quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

    



        CAPÍTULO 2

     Peitos nus, tostados pelo sol, os garimpeiros catavam a riqueza. As peneiras rudes passando, mão-a-mão, num ritmo de máquina. O trançado fino deixando escapar fios cristalinos de água do rio, retendo o cascalho bruto, as peneiras rolavam ns dança das mãos. Peneira na água. Peneira no sol. De mão-para-mão. Barro no rio. Cascalho no sonho que não se acabava. Era a cata do diamante.
     Jerônimo apareceu correndo. Telegrama na mão.
     -João! Ô João!
     O homem rijo susteve a peneira. Era um jovem másculo de peito largo, irmão Coragem de olhos negros, mãos calosas do trabalho duro de sol-a-sol. Fez sinal ao outro que esperasse. Era todo concentração no dançar das pedras. Jerônimo avizinhou-se, impaciente.
     -Bamburrou, mano?
     -Nada. É um chibiu, pedrinha miúda.
     -Olho de mosquito...
     -Que era que tu vinha gritando, feito maluco?
     -Trago notícia, Jão. Chegou telegrama do Rio. Do Duda... ele vai vir depois de amanhã.
     João virou-se risonho.
     -Duda? Vai vir aqui?
     -Pode lê o telegrama, mano.
     João segurou o telegrama com a mão molhada e suja de barro.
     -E mesmo. Puxa, há quanto tempo não vejo aquele sem-vergonha. Vai ser uma alegria pros velhos...
     -Tão chorando de alegria.
     -Menino, vai sê uma festança!



     Dois homens se aproximavam a cavalo. Um deles, tipo estranho, de gestos afeminados, conhecido em toda a região do garimpo. Juca Cipó. Homem de feições traiçoeiras, onde a maldade se mostrava clara. Caráter formado em anos de crime contra a gente simples do garimpo. Juca era temido. Rostos sombrios, ele e o companheiro alcançaram a margem do rio. Súbito silencio quebrou a alegria dos presentes.. O próprio ar pareceu parar de repente.
     -Tardes...
     -Tardes...
     -Como vai o garimpo, gentes? Bamburrando muito?
     -Que o quê.... só farinhada, quando muito.
     -Trago um recado do patrão procês. Do coroné Pedro Barros.
     Todos os olhos se voltaram a um  só tempo.
     -Que recado? – perguntou João Coragem.
     -Avisar a ocês que tem gringo na cidade. O coroné manda prevenir que quem vender diamante pra eles vai se dá mal...
     Jerônimo sentiu o rosto ferver. Tentou sacar da arma que descansava na bainha. Deu um passo á frente na direção do capanga. João, pressentindo a aproximação do perigo, num gesto rápido, conteve a fúria do irmão. Juca Cipó permanecia atento, o riso sarcástico na boca feminina. Jerônimo retrucou, impetuoso:
     -Pois diga lá ao “seu” coronel Pedro Barros que quem vai se dar mal é ele. Nós vendemos nossas pedra pra quem quisé.
     -Calma, Jerônimo... – e dirigindo-se a Juca Cipó. – Este garimpo é nosso. “Seu” coronel Pedro Barros manda lá, no garimpo dele.
     Impassível, acariciando a crina do animal, Juca observava a reação dos Coragens. Jerônimo apertou os olhos, nervosamente. Juca respondeu.
     -Tá certo. Mas na hora de vendê as pedras ocês tem que vendê pra ele.
     -A gente sempre vende.
     -E ele se aproveita pagando o que qué...
     -Até o dia que a gente quisé vendê a outro, porquê a gente é livre, Juca. – A explosão de João irritou o cavaleiro.
     Juca sorriu, irônico. João chegou perto da montada.
     -Hôme, vou até lhe dizê... Tenho encontro marcado com os gringos e vou vendê minhas pedras pra eles.
     Pois vamos vê... O recado ta dado. O resto é com ocês. Vamo.
     Juca partiu a galope seguido do capanga. Os irmãos permaneceram rígidos, como que tocados por um vendo de morte. Ao longo os cavalos se perdiam numa curva da estrada. O tropel cessara.
     -Que vontade, Jão, de dar uma surra nesse jagunço desgraçado.
     -Calma, mano. Nada de gastá vela com mau difunto...
     João estreitou o irmão num abraço e caminhou com ele até a beira do rio.
     -Anda. Vem me ajudá a catá um pouco. Esta noite sonhei que estava correndo atrás de um boi.
     -Sonhar com boi é pedra grande na certa!
     -E o boi era zebu.
     -Melhor ainda.
     O cascalho acumulava-se á margem do rio. Macias as águas rolavam acariciando o fundo barrento. O ritmo da peneirada voltou a alegrar os homens rudes e a confundir-se com a movimentação da natureza – o rio a correr, os pássaros a voar, o vento a embalar a copa das árvores. João lembrou-se do telegrama e da chegada do irmão.
     -Como será que ta o Duda, mano?
     -Tá um home. É jogadô de futebol, de fama.
     -Vivo que ele é. Encontrou uma mina nos pés, o safado. E a gente aqui, a dá duro feito um escravo...

                             





     
     NÃO PERCA O 3. CAPÍTULO DE IRMÃOS CORAGEM!

domingo, 9 de janeiro de 2011






      Capítulo 1
 

      O Maracanã estremecia. Bandeiras rubro-negras, aos milhares, agitavam-se no imenso anel do estádio. A cada finta, a cada passe, a multidão respondia com a cadencia do “olé”! Feições transtornadas, mãos que se apertavam em desespêro, na solidariedade do sofrimento. Era o Flamengo na ânsia da vitória. Em todo o campo – num eco gigantesco – a voz dos locutores brotava de dezenas de milhares de transistores.
       ...avança o Flamengo nos minutos derradeiros da partida. O placar permanece mudo. Só a vitória interessa á equipe da Gávea... Lá vai Gérson. Domina o couro. Ultrapassa o meio do campo. Finta um adversário. Passa por outro e estende na direita a Carlos Alberto, que entrega a Duda – a maior figura em campo...        O Brasil acompanhava atento a “tortura” de seu time mais querido. Frios, os ponteiros dos relógios assinalavam os instantes finais. O Flamengo insistia. O repentino silencio foi quebrado apenas pelo locutor nervoso:
       ...Duda investe pelo miolo. Vence um adversário. Dois. Penetra na área. Atenção. Pode marcar....
        De repente a loucura. O grito da multidão em uníssono.
        “Gooooooool! Goooooooool! Do Flamengo! Duda! Duda!
        Espocavam foguetes, frenéticas as bandeiras são agitadas. No gramado, um inferno. De novo a voz do locutor:
        “Uma pirâmide humana esmaga o ídolo da Gávea... Duda chora. O juiz olha o seu cronômetro. Vai terminar a partida. Há um delírio no Maracanã, senhoras e senhores. E atenção! – terminou o jogo... Flamengo, campeão carioca de 1965!
        Surdos e tamborins misturam-se aos gritos de Mengo! No gramado verde, salpicado de papéis, os rádio-repórteres investiam de microfones volantes:
       -E agora, Duda? Depois do título e do gol histórico...
    -Um só pensamento. Pedir licença ao clube para ver minha mãe. Visitar minha terra e abraçar meus irmãos, que não vejo há muitos anos. É tudo o que quero.
    -Senhoras e senhores, que admirável exemplo de profissional. Dono da tarde, autor do gol que deu o campeonato ao Flamengo, Duda foge de qualquer outro compromisso para voltar á sua terra, rever sua gente e sua mãezinha, numa cidade distante, no interior do país...
Duda (Claudio Marzo), Sinhana (Zilka Salaberry), João (Tarcísio Meira) e Jerônimo (Claudio Cavalcanti)



    Na casa rústica de Coroado, a velha Sinhana colocava o último prato sobre a mesa de pés maciços. Num canto da parede a imagem de São José. Sobre o baú secular – herança não se sabe de quem – algumas amostras sem valor de pedras da região. O cheiro do feijão bem temperado inundava a sala onde o garimpeiro Sebastião – pele curtida, enrugada, faces esquálidas – retirava a bota enlameada e gasta.
    -Sabe, velho – dizia Sinhana – esta noite sonhei com o nosso Duda, o ingratão.
    -Se preocupa não. O menino ta mais arranjado na vida que os dois irmãos, o Jerônimo e o João.
    Sinhana chegou á janela. Ao longe, na linha do horizonte, o risco das montanhas arranhava o céu. O verde das árvores tingia de alegria a solidão ambiente. A velha porteira, corroída pelo tempo, fechava os sonhos de liberdade do gado tristonho, a ruminar. Ao longe, um manto de poeira levantava-se da estrada de barro batido. Num galope cadenciado, um cavaleiro se aproximava.
    -Jerome vem aí.
    Era um jovem de traços belos, cabeleira revolta, gestos agressivos e expressão sofrida. O cavalo estacou retido pela pressão das rédeas, o suor do animal se confundindo com o suor do homem. Fôra longa a esticada de Coroado ao rancho humilde e pobre. Ligeiro o jovem saltou da sela, atou o laço num tronco de árvore e dirigiu-se á casa, agitado.
    -Mãe! Mãe!
    -Que e isso, Jerome! Que escarcéu é esse? Será que achou rubim?
    -Não. Mãe. Tava no garimpo, não. Vim da cidade, correndo pra lhe mostrá esse telegrama que seu Zequinha, do correio, me deu. É do Duda, mãe!
    Sinhana estremeceu.
    -Duda? Que é que diz, meu filho? Má nova?
     Jerônimo respondeu alegre:
    -Que ele chega depois de amanhã!
    A noticia fora forte demais. Sinhana escorou o corpo pesado de encontro á porta de madeira, com lágrimas a estourarem de seus olhos, O pensamento voltou aos dias de outros tempos. Ao filho ausente. Nascido ali. Na natureza agreste da região. Dali partira para a cidade grande. Aprendera a arte do futebol – “tão diferente das lutas do garimpo” – e hoje, famoso – “tava nos jornais e na boca de toda gente”.
    Jerônimo repetia:
    -Chega depois de amanhã, mãe. Parece mentira...
    -Tu leu direito, filho? É verdade mesmo?
    -Então. Mãe, eu não sei lê? Olha: “Chego trem de quinta-feira. Duda”.
    Sinhana pensava nos anos de ausência do filho. Nunca  escrevera uma linha, nunca mandara notícia... e as lágrimas deslizaram incontidas pela face da velha mãe.
    Jerônimo se aproximou. Com rudeza levantou as pontas do avental e enxugou as lágrimas da mãe.
    -Deixa isso pra lá, velha. Sei porquê ta chorando, mas cada um tem seu jeito de sê.
    A velha Sinhana voltou-se para o marido:
    -Se alegra, Bastião. Seu filho Duda vai chegar.
    -Ouvi tudo, mulher. Tou alegre. Você sabe que tou. – e dirigindo-se ao rapaz – Seu irmão já sabe?
    -João? Inda não.
    -Então corre, vai dizê pra ele. Ta no garimpo.
             
                      


NÃO PERCA O PRÓXIMO CAPÍTULO!!!





 de Janete Clair



 Personagens e Intérpretes da Primeira Versão, em 1970


João...............................................................................Tarcisio Meira
Eduardo (Duda).............................................................Claudio Marzo
Jerônimo..................................................................Claudio Cavalcanti
Lara, Diana, Márcia......................................................Gloria Menezes
Ritinha.............................................................................Regina Duarte
Lídia..................................................................................Sonia Braga
Sinhana.........................................................................Zilka Salaberry
Potira.................................................................................Lucia Alves
Rodrigo................................................................Jose Augusto Branco
Indaiá..............................................................................Jurema Penna
Braz...........................................................................Milton Gonçalves
Cema................................................................................Suzana Faini
Alberto.............................................................................Michel Robin
Branca............................................................................Neuza Amaral
Lourenço, Bianchini........................................................Hemilcio Fróes
Antonio...............................................................................Ivan Borges
Pedro Barros..............................................................Gilberto Martinho
Estela...............................................................................Glauce Rocha
Dalva..................................................................................Mirian Pires
Domingas...............................................................................Ana Ariel
Juca Cipó....................................................................Emiliano Queiróz
Lázaro....................................................................................Dary Reis
Falcão............................................................Carlos Eduardo Dolabella
Maciel.................................................................................Enio Santos
Padre Bento.....................................................................Macedo Neto
Gentil Palhares...........................................................Arthur Costa Filho
Manuela................................................................Lourdinha Bittencourt
Paula..................................................................................Mirian Pérsia
Hernani...............................................................................Paulo Araújo
Fausto Paiva..................................................................Telmo de Avelar
Tula....................................................................................Yara Amaral
M.Laport..........................................................................José Steinberg
Gastão...............................................................................Otoniel Serra
Dr. Rafael........................................................................Renato Master
Nita...............................................................................Ana Maria Lage
Beato.................................................................................Atila Almeida
Margarida..............................................................................Leda Lúcia
Deolinda...........................................................................Monah Delacy
Siqueira............................................................................Felipe Wagner




UMA TELENOVELA DA REDE GLOBO DE TELEVISÃO
FICHA TÉCNICA

Autora: JANETE CLAIR

Diretor: Daniel Filho, depois Milton Gonçalves
Coordenador de Produção: Ivan Borges
Assistentes de produção: Milton Cupello, Gerson Pereira
Diretor de TV: Reinaldo Boury
Câmeras: Paulo Neto, Marco Bagno, Milton Valinho
Sonoplastia: Antonio Faya
Contra-regras: Robson Nascimento, Dulcival Neves
Cenografia: Mario Monteiro, Manoel Ribeiro
Iluminador: Silvio Carneiro
Figurinos: Carlos Sorensen
Áudio: Edson Wanderley
Produção Musical: Nelson Motta
Composições de Antonio Adolfo
Chico Buarque de Hollanda
Denise Emmer
Dori Caymmi
Fred Falcão
Luiz Carlos Sá
Nelson Motta
Nonato Buzar
Paulinho Tapajós
Tibério Gaspar
Tim Maia

Adaptação do texto para romance: MANOEL TAVARES

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

DIA 10 DE JANEIRO ESTRÉIA!!!


A luta pela liberdade e contra a opressão é o eixo deste folhetim que conta a história dos irmãos Coragem - João, Jerônimo e Duda. Na fictícia cidade de Coroado, João encontra um enorme diamante. Por causa disso, os três irmãos passam a ser perseguidos pelo poderoso coronel Pedro Barros, dono de quase todos os garimpos da região.


DIA 10 DE JANEIRO, O PRIMEIRO CAPÍTULO DA OBRA DE JANETE CLAIR!

domingo, 26 de dezembro de 2010

Irmãos Coragem - Versão romanceada do roteiro de Janete Clair



A luta pela liberdade e contra a opressão é o eixo deste folhetim que conta a história dos irmãos Coragem - João, Jerônimo e Duda.




A partir de janeiro, postaremos esta grande novela em capítulos diários!!



Não perca!!!!