quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU - Capítulo 11

Novela de Toni Figueira
Inspirada na Obra de Dias Gomes


CAPÍTULO 11


Personagens deste capítulo:

HELÔ (Dina Sfat)
NÍVEA (Renata Sorrah)
PADRE VÍTOR (Francisco Cuoco)
SAMUCA (Paulo José)
RICARDINHO (Carlos Vereza)
MARIETA ( Wanda Lacerda)
EMILIANO (Paulo Padilha)
ZÉ GREGÓRIO (Adalberto Silva)
MISS JULY (Lídia Mattos)
SEU JUQUINHA
DONA SANTINHA
        
CENA 1  -  IBIÚNA  -  CASA DE D. SANTINHA  -  SALA  -  INT.  -  DIA.
 
D. SANTINHA E SEU JUQUINHA ARREGALARAM OS OLHOS QUANDO NÍVEA ADENTROU NA RESIDÊNCIA AO LADO DO PADRE VÍTOR, COM UM SORRISO DE FELICIDADE ESTAMPADO NO ROSTO. O PADRE MOSTRAVA SERENIDADE E SEGURANÇA NO OLHAR.

D. SANTINHA  -  (surprêsa) Mas... o que é isso... o que está acontecendo?

NÍVEA  -  Vó... Vô... nós temos uma notícia pra dar pra vocês. Eu e Vítor... (olharam-se com amor e cumplicidade)  nos amamos e vamos nos casar!

SEU JUQUINHA  -  Mas isso... é uma loucura!

D. SANTINHA EMPALIDECEU E FOI AMPARADA PELA NETA E PELO PADRE PARA NÃO CAIR.

D. SANTINHA  -  Vocês estão brincando... ou estão malucos?

NÍVEA  -  Calma, Vó... (ajudou-a a sentar numa poltrona)  Não estamos brincando. Estamos indo hoje mesmo pro Rio contar a novidade pra meus pais.

D. SANTINHA  -  (incrédula)  Mas... mas ele é um padre!

VÍTOR  -  (adiantou-se e falou, com tranquilidade)  Infelizmente, terei que renunciar aos meus votos, D. Santinha. E estou certo que Deus está abençoando este amor. Nós não procuramos. Simplesmente... aconteceu!

NÍVEA  -  Isso mesmo, Vovó... nós não procuramos isso... Aconteceu de repente... muito mais forte do que a nossa vontade. É amor, Vó.... Deus não pode condenar isso. (fitou Vítor com ternura) Duas pessoas que se amam. Queremos viver esse amor sem medo, com a sua bênção. Queremos nos casar, Vó!




CENA  2  -  RIO DE JANEIRO  -  APARTAMENTO DE EMILIANO -  SALA  -  INT.  -  NOITE.

EMILIANO E MARIETA JANTAVAM, QUANDO A CAMPAINHA TOCOU. ANSIOSA, A MULHER CORREU PARA A PORTA E ABRIU. NÍVEA E VÍTOR ENTRARAM, DE MÃOS DADAS. DE UM LADO, O JOVEM CASAL SORRIA, FELIZ. DO OUTRO, O CASAL DE MEIA-IDADE ESTANCOU, PARALISADO, TENTANDO ENTENDER A SITUAÇÃO.

NÍVEA  -  (abraçou a mãe, a felicidade estampada no olhar) Mãe! Que saudade!

MARIETA  -  Filha! Padre Vítor!

EMILIANO ABRAÇOU VÍTOR COM ALEGRIA.

EMILIANO  -  Padre, que prazer tê-lo de volta em nossa casa!

VÍTOR  -  O prazer é meu, seu Emiliano.  Eu também estou muito contente em rever o senhor e D. Marieta!

NÍVEA  -  Mãe... pai... temos uma surpresa pra vocês! Eu e Vítor... vamos nos casar!

MARIETA  -  (perplexa)  Quê? Vocês? Mas...

NÍVEA E VÍTOR DERAM-SE AS MÃOS NOVAMENTE E FITARAM-SE, COM AMOR.

NÍVEA  -  Nós nos amamos... e vamos assumir o nosso amor.

VÍTOR  -  Seu Emiliano... D. Marieta... eu vou abrir mão dos meus votos...  deixar de ser padre para casar com sua filha. E gostaríamos de ter sua bênção e seu apoio.

MARIETA ESTAVA PASMA, SEM SABER O QUE DIZER. EMILIANO, PASSADO O PRIMEIRO MOMENTO, REAGIU AMIGÀVELMENTE.

EMILIANO  -  Bem, realmente fomos pegos de surpresa... Mas depois do susto inicial, quero dizer que fico muito feliz. Padre Vít... quer dizer, Vítor, você é um homem íntegro, de caráter... enfim, minha filha não poderia ter feito melhor escolha!

MARIETA  -  (ainda atordoada com a notícia)  Eu bem desconfiei dessa ida repentina da Nívea para Ibiúna... sabia que havia algo por trás disso tudo... Mas nunca imaginei que... Bem, ainda não me acostumei com a idéia, mas só posso desejar muitas felicidades a vocês, meus queridos!

MARIETA ABRAÇOU O CASAL, ENTERNECIDA.
        
EMILIANO  -  Vou levar sua mala para o quarto dos fundos, Vítor.

VÍTOR  -  Obrigado, seu Emiliano. Vai ser só por esta noite. Amanhã á noite vou a São Paulo falar com o senhor Bispo, que prometeu me ajudar... 


CORTA PARA:

CENA  3  -  APARTAMENTO DE OLIVEIRA RAMOS  -  SALA  -  INT.  DIA.


MISS JULY ABRIU A PORTA E NÍVEA ENTROU, SORRIDENTE.

NÍVEA  -  Bom dia, Miss July! Tudo bem?

MISS JULY  -  (simpática) Nívea! Que bom que voltou! Fez boa viagem?

NÍVEA  -  Ótima!  Melhor impossível! Helô está em casa?

MISS JULY  -  Deve estar acordando! Vá ao quarto dela! Vá! Ela vai gostar de ver você!

NÍVEA  -  Obrigada, Miss July!

A JOVEM DIRIGIU-SE PARA O INTERIOR DO AMPLO APARTAMENTO DO BANQUEIRO.

CENA 4  -  APARTAMENTO DE OLIVEIRA RAMOS -  QUARTO DE HELÔ  -  INT.  -  DIA.        

HELÔ E NÍVEA ABRAÇARAM-SE, FELIZES.

HELÔ  -  Amiga, que saudade!

NÍVEA  -  Eu também, amiga! Tava louca pra te ver e contar as novidades! Vim o mais cedo que pude!

SENTARAM-SE NA CAMA, EXCITADAS.

HELÔ  -  Nossa... fiquei curiosa! Tá com uma cara feliz.... o que aconteceu?

NÍVEA  -  Notícia bombástica: vou me casar!

HELÔ FICOU SÉRIA, AR DESCONFIADO.

HELÔ  -  (engoliu em sêco)  Ca.. casar? Mas como? Com quem?

NÍVEA  -  Lembra do padre Vítor, da bolada na praia? Estamos apaixonados e vamos casar!

HELÔ ARREGALOU OS OLHOS, CONFUSA.

HELÔ  -  Peraí... acho que não entendi.... você está dizendo que vai casar com um padre? Ficou louca?

NÍVEA  -  (divertiu-se com o espanto da amiga)  Já estou ficando até acostumada com este tipo de reação quando as pessoas ficam sabendo... Vítor vai largar a batina. Vai deixar de ser padre pra casar comigo! (abraçou Helô, feliz) Ai, amiga, acho que nunca fui tão feliz em toda a minha vida! O Vítor é um homem maravilhoso, um príncipe!

HELÔ AFASTOU-SE, SÉRIA, MAL DISFARÇANDO A INDIGNAÇÃO.

HELÔ -  Mas isso é uma loucura! Você não pode fazer isso!

NÍVEA  -  (sorriu, desconcertada) Que isso, Helô, eu sei que você se preocupa comigo...  Vai dar tudo certo. Fica tranquila, vai... Eu estou muito feliz, isso é o que importa...

HELÔ  -  Vai abrir mão dos seus amigos, vai abandonar a sua turma por um cara que acabou de conhecer, e ainda por cima, padre? Não, não tô acreditando nisso! Você tá brincando!

NÍVEA  -  (assustada com a reação da amiga)  -  Helô, calma... Olha, eu passei aqui pra te chamar  pra ir á praia comigo. Tô louca pra entrar no mar e pegar um solzinho... lá a gente conversa e te conto tudo, como aconteceu... Vamos?

HELÔ  -  (sem se conter)  Isso é uma palhaçada! Você me conta um absurdo desses e me chama pra ir á praia?

NÍVEA  -  É que eu... eu pensei que você ia ficar feliz em saber...

HELÔ  -  Feliz? Isso é uma traição! Você é uma traidora! Eu não esperava isso de você!

COM MÃOS TRÊMULAS, HELÔ ABRIU A PORTA DO QUARTO E MOSTROU A SAÍDA PARA NÍVEA.

HELÔ  -  Sai daqui, Nívea! Vai embora!

NÍVEA  -  Poxa, Helô, eu nunca pensei...

HELÔ  -  (exaltada)  Sai! Sai! Sai daqui!

NÍVEA SAIU, CHOCADA. TRANSTORNADA, HELÔ BATEU A PORTA COM RAIVA, Á BEIRA DE UMA CRISE DE NERVOS.

HELÔ  -  Ai, que ódio! Idiota! Isso não pode dar certo! Aposto que vai quebrar a cara!

CENA 5  -  PRAIA DE IPANEMA  -  EXT.  -  DIA.
NÍVEA ESTAVA SENTADA NA AREIA, OLHANDO DISTRAÍDA PARA O MAR, QUANDO RICARDINHO SURGIU E SENTOU AO SEU LADO.

RICARDINHO  -  Oi, gata!

A JOVEM VOLTOU-SE E FITOU O EX-NAMORADO, SURPRÊSA.

NÍVEA  -  Ricardinho! Como me encontrou aqui?

RICARDINHO  -  Eu soube que você voltou de Ibiúna e liguei pra sua melhor amiga... simples.

NÍVEA  -  Helô...

RICARDINHO  -  Lógico! E ela me contou uma história meio bizarra, que você vai casar com o padreco!

NÍVEA  -  (olhou-o, séria)  É verdade. Nós descobrimos que nos amamos. Vítor vai deixar de ser padre... e vamos casar. É melhor que você saiba de uma vez.

RICARDINHO  -  (encarou-a, revoltado)  Não vou perder essa parada assim... ainda mais para um padre, pra todo mundo ficar me zoando! Por quê você fez isso? Porque prometeu casar com você?

NÍVEA  -  Você sabe que não é só por isso...

RICARDINHO  -  Sempre achei essa história de casar uma besteira! E ele não vai se casar com você, está ouvindo?

NÍVEA  -  (assustada)  Que isso, Ricardinho... tá me ameaçando? Tá louco?

RICARDINHO  -  Desculpe... falei besteira... desculpe...

RICARDINHO SENTIA O SANGUE FERVER, MAS FEZ O POSSÍVEL PARA DISFARÇAR. OLHOU EM VOLTA. ÀQUELA HORA, HAVIAM POUCAS PESSOAS NAQUELE PEDAÇO DE PRAIA. A ALGUNS METROS DE DISTANCIA, DIVISOU A PLACA  E LEU “ATENÇÃO: PERIGOSO NADAR”.

RICARDINHO  -  (convidou, tentando parecer amigável) Vamos nadar?

LEVANTOU-SE E ESTENDEU A MÃO PARA A MOÇA, QUE SORRIU E ENTENDEU AQUELE GESTO COMO UM SINAL DE PAZ ENTRE ELES. CAMINHARAM  PARA O MAR E ENTRARAM NAS ÁGUAS GELADAS DE IPANEMA.

PERTO DALI, EM UM PONTO ESTRATÉGICO, O GUARDA-VIDAS ZÉ GREGÓRIO ASSISTIA A TUDO, ATENTO.

RICARDINHO MOSTRAVA-SE DESCONTRAÍDO E BRINCALHÃO. FOI TUDO MUITO RÁPIDO: OS DOIS FORAM PUXADOS PELA CORRENTEZA. RICARDINHO NADOU PARA A PARTE MAIS RASA. NÍVEA TENTOU VOLTAR, MAS NÃO CONSEGUIA E COMEÇOU A ENTRAR EM DESESPÊRO, SEM CONDIÇÕES DE NADAR MAIS.

NÍVEA  -  (num grito rouco, quase sem forças)  Socorro! Ricardinho! Socorro!

RICARDINHO FICOU PARADO, SEM ESBOÇAR QUALQUER REAÇÃO. HAVIA ÓDIO EM SEU OLHAR.

ZÉ GREGÓRIO PERCEBEU QUE ALGO ERRADO ESTAVA ACONTECENDO E AGIU: EM SEGUNDOS, ATIROU-SE AO MAR, ALCANÇOU A JOVEM E ARRASTOU-A PARA A AREIA. NÍVEA TOSSIA MUITO, RESFOLEGANDO ASSUSTADA.

ZÉ GREGÓRIO  -  Você está bem, moça?

NÍVEA  -  (ofegante) Tou bem... obrigada... muito... obrigada...

ZÉ GREGÓRIO  -  Se eu não estivesse de olho, você podia ter morrido! (apontou a placa) Não viram a placa de perigo? A correnteza tá muito forte nesse local, justamente onde seu amigo lhe levou pra nadar!

NÍVEA  -  Desculpe... eu... eu não vi...

A POUCOS METROS DALI, NO CALÇADÃO, RICARDINHO DEU PARTIDA E ACELEROU A MOTO, SEM OLHAR PARA TRÁS.

CENA 6  -  APARTAMENTO DE EMILIANO  -  SALA  -  INT.  -  DIA. 

MARIETA  -  Filha! Você está pálida! O que aconteceu?

MARIETA ASSUSTOU-SE AO VER A FILHA ENTRAR EM CASA, ABATIDA.

NÍVEA  -  Tá tudo bem, mãe... só estou um pouco cansada.  Onde está Vítor?

MARIETA  -  Seu noivo foi comprar a passagem. Disse que vai hoje á noite a São Paulo.

NÍVEA  -  É, eu sei... ele vai conversar com o Bispo...

CENA 7  -  APARTAMENTO DE EMILIANO  -  QUARTO DE NÍVEA  -  INT.  -  DIA.

NÍVEA SAIU DO BANHO ENROLADA NUMA TOALHA. ENXUGAVA OS CABELOS, A EXPRESSÃO DE PREOCUPAÇÃO.  FOI ATÉ A ESCRIVANINHA, ABRIU UMA GAVETA E RETIROU UM LIVRO DE CAPA PRETA. SENTOU-SE, ABRIU UMA PÁGINA E ESCREVEU: “URGENTE: PRECISO RECUPERAR AS FOTOS COM RENATÃO!”

NÍVEA  -  (para si)  Preciso reaver aquelas fotos! Renatão e Samuca vão ter que me devolver!

CORTA PARA:

CENA  8  -  CASTELINHO  -  INT.  -  TARDE

NÍVEA ESTAVA SENTADA A UMA MESA DO BAR, QUANDO SAMUCA APROXIMOU-SE, SORRINDO.

SAMUCA  -  Oi, Nívea! Recebi seu recado na pensão! Maria Lúcia disse pra encontrar você aqui...

NÍVEA  -  (levantou-se e encarou o rapaz, aflita)  Samuca, eu quero as minhas fotos! Aquilo foi um momento de desespero, eu tou muito arrependida... Vocês não podem vender aquelas fotos, eu preciso delas de qualquer jeito!

FIM DO CAPÍTULO 11
e no próximo capítulo...

*** Ricardinho, disposto a vingar-se, combina com Mario Maluco dar um susto em Vítor e Nívea. Jurema ouve e fica desconfiada. Conseguirão seu intento?

*** Nívea, prestes a casar-se com Vítor, teme que suas fotos de nú para a revista estrangeira atrapalhem seu noivado e, determinada a reavê-las, vai á procura de Renatão!

***No próximo capítulo, momentos decisivos, ação e suspense!

NÃO PERCA O CAPÍTULO 12 DE

domingo, 19 de fevereiro de 2012

ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU - Capítulo 10

Novela de Antonio Figueira
Inspirada na Obra de Dias Gomes

CAPÍTULO 10
Personagens deste capítulo:

NÍVEA (Renata Sorah)
PADRE VÍTOR (Francisco Cuoco)
D. SANTINHA
BEATA 1
BEATA 2

CENA 1  -  IBIÚNA  -  ESTRADA ÁS MARGENS DE UM RIACHO  -  EXT.  -  DIA.

Continuação imediata do capítulo anterior

PASSADO O PRIMEIRO INSTANTE, O PADRE AFASTOU-SE DA JOVEM BRUSCAMENTE, VISÍVELMENTE EMBARAÇADO.

PADRE VÍTOR  -  Eu sou um padre! Não podemos esquecer disso, Nívea.

NÍVEA  -  (desconcertada)  Perdão! Eu... eu não resisti... foi mais forte do que eu...

PADRE VÍTOR  -  Nós não devíamos ter vindo aqui, longe de todos. Sou padre... mas sou um homem de carne e osso, não uma imagem talhada em madeira, ou em mármore... Sou um homem com todas as fraquezas humanas.

NÍVEA  -  Eu estou muito envergonhada... não sei o que dizer...

PADRE VÍTOR  -  Vamos embora! Vou levar você pra casa de seus avós!

CORTA PARA:

CENA 2  -  IBIÚNA  -   CASA DE D. SANTINHA  -  EXT.  -  DIA


O VEÍCULO ESTACIONOU EM FRENTE AO PORTÃO DA CASA. NÍVEA SALTOU E O PADRE VÍTOR DEU PARTIDA. A JOVEM FICOU PARADA UNS INSTANTES E VIROU-SE PARA ENTRAR NA RESIDENCIA DOS AVÓS. PAROU, ASSUSTADA, AO PRESENCIAR A CENA: DONA SANTINHA EXPULSAVA AS DUAS BEATAS  A VASSOURADAS.

D. SANTINHA  -  (exaltada) Fora daqui, suas fofoqueiras! Fora! Rua! Mentirosas! O padre vai saber dessa calúnia, vocês vão ver!  Suas loucas!

BEATA 1 - (apontou Nívea) É ela! Sua neta! Estava de namoro com o padre! Valha-me Cristo!

BEATA 2  -  (confirmou) Isso mesmo! Foram passear no campo! Nós vimos tudo! Pecadora! Esse mundo tá perdido!

D. SANTINHA  -  (gritou, fora de si, girando a vassoura no ar) Rua! Rua!

AS BEATAS AFASTARAM-SE, CORRENDO, PARA FICAR A SALVO DA VASSOURA DE D. SANTINHA. NÍVEA APROXIMOU-SE DA AVÓ, CONFUSA.

NÍVEA  -  Vó... não entendi nada. O que está acontecendo? Quem são essas mulheres?

D. SANTINHA FITOU A NETA COM EXPRESSÃO DURA NO OLHAR.

D. SANTINHA  -  Entre, minha neta. Aqui não é lugar pra termos essa conversa. Vamos pra dentro!

CENA 3  -   CASA DE D. SANTINHA  -  COZINHA  -  INT.  -  DIA.


D. SANTINHA ENCAMINHOU-SE PARA A COZINHA. NÍVEA SEGUIU-A.

D. SANTINHA - Vamos conversar aqui. Estou fazendo um bolo e não posso deixar passar do ponto.

NÍVEA  -  A senhora tá nervosa, Vózinha. Me conte: o que aconteceu aqui?

D. SANTINHA  -  (fitou-a, muito séria) Aquelas mulheres são Juanita e Josefina. São duas irmãs beatas e vieram aqui me contar uma história sem o menor cabimento! Disseram... que você e o padre Vítor estão de namoro e foram passear no campo! Fiquei tão indignada que expulsei as duas a vassoradas!

NÍVEA  -  Que horror! Então elas vieram aqui só pra isso? Pra envenenar a senhora? Pra fazer intriga?

D. SANTINHA  -  Você não conhece o povo deste lugar, minha filha. É falta do que fazer! Adoram uma fofoca, um escândalo. (T) Por isso mesmo, você tem que tomar muito cuidado, querida. Sei que você e o Padre são amigos, mas esse povo vê maldade em tudo. Têm que evitar ficar passeando, sozinhos, em lugares isolados.

NÍVEA  -  (embaraçada) Claro... você tem razão, Vó. Pode deixar. Vou tomar mais cuidado...

D. SANTINHA  -  Nívea... existe alguma razão pra eu e seu avô nos preocuparmos?

NÍVEA  -  Não. Claro que não, vó. Eu e Vítor somos amigos. Só isso.

D. SANTINHA  -  Ainda bem. Tome cuidado, minha filha. Esse povo fala mesmo... sabe como é... um padre jovem, bonito... e uma menina linda, moderna, vinda do Rio de Janeiro... Prato cheio para as fofoqueiras de plantão!

NÍVEA  -  (procurou mudar de assunto)  Que cheirinho delicioso! Nossa, que saudade desse aroma!

D. SANTINHA  -  Estou fazendo o bolo de cenoura com chocolate que você gostava tanto quando era menina. Tá quase pronto!

NÍVEA  -  (abraçando-a carinhosa) Vozinha, eu estou muito feliz de estar aqui com vocês, de matar as saudades, de comer essas delícias.... Te amo, vó! Cadê o meu vôzinho?

D. SANTINHA  -  Foi na venda fazer umas comprinhas. Venha, vamos pra mesa que vou fazer um cafezinho pra acompanhar o bolo!


CORTA PARA:

CENA 4  -  CASA DE D. SANTINHA  -  QUARTO DE NÍVEA  -  INT.  -  NOITE.

ÀQUELA NOITE, NÍVEA NÃO CONSEGUIU DORMIR. GIRAVA NA CAMA DE UM LADO PARA O OUTRO. VÍTOR NÃO SAÍA-LHE DO PENSAMENTO. LEVANTOU-SE E FOI ATÉ A JANELA. O SILÊNCIO ERA QUEBRADO APENAS PELO CANTO DOS GRILOS.

NÍVEA  -  (falou para si) Amanhã volto à igreja. Ele vai ter que me ouvir. Tenho que fazer isso, ou vou me arrepender pro resto da minha vida!


CORTA PARA:




CENA  5  -  CASA PAROQUIAL  -  QUARTO DE VÍTOR  -  INT.  -  NOITE.

O PADRE VÍTOR, DEITADO NA CAMA, MANTINHA OS OLHOS FIXOS NO TETO. LEVANTOU-SE, CAMINHOU ATÉ O ORATÓRIO E AJOELHOU-SE DIANTE DA IMAGEM DE JESUS CRISTO. REZOU, POR LONGO TEMPO. ERGUEU OS OLHOS PARA A CRUZ E AS LÁGRIMAS ESCORRIAM DE SEU ROSTO.

VÍTOR  -  Senhor, se isso é uma provação, aceito humildemente. Sei que sou merecedor. Seja o que for que esteja reservado para mim, dá-me forças e resignação para aceitar os teus desígnios!


CORTA PARA:
 
CENA 4  -  IBIÚNA  -  IGREJA  -  INT.  -  DIA


NÍVEA ENTROU NA IGREJA E OLHOU PARA OS LADOS. ESTAVA VAZIA. APENAS A FAXINEIRA LIMPAVA OS BANCOS. A JOVEM AJOELHOU-SE E OROU, COM AS MÃOS POSTAS. NÃO VIU QUANDO O PADRE APROXIMOU-SE E PAROU AO SEU LADO.

PADRE VÍTOR  -  Como vai, Nívea?         

A JOVEM LEVANTOU OS OLHOS, APREENSIVA.

NÍVEA  -  (levantou-se) Desculpe ter vindo... eu precisava falar com você...

PADRE VÍTOR  -  Eu sei... eu também.

O PADRE FEZ UM SINAL E DIRIGIRAM-SE A UM LUGAR MAIS DISCRETO. OLHARAM-SE NOS OLHOS, COM EMOÇÃO.

 NÍVEA  -  Eu... eu não consigo esconder mais... eu estou amando você, Vítor! 

 PADRE VÍTOR  -  Eu não sei o que está acontecendo comigo... É um sentimento novo, que eu não conhecia... eu tento, mas não consigo tirar você do meu pensamento... já orei, já fiz penitência, mas nada resolve...

NÍVEA  -  (cheia de esperanças) Mas então... você também sente algo por mim?

VÍTOR  -  Eu seria um mentiroso, um hipócrita, se negasse. Eu não procurei isso, Deus é testemunha. Mas... aconteceu...

NÍVEA  -  Afinal,  aconteceu...  não tem mais jeito. Não sei como foi... mas aconteceu. Desde o dia em que o atingi com a bola, lembra-se, Vítor?

ERA COMO SE ELES, FINALMENTE, TIVESSEM DESNUDADO A PRÓPRIA ALMA.

PADRE VÍTOR  -  Acho que nenhum de nós fez nada para isso conscientemente. Talvez por ser uma coisa que não podia acontecer...

NÍVEA  -  Não duvido. Mas você acha que tenho culpa?

PADRE VÍTOR  -  Depende... Talvez se fizermos as coisas da maneira certa...

ELE A ESTUDOU POR UM SEGUNDO, INQUISITIVAMENTE.

PADRE VÍTOR  -  Nívea... é chegada a hora de tomarmos uma decisão, seja qual for!

NÍVEA  -  (aflita)  Eu entendo... mas, para isso, você teria que deixar de ser padre!

PADRE VÍTOR  -  Sim, infelizmente. Há alguns casos... raros... em que se consegue de Roma permissão para casar  (e com a voz pausada)  Mas não é o nosso caso.

NÍVEA  -  E agora... o que fazemos?

PADRE VÍTOR  -  Eu... eu estou confuso... Algo me diz que meu lugar não é aqui, frente a uma linda mulher como você... Outros homens podem se permitir erros, pequenos e grandes, mas não eu. Eu... eu me sinto fraquejar quando penso em como não ficariam chocados seus pais... Mil homens a desejariam, Nívea. Outros tantos poderiam se casar com você. Mas o Senhor apontou com seu dedo celestial o homem errado. Talvez se você não tivesse vindo para cá, eu a tivesse esquecido...

NÍVEA  -  (triste)  Acho que só compliquei sua vida...

PADRE VÍTOR  -  (decidido)  Esses pensamentos me atormentam, mas tenho comigo uma  certeza inabalável... Mais forte que qualquer barreira... é a certeza de que quero ficar com você! Eu também te amo, Nívea... e se você me quiser, largo a batina pra casar com você!

NÍVEA DE REPENTE VIU-SE FRENTE AO PROBLEMA E NÃO SABIA O QUE DIZER.

NÍVEA  -  Não esperava... nunca imaginei que você chegasse a tomar essa decisão... Preciso pensar. (seu rosto exprimiu uma grande paz interior, mas os olhos brilharam de dissimulado júbilo)  Gostaria de ficar sozinha. Para pensar... você entende?

A JOVEM AFASTOU-SE UM POUCO NA DIREÇÃO DO ALTAR. AS LÂMPADAS DE UMA LUZ AMARELADA E PÁLIDA BRUXULEAVAM SOBRE SUAS CABEÇAS. MANTEVE-SE EM SILÊNCIO POR ALGUM TEMPO. EM SEGUIDA, FITOU O PADRE, COM ESTRANHO BRILHO NO OLHAR. ENCAMINHOU-SE PARA ELE, DECIDIDA.

NÍVEA  -  Eu já resolvi...

VÍTOR ENCAROU-A, APREENSIVO, TENTANDO LER EM SEUS OLHOS O QUE QUERIAM DIZER.

NÍVEA  -  Vítor... quero ser sua mulher!


FIM DO CAPÍTULO 10
Nívea (Renata Sorrah)

    e no próximo capítulo...     

*** Apaixonados e decididos a ficar juntos, Vítor e Nívea decidem enfrentar a todos e contar que decidiram se casar. Qual será a reação de D. Santinha, Seu Juquinha, Emiliano, Marieta, Helô, Ricardinho e de todos, quando souberem da novidade?
  
NÃO PERCA O CAPÍTULO 11 DE

sábado, 18 de fevereiro de 2012

ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU - Capítulo 9

                                                              Novela de Antonio Figueira
                                                          Inspirada na Obra de Dias Gomes
 http://youtu.be/zIuryHGvAVc

CAPÍTULO 9
Personagens deste capítulo:
NÍVEA (Renata Sorrah)
EMILIANO (Paulo Padilha)
MARIETA (Wanda Lacerda)
MARIO MALUCO (Osmar Prado)
HELÔ (Dina Sfat)
SEU JUQUINHA
DONA SANTINHA
RICARDINHO (Carlos Vereza)
DANUSA (Heloísa Helena)
PADRE VÍTOR (Francisco Cuoco)
BEATA 1
BEATA 2

CENA 1  -  PRÉDIO DO APARTAMENTO DE EMILIANO – EXT.  -  DIA.

RICARDINHO AVISTOU NÍVEA, QUE O AGUARDAVA, E PAROU A MOTO A SEU LADO. A JOVEM MONTOU NA GARUPA E PARTIRAM, EM DIREÇÃO Á PRAIA.

CENA 2  -  AV. VIEIRA SOUTO – EXT.  -  DIA.

BELAS TOMADAS DA PRAIA DE IPANEMA, ONDE SE VÊ A MOTO DE RICARDINHO E NÍVEA PERCORRER A AVENIDA, EM DIREÇÃO AO ARPOADOR.

CENA 3  -  ARPOADOR  -  EXT.  -  DIA.
RICARDINHO E NÍVEA SOBEM A PEDRA DO ARPOADOR E SENTAM-SE, DE FRENTE PARA O MAR.

RICARDINHO  -  O quê que há com você, menina... tá tão séria, tão quieta...

NÍVEA  -  Chamei você porque a gente precisa conversar, Ricardinho. Eu... eu pensei muito esses últimos dias... e depois do “pega”, depois que a gente foi preso... eu resolvi que é hora de mudar de vida. Estou cansada.

RICARDINHO  -  Cansada de quê? De mim? Pô, a gente sempre curtiu assim, sempre saiu com a turma pra zoar e você nunca reclamou... qual é, Nívea... Que papo é esse de mudar...

NÍVEA  -  Eu não quero mais sair pra zoar. Cansei. Eu quero ficar sozinha, Ricardinho. Estou de férias do banco e vou viajar hoje pra Ibiúna. Vou passar uns dias com meus avós.

RICARDINHO  -  (olhou indignado para Nívea)  Peraí... você me chamou pra me dar um fora? Pra dizer que tá de saco cheio de mim, da nossa turma? Da turma que sempre esteve com você, do teu lado, em todos os momentos? 

NÍVEA  -  Não é isso... eu continuo amiga da Helô e da Verinha. Só não quero mais viver esse tipo de aventura irresponsável, entende? Não quero nunca mais entrar numa viatura de polícia!

RICARDINHO  -  Tudo bem, isso não vai mais acontecer. (tentou beijá-la) Agora vem cá, vem...  

NÍVEA  -  (virou o rosto)  Não, Ricardinho. Eu te chamei aqui pra dizer que quero terminar nosso namoro. Quero te deixar livre pra conhecer outras garotas, pra não se prender a mim...

RICARDINHO LEVANTOU-SE E SEGUROU-A FORTE, PELOS DOIS BRAÇOS, ASSUSTANDO-A.

RICARDINHO  -  Você tá brincando comigo... é isso? Me fala   assim, sem mais nem menos? Que tá tudo acabado entre a gente e ponto?

NÍVEA  -  Estou sendo sincera com você, não quero te enganar.

RICARDINHO  -  (desconfiado) Peraí... você disse que vai viajar  pra Ibiúna... não é o mesmo lugar de onde veio aquele padreco? 

NÍVEA  -  (estremeceu, mas procurou disfarçar)  É, ele veio de Ibiúna, sim, mas e daí? O que eu quero é sair um pouco do Rio, respirar ar puro, ver meus avós...

FURIOSO, RICARDINHO PEGOU UMA PEDRA NO CHÃO E ATIROU-A NO MAR.

RICARDINHO  -  Droga! Eu sabia que tinha alguma coisa de podre nessa estória! Nívea, você tá gostando desse cara?

NÍVEA  -  (ofendida) Não vou ficar aqui ouvindo asneiras! Vou embora. Tenho umas coisas pra fazer antes da viagem...
RICARDINHO -  (tentando controlar-se)  Espera!... Eu te levo... você veio comigo... e vai voltar comigo!

CORTA PARA:   

CENA 4  -   APARTAMENTO DE DANUSA  -  SALA - INT.  -  DIA.

RICARDINHO ENTROU EM CASA NA COMPANHIA DE MARIO MALUCO, NO MOMENTO EM QUE SUA MÃE, DANUSA, SAÍA DO QUARTO COM UMA MÁSCARA VERDE COBRINDO TODO O ROSTO, DEIXANDO APENAS OS OLHOS E A BOCA LIVRES. TOMADA PELO SUSTO, A MULHER,  DE SEUS QUASE SESSENTA ANOS, SOLTOU UM GRITO HISTÉRICO E VOLTOU PARA O QUARTO, INCONTINENTI. MARIO MALUCO SE CONTEVE PARA NÃO GRITAR AO MESMO TEMPO E RIU NERVOSAMENTE.

MARIO MALUCO  -  Cara, sua mãe é uma figura, ... 

RICARDINHO, SEM SE ABALAR, MAIS PREOCUPADO COM OS PRÓPRIOS PROBLEMAS, DIRIGIU-SE COM O AMIGO PARA O SEU QUARTO.

CENA  5  -  QUARTO DE RICARDINHO  -  INT.  -  DIA.  

RICARDINHO FECHOU OS PUNHOS E DEU VÁRIOS SOCOS NA PAREDE, CHEIO DE ÓDIO.

RICARDINHO  -  Se ela pensa que isso vai ficar assim, tá muito enganada! Não vai se livrar de mim fácil, mas não vai mesmo!

MARIO MALUCO  -  Pô, como a Nívea teve coragem de fazer isso com tu, meu velho? Tô besta ainda, não dá pra acreditar...

RICARDINHO  -   Ela que me aguarde, porque eu te juro, Mariozinho: essa história não acabou ainda! Não acabou mesmo!  

CORTA PARA:

CENA 6  -  APARTAMENTO DE EMILIANO  -  SALA  -  INT.  -  DIA.

EMILIANO E MARIETA ESTAVAM NA SALA, QUANDO NÍVEA VEIO DE DENTRO COM A MALA DE RODINHO. MARIETA ABRAÇOU A FILHA, EMOCIONADA.

MARIETA  -  Vai com Deus, minha filha!

EMILIANO TAMBÉM A ABRAÇOU.

EMILIANO  -  Dê lembranças aos seus avós e ao padre Vítor. Diga a ele que deixou muitas saudades aqui no Rio...

NÍVEA  -  Digo sim, pai.

A CAMPAINHA TOCOU.

NÍVEA  -  Deve ser Helô. Vai me levar pra rodoviária.

NÍVEA ABRIU A PORTA E HELÔ ENTROU.

HELÔ  -  Como vai, seu Emiliano? Tudo bem, D. Marieta? (dirigindo-se á amiga)  E então, tá pronta? Temos que ir pra você não se atrasar!

CORTA PARA:

CENA 7  -  RODOVIA  -  INTERIOR DO ÔNIBUS  -  EXT.  -  DIA.

O ÔNIBUS SEGUIA PARA IBIÚNA. NÍVEA OBSERVAVA A PAISAGEM DA JANELA, COM O PENSAMENTO VOLTADO PARA O PADRE VÍTOR. REVIA, COMO EM UM FILME, O DIA EM QUE SE CONHECERAM, AO CHUTAR A BOLA QUE CAIU AOS PÉS DO PADRE. A NOITE CAÍA E AS LANTERNAS VERMELHAS BRILHAVAM Á SUA VOLTA, MAS NÍVEA PARECIA NÃO VER...

IMAGENS DO ÔNIBUS DESAPARECENDO NUMA CURVA DA ESTRADA.

CENA   8  -  IBIÚNA  -  CASA DE D. SANTINHA  -  EXT.  -  DIA.
O TAXI PAROU EM FRENTE A UMA CASA ANTIGA, DE VARANDA, NA PERIFERIA DE IBIÚNA. NÍVEA SALTOU DO VEÍCULO E DIRIGIU-SE PARA O PORTÃO. BATEU PALMAS E UM CACHORRO COMEÇOU A LATIR. A PORTA SE ABRIU E UM SIMPÁTICO CASAL DE VELHINHOS SURGIU NA SOLEIRA E DIRIGIU-SE PARA ELA SORRINDO, DE BRAÇOS ABERTOS.

D. SANTINHA  -  Minha querida, que bom ter você aqui! Olha, Juquinha, como nossa neta está uma linda moça!

SEU JUQUINHA  -  (admirando a beleza da neta)  Está linda, mesmo!

NÍVEA  -  Eu que estou muito feliz de passar uns dias com vocês, meus amores! Que saudades!

CORTA PARA:

CENA  9  -  CASA DE D. SANTINHA  -  SALA  DE JANTAR -  INT.  -  DIA.

NÍVEA E OS AVÓS CONVERSAVAM ANIMADAMENTE, SENTADOS Á MESA DE JANTAR, ONDE A CRIADA ACABARA DE COLOCAR UM BOLO DE FUBÁ.


NÍVEA  -  Nossa, que delícia, vó! Bolo de fubá com côco! Adoro esse bolo. Sabe que sempre lembro daquela vez que tive dor de barriga de tanto comer  seu irresistível bolo de fubá com côco?

TODOS RIRAM.

D. SANTINHA - Se lembro! Menina levada, dava um trabalho....

NÍVEA  -  (emocionada)  Estou tão feliz de estar aqui com vocês, depois de tanto tempo... parece que foi ontem! Não mudou quase nada, lembro de tudo!

SEU JUQUINHA  -  Aqui a gente segue com nossa vidinha simples, mas que não trocamos por nada, minha filha. Saímos de casa só pra ir á igreja, aos domingos, e à vendinha do seu Tião, aqui perto...

D. SANTINHA  -  Isso é verdade. E quando temos de ir á cidade, é um sofrimento. Só vamos quando não tem outro jeito!

NÍVEA FEZ A PERGUNTA QUE MARTELAVA EM SUA CABEÇA DESDE A CHEGADA Á CASA DOS AVÓS:

NÍVEA  -  E... o padre Vítor? Ele foi tão simpático, tão amável com a gente na sua viagem ao Rio...

D. SANTINHA  -  Ele é um santo homem! Apesar de muito jovem, é muito querido aqui na comunidade. Todos na paróquia gostam muito dele!

SEU JUQUINHA  -  Ontem ele telefonou e perguntou quando você ia chegar...

OS OLHOS DE NÍVEA BRILHARAM. PROCUROU NÃO TRANSPARECER A ANSIEDADE QUE A DOMINAVA.

CENA  10  -  IBIÚNA  -  IGREJA  -  INT.  – DIA.
APÓS ATENDER QUASE UMA DÚZIA DE BEATAS EM CONFISSÃO, O PADRE VÍTOR CONCEDEU A CADA UMA DELAS SUA DEVIDA PENITÊNCIA, E SAÍA DO CONFESSIONÁRIO, QUANDO NÍVEA ADENTROU NA IGREJA. SEUS OLHOS SE CRUZARAM E DIRIGIU-SE PARA A JOVEM, EMOCIONADO.

PADRE VÍTOR  -  (parou, admirando-a, olhos brilhando)   Nívea...

NÍVEA  -  Vítor... (corrigiu)  Quis dizer... Padre Vítor...

PADRE VÍTOR  -  Então você veio mesmo...

NÍVEA  -  Não acreditou que eu viria?

PADRE VÍTOR  -  Confesso que duvidei...  Mas fico feliz em ver você aqui...

DUAS BEATAS ABANDONARAM SUAS ORAÇÕES, ASSISTIAM AO ENCONTRO DOS DOIS E COCHICHAVAM.  O PADRE PERCEBEU E REAGIU,  EMBARAÇADO.

PADRE VÍTOR  -  Venha... vamos  para fora da igreja. Como foi a viagem?

CORTA PARA:

CENA 11  -  IBIÚNA  -  ESTRADA ÁS MARGENS DE UM RIACHO  -  EXT.  -  DIA.

O VELHO AUTOMÓVEL DE PROPRIEDADE DA PARÓQUIA SEGUIU LENTAMENTE PELA ESTRADA DE CHÃO E PAROU Á BEIRA DE UM RIACHO. O PADRE E A JOVEM DESCERAM E CAMINHARAM LADO A LADO. NÍVEA ADMIRAVA A BELEZA DO LUGAR, ENCANTADA.

NÍVEA -  Que lugar lindo, Vítor... Desculpe... Padre Vítor... é que você é tão jovem e ... é estranho chamar você de padre...

PADRE VÍTOR      -  (desconversou) Eu também gosto muito deste lugar... Venho sempre aqui caminhar, orar, pensar na vida...

NÍVEA ENFIOU, SEM QUERER, O PÉ EM UM BURACO E, PARA NÃO CAIR, APOIOU-SE NO PADRE, QUE A AMPAROU, SEGURANDO-A EM SEUS BRAÇOS FIRMES. SEUS OLHOS SE ENCONTRARAM E NÍVEA SENTIU O HÁLITO DO PADRE MUITO PRÓXIMO DO SEU ROSTO. NUM IMPULSO, TENTOU BEIJÁ-LO NA BOCA, MAS VÍTOR SEGUROU-A COM FIRMEZA.

PADRE VÍTOR  -  Não! Por favor, não faça isso!

                                                          FIM DO CAPÍTULO 9
Nívea (Renata Sorrah)
e no próximo capítulo...

*** A chegada de Nívea a Ibiúna pôs a vida e a fé de Vítor em xeque! E agora, o padre continuará resistindo às investidas da moça, colocando a Igreja à frente do amor de uma mulher?

 NÃO PERCA O CAPÍTULO 10 DE

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU - Capítulo 8


Novela de Toni Figueira
Inspirada na Obra de Dias Gomes

CAPÍTULO 8

                                                              Personagens deste capítulo:

NÍVEA (Renata Sorrah)
MARIETA ( Wanda Lacerda)
SUSI  (Maria Cláudia)
RENATÃO  (Jardel Filho)
DELEGADO FONTOURA (Urbano Lóes)
OLIVEIRA RAMOS (Mario Lago)
ADELAIDE (Agnes Fontoura)
MARIO MALUCO (Osmar Prado)
VERINHA (Djenane Machado)
RICARDINHO (Carlos Vereza)
JUREMA (Arlete Salles)
CABO JORGE

CENA 1  -  DELEGACIA DE POLÍCIA  -  EXT. -  NOITE.                                                        

ERAM 2:30 HS. DA MADRUGADA QUANDO O CARRO DE OLIVEIRA RAMOS ESTACIONOU NO PÁTIO DA DELEGACIA. O MOTORISTA ABRIU A PORTA E O BANQUEIRO ENTROU NO PRÉDIO.

CORTA PARA:

CENA 2  -  DELEGACIA DE POLÍCIA  -  INT.  -  NOITE.

OLIVEIRA RAMOS ENTROU NA SALA DO DELEGADO FONTOURA, APREENSIVO.

OLIVEIRA RAMOS  -  Onde está minha filha? O que aconteceu com ela?

DELEGADO FONTOURA  -  Fique tranquilo, sua filha está bem, doutor.  Fiz questão que o senhor viesse aqui porque ela quase depredou a delegacia!

OLIVEIRA RAMOS  -  Mas como? Por quê ela fez isso?

DELEGADO FONTOURA  -  Sua filha foi prêsa com um grupo de rapazes quando dirigia na contramão apostando corrida na Curva do Calombo.

OLIVEIRA RAMOS  -  (arregalou os olhos, sem acreditar)  Meu Deus,que absurdo! Ela está cada vez pior...

DELEGADO FONTOURA  -  (embaraçado) Eu entendo como se sente, Dr. Oliveira. Infelizmente... meus filhos, Mario e Verinha estavam com ela, e também a amiga deles, Nívea Louzada, e um tal de Ricardinho.

OLIVEIRA RAMOS  -  E... onde eles estão, seu delegado?

DELEGADO FONTOURA  -  Mandei prender todos, fôsse quem fôsse!

OLIVEIRA RAMOS  -  Fez muito bem, eu faria o mesmo no seu lugar. Delegado, minha filha Helô tem crises nervosas que vem se agravando últimamente. Eu quero pagar todo o prejuízo que ela causou á sua delegacia...  Eu vim buscar minha filha. Vou levá-la para casa.

DELEGADO FONTOURA  -  (lembrando) Além do prejuízo, tem a fiança dela e da outra moça, Nívea...

OLIVEIRA RAMOS  -  Eu pago! Por favor, mande soltar minha filha e a amiga dela, Nívea.

DELEGADO FONTOURA  -  (para o cabo Jorge)  Pode soltar D. Heloísa Ramos e D. Nívea Louzada! E diga aos outros que só saem amanhã, mediante pagamento de fiança!


CORTA PARA:


 CENA 3  -  RUAS DE IPANEMA  -  EXT.  -  NOITE

MEIA HORA DEPOIS, A MERCEDES DE OLIVEIRA RAMOS, DIRIGIDA PELO MOTORISTA, PERCORRIA AS RUAS TRANQUILAS DE IPANEMA NAQUELA MADRUGADA. NO INTERIOR DO VEÍCULO, NO BANCO TRASEIRO, ESTAVAM O BANQUEIRO, HELÔ E NÍVEA.

NÍVEA  -  (constrangida, dirigiu-se a Oliveira) Doutor Olivera, eu... eu estou muito envergonhada por ter tirado o senhor da sua casa a esta hora. Me perdoe, por favor!...

OLIVEIRA RAMOS  -  (aborrecido) Que vexame! Vocês passaram de todos os limites! (e para a filha) Helô, minha filha, você não pode me envergonhar dessa maneira!

HELÔ  -  (encarou  o pai, com firmeza) Nívea não tem que se desculpar de nada. Ela não queria participar do pega. Só foi porque eu insisti e a arrastei pro carro. Se quer dar o seu sermão, papai, fale comigo. Mas aviso logo que, enquanto estiver envolvido com aquela  interesseira da Susi, não vou lhe dar ouvidos!

OLIVEIRA RAMOS  -  Minha filha, você precisa crescer, parar com essas infantilidades! Agora, corro o risco de ter meu nome estampado amanhã em todos os jornais. Você sabe que isso pode interferir nos meus negócios!

O MOTORISTA PAROU O CARRO EM FRENTE A UM EDIFÍCIO E DIRIGIU-SE AO BANQUEIRO.

MOTORISTA  - Residência de Dona Nívea...

HELÔ  -  (para a amiga) Nívea, você não quer ir para minha casa? Depois pode ligar pra seus pais e vir mais tarde...

NÍVEA  -  (cortou, decidida) Não, Helô, eu agradeço o convite, mas preciso ficar sozinha. Olha, não é por estar na frente do seu pai, mas estou cansada dessas loucuras que, volta e meia, a gente apronta. Preciso pensar. Tou sentindo necessidade de mudar, de crescer, como seu pai falou (abriu a porta do carro, dirigiu-se ao banqueiro) Doutor Oliveira... mais uma vez, mil perdões. Só mais uma coisa... eu queria lhes fazer um pedido!

OLIVEIRA RAMOS  -  Pode falar, Nívea.

NÍVEA  -  Eu preferia que meus pais não soubessem do que aconteceu esta noite. Meu pai ainda não está totalmente restabelecido e queria evitar mais problemas ...

OLIVEIRA RAMOS  -  Fique tranquila, Nívea. Esse assunto morre aqui. Vá em paz.

NÍVEA  -  Obrigada... muito obrigada. Boa noite, Doutor. Boa noite. Helô. Depois nos falamos. Chau.

NÍVEA SALTOU DO AUTOMÓVEL E DIRIGIU-SE PARA A PORTARIA DO PRÉDIO, ENQUANTO O MOTORISTA DAVA PARTIDA E SEGUIA PARA A RESIDÊNCIA DE OLIVEIRA RAMOS.


CORTA PARA:

CENA 4  -  APARTAMENTO DE RENATÃO  -  INT.  -  DIA.  
 
RENATÃO ABRAÇOU SUSI, TENTANDO ACALMÁ-LA. A JOVEM CHEGOU AO SEU APARTAMENTO BASTANTE IRRITADA COM OS ACONTECIMENTOS DA NOITE ANTERIOR.

RENATÃO  -  Você tem que ter paciência, meu amor. As coisas não são tão fáceis como a gente quer... Helô é uma menina do bem. Tem que saber lidar com seus ataques...

SUSI  -  Tá difícil, sabia? Ontem eu quase mandei ela e o pai praquêle lugar! Ela provoca o tempo todo, que saco!

RENATÃO  -  Se voce não tiver sangue frio pra lidar com isso, vai pôr tudo a perder! Pense quando estiver casada, quando for esposa do Oliveira Ramos! Ela vai ter que se conformar e tudo vai ficar mais fácil...

SUSI  -  Tá bom, eu vou tentar....

RENATÃO  -  Promete?

SUSI  -  Prometo.

RENATÃO A AGARROU MAIS FORTEMENTE, ENCOSTANDO OS LÁBIOS NOS SEUS, ENQUANTO SEUS DEDOS EXPLORAVAM O CORPO DA JOVEM. PUXOU-A PARA A CAMA.

RENATÃO  -  (sedutor)  Agora vem cá, vem... Tava com saudades... vem...  

CORTA PARA:

CENA 5  -  DELEGACIA  -  SALA DO DELEGADO FONTOURA  -  INT.  -  DIA.

DELEGADO FONTOURA  -  Cabo Jorge, mande soltar esse Ricardo Miranda e meus filhos, Mario e Verinha. Adelaide, minha mulher, está ameaçando vir aqui se eu não libertar esses arruaceiros!

CABO JORGE  -  Devo trazer eles aqui, na sua sala, doutor?

DELEGADO FONTOURA  -  Não. Já conversei com todos eles. Diga a meus filhos que conversaremos mais tarde, em casa. Ponha todos na rua!

CORTA PARA:

CENA 6  -  APARTAMENTO DE EMILIANO  -  CORREDOR - INT.  -  DIA.


MARIETA BATEU NA PORTA DO QUARTO DA FILHA. PANCADAS LEVES COM OS NÓS DOS DEDOS.

MARIETA  -  Filha... quero falar com você.

NÍVEA ABRIU A PORTA PARA A MÃE ENTRAR.

CORTA PARA:

CENA 7  -  QUARTO DE NÍVEA  -  INT.  -  DIA.

MARIETA  -  (procurando as palavras com cuidado)  Eu estou preocupada com você... Saiu ontem á noite e chegou quase de manhã...

NÍVEA  -  Hoje é meu primeiro dia de férias, mãe, esqueceu?

MARIETA  -  Não, não esqueci. É que... estou achando você diferente. Está quieta, pensativa...

NÍVEA  -  Você sabe que os últimos dias foram terríveis, mãe... acho que estou cansada, sei lá...

MARIETA  -  Você já sabe o que vai fazer nas suas férias?

NÍVEA  -  Estava pensando nisso... e já decidi: vou para Ibiúna! Quero passar uns dias com meus avós.

MARIETA  -  (animada)  Que bom, filha! Eles vão adorar. E vai ser muito bom pra você sair um pouco daqui... dessas companhias... Você sabe que não aprovo sua amizade com essa tal de Helô...

NÍVEA  -  (ar de reprovação) Ah, mãe! Não vai querer escolher minhas amizades agora, vai!

MARIETA  -  (resignada) Eu sei que ela ajudou seu pai, emprestando o dinheiro, mas... criei uma cisma...

NÍVEA  -  (mudando de assunto)  Vou ligar pra empresa de ônibus e marcar a passagem!

MARIETA  -  Sim, faz isso, filha! Aproveita suas férias!

CORTA PARA:

CENA 8  -  APARTAMENTO DO DELEGADO FONTOURA  -  SALA  -  INT.  -  NOITE.

O DELEGADO FONTOURA ABRIU A PORTA E ENTROU EM CASA, EXAUSTO, APÓS MAIS UM DIA DE TRABALHO. MARIO ESTAVA DEITADO NO SOFÁ, Á VONTADE. AO VER A EXPRESSÃO ABORRECIDA E O CENHO FRANZIDO DO PAI, SENTOU-SE, QUASE NUM PULO. ADELAIDE VEIO AO ENCONTRO DO MARIDO.

ADELAIDE  -  Até que enfim você chegou, meu velho.

FONTOURA  -  Tive um dia cansativo... e muito aborrecido.

ADELAIDE  -  (mostrando indignação)  Como teve coragem de prender nossos filhos numa cela, como dois marginais?

FONTOURA  -  (explodiu)  Adelaide, você precisa sair desse seu mundinho e cair na real! Precisa conhecer seus filhos e saber que eles agem como dois marginais, sim!

ADELAIDE  -  Meu Deus, como pode falar uma barbaridade dessas? Eu conheço meus filhos, e muito bem!

MARIO MALUCO  -  Pega leve, velho... Você tá exagerando. Foi só uma brincadeira...

FONTOURA  -  (levou as mãos á cabeça, colérico)  Uma brincadeira! Ouviu isso, Adelaide? Colocam a vida de pessoas em risco, apostando corrida e dirigindo na contramão, e para eles, isso é apenas uma brincadeira!

ADELAIDE  -  Calma, homem, senão vai ter um infarto!

FONTOURA  -  Onde está Verinha?

VERINHA SURGIU NA SALA, VINDA DO QUARTO.

VERINHA  -  (olhos arregalados)  Oi, pai.

FONTOURA  -  (apontando para os filhos, enraivecido)  Vocês dois, meus filhos, são a negação de tudo o que sempre acreditei como uma família de verdade! Vejo em vocês tudo aquilo contra que sempre lutei!

VERINHA  -  (olhos marejados)   Pai.... não fala assim, pai.... Foi horrível passar a noite naquela cela...

FONTOURA  -  Agradeçam à sua mãe por não estarem lá até agora. Vou dar um aviso pra vocês dois: se isso acontecer outra vez, vão ficar presos por uma semana!

VERINHA CORREU PARA O QUARTO, MAGOADA. FONTOURA BUFOU, AR CANSADO.

FONTOURA  -  Vou tomar um banho, que hoje o dia foi terrível!

CORTA PARA:

CENA 9  -  PRÉDIO DO APARTAMENTO DE JUREMA  -  EXT.  -  NOITE.


RICARDINHO ESTACIONOU A MOTO EM FRENTE AO PRÉDIO E DIRIGIU-SE PARA A PORTARIA. CUMPRIMENTOU O PORTEIRO E ENTROU NO ELEVADOR.

CORTA PARA:

CENA 10  -  APARTAMENTO DE JUREMA  -  INT.  -  NOITE

A CAMPAINHA SOOU E JUREMA, BELA MULHER DE POUCO MAIS DE 35 ANOS, APRESSOU-SE EM ABRIR A PORTA. RICARDINHO ENTROU. JUREMA BEIJOU-O NA BOCA, MAS O RAPAZ VIROU O ROSTO, EVITANDO-A.

JUREMA  -  O que houve com você? Tá com uma cara de cansado...

RICARDINHO  -  (desabando no sofá)  E tou mesmo, ô minha. Dormi na cadeia ontem á noite...

JUREMA  -  (surpresa) Como? Prêso? Por quê, meu Deus? O que você aprontou desta vez?

RICARDINHO  -  Nada demais... tava fazendo um pega na Curva do Calombo com a turma, a polícia chegou e levou todos em cana.

JUREMA  -  (desconfiada)  Que turma? Quem estava com você?

RICARDINHO  -  Mario Maluco, Verinha, Helô e Nívea.

JUREMA  -  Foi o que imaginei... essa Nívea tinha que estar no meio...

RICARDINHO  -  Claro, ela é minha namorada, pô!

JUREMA  MAL CONSEGUIA DISFARÇAR  O CIÚME QUE A CORROÍA POR DENTRO.

JUREMA  -  Quer dizer que agora chama a tal lourinha de namorada.... Você não tem remorsos de vir me contar seus casos? Não se importa com meus sentimentos?

RICARDINHO  -  Sem essa, Jurema. Nosso tempo já passou. Hoje, você pra mim é uma velha amiga, o meu refúgio...

JUREMA  -  Velha amiga... refúgio... odeio quando fala isso. Sempre fui fiel a você, apesar de tudo o que já me fez...  Sei que, de você, não devo esperar nada... ou quase nada...

RICARDINHO  -  Me trás um uísque, vai!

JUREMA  - (falava, enquanto preparava a bebida) Sou uma mulher bonita, jovem ainda... Sou boa atriz, ganho meu próprio sustento com meu trabalho no teatro...  uma ponta aqui, outra ali... mas um dia, escreve o que vou te dizer, Ricardinho: vou ser uma estrela, ter meu talento reconhecido e ganhar muito dinheiro! Quero ver se, ainda assim, vai me chamar de “velha amiga”!

RICARDINHO  -  Sabe que eu torço por você... e ainda quero ver essa estrela brilhar. Todo mundo aplaudindo de pé a grande Jurema de  Alencar!

JUREMA  -  (entregando-lhe o uísque) O que eu preciso, Ricardinho, é que você me dê valor. Já passei cada pedaço com você... até agredida eu já fui ... e sempre estou aqui, de braços abertos, te esperando.

RICARDINHO  -  (divertido, insensível) Você tá bem dramática hoje, hem? Pára de representar, mulher, isso aqui não é palco!         

JUREMA  -  Só de uma coisa eu tenho a certeza: ninguém vai tirar você de mim!  Pode ter seus casos, como já teve muitos, mas todos passageiros... Até hoje nenhum firme, pra valer... Por isso não tomei nenhuma atitude. Sempre relevando...   

RICARDINHO  -  Que é isso, você tá me assustando... qual é, Jurema...
   
JUREMA  -  (continuou)  ... se isso acontecer, eu, Jurema de  Alencar, que intimamente sou sua verdadeira mulher, saberei o que fazer!    


                                                FIM DO CAPÍTULO 8
Jurema (Arlete Salles)
e no próximo capítulo...

*** Decidida a mudar de vida, Nívea conversa com Ricardinho e deixa-o furioso quando diz que quer terminar o namoro e que vai passar as férias em Ibiúna.  Qual será a reação de Ricardinho?

*** Nívea está viajando para Ibiúna, sentindo o coração bater mais forte, mas sabe que não é só por saudades dos avós. Sua ansiedade tem um nome: Padre Vítor!
NÃO PERCA O CAPÍTULO 9 DE








segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU - Capítulo 7

Novela de Antonio Figueira
Inspirada na Obra de Dias Gomes
http://youtu.be/zIuryHGvAVc

CAPÍTULO 7

Personagens deste capítulo:
NIVEA (Renata Sorrah)
HELÔ (Dina Sfat)
RICARDINHO (Carlos Vereza)
MARIO MALUCO (Osmar Prado)
MISS JULY (Lídia Mattos)
VERINHA (Djenane Machado)
MARIETA (Wanda Lacerda)
DELEGADO FONTOURA (Urbano Lóes)
PADRE VÍTOR (Francisco Cuoco)
OLIVEIRA RAMOS (Mario Lago)
SUSI (Maria Cláudia)
CABO JORGE
                         
CENA 1  -  BANCO  -  SALA DE OLIVEIRA RAMOS  -  INT. -  DIA.
Continuação imediata do capítulo anterior


NÍVEA  -  Eu... vou voltar ao trabalho. Com licença.

NÍVEA RETIROU-SE. EMILIANO ABRIU UMA PASTA, RETIROU UM CHEQUE E ENTREGOU-O AO BANQUEIRO.

EMILIANO  -  Aqui está a quitação da minha dívida, Dr. Oliveira. Eu gostaria, mais uma vez, de lhe pedir desculpas pela minha atitude. O que fiz é imperdoável... cometi um erro  grave, mas estou pagando muito caro por isso...

OLIVEIRA RAMOS  -  Muito bem, seu Emiliano, vejo que é um homem de palavra. Para mim, isso é o que importa.

EMILIANO  -  Sei que não tenho o direito de pedir nada, mas não é por mim... é por minha filha, Nívea. Eu queria pedir que o senhor não mandasse ela embora. Ela... ela ajuda na despesa em casa e vai ficar muito difícil pagar as contas... com nós dois desempregados!

OLIVEIRA RAMOS  - Não entendi... por que os dois desempregados? Nunca me passou pela cabeça demitir Nívea. Ela é uma ótima funcionária.

EMILIANO  -  (aliviado)  É que eu pensei... por ela ser minha filha...    

OLIVEIRA RAMOS  -  Isso seria um absurdo, uma injustiça com sua filha! Isso jamais me passou pela cabeça!

EMILIANO  -  (embaraçado)  Eu só poderia esperar essa atitude do senhor. Muito obrigado, doutor!

OLIVEIRA RAMOS  -  Seu Emiliano, sempre o considerei um excelente funcionário. Acredito no seu arrependimento. O senhor precisava devolver o dinheiro para recuperar sua dignidade e respeito. Isso já aconteceu, portanto... vamos esquecer o que houve. Vamos por uma pedra neste assunto. Não se fala mais nisso. A vida continua e estamos cheios de trabalho na agencia!
 
EMILIANO  -  (surpreso)  Desculpe, não entendi... o senhor quer dizer que...

OLIVEIRA RAMOS  -  (corta)  Quero dizer que, se o senhor quiser, o emprego ainda é seu! Estou lhe dando uma segunda chance e espero que saiba aproveitá-la!
 
EMILIANO  -  (emocionado, mal conseguia falar) Eu... eu não sei o que dizer... a não ser... muito obrigado, Dr. Oliveira. Muito obrigado!  O senhor não vai se arrepender de me dar mais esta oportunidade, eu juro!

CORTA PARA:

CENA 2  -  APARTAMENTO DE EMILIANO  -  SALA  -  INT.  -  TARDE.

PADRE VÍTOR DESCANSOU A MALA NO CHÃO PARA ABRAÇAR NÍVEA, MARIETA E EMILIANO, QUE ESTAVAM VISIVELMENTE EMOCIONADOS NA DESPEDIDA DO SACERDOTE.

EMILIANO  -  Muito obrigado por tudo, meu amigo!

PADRE VÍTOR  -  Eu que agradeço. Foi maravilhoso passar esses dias com vocês.

MARIETA  -  (apoiando a cabeça no peito do padre, olhos marejados)   Vá com Deus, padre!  Eu não sei o que faríamos sem sua ajuda!

O PADRE E NÍVEA  OLHARAM-SE DEMORADAMENTE. 

NÍVEA  -  Boa viagem, padre...

SEGUROU-LHE SUAVEMENTE A MÃO. A JOVEM ESTREMECEU IMPERCEPTÍVELMENTE, SENTINDO-SE ACANHADA.

PADRE VÍTOR  -  (com sinceridade) Foi um prazer enorme conhecê-la, Nívea.  Deus abençoe esta família.

ERA VISÍVEL O EMBARAÇO DOS DOIS NA PRESENÇA DOS PAIS DA JOVEM. PADRE VÍTOR TENTOU DIZER ALGO MAIS, MAS ACHOU MELHOR CALAR. FEZ UM ÚLTIMO ACENO E SAIU.   

CORTA PARA:

CENA 3  -  APARTAMENTO DE OLIVEIRA RAMOS  -  SALA  -  INT.  -  NOITE. 


OLIVEIRA RAMOS E SUSI SENTARAM-SE Á MESA DE JANTAR. MISS JULY ACABAVA DE SERVIR Á MESA.

OLIVEIRA RAMOS  -  (encantado)  Você está linda, minha querida!

HELÔ ENTROU NO RECINTO E ESFORÇAVA-SE PARA DISFARÇAR A IRRITAÇÃO.

OLIVEIRA RAMOS  -  Filha, que bom que chegou. Estávamos esperando você para jantar.

HELÔ NÃO AGUENTOU. DIRIGIU-SE A SUSI, COM DEBOCHE.

HELÔ  -  Como vai... mamãe?

SUSI  -  (sem deixar barato)  Eu estou ótima, querida! Você não acha que fica meio ridículo me chamar de mãe? Até mesmo porque temos quase a mesma idade...

HELÔ LEVANTOU-SE, FORA DE SI.

HELÔ  -  Sabe o que é ridículo? Você achar que todos somos trouxas ao ponto de acreditar que vai casar por amor e não para dar um  belo golpe do baú no meu pai! 

OLIVEIRA RAMOS  -  (enérgico)  Vocês duas, parem com isso!   

SUSI  -  Esse papel de filhinha de papai mimada e ciumenta não lhe cai bem, sabia?

HELÔ AVANÇOU CONTRA A FUTURA MADRASTA, CONTROLANDO-SE NO ÚLTIMO SEGUNDO, A EXPRESSÃO ENLOUQUECIDA.

HELÔ  -  Sua... sua idiota!

A JOVEM EXTRAVAZOU SUA IRA PEGANDO UM VASO DE PORCELANA E ATIROU-O CONTRA A PAREDE. DIRIGIU-SE PARA  A SAÍDA, BATENDO A PORTA ATRÁS DE SI.

OLIVEIRA RAMOS  -  (tentando alcançá-la)  Helô, minha filha! Volte aqui! Helô!

VOLTOU Á SALA DE JANTAR, TRANSTORNADO.

SUSI  -  (embaraçada)  Desculpe, amor... eu devia ter me controlado... Você viu: ela me provocou e perdi a cabeça!...

OLIVEIRA RAMOS  -  (paciente) Minha querida, você precisa saber que minha filha tem problemas.... Helô  tem crises de nervos que me deixam cada vez mais preocupado, intimidado, á beira do pânico...

SUSI  -  Eu... eu não sabia...

OLIVEIRA RAMOS  -  Se vamos nos casar, precisa saber, então. É preciso paciência e compreensão para lidar com ela.

MISS JULY RECOLHIA OS CACOS DO CHÃO.

OLIVEIRA RAMOS  -  (cenho franzido)  Miss July... sabe para onde ela foi?

MISS JULY  -  Ela não disse para onde ia, doutor.

OLIVEIRA RAMOS  -  Só espero que não faça nenhuma bobagem... Não gosto quando sai assim, desarvorada...

CORTA PARA:
   
 CENA 4  -  CASTELINHO  -  INT.  -  NOITE.


SENTADOS A UMA MESA, RICARDINHO E NÍVEA CONVERSAVAM.

RICARDINHO  -  (segurando a mão da jovem) Tava morrendo de saudades...  Me dá um beijo.

NÍVEA  -  (esquivando-se)  Pára, Ricardinho... não quero!

RICARDINHO  -  Você tá diferente, tá fria... qual é, Nívea? O que tá acontecendo?

NÍVEA  -  Você sabe tudo o que passei nos últimos dias... acho que ainda estou sensível, sei lá...

RICARDINHO  -  (desconfiado) Sei não... você tá estranha... tá distante, aérea... parece que nem tá curtindo me ver...

NÍVEA  -  Que bobagem, Ricardinho. Tá tudo bem, já disse.

RICARDINHO  -  (analisando a reação da jovem)  E o tal padreco, que ficou com você pra cima e pra baixo?   

NÍVEA  -  (estremeceu; procurou ser o mais natural possível)  O padre Vítor é um amigo da família. Trouxe notícias dos meus avós de Ibiúna. Você sabe o que aconteceu com meu pai... ele nos ajudou muito...

RICARDINHO  -  Sei...     mas não gostei nada de saber que ele não largou do seu pé!

NÍVEA  -  (recriminando-o)  Isso é jeito de falar de um padre, Ricardinho! Você tá louco?

HELÔ, MARIO MALUCO E VERINHA ACERCARAM-SE DA MESA, ANIMADOS. RICARDINHO PAGOU A CONTA E O GRUPO SAIU DO CASTELINHO.

CORTA PARA:

CENA 5  -  PRAIA DE IPANEMA  -  CALÇADÃO  -  NOITE.


RICARDINHO, MARIO MALUCO, NÍVEA, HELÔ E VERINHA ESTAVAM SENTADOS A UM BANCO EM FRENTE Á PRAIA.

HELÔ  -  (lembrando da discussão com Susi) Se eu pudesse, matava aquela mulher!

RICARDINHO  -  (provocando)  Vai se acostumando a respeitar sua futura madrasta!

HELÔ  -  (furiosa) Olha, não me provoca porque hoje eu sou capaz de tudo!

VERINHA  -  Gente, não comecem a brigar, por favor!

MARIO MALUCO  -  Tive uma idéia.... vamos pra Curva do Calombo apostar uma corrida?

RICARDINHO  -  Taí, gostei! Eu topo!

HELÔ -  Vamos, Nívea?

NÍVEA  -  Não sei... não estou muito legal... acho melhor ir pra casa...

HELÔ  -  De jeito nenhum! Você vem com a gente! Vem!

HELÔ PUXOU NÍVEA PELO BRAÇO ATÉ SEU CARRO. VERINHA SEGUIU-AS. RICARDINHO E MARIO MALUCO, CADA UM EM SUA MOTO, ARRANCARAM RUMO Á LAGOA.

CORTA PARA:

CENA  6  -  CURVA DO CALOMBO  -  EXT.  NOITE.  
       


TUDO ACONTECEU EM POUCOS MINUTOS: RICARDINHO E MARIO MALUCO DERAM PARTIDA EM SUAS MOTOS, LADO A LADO, CANTANDO PNEUS E DEIXANDO PARA TRÁS UMA NUVEM DE FUMAÇA BRANCA EM MEIO AO CHEIRO FORTE DE BORRACHA QUEIMADA. 

HELÔ DIRIGIA SEU CARRO ESPORTE, EM COMPANHIA DE NÍVEA E VERINHA. SEGUIA  AS MOTOS PERIGOSAMENTE, NA PISTA PARALELA, NA CONTRAMÃO,  OBRIGANDO OS CARROS A FREAR BRUSCAMENTE E DESVIAR NUMA MANOBRA ARRISCADA, PARA NÃO  COLIDIREM. NÍVEA E VERINHA GRITAVAM, NUM MISTO DE MÊDO E EXCITAÇÃO. HELÔ GARGALHAVA.

A SIRENE DE DUAS VIATURAS DA RADIO-PATRULHA SOOU, ENCURRALANDO-OS NUMA RUA SEM SAÍDA. OS POLICIAIS REVISTARAM TODOS, INCLUINDO AS DUAS MOTOS E O CARRO DE HELÔ.

POLICIAL  -  Estão todos presos!

CORTA PARA:

CENA 7  -  DELEGACIA DE POLICIA  -  INT.  -  NOITE.


O DELEGADO FONTOURA ENCARAVA, FURIOSO, OS ACUSADOS DE PROMOVER UMA SÉRIE DE INFRAÇÕES NA CURVA DO CALOMBO. PAROU, DIANTE DOS FILHOS, VERINHA E MARIO MALUCO.

DELEGADO FONTOURA  -  Seus... seus delinqüentes! Arruaceiros!

MARIO MALUCO  -  Calma ai, velho, pega leve! Não é bem assim...

DELEGADO FONTOURA  -  (cortou, vermelho de raiva)  Cabo Jorge, quero todos em cana, seja quem for!

HELÔ  -  (revoltada) Peraí, o senhor não pode falar assim não! Não somos marginais e o senhor sabe disso muito bem!

DELEGADO FONTOURA  -  Tanto posso, como vou prender todos vocês! Marginais sim! E acho melhor ficar quieta, mocinha, ou acrescento á sua ficha desacato á autoridade!

RICARDINHO  -  Helô, segura tua onda, não piora as coisas...

HELÔ  -  (possessa)  Não pode, não! Quero falar com meu pai! Quem o senhor pensa que é? Hem? Quem pensa que é? Quero ir embora agora!

DELEGADO FONTOURA  -  (sorriu, irônico)  Ninguém vai embora, mocinha! Cabo, leve todos pro xadrez!

HELÔ  -  (fora de si)  Se alguém tocar em mim, eu acabo com isso aqui! Eu quebro tudo! Tudo!

DESVAIRADA, HELÔ COMEÇOU A QUEBRAR E JOGAR NO CHÃO TUDO O QUE VIA PELA FRENTE: TELEFONE, PAPÉIS, MÁQUINA DE CALCULAR, LIVROS E ATÉ UMA CADEIRA.

DELEGADO FONTOURA  -  (gritou, resfolegando)  Levem essa louca pra cela! Quero todos atrás das grades!
 

FIM DO CAPÍTULO 7
Mario Maluco (Osmar Prado), Verinha (Djenane Machado) e Ricardinho (Carlos Vereza)
e no próximo capítulo...
 Helô, Ricardinho, Nívea, Verinha e Mario Maluco se meteram numa enrascada daquelas! O que acontecerá à turma? Vão ser presos? 
Como reagirá o banqueiro Oliveira Ramos ao saber da prisão da filha?
Jurema de Alencar, a amante ciumenta de Ricardinho, entra em cena.

NÃO PERCA O CAPÍTULO 8 DE