  -  Pedra?

PAULA  -  Pedra, rochedo, ou coisa parecida.

RITINHA  -  Por quê?

PAULA  -  Por quê? Porque Duda não tem tempo para se dedicar a esposa, nem a filhos. Tem uma vida louca. Nunca lhe disseram o que é a vida de um jogador de futebol, menina?

Ritinha se sentia aborrecida com a conversa da estranha amiga do marido.

RITINHA  -  Ele me disse por alto.

PAULA  -  Bem. Então você vai ter a experiência. Vamos embora. (Chama o boy)  Rapaz, leve estas malas. Ela vai deixar o apartamento. (e para Ritinha) Já jantou?


RITINHA  -  Não. Fiquei com vergonha de ir no restaurante, sozinha.

PAULA  -  Pois eu te levo num lugar pra comer.

RITINHA  -  Que não seja longe da minha casa, Dona Carmen.

PAULA  -  (sem se conter)  Sua casa, hein? Golpe de sorte! Sim, senhor! Duda aluga apartamento para se casar com outra... a outra ajeita as coisas, compra tudo a seu gosto. De repente, você aparece casada com ele... e rouba tudo da outra.

RITINHA  -  (chocada)  Que outra?

PAULA  -  Duda não te disse? Safado. Devia ter contado que estava de casamento marcado com outra mulher.

RITINHA  -  Casamento marcado?

PAULA  -  (fingiu mudar de assunto)  Vamos embora. Tenho de te proteger. Sabe como é. Se a outra te encontra é capaz de te esganar...

Ritinha se assustou. Pegou a bolsa e saiu. Paula seguiu atrás, tendo refletida nos olhos toda a revolta que a dominava.

CORTA PARA:

CENA 2  -  RANCHO DOS CORAGEM  -  EXT.   -  DIA.

Diana livrou-se dos sapatos e examinava os pés, observada com hostilidade por Jerônimo.


DIANA  -  ô garotão, me arruma um pouco de agua quente, vai. Preciso lavar os pés.

Jerônimo virou-se e entrou na casa, voltando alguns minutos depois com uma panela de água fervente. Aproximou-se da jovem, colocou a água ao seu lado e esbarrou, propositadamente. 

DIANA   -  (soltou um grito de dor)   Aiiiiiiiiiii!!!  Viu o que voce fez? Queimou minha perna! Quer saber? Não fico mais aqui. Pra mim chega!

JERôNIMO  -  (murmurou, entrando na casa)  Já vai tarde!

A moça deixou o rancho, capengando, e se dirigiu, lentamente para o centro de Coroado.

CORTA PARA:

CENA 3  -  RANCHO CORAGEM  -  INT.  -  DIA.  


O tropel do cavalo acordou Sinhana do longo cochilo. Jerônimo levantou-se da  esteira.


JERÕNIMO  -  Continua dormindo, mãe. João vem aí.

SINHANA  -  Jão? Ele vai perguntar, Jerome.

JERÔNIMO  -  Eu respondo prele. Vai.

Sinhana entrou no quarto, receosa do resultado da conversa dos irmãos. João entrou.


JOÃO  -  Cadê mãe? E a moça? Como é que ela chama, mesmo? Ah, Diana. Êta nome bonito. Nunca pensei que fosse casar com mulher de nome Diana.

JERÔNIMO  -  E cê pensa em casar com uma mulher que mal sabe o nome? Uma mulher que nem sabe quem é?

JOÃO  -  Ela é o que é. Eu gosto porque gosto. Quem ela é não tem importância. Nem um nome. Pode ser Lara ou Diana. O pai dela pode ser Pedro Barros ou Antonio. Ela não tem culpa de ser filha de quem é. Cada um de nós é dono de si mesmo. Tu me entende, mano? Demorei porque fui acordar o Padre Bento. Ele tá disposto a fazer o casamento e dá sua bênção.

JERÔNIMO  -  Mas, o que carece ocê saber, irmão, é que ela podia ser Lara ou Diana... de acôrdo, que não tem a menor importância. Quando a mulher é boa, honesta. Quando a gente gosta porque ela merece... tudo dá certo. Mas, quando a mulher é doida... só pensa na sua liberdade... quando a mulher diz as coisas que a Lara ou Diana disse aqui... o caso muda de figura.

JOÃO  -  O que foi que ela disse?

JERÔNIMO  -  Honra... moral... ela não conhece. Só conhece uma coisa: a liberdade. Ela não se amarra a ninguém. Se isso acontece, ela bota na tua cabeça um chapéu furado...

JOÃO  -  (irritado com os modos do irmão)  Te pedi pra respeitar ela!

JERÔNIMO  -  Mas, respeito ela não merece!

JOÃO  -  Jerônimo, acho que, pela primeira vez na vida, vamos ter que brigar, irmão.

Sinhana surgiu na porta do quarto, enrolada num xale.

SINHANA  -  Ainda não disse prêle?

JOÃO  -  O quê?
  
JERÔNIMO  -  A tua noiva foi... embora.

João ficou estático. Dirigiu-se a Sinhana.


JOÃO  -  Já vi tudo. Cê mandou ela ir?

SINHANA  -  Ela foi de gosto, filho.

Furioso, João encarava a mãe e o irmão.


JOÃO  -  De gosto não pode ser! Não pode ser!

A porta escancarou-se com a violência do rapaz. No fundo da noite, apenas o canto dos grilos e o mugir dolente do gado. A escuridão tomava conta de tudo. Até mesmo de João Coragem.


FIM DO CAPÍTULO 10 
João (Tarcísio Meira) e Diana (Gloria Menezes)
 

E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

# CARMEN VALÉRIA AMEAÇA CONTAR TODA A VERDADE A RITINHA, MAS PAULA A
CONVENCE A FICAR QUIETA E CONTINUAR ENGANANDO A CAIPIRA DE COROADO.

#O PROMOTOR RODRIGO TENTA CONVENCER JOÃO A ELEGER-SE PRESIDENTE DA
ASSOCIAÇÃO DOS GARIMPEIROS.

#POTIRA TENTA SEDUZIR JERÔNIMO, QUE REAGE COM VIOLÊNCIA.

NÃO PERCA O CAPÍTULO 11 DE


domingo, 1 de maio de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 9


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair

CAPÍTULO 9

PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:

DUDA
RITINHA
JOÃO
CEMA
DIANA
SINHANA
POTIRA
JERÔNIMO


CENA 01  -  IMAGENS DO RIO DE JANEIRO  -  EXT.  -  NOITE.

O mar, as montanhas, as duas capitais frente a frente, o mundo de edifícios subindo céu afora, os luminosos coloridos, o asfalto negro – tudo era motivo de admiração para a moça ingênua do interior. Ritinha estava deslumbrada com a beleza do Rio. O táxi parou diante do Hotel Glória. Ritinha se beliscava para admitir que existia.

CORTA PARA:

CENA 02  -  RIO DE JANEIRO  -  HOTEL GLORIA  -  APARTAMENTO  -  INT.  -  NOITE.


DUDA  -  Está contente?

RITINHA  -  Radiante, Eduardo. Que coisa de louco! Nunca pensei que fosse assim...

DUDA  -  (abrindo a janela do apartamento)  Veja, Rita.

RITINHA  -  Bacana, Eduardo! Tudo lindo! A cidade do Rio de Janeiro é uma beleza... Quantas luzes. Eduardo, vem ver!

DUDA  -  Ritinha, eu quero lhe dizer uma coisa. Escute: eu tenho um apartamento... quero dizer... eu e uns amigos. Você sabe... tem muitos solteiros no time... a gente alugou um apartamento, mas quem dá a maior parte sou eu. E agora eu vou tirar aquela cambada de lá.

RITINHA  -  Quando a gente vai?

DUDA  -  Eu vou agora. Você fica aqui e me espera.

RITINHA  -  Eduardo... nem bem a gente chegou. Eu pensei que... você...

DUDA  -  Eu sei o que você pensou.

Beijaram-se longamente.

DUDA  -  Espere, Ritinha. É por pouco tempo.

CORTA PARA:

CENA  03  -  HOTEL GLÓRIA  -  APARTAMENTO  -  INT.  -  NOITE.

  
Há horas que Duda tinha deixado o apartamento do Hotel Glória. Ritinha continuava só, imersa em pensamentos que envolviam desde sua cidadezinha natal, longínqua, no interior, até a sua atual situação, casada, á espera do marido em um luxuoso hotel. Duda não retornava. Rita tomou uma decisão. Na portaria do hotel – pensou ela – deveriam ter o número do telefone particular do Duda. “Afinal, ele é um homem importante”. Acertara em cheio. Conheciam o telefone do “Duda do Flamengo”.

Rita fez a ligação.


RITINHA  -  Alô, Eduardo! Sou eu, Ritinha.

Duda deu as explicações necessárias.


DUDA  -  Eu sei que hoje é a nossa noite de núpcias, mas eu tenho que me concentrar. Descobriram minha volta... É. Azar. O que é que a gente pode fazer. Eu não te avisei que era duro? Olha, toma nota do endereço do meu apartamento. Você pega um carro e vem direto pra cá.

RITINHA  -  Mas, Eduardo, eu não conheço nada do Rio. Nem sei como tomar um carro. Posso me perder. Você não pode vir me buscar?

DUDA  -  Não tenho tempo, Ritinha. Olha, mando a mulher do Neca te pegar aí. Você espera ela. É uma moça muito simpática, alegre. É a Carmen, cantora. Legal ás pampas.

RITINHA  -  Tá bem, Eduardo, se não tem outro jeito... E quando é que eu te vejo? Só domingo á noite? Tá. Hoje ainda é quinta.

CORTA PARA:

CENA 04  -  COROADO  -  CASA DE BRAZ CANOEIRO  -  INT.  -  DIA.

  
Cema cumpriu a palavra empenhada a Diana. Mandou chamar João no garimpo. Há algumas horas a bela mulher aparecera no casebre do Braz, trazida de algum lugar por um garimpeiro das redondezas. E agora, dava um autêntico show, dançando ao som de uma radiola que trouxera.

CORTA PARA:

CENA 05  -  CASA DE BRAZ CANOEIRO  -  SEQUENCIA  -  EXT.  -  DIA.


 João estava chegando, quando Cema correu até o portão.


CEMA  -  Achei melhor a gente conversar aqui.

JOÃO  -  (impaciente)  Cadê ela, Cema?  Cê não disse que aquela doida estava aqui?

CEMA  -  Está, Jão. Agora foi no rio. Tá tomano banho. Jão, eu acho que ela não regula da bola, não. Botou isso aí...

Cema mostrou a vitrola de Diana.


CEMA  -  Tocou alto que não era vida. Umas musgas maluca. Ela se rebolava e dançava de um jeito... Jão, essa mulher não é procê, não.

JOÃO  -  Por que, Cema?

 CEMA  -  Porque vai te trazer muito sofrimento.

 JOÃO  -  E que é que eu posso fazer, Cema... se já tou meio maluco prela.

CORTA PARA:

CENA 06  -  RIACHO  -  EXT.  -  DIA.

 
João correu para o riacho. A moça estava acabando de se vestir. Os cabelos molhados, a pele ainda úmida. Avistou o garimpeiro.


DIANA  -  Ei, grandalhão! Vem cá!

João se aproximou, receoso. Ela deixou a margem do riacho e, puxando-o pelo braço, levou-o até perto das águas.

DIANA  -  Te esperei um tempão.

JOÃO  -  Tava no garimpo...

DIANA  -  Quase que eu fui lá.

JOÃO  -  Então, ocê resolveu voltar?

DIANA  -  Voltei pra você. Sou sua, não sou? Não quer aproveitar?

JOÃO  -  Aproveitar?

DIANA  -  Homem não gosta de mulher? Se estou dizendo que sou sua... você pode fazer de mim o que quiser. A não ser que não me queira mais. Aí é outro caso. Eu pego meus trapinhos e vou assentar praça noutro lugar.

João não resistiu á tentação da mulher diabólica.

As águas corriam molemente, os pássaros cantavam e o mundo sempre a girar, a girar.

CORTA PARA:

CENA 07  -  CASA DO RANCHO CORAGEM  -  EXT. - DIA.

Sinhana, encostada á porta, descansava da labuta incessante no rancho. Os rapazes davam trabalho. Ela e Potira tinham de se desdobrar para atender aos deveres da casa e do rancho.


POTIRA  -  (abriu a porta dos fundos e anunciou) Jão vem aí com uma moça bonita.

SINHANA  -  Fecha a porta dos fundos, índia do inferno.

João apeou do cavalo e retirou a moça da garupa.

JOÃO  -  Mãe, Jerônimo. Abram a porta.

SINHANA  -  Vai simbora, Jão. Vai simbora.

JOÃO  -  Abre, mãe.

Jerônimo interveio, abrindo a porta ao irmão.


DIANA  -  Alô, garotão. Era você que não queria abrir a porta?

Jerônimo não respondeu. Dirigiu-se ao irmão.

JERÔNIMO  -  Pra que você trouxe ela aqui?

Inquieta, a moça olhava detidamente a casa.

JOÃO  -  Olha, estou precisando de duas coisas: comida e água pra ela lavar os pés. Estão todos sujos de areia...

SINHANA  -  (voltou-se, irritada)  E ocê acha que tua mãe vai lavar pé da filha de Pedro Barros?

DIANA  -  (deu uma gargalhada)  Taí, grandalhão. Taí a chave do mistério. Tua velha está de cara feia porque está pensando que eu sou aquela cretina. Manjei tudo.

SINHANA    -  (zangada)  Que língua é essa que ela tá falando, filho?

JOÃO  -  É jeito dela, mãe.

JERÔNIMO  -  (olhou severo para a moça)    Quem é essa sujeita?

DIANA  -  (raivosa)  Não engrossa, rapaz. Não engrossa e não me confunde. Não sou filha de Pedro, nem de Paulo. Não tenho pai, nem mãe. Não sou daqui.

JERÔNIMO  -  (dirigindo-se a João)  Explica, irmão. Essa... não é aquela moça que eu vi na casa do safado do Barros?

DIANA  -  (bateu palmas, sorrindo)  Gostei! Isso mesmo! O safado do Barros.

JOÃO  -  Esta... é outra, irmão. Acha que se fosse filha dele... dizia essas coisas? Do próprio pai?

O jovem se aproximou da moça, num exame meticuloso. Pegou no rosto de Diana, suspendendo-o com ira.

JERÔNIMO  -  Ela não é outra. É a filha de Pedro Barros, Jão!

DIANA  -  (insolente)  Conheço a filha dele. É uma cretina, metida a besta. Olha aí, tenho até pena dela.

JERÔNIMO    -  Ela tá te enganando, Jão. Isso é coisa do pai dela. Um truque... ou qualquer coisa parecida, para dar um golpe na gente.

SINHANA  -  (possessa)   É isso mesmo. Não acredita nessa mulher, meu filho.

DIANA  -  Diz pra eles, grandalhão. Diz o que foi que você decidiu a meu respeito.

João não sabia por onde começar. Titubeava.


JOÃO  -  Eu... eu e ela... a gente vai se unir... eu quero dizer... vou amanhã bem cedinho falar com Padre Bento... a gente vai se casar.

JERÔNIMO  -  A gente não vai deixar cê fazer essa besteira, mano. De jeito nenhum.

JOÃO  -  Quem decide minha vida sou eu...

JERÔNIMO  -  Além de ser filha de um bandido, é uma...

João Coragem moveu-se em direção do irmão. Havia desvario no seu gesto. Seus olhos faiscavam como as pedras que descobria no garimpo.

JOÃO  -  Veja como fala, irmão.

SINHANA  -  (dirigiu-se á moça)  Cê não é mulher pro meu filho.

João saíra por alguns minutos e Jerônimo não se deixava vencer.


JERÔNIMO  -  Seja mulher de Pedro Barros ou de um santo, mulher como você se encontra ás dúzias.

Diana sorriu.

SINHANA  -  Só quero te fazer uma pergunta. Cê gosta do meu filho?

DIANA  -  Ele me distrai. É um bom sujeito.

SINHANA  -  E vai fazer ele se casar com você... porque é um bom sujeito? Cê é uma aventureira e quer desgraçar com a vida de um homem bão.

DIANA  -  Quero desgraçar com ninguém, dona! Me deixa! Um canto pra dormir... um prato de comida... poder rir quando  quero... amar... correr... brincar, sem medo... é a minha filosofia.

Sinhana sentiu a possibilidade de se desfazer da jovem. Ela não tinha dinheiro. Retirou algumas notas de um pote guardado na prateleira.

SINHANA  -  Gosta muito de dinheiro, também, não?

DIANA  -  Não desprezo. Ás vezes preciso... até roubar... sabe como é? Quem tem uma vida livre, como eu...

SINHANA  -  (entregou-lhe o dinheiro)  Pois toma. Leva. São as economias da família. É tudo quanto a gente tem. Pega isto e some. Some da vida do meu filho.

Diana sorriu, pegou das notas e guardou-as, em grupo, no seio.


FIM DO CAPÍTULO 9
Diana (Gloria Menezes) e João (Tarcísio Meira)
 E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

# NO RIO DE JANEIRO, PAULA METE RITINHA NA MAIOR ENRASCADA:  APROVEITANDO-SE DA INGENUIDADE DA MOÇA, SE FAZ PASSAR POR CARMEN VALÉRIA E CONVENCE A  POBRE CAIPIRA A IR AO ENCONTRO DO MARIDO, NA CONCENTRAÇÃO DO FLAMENGO!

# A MÃE CORAGEM OFERECE DINHEIRO A DIANA PARA AFASTAR-SE DO FILHO!


NÃO PERCA O CAPÍTULO 10 DE...
 


IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 8


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair

CAPÍTULO 8

PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:

JOÃO
MARIA DE LARA
DALVA
GENTIL PALHARES
PEDRO BARROS
RITINHA
SINHANA
DUDA
RODRIGO CÉSAR
PADRE BENTO
JERÔNIMO
SINHANA
DR. MACIEL
DOMINGAS


CENA 01  -  COROADO  -  IGREJA  -  EXT.  -  DIA.
 
A Igreja estava repleta. Dezenas de curiosos atravessavam a praça em demanda do templo. O carro de Pedro Barros estacionara diante da casa de Deus.

CORTA PARA:

INTERIOR DA IGREJA.

João, ajoelhado, rezava contrito. Á entrada de Lara, conduzida pela mãe, e Dalva, sua tia, Gentil Palhares sentiu um choque.


GENTIL PALHARES  -  (cutucando a esposa)   Conhece essa aí? É a mesma moça que vem perturbando o sossego da cidade.

Maria de Lara, Estela, Dalva e Pedro Barros colocaram-se atrás do banco onde se encontrava, rezando, João Coragem. Gentil não se deu por satisfeito. Esgueirou-se por entre os presentes e alcançou o jovem garimpeiro.

GENTIL PALHARES  -  Lembra-se dessa zinha aí atrás?

0 jovem voltou os olhos para o banco de trás e viu a moça. 

JOÃO  -  (perguntou á meia-voz)    Diana... que é que você ta fazendo aqui?

Lara olhou para a tia, indignada.

MARIA DE LARA  -  O que é que ele está dizendo?

DALVA  -  Você o conhece?

MARIA DE LARA  -  É um dos inimigos de papai...

JOÃO  -  (sem se conter)  Onde conseguiu esse vestido... pra vim nesse chique todo?

MARIA DE LARA  -  Eu não entendo o que o senhor está dizendo.

JOÃO  -  Você roubou? De quem?

Maria de Lara estava perto do desespero. As lágrimas lhe vinham aos olhos. Dalva tomou a frente da sobrinha.

DALVA  -  O senhor sabe com quem está falando?

JOÃO  -  Claro que eu sei!

DALVA  -  Esta moça é Lara, minha sobrinha. Filha de Pedro Barros.

JOÃO  -  Filha... dele!

João Coragem emudeceu de espanto.

Já fazia alguns minutos que Ritinha, levada ao altar pelas mãos de Pedro Barros, aguardava o noivo. Os cochichos começavam a tomar conta da Igreja quando, de braço com Sinhana, Eduardo entrou – expressão feroz, testa franzida. Ao lado do Promotor Rodrigo César. Dirigiram-se ao altar sob os olhares interessados dos presentes.

PADRE BENTO  -  Aproxime-se, filho. (brincou) É a primeira vez que faço um casamento em que a noiva é que espera pelo noivo...

PADRE BENTO  -  Ajoelhem-se, filhos.

CORTA PARA:

CENA 02  -  COROADO  -  ADRO DA IGREJA  -  EXT.  -  DIA.

 
Lara deixara o banco da Igreja, forçada pelos olhares insistentes de João Coragem. Agora, discutiam no adro da igrejinha.


JOÃO  -  Como é que você tem coragem de fingir desse jeito, depois da gente passar uma noite...

MARIA DE LARA  -  O quê?

JOÃO  -  Você sabe bem o que tou querendo lhe fazer entender. Tá certo, diante dos outros você pode fingir. Mas, agora que a gente tá sozinho, os dois, me diga... pra que o orgulho? Quer me endoidecer?

MARIA DE LARA  -  (sem acreditar no que ouvia)  Olha aqui, Senhor João Coragem. Eu estou sendo muito paciente. Quero chegar a um acordo com o senhor. Sou compreensiva, humana. E lhe digo que estou muito agradecida por ter me socorrido naquele dia. E lhe digo mais: estou muito arrependida por ter fugido no seu cavalo. Espero que o tenha recuperado...

JOÃO  -  Agora tá se lembrando de tudo. Não se lembra também de que eu comprei você?

MARIA DE LARA  -  (horrorizada)  Me... me comprou?

JOÃO  -  Você mesma disse, não se lembra? O dinheiro da Igreja... eu paguei... a caixa da santa que você roubou.

MARIA DE LARA  -  Mas... isto é uma loucura!

CORTA PARA:

CENA 03  -  IGREJA  -   SEQUENCIA  -  INT.  -  DIA.

O Padre benzeu as alianças. Fez as perguntas de praxe.


PADRE BENTO  -  Que Deus os abençoe. Estão casados, meus filhos, com a graça de Deus. Deste momento em diante, são marido e mulher.

Duda deu um beijo na testa da esposa.

CORTA PARA:

CENA 04  -  ADRO DA IGREJA  -  EXT.  -  DIA.
  
João agarrou Maria de Lara  pelo braço, quase feroz.


JOÃO  -  Vem cá. Se você quer que eu esconda que a filha de Pedro Barros é minha propriedade... que se vendeu por muito pouco... tem de ao menos reconhecer o que fez.
 
MARIA DE LARA  -  (quase sem voz)   Me deixe ir embora...

João apertava-a mais fortemente.

JOÃO  -  Anda, moça... tem de reconhecer. Tem de reconhecer ou eu... eu perco a cabeça, Diana!

Lara estremeceu, como que tocada por um fio de alta tensão.

MARIA DE LARA  -  Diana!

JOÃO  -  É. Diana. O nome que você me deu. Mas não é Diana coisa nenhuma. É Maria de Lara. Maria de Lara, não é?

CORTA PARA:

CENA 05 -  COROADO  -  IGREJA  -  INT.  -  DIA.

 
O casamento acabara. A igreja voltava a agitar-se. Gente á procura da saída; gente á procura do altar.


DUDA  -  (movimentava-se nervosamente)  Acho que a gente pode ir andando, não?

SINHANA  -  Tudo vai dar certo, filho. Te alegra também!

PADRE BENTO  -  Faltam os cumprimentos...

DUDA  -  Nós temos pressa.

DR. MACIEL  -  (dirigindo-se para o altar)  Mas eu tenho que abraçar minha filha.

RITINHA  -  (escondendo o rosto entre as mãos)  Que Deus me perdoe,  mas eu desconheço esse homem.
E tomando as mãos do marido entre as suas, afastou-se célere do local. Maciel sentou-se no banco da primeira fila. Feições abatidas, inteiramente tomado pelo desconforto.

CORTA PARA:

CENA 06  -  RANCHO CORAGEM  -  INT.  -  NOITE.

Eduardo discutia com os irmãos durante o jantar.


DUDA  -  ... veio tudo em cima de mim. Todas as responsabilidades. A honra, a moral da família. Tudo! Até a segurança de vocês. Rodrigo me chamou e me pôs todas essas coisas sobre os ombros. Eu não tinha saída.

Rita não suportou. Levantou-se transtornada pela raiva.

RITINHA  -  Pois eu te desobrigo, ta ouvindo? Eu te desobrigo! Pode anular a porcaria desse casamento. Ainda está em tempo.

O desespero assumia proporções a cada palavra.

RITINHA  -  Se você estava com medo dos tiros dos jagunços de Pedro Barros, agora não há o que temer. Você fingiu que estava casado. Pode anular o casamento. Pode ir embora de Coroado em paz!

Duda sentiu a revolta interior.

DUDA  -  Não me casei com você com medo dos tiros dos jagunços.

RITINHA  -  Casou, sim. Casou por medo. Você é covarde! É covarde!

Saiu correndo para o quarto, ante os olhares espantados da família reunida. A forte pancada da porta que se fechava, abalou o silencio que tomara conta do ambiente.

CORTA PARA:

CENA 07  -  RANCHO CORAGEM  -  QUARTO DE DUDA  -  INT.  -  NOITE.

 
Eduardo entrou no quarto com expressão feroz.


DUDA  -  Isto aqui é seu. Domingas está aí. Trouxe isto. É toda a roupa que você vai levar.

RITINHA  -  (voltou-se sobressaltada)  Levar pra onde?

DUDA  -  Pra cidade, ora! Você não vai comigo?

RITINHA  -  Eduardo... o que é que você pretende de mim? Seja franco. O que é que você vai fazer comigo?

Duda sentou-se na cama, nervoso, atordoado com os acontecimentos das últimas horas.

DUDA  -  Sei lá, Rita. Sei lá.

RITINHA  -  Acha... que nunca... nunca vai poder gostar de mim?

DUDA  -  Não gosto, nem deixo de gostar... Oh, Ritinha, se você soubesse. São tantos os problemas... Se você soubesse...

Rita abraçou-o repentinamente, impelida pelos sentimentos que não podia controlar.

RITINHA  -  Eduardo... Eduardo, me de uma leve esperança! Diga que você vai fazer tudo pra gostar de mim. Olhe, eu vou ser boazinha pra você, vou ser paciente, vou ser tudo, tudo o que você quiser. Mas, diga que vai se esforçar. Diga, por favor, Eduardo!

O rapaz sentiu o remorso invadir-lhe a alma, a consciência a recriminar-lhe as atitudes grosseiras contra a jovem, pura e boa, que como ele fôra envolvida no torvelinho dos acontecimentos.

DUDA  -  Está bem, eu vou me esforçar, Ritinha...

CORTA PARA:

CENA 08 -  COROADO  -  ESTAÇÃO  -  EXT.  -  DIA.

Duda e Ritinha despediam-se de João, Jerônimo, Sinhana e Domingas, e eram observados á distância por Maciel. Entraram  no trem, que partiu, deixando a família com lágrimas nos olhos.

A vida da cidadezinha voltava ao corriqueiro: desavenças pessoais, as lutas nos garimpos, o disse-me-disse das solteironas e o caso dos Coragens contra o banditismo de Pedro Barros.

CORTA PARA:


CENA 09 -  RANCHO CORAGEM  -  INT.  -  DIA.
 
Rodrigo visitava o rancho (gostava de admirar a beleza de Potira) e reservara algumas surpresas para João Coragem.


JERÔNIMO  -  Vamo, entra logo no assunto, Dr. Rodrigo.

RODRIGO  -  Fizemos uma descoberta sensacional.

JOÃO  -  Descobriro uma grupiara?

RODRIGO  -  Grupiara?

JOÃO  -  Lugar onde a gente acha diamante sem fuçá muito.

RODRIGO  -  Não, João. Não se trata de diamante. Eu estou falando da filha de Pedro Barros. Sabemos quem ela é.

O jovem Coragem estremeceu nos alicerces.

RODRIGO  -  (referia-se a Potira)  Posso dizer na presença da mocinha?

JERÔNIMO  -  (ordenou)  Sai, Potira.

RODRIGO  -  A filha de Pedro Barros é uma aventureira. Chegamos á conclusão de que ela gosta de se divertir á maneira de louca.

JERÔNIMO  -  Vi hoje a sem-vergonha, na casa dele.  Reconheci ela. É a mesma que furtou a igreja, a mesma que você tirou da cadeia... a mesma que você levou pra casa do Braz pra Cema cuidar.

JOÃO  -  E o que tem isso? Que ela seja a mesma... ou outra?

RODRIGO  -  João,  nós podemos usar isso como arma contra o pai dela. Não foi ele que obrigou o seu irmão a casar com Rita... para limpar a honra da cidade?

JOÃO  -  E ocêis acham que vou me aproveitar disso... pra lutar contra esse home?

JERÔNIMO  -  É a nossa oportunidade pra derrubar ele.
 
RODRIGO  -  Não é a arma que ele usa, João? A desmoralização? Ele está fazendo tudo contra nós. Isso é direito, João?

JOÃO  -  Acho melhor deixá a moça em paz. Eu... eu não tenho certeza de nada... se as duas... são uma só. Me entendem? É capaz de não ser... eu não sei, não entendo. E se não for? Com que cara a gente vai ficar?

FIM DO CAPÍTULO  8

E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

# CHEGANDO AO RIO DE JANEIRO, RITINHA PASSA A NOITE DE NÚPCIAS SOZINHA, POIS O MARIDO É OBRIGADO A FICAR NA CONCENTRAÇÃO.

# JOÃO CORAGEM ESTÁ CADA VEZ MAIS ENVOLVIDO POR DIANA LEMOS, AO PONTO DE ENTRAR EM CONFLITO COM A MÃE E O IRMÃO EM DEFESA DA AMADA.



NÃO PERCA O CAPÍTULO 9 DE...