sábado, 23 de abril de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 1


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair

CAPÍTULO 1

PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:

DUDA
SINHANA
SEBASTIÃO
JERÔNIMO
JOÃO
JUCA CIPÓ
JAGUNÇO
LOCUTOR
GARIMPEIROS


LETREIRO:
RIO DE JANEIRO  -  1965


CENA 1 -  ESTADIO DO MARACANà -    EXT.  -  DIA

O Maracanã estremecia. Bandeiras rubro-negras, aos milhares, agitavam-se no imenso anel do estádio. A cada finta, a cada passe, a multidão respondia com a cadencia do “olé”! Feições transtornadas, mãos que se apertavam em desespero, na solidariedade do sofrimento. Era o Flamengo na ânsia da vitória. Em todo o campo – num eco gigantesco – a voz dos locutores brotava de dezenas de milhares de transistores. O Brasil acompanhava atento a “tortura” de seu time mais querido. Frios, os ponteiros dos relógios assinalavam os instantes finais. O Flamengo insistia. 

LOCUTOR - (off)       ...Avança o Flamengo nos minutos derradeiros da partida. O placar permanece mudo. Só a vitória interessa á equipe da Gávea... Lá vai Gérson. Domina o couro.

Ultrapassa o meio do campo. Finta um adversário. Passa por outro e estende na direita a Carlos Alberto, que entrega a Duda – a maior figura em campo... O Brasil acompanha atento a “tortura” do seu time mais querido. Frios, os ponteiros do relógio assinalam os instantes finais. O Flamengo insiste! 

O repentino silêncio foi quebrado apenas pelo locutor nervoso

LOCUTOR - (off)      ...Duda investe pelo miolo. Vence um adversário. Dois. Penetra na área. Atenção. Pode marcar....

De repente a loucura. O grito da multidão em uníssono.

LOCUTOR - (off)    “Gooooooool! Goooooooool! Do Flamengo! Duda! Duda!

Espocavam foguetes, frenéticas as bandeiras são agitadas. No gramado, um inferno.

LOCUTOR -    “Uma pirâmide humana esmaga o ídolo da Gávea... Duda chora. O juiz olha o seu cronômetro. Vai terminar a partida. Há um delírio no Maracanã, senhoras e senhores. E atenção! – terminou o jogo... Flamengo, campeão carioca de 1965!

Surdos e tamborins misturam-se aos gritos de Mengo! No gramado verde, salpicado de papéis, os rádio-repórteres investiam de microfones volantes.


REPÓRTER -       E agora, Duda? Depois do título e do gol histórico...

DUDA -    Um só pensamento. Pedir licença ao clube para ver minha mãe. Visitar minha terra e abraçar meus irmãos, que não vejo há muitos anos. É tudo o que quero.

REPÓRTER -  Senhoras e senhores, que admirável exemplo de profissional. Dono da tarde, autor do gol que deu o campeonato ao Flamengo, Duda foge de qualquer outro compromisso para voltar á sua terra, rever sua gente e sua mãezinha, numa cidade distante, no interior do país...

CORTA PARA:

LETREIRO:   COROADO

CENA 2 –RANCHO CORAGEM  -  SALA DE JANTAR  -  INT.  -  DIA

Na casa rústica de Coroado, a velha Sinhana colocava o último prato sobre a mesa de pés maciços. Num canto da parede a imagem de São José. Sobre o baú secular – herança não se sabe de quem – algumas amostras sem valor de pedras da região. O cheiro do feijão bem temperado inundava a sala onde o garimpeiro Sebastião – pele curtida, enrugada, faces esquálidas – retirava a bota enlameada e gasta.


SINHANA   -      Sabe, velho,esta noite sonhei com o nosso Duda, o ingratão.

SEBASTIÃO  -  Se preocupa não. O menino tá mais arranjado na vida que os dois irmãos, o Jerônimo e o João.

Sinhana chegou á janela. Ao longe, na linha do horizonte, o risco das montanhas arranhava o céu. O verde das árvores tingia de alegria a solidão ambiente. A velha porteira, corroída pelo tempo, fechava os sonhos de liberdade do gado tristonho, a ruminar. Ao longe, um manto de poeira levantava-se da estrada de barro batido. Num galope cadenciado, um cavaleiro se aproximava.

SINHANA  -   (sotaque carregado)  Jerome vem aí.


CENA 3 – RANCHO CORAGEM  -  EXT.  -  DIA.

Era um jovem de traços belos, cabeleira revolta, gestos agressivos e expressão sofrida. O cavalo estacou retido pela pressão das rédeas, o suor do animal se confundindo com o suor do homem. Fôra longa a esticada de Coroado ao rancho humilde e pobre.

Ligeiro o jovem saltou da sela, atou o laço num tronco de árvore e dirigiu-se á casa, agitado.

CENA 4 – RANCHO CORAGEM  -  SALA  -  INT.  -  DIA


JERÔNIMO    -         Mãe! Mãe!

SINHANA    -   Que e isso, Jerome! Que escarcéu é esse? Será que achou rubim?

JERÔNIMO    -    Não. Mãe. Tava no garimpo, não. Vim da cidade, correndo pra lhe mostrá esse telegrama que seu Zequinha, do correio, me deu. É do Duda, mãe!

SINHANA   -    (estremeceu))  Duda? Que é que diz, meu filho? Má nova?

JERÔNIMO  -    (alegre)   Que ele chega depois de amanhã!

A noticia fôra forte demais. Sinhana escorou o corpo pesado de encontro á porta de madeira, com lágrimas a estourarem de seus olhos, O pensamento voltou aos dias de outros tempos. Ao filho ausente. Nascido ali. Na natureza agreste da região. Dali partira para a cidade grande. Aprendera a arte do futebol – “tão diferente das lutas do garimpo” – e hoje, famoso – “tava nos jornais e na boca de toda gente”.

JERÔNIMO  -   Chega depois de amanhã, mãe. Parece mentira...

SINHANA  -   Tu leu direito, filho? É verdade mesmo?

JERÔNIMO  -  Então. Mãe, eu não sei lê? Olha: (lê em voz alta) “Chego trem de quinta-feira. Duda”.

Sinhana pensava nos anos de ausência do filho. Nunca  escrevera uma linha, nunca mandara notícia... e as lágrimas deslizaram incontidas pela face da velha mãe. Jerônimo se aproximou. Com rudeza levantou as pontas do avental e enxugou as lágrimas da mãe.

SEBASTIÃO   -   Deixa isso pra lá, velha. Sei porquê ta chorando, mas cada um tem seu jeito de sê.

SINHANA  -  (voltou-se para o marido)   Se alegra, Bastião. Seu filho Duda vai chegar.

SEBASTIÃO   -  Ouvi tudo, mulher. Tou alegre. Você sabe que tou. (dirigindo-se ao filho) Seu irmão já sabe?

JERÔNIMO   -   João? Inda não.

SINHANA   -   Então corre, vai dizê pra ele. Tá  no garimpo.

CORTA PARA:

CENA 2 -  GARIMPO DOS CORAGEM  -  EXT.  -  DIA

Peitos nus, tostados pelo sol, os garimpeiros catavam a riqueza. As peneiras rudes passando, mão-a-mão, num ritmo de máquina. O trançado fino deixando escapar fios cristalinos de água do rio, retendo o cascalho bruto, as peneiras rolavam ns dança das mãos. Peneira na água. Peneira no sol. De mão-para-mão. Barro no rio. Cascalho no sonho que não se acabava. Era a cata do diamante. 



Jerônimo apareceu correndo.

 
JERÔNIMO  -  (telegrama na mão) João! Ô João!

O homem rijo susteve a peneira. Era um jovem másculo de peito largo, irmão Coragem de olhos negros, mãos calosas do trabalho duro de sol-a-sol. Fez sinal ao outro que esperasse. Era todo concentração no dançar das pedras. Jerônimo avizinhou-se, impaciente.

JERÔNIMO  -  Bamburrou, mano?

JOÃO  -  Nada. É um chibiu, pedrinha miúda.

JERÔNIMO  -  Olho de mosquito...

JOÃO  -   Que era que tu vinha gritando, feito maluco?

JERÔNIMO  -  Trago notícia, Jão. Chegou telegrama do Rio. Do Duda... ele      vai vir depois de amanhã.

JOÃO – (virando-se risonho)  Duda? Vai vir aqui?
   
JERÔNIMO – Pode lê o telegrama, mano.

JOÃO  -  (segurando  o telegrama com a mão molhada e suja de barro)  É  mesmo. Puxa, há quanto tempo não vejo aquele sem-vergonha. Vai ser uma alegria pros velhos...

JERÔNIMO  -  Tão chorando de alegria.

JOÃO  -  (feliz) Menino, vai sê uma festança!

Dois homens se aproximavam a cavalo. Um deles, tipo estranho, de gestos afeminados, conhecido em toda a região do garimpo. Juca Cipó. Homem de feições traiçoeiras, onde a maldade se mostrava clara. Caráter formado em anos de crime contra a gente simples do garimpo. Juca era temido. Rostos sombrios, ele e o companheiro alcançaram a margem do rio. Súbito silencio quebrou a alegria dos presentes.. O próprio ar pareceu parar de repente.

JUCA CIPÓ  -  Tardes...

JOÃO  -  Tardes...

JUCA CIPÓ  -  Como vai o garimpo, gentes? Bamburrando muito?

JOÃO  -  Que o quê.... só farinhada, quando muito.

JUCA CIPÓ  -  Trago um recado do patrão procês. Do coroné Pedro Barros.

Todos os olhos se voltaram a um  só tempo.

JOÃO  -  Que recado?

JUCA CIPÓ  -  Avisar a ocês que tem gringo na cidade. O coroné manda prevenir que quem vender diamante pra eles vai se dá mal...

Jerônimo sentiu o rosto ferver. Tentou sacar da arma que descansava na bainha. Deu um passo á frente na direção do capanga. João, pressentindo a aproximação do perigo, num gesto rápido, conteve a fúria do irmão. Juca Cipó permanecia atento, o riso sarcástico na boca feminina.

JERÔNIMO – (impetuoso)  -  Pois diga lá ao “seu” coronel Pedro Barros que quem vai se dar mal é ele. Nós vendemos nossas pedra pra quem quisé.

JOÃO - Calma, Jerônimo... ( e dirigindo-se a Juca Cipó)  Este garimpo é nosso. “Seu” coronel Pedro Barros manda lá, no garimpo dele.

Impassível, acariciando a crina do animal, Juca observava a reação dos Coragens. Jerônimo apertou os olhos, nervosamente.

JUCA  -  Tá certo. Mas na hora de vendê as pedras ocês tem que vendê pra ele.

JOÃO  -  A gente sempre vende.

JERÔNIMO  -  E ele se aproveita pagando o que qué...

JOÃO  -  (explodindo) Até o dia que a gente quisé vendê a outro, porquê a gente é livre, Juca!

Juca irritou-se. Sorriu, irônico.

JOÃO – (chegando perto da montada)  Hôme, vou até lhe dizê... Tenho encontro marcado com os gringos e vou vendê minhas pedras pra eles.

JUCA  -  Pois vamos vê... O recado tá dado. O resto é com ocês. Vamo.

Juca partiu a galope seguido do capanga. Os irmãos permaneceram rígidos, como que tocados por um vento de morte. Ao longe os cavalos se perdiam numa curva da estrada. O tropel cessara.


JERÔNIMO  -  Que vontade, Jão, de dar uma surra nesse jagunço desgraçado.

JOÃO  -  Calma, mano. Nada de gastá vela com mau difunto...

João estreitou o irmão num abraço e caminhou com ele até a beira do rio.

JOÃO  -  Anda. Vem me ajudá a catá um pouco. Esta noite sonhei que estava correndo atrás de um boi.

JERÔNIMO  -  Sonhar com boi é pedra grande na certa!

JOÃO  -  E o boi era zebu.

JERÔNIMO  -  Melhor ainda.

O cascalho acumulava-se á margem do rio. Macias as águas rolavam     acariciando o fundo barrento. O ritmo da peneirada voltou a alegrar os   homens rudes e a confundir-se com a movimentação da natureza – o rio a correr, os pássaros a voar, o vento a embalar a copa das árvores. João lembrou-se do telegrama e da chegada do irmão.

JOÃO  -  Como será que ta o Duda, mano?

JERÔNIMO  -  Tá um home. É jogadô de futebol, de fama.

JOÃO  -  Vivo que ele é. Encontrou uma mina nos pés, o safado. E a gente aqui, a dá duro feito um escravo...


FIM DO CAPÍTULO 1
Duda (Cláudio Marzo), Sinhana (Zilka Salaberry), João (Tarcísio Meira) e Jerônimo (Cláudio Cavalcanti)


E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

#  NO GARIMPO DO CORONEL PEDRO BARROS, SEUS CAPANGAS CASTIGAM O GARIMPEIRO BRAZ, ACREDITANDO QUE ENGOLIU UM DIAMANTE.

#  COROADO ESTÁ EM FESTA COM A CHEGADA DO ÍDOLO DO FLAMENGO.

#  RITINHA ESTÁ ANSIOSA PARA REVER SEU AMOR DE INFÃNCIA.

#  JOÃO CORAGEM SE IMPRESSIONA COM A BELEZA DE MARIA DE LARA, FILHA DE SEU INIMIGO, O CORONEL PEDRO BARROS.

 

NÃO PERCA O CAPÍTULO 2 DE IRMÃOS CORAGEM!!!



sábado, 12 de fevereiro de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 14

    CAPÍTULO 14

     No rancho humilde da família Coragem, Jerônimo e Potira estavam almoçando. Sinhana acabara de colocar os pratos sobre a mesa e sentava-se também para acompanhar os filhos. De repente a porta da frente se abriu e Duda e Ritinha deram um passo em direção á sala. As atenções se concentraram no casal. Jerônimo, surpreso, não tirava os olhos dos dois.
     Duda quebrou o silencio repentino.
     -Entra, Ritinha, esta casa agora é sua.
     Ritinha entrou, quase chorando.
     -Vem, não se acanhe não. – E virando-se para os presentes: - O pai dela expulsou a pobre de casa.
     Enquanto o jovem entrava em seus aposentos, no interior da casa, Jerônimo fez a pergunta:
     -Que foi que andou fazendo com você, Rita?
     -Ninguém fez nada, gente. Não houve nada. A gente brincou sem mal. Se jogou na água. A gente... só se beijou... sem mal. Será que ninguém acredita nisso?
     Sinhana ponderou:
     -É. O mal todo é esse, menina. É que ninguém vai acreditar.
     -E agora como vai ser? – quis saber Jerônimo.
     Duda voltara do quarto após tomar banho.
     -Já sei, vocês também estão pensando coisas horríveis a nosso respeito.
     Jerônimo segurou o irmão pelos ombros. Mãos firmes.
     -A realidade é esta, mano: mesmo que não tenha acontecido nada... você vai ter que casar com ela.
     Duda teve um choque ao ouvir as palavras do irmão.
     -O que!? Ca... casar... com... com ela. Mas... isto é um disparate!
     Sinhana entrou na conversa. Incisiva.
     -Vai ter, Duda. Honra de moça é um negócio muito sério. Compreenda, filho. Não é problema se você errou ou não errou. O problema é ela ficar falada, desmoralizada.
     -Vai ter que casar, Duda. Num tem pra onde.


     No centro da cidade vários homens se divertiam vendo o cavaleiro puxar uma moça enlaçada pela cintura. Descalça, sapatos atirados no meio da rua, a jovem vestida de chita, gritava e esbravejava.
     -Desgraçado! Patife! Me solta!
     O cavaleiro, objeto da fúria da moça, respondia aos insultos.
     -Devolve o dinheiro. Devolve, vagabunda. Ou vai ter de sambar na corda aqui pra gente ver.
     Alguém perguntou – “Quem é ela?”
     -Uma ladra. Roubou dinheiro da venda do Peixoto.
     O grupo havia se afastado, dispersando-se. A jovem permanecera sozinha. Calçava os sapatos de fivela e ajeitava os cabelos revoltos. Uma voz surpreendeu o seu silencio.
     -Será que estou ficando doido ou você não é a moça que roubou meu cavalo?
     -Epa... lá vem mais um. Será que nesta cidade todo mundo é gira?
     João coragem insistiu.
     -Nós dois...quero dizer... a gente já não se viu,  não?
     -Nunca vi sua cara. Você viu a minha? Agora sou também ladra de cavalos. Olha aqui, nunca vi seu cavalo, e muito menos você, bonitão. Mas se quer que a gente se conheça melhor, não me custa nada. É só dizer... “me ajude”.
     -Olha, juro que rezei pra te encontrar de novo.
     -Onde foi que você me viu? Eu não me lembro.
     -Por quê ta fingindo? Eu te socorri, te cuidei...
     -Está brincando...se é desculpa pra gente entrar num entendimento, tá perdendo seu tempo.
     -Não... não é isso... eu precisava te ver de novo.
     Uma voz chamou o rapaz. Era o Promotor Rodrigo César. João esqueceu por uns instantes a presença da moça.
     -Sei que esteve em minha casa. – Virando-se á procura da jovem misteriosa. – Aquela moça...cadê ela?
     Mais uma vez a mulher desaparecera sem explicação.


     Do interior da casa, Potira e Sinhana ouviram o galope do cavalo. Chegaram á porta do rancho. O cavaleiro era Lourenço, capataz de Pedro Barros.
     -O moço Duda ta aí?
     -Tá não. O que qué dele?
     -Recado do meu patrão. Ele que se prepare pra casar com a filha do Dr. Maciel, ainda hoje.
     -Meu filho não precisa ser obrigado. Se é o certo, ele casa. Se não é, ninguém obriga.
     -Certo ou não, ele vai casá. É uma ordem. Coroado em peso está esperando. E vai ser hoje. Na igreja do padre Bento.
     Lourenço deu a volta ao cavalo e saiu em disparada.

 FIM DO CAPÍTULO 14
João (Tarcisio Meira) e Maria de Lara (Gloria Menezes)

NÃO PERCA O CAPÍTULO 15 DE IRMÃOS CORAGEM
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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 13

CAPÍTULO 13

  
     Duda procurava as malas e algumas roupas trazidas do Rio, para a estada no rancho da família. Entrou no quarto dos irmãos. Deparou com Ritinha, sentada ao fundo, dobrando algumas peças do seu vestuário.
     -Oi... você está aí?
     -Tava te esperando, Duda.
     -Pra que tava me esperando?
     -Pra te dizer o quanto lamento tudo o que está acontecendo com a gente. E pra lhe dizer também... que não quero te forçar a nada. Não quero que se case comigo obrigado. Mesmo porque não tem graça, não é? Você se casar sem gostar.
     Eduardo se sentou na cama e forçou a moça a fazer o mesmo.
     -Não. Não é esse o problema, Ritinha. O caso... é que não tenho condições de me casar nem com você... nem com ninguém. A minha vida é dura... é dura, viu? Uma vida sem parada. Hoje eu estou aqui, amanhã posso estar em São Paulo, Recife. Não é vida que a gente possa se dedicar a uma mulher. Não é a vida que mulher nenhuma deseje ter.
     Rita abraçou Eduardo, com ternura.
     -Duda. Se fosse só isso... eu te digo: estou disposta a enfrentar qualquer coisa. Disposta a me sacrificar por você, a passar a vida esperando por você... mas eu quero ser sua mulher. Mas o caso, Duda, eu sei... é que você não gosta de mim.
     -Gostar, eu gosto, mas não é como você merece, Rita.
     Rita de Cássia sentia que o sonho de sua vida poderia transformar-se em realidade. Bastava um pouco mais de estímulo para que tudo pudesse dar certo.
     -Se gosta um pouquinho, Duda, case comigo. Me leve com você... Eu não quero forçar, é claro. Mas gostaria tanto de partir com você. Desejo tanto ser sua mulher.
     As feições de Eduardo traduziam o conflito que lhe ia nalma.
     -Eu sinto... mas não dá pé, Ritinha. Não tem jeito não.
     Saiu apressadamente, com a mala segura pela mão. A velha Sinhana interveio, surgindo do fundo da casa.
     -Onde vai?
     -Embora pro Rio, mãe. Aluguei um táxi que vai me levar de volta amanhã cedo.
     -Teu pai quer te dizer duas palavras.
     -O que é, mãe?
     -Isso que você vai fazer, filho, não é próprio de gente de bem.
     -Eu não quero ouvir mais nada.
     -Vem. O pai te espera.


     Já próximo á choupana de Braz Canoeiro, João e a desconhecida beijaram-se ardentemente sobre a cela do cavalo. A moça saltou, lépida e, correndo pela margem do riacho, arrancou uma planta, atirando-a ao rosto do rapaz. Ele, perseguindo-a, conseguiu alcançá-la e, derrubando-a. a abraçou.
     -Sabe, moça, nunca vi ninguém como você.
     -Nunca viu mulher?
     -Mulher, já. Não do seu jeito.
     -E o que é que tem meu jeito?
     -Ocê tem cara de santa, mas... parece um demônio. Um demônio de tentação... de fogo...
     O apelo era forte demais. Os braços de João Coragem envolviam o delicado corpo da moça. Seus lábios se uniram num desejo mútuo. Cema surgiu á porta da choupana, deparando com a cena amorosa. João percebeu a presença da mulher de Braz Canoeiro.
     -Vem cá, Cema. Eu trouxe essa moça pra ocê olhar pra ela. Olha bem pra cara dela. Veja se não é a mesma que roubou meu cavalo?
     -Parecer, se parece muito. Só que a outra... não vi sorrir nenhuma só vez, Jão.
    João pediu a Cema para hospedar a desconhecida por algum tempo no pobre casebre do garimpeiro.
     -Pode, Jão. Tenho confiança em ocê.
     -O caso é que eu não tenho nela...
     -Ocê fica á vontade. Amanhã... de manhãzinha eu tou de volta com meu Braz.
     Cema saiu, trouxa á cabeça, deixando o rapaz no meio do terreiro, imerso em pensamentos. A voz da moça acordou-o das reflexões.
     -Ei, João Coragem, vem ou não vem?
     Amarrou o cavalo no troco de uma árvore e, desajeitado, entrou apressadamente na choupana de Braz.
     O diálogo foi breve.
     -Eu quero ser sua. Você não me comprou? Sim... a fiança... não foi meu preço?
     -Não vê que isso não pode ser. Cê tem que ter alguém que cuide de sua vida. Não pode ter vindo de qualquer lugar.
     -E vim.
     -De onde?
     -De uma cidade que você não conhece. Longe daqui. Mas eu acho que isso agora não tem grande importância.
     -Não tem?
     -Porquê eu agora sou sua.
     João observou a moça, espantado com a ousadia de suas palavras.
     -Ou... você não me quer?
     -Escute aqui... você é doida? Fugiu de algum manicômio?
     Encarando o olhar do rapaz, a moça principiou um sorriso até alcançar a intensidade de uma gargalhada.
     -Eu nem sei o seu nome!
     -Diana. Diana Lemos.
     A noite avançava. O silencio quebrado apenas pelo tritinar dos grilos na beira do riacho.
     Diana e João dormiam.

FIM DO CAPÍTULO 13
Diana (Gloria Menezes) e João Coragem (Tarcisio Meira)

 NÃO PERCA O CAPÍTULO 14 DE IRMÃOS CORAGEM

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 12

  CAPÍTULO 12

     Na igreja do Padre Bento reuniam-se João, Duda, Jerônimo e o vigário.
     Duda abriu a conversa:
     -Mas... o que está havendo?
     -A gente quer que ocê, meu irmão, tome uma atitude de homem no caso da Ritinha – explicou João.
     -Se eu não tivesse respeitado ela. Mas não houve nada, João. Coisa de louco.
     Jerônimo ponderou:
     -O nome dela caiu na boca do povo. Isso não é nada, Duda?
     -A gente não quer forçá, mas ocê não vai perder nada se casando com ela. É uma boa moça e gosta de você – considerou João.
     -Mas ele não pode casar com ninguém.
     A voz viera da porta de entrada da igreja. Ninguém notara a presença estranha.
     -Diga a eles, Duda, que você não pode se casar com essa moça.
     Duda replicou, grosseiro:
     -Cale a boca, Paula. Eu me defendo e não é preciso que você diga nada.
     -Mas agora eu quero sabê – João estava sério.
     -Eu e Duda somos... somos noivos. Estamos de casamento marcado.
     João não se deu por vencido com a intervenção de Paula.
     -Tão de casamento marcado, mas não tão de papel passado. Sinto muito, dona, mas a senhora acaba de perder um noivo.
     -Está de acordo com isso, Duda?
     -Ei! Esperem aí! De acordo coisa nenhuma. Quem decide a minha vida sou eu.
     Mudo até aquele instante, Padre Bento sentiu a ameaça da explosão, diante dos rumos tomados pela conversa.
     -Meus filhos...respeitem a casa de Deus.
     Duda, acompanhado de Paula, deixou o recinto do templo. João e Jerônimo permaneceram ao lado do Padre.
     -Esse idiota vai dar pano pra manga... pros nosso inimigo zombar de nós. Eu, João Coragem, você, Jerônimo... O pai e a mãe... nossa família que tem fama de justiceira, de gente boa, sem mancha... a gente que só pensa em acabar com a maldade desta terra... que temos a nosso favor a confiança de todo o povo, vamos ser arrasado por causa de um erro do nosso irmão.
     -Ele tem razão, Jerônimo. Nesta terra, quem lutar contra o Coronel Pedro Barros tem que ter a honra inatacável.


     A estranha ladra de Coroado dormia serenamente na cela da cadeia local. Fôra apanhada roubando dinheiro da caixa da Igreja. Esperava a visita de João Coragem, a quem dissera conhecer e mandara chamar, logo que fô    ra levada á delegacia.
     João entrou, abruptamente, na sala do delegado. Falcão virou-se, atento.
     -Olá, João. Aí está ela. Conhece?
     -Olá, meu amigão. Me tira daqui que eu juro que não se arrepende.
     O delegado esclareceu a ocorrência:
     -Seu irmão trouxe ela. Viu roubar todo o dinheiro da caixa da igreja. Conhece ela?
     O espanto do rapaz se traduzia na expressão do rosto. Boquiaberto. Pasmo.
     -Claro que eu conheço. Tira ela daqui. Eu me responsabilizo por ela.
     O delegado estava atônito.
     -Juro que não entendo mais nada. Pensei que fosse a filha do seu Pedro Barros.
     João olhou espantado para a autoridade policial. E para a moça que saía calmamente do interior da cela.
     -Filha dele?
     Graças a Deus que não é. Ficou provado que não é. Telefonei e a moça estava lá. Por Deus, nunca vi duas pessoas se parecerem tanto.
     A jovem desconhecida aproximou-se do rapaz.
     -Então. Bonitão. Muito obrigada. Você é bacana pra burro.
     João agarrou-a pelo braço.
     -Onde pensa que vai?
     -Cuidar da minha vida!
     -Tá enganada. Agora sou responsável por você. Você vem comigo.
     Ela tentou desvencilhar-se das mãos fortes do mancebo.
     -Você não é meu dono!  Não me comprou!
     A moça subiu a garupa do cavalo de João Coragem e o rapaz fez o animal galopar. Riam alegres. Durante alguns minutos atravessaram as ruas da pequena cidade, sob os olhos curiosos da população. Pouco depois ganharam o campo, num galope firme, decidido. Homem e mulher se confundindo com a natureza.

 
    FIM DO CAPÍTULO 12
Gentil Palhares (Artur Costa Filho) e Diana (Gloria Menezes)
 NÃO PERCA O CAPÍTULO 13 DE IRMÃOS CORAGEM

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 11





CAPÍTULO 11

  No rancho humilde da família Coragem, Jerônimo e Potira estavam almoçando. Sinhana acabara de colocar os pratos sobre a mesa e sentava-se também para acompanhar os filhos. De repente a porta da frente se abriu e Duda e Ritinha deram um passo em direção á sala. As atenções se concentraram no casal. Jerônimo, surpreso, não tirava os olhos dos dois.
     Duda quebrou o silencio repentino.
     -Entra, Ritinha, esta casa agora é sua.
     Ritinha entrou, quase chorando.
     -Vem, não se acanhe não. – E virando-se para os presentes: - O pai dela expulsou a pobre de casa.
     Enquanto o jovem entrava em seus aposentos, no interior da casa, Jerônimo fez a pergunta:
     -Que foi que andou fazendo com você, Rita?
     -Ninguém fez nada, gente. Não houve nada. A gente brincou sem mal. Se jogou na água. A gente... só se beijou... sem mal. Será que ninguém acredita nisso?
     Sinhana ponderou:
     -É. O mal todo é esse, menina. É que ninguém vai acreditar.
     -E agora como vai ser? – quis saber Jerônimo.
     Duda voltara do quarto após tomar banho.
     -Já sei, vocês também estão pensando coisas horríveis a nosso respeito.
     Jerônimo segurou o irmão pelos ombros. Mãos firmes.
     -A realidade é esta, mano: mesmo que não tenha acontecido nada... você vai ter que casar com ela.
     Duda teve um choque ao ouvir as palavras do irmão.
     -O que!? Ca... casar... com... com ela. Mas... isto é um disparate!
     Sinhana entrou na conversa. Incisiva.
     -Vai ter, Duda. Honra de moça é um negócio muito sério. Compreenda, filho. Não é problema se você errou ou não errou. O problema é ela ficar falada, desmoralizada.
     -Vai ter que casar, Duda. Num tem pra onde.
 


     No centro da cidade vários homens se divertiam vendo o cavaleiro puxar uma moça enlaçada pela cintura. Descalça, sapatos atirados no meio da rua, a jovem vestida de chita, gritava e esbravejava.
     -Desgraçado! Patife! Me solta!
     O cavaleiro, objeto da fúria da moça, respondia aos insultos.
     -Devolve o dinheiro. Devolve, vagabunda. Ou vai ter de sambar na corda aqui pra gente ver.
     Alguém perguntou – “Quem é ela?”
     -Uma ladra. Roubou dinheiro da venda do Peixoto.
     O grupo havia se afastado, dispersando-se. A jovem permanecera sozinha. Calçava os sapatos de fivela e ajeitava os cabelos revoltos. Uma voz surpreendeu o seu silencio.
     -Será que estou ficando doido ou você não é a moça que roubou meu cavalo?
     -Epa... lá vem mais um. Será que nesta cidade todo mundo é gira?
     João coragem insistiu.
     -Nós dois...quero dizer... a gente já não se viu,  não?
     -Nunca vi sua cara. Você viu a minha? Agora sou também ladra de cavalos. Olha aqui, nunca vi seu cavalo, e muito menos você, bonitão. Mas se quer que a gente se conheça melhor, não me custa nada. É só dizer... “me ajude”.
     -Olha, juro que rezei pra te encontrar de novo.
     -Onde foi que você me viu? Eu não me lembro.
     -Por quê ta fingindo? Eu te socorri, te cuidei...
     -Está brincando...se é desculpa pra gente entrar num entendimento, tá perdendo seu tempo.
     -Não... não é isso... eu precisava te ver de novo.
     Uma voz chamou o rapaz. Era o Promotor Rodrigo César. João esqueceu por uns instantes a presença da moça.
     -Sei que esteve em minha casa. – Virando-se á procura da jovem misteriosa. – Aquela moça...cadê ela?
     Mais uma vez a mulher desaparecera sem explicação.
     Do interior da casa, Potira e Sinhana ouviram o galope do cavalo. Chegaram á porta do rancho. O cavaleiro era Lourenço, capataz de Pedro Barros.
     -O moço Duda ta aí?
     -Tá não. O que qué dele?
     -Recado do meu patrão. Ele que se prepare pra casar com a filha do Dr. Maciel, ainda hoje.
     -Meu filho não precisa ser obrigado. Se é o certo, ele casa. Se não é, ninguém obriga.
     -Certo ou não, ele vai casá. É uma ordem. Coroado em peso está esperando. E vai ser hoje. Na igreja do padre Bento.
     Lourenço deu a volta ao cavalo e saiu em disparada.

FIM DO CAPÍTULO 11
 
Ritinha e Duda      

NÃO PERCA O CAPÍTULO 12 DE IRMÃOS CORAGEM!!!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 10

 CAPÍTULO 10


     O frescor da madrugada, o clarão da lua iluminando a vastidão dos campos, o cantar dos primeiros pássaros, serviam de pano de fundo para as recordações de Duda e Ritinha.
     Ao longe, o marulho do riacho, eterno viajante dos caminhos do sertão. O casal passeava de mãos dadas. De repente Ritinha apontou um trecho das águas.
     -Veja se se lembra deste lugar.
     -Me lembro. A gente vinha nadar aqui todas as tardes.
     -Bandido! Um dia você escondeu a minha roupa. Tive de ir de maiô para casa, enrolada na toalha. O pai quase me matou de pancada.
     No tronco de uma árvore, meio apagado pelo tempo, os dizeres la estavam, escritos á ponta de canivete.
     “Duda e Ritinha. Amor para sempre”.
     O rapaz fez a proposta:
     -Vamos cair n’água, como antigamente?
     Os risos do casal podiam ser ouvidos no silencio da madrugada. Os corpos se uniam no sentimento da saudade. E os lábios respondiam ás perguntas que não precisariam ser feitas.

     De repente a lembrança do tempo sacudiu a moça. Os raios de sol já se refletiam, dourados, sobre o leito do riacho.
Ritinha (Regina Duarte) e Duda (Claudio Marzo)

     -Seu maluco! Sabe que horas são?
     -Não, nem quero saber.
     -Acho que umas cinco e meia. O sol já ta nascendo.
     Duda olhou espantado para o céu.
     -O quê? Puxa, Ritinha, que coisa! Não dá vontade de pedir pra Deus parar a vida aqui?
     -Que dá, dá. Só assim você não fugia mais de mim.
     Beijam-se novamente. Terna e demoradamente.
     Rita murmurou ao ouvido do amado:
     -Queria nunca mais te deixar.
     Lembrou-se de que ele não demoraria muitos dias em Coroado. Obrigava-se a retornar ao Rio, ao Flamengo, logo que terminasse o prazo da licença. Uma nuvem de tristeza vedou o semblante da moça. Eduardo notou.
     -Sim. Devo voltar daqui a uns dois ou três dias.
     -E tudo vai ficar como antes. Juro que nunca mais, nunca mais vou ver o sol nascer, só pra não me lembrar de você.
     -Diga o que quer que eu faça...
     -Quero que não me deixe, que me leve com você.
     Duda segurou docemente o rosto de Ritinha, contornando com as mãos a curva da fronte, a forma do nariz, a linha dos lábios. Beijou-lhe os olhos. As faces. Até que seus lábios se colassem, parecendo a eles que a natureza era um carrossel a girar, a girar, a girar...
     Eduardo ainda conseguiu responder:
     -Agora... não posso, Ritinha. Mas eu volto um dia qualquer pra te buscar.

     Na porta da casa do Doutor Maciel havia uma agitação incomum para aquela hora. Domingas olhava as pessoas que passavam rumo ao trabalho. Maciel, mais ébrio que nunca, sentava-se numa enorme pedra na entrada da casa. Foi quando perceberam o casal que se aproximava. Domingas voltou-se, tensa, para o médico viciado. Eduardo falou primeiro.
     -Eu... eu trouxe a Ritinha... A gente... andou passeando... recordando os tempos de criança...
     -A gente não sentiu passar as horas, pai.
     Maciel não pôde controlar a cólera, aumentada com doses excessivas de cachaça.
     -Seus... seus desavergonhados!
     Ritinha tentou falar. Maciel não deu chance.
     -Seu cachorro da cidade! Pensa que pode abusar das moças do interior? Pensa que pode vir, almofadinha... fazer aqui o que lhe der na telha?
     Duda ripostou, com energia.
     -Doutor, o senhor está me ofendendo.
     Maciel não tomou conhecimento da revolta do moço.
     -Vai ter que pagar por isso. Vai ter que pagar, seu cachorro.
     Ameaçador, suspendeu a bengala na direção do rapaz.
     -Pai, a gente não fez nada de mal.
     -Se não fez, mesmo, vai ter que dar conta na polícia. Esses safados da cidade... pensam que a filha da gente é lixo.
     -O senhor está muito enganado. Passamos a noite conversando, brincando... sem maldade.
     Maciel não acreditava.
     -Vem dizer isso a mim? A mim?
     Domingas interveio:
     -Deixa a menina entrá, patrão. Pra acabá com o escândalo.
     -Entrá, onde? Nesta casa? Ela que fique na rua. Na rua com este sujeitinho. Pra voltar a passar nesta porta, só depois de casar na polícia.
     Duda reagiu, colérico.
     -O senhor... o senhor está bêbado.
     Maciel apontava o dedo para as serras que se viam no horizonte.
     -Rua! Rua! Os dois. Rua!
     Duda abraçou Ritinha e, juntos, saíram correndo ante os olhos escandalizados dos vizinhos e das pessoas que por ali passavam ás primeiras horas da manhã. Coroado saberia de tudo logo que a boca do povo começasse a espalhar a triste nova da filha do Dr. Maciel.

FIM DO CAPÍTULO 10


NÃO PERCA O 11 CAPÍTULO DE IRMÃOS CORAGEM

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 9

CAPÍTULO 9

Sinhana (Zilka Salaberry) e Ritinha (Regina Duarte)
     O cheiro do churrasco, da carne assada na brasa, enchia o salão da prefeitura de Coroado, engalanado para o baile em homenagem a Eduardo Coragem. Barris de chope amontoavam-se a um canto e um conjunto regional animava a festa. Os pares dançavam no estilo roceiro das cidadezinhas do interior. Simplicidade em tudo. Nas cadeiras rústicas que envolviam o salão, matronas e solteironas comentavam a vida dos presentes. De repente o delegado Falcão correu para a porta. Duda chegava, seguido da comitiva que não o largava desde o instante em que pisara na cidade.
     -Oh, mas aí está o rei da festa! – saudou o delegado.
    E o prefeito:
     -Seja bem-vindo! Esta é a nossa prefeitura, enfeitada pra receber o orgulho de nossa cidade.
     Duda agradeceu, olhando detidamente as pessoas que se movimentavam no grande salão. Divisou Sinhana sentada numa das cadeiras de pista. Partiu em direção á mãe, rodeado de admiradores.
     Ritinha procurava a oportunidade de falar com Eduardo. Era coisa que não lhe saía da cabeça, desde que tomou conhecimento da visita que ele faria a Coroado. Mas agora, ao lado de Sinhana, procurava fugir á presença do jovem. Sinhana reteve-a pela mão.
     -Fica aí, menina.
     -Não quero passar vergonha.
     Duda alcançara a mãe.
     -Olá, mãe... com quem a senhora veio?
     Sinhana respondeu, perguntando:
     -Tu não se lembra aqui desta moça, Duda?
     -Desculpe, não tou lembrado não.
     Sinhana não se deu por vencida.
     -Olha bem, Duda. – E virando-se para a moça: - Sorri para ele, menina. Eu acho que o sorriso dela ocê não pode ter se esquecido. Vai se lembrá de todo um passado... um passado que tá muito ligado a esse sorriso...
     Duda fixou os olhos no rosto da jovem. Rebuscou a memória. Nada.
     -Meu Deus, me perdoe, mas eu não sei quem é.
     De repente Ritinha levantou a cabeça, olhou nos olhos de Duda e sorriu meigamente para ele. Duda empalideceu.
     -Jesus! Ou estou ficando doido... ou essa é a... a Rita de Cássia! A Ritinha!
     Ritinha sorriu-chorando, mesclando a alegria com as lágrimas da emoção que lhe tomava a alma. Duda a reconhecera. Num instante o rapaz abraçava a amiga de infância, levantando-a no colo, esquecendo-se por completo das pessoas que observavam a cena. Rita de Cássia ria mais. E chorava mais...
     A festa varava a madrugada.


     As dependências rústicas da cadeia de Coroado traduziam a realidade da região. Pobreza em tudo. Até na vida sem diversões ou interesses. Coroado, zona rica em pedras preciosas, nada oferecia á sua população humilde. Ao longe ouvia-se o ruído do baile da prefeitura. Três homens conversavam. João Coragem, Rodrigo, o novo promotor, e o negro Braz Canoeiro.
     Rodrigo indagou:
     -É este o homem?
     -É este, seu doutô promotor... trouxe aqui pro senhor vê... e mais o seu doutô delegado Diogo Falcão.
     -Falcão está no baile, mas já mandei chamá-lo.
     Rodrigo voltou-se para Braz Canoeiro, sentado no banco central da sala. O negro mostrou-lhe os ferimentos por todo o corpo.
     -Então, meu amigo, o que foi isso?
     -Quisero me mandá pro outro mundo, seu doutô.
     João esclareceu.
     -Dero purga nele e depois a sova brava. Veja aí, ta todo ferido.
     O promotor espremeu os olhos, horrorizado.
     -Uma desumanidade! É aquilo mesmo que eu lhe disse, João. Isto precisa ter um fim.
     O delegado Falcão chegava, enraivecido, acompanhado pelo cabo do grupamento policial da cidade.
     -Isto é um desafôro. Me arrancar do baile a uma hora destas, para tomar conhecimento de uma queixa!
     Rodrigo retrucou, severo:
     -Fui eu que lhe mandei chamar, Falcão.
     O delegado mudou de atitude.
     -Seu Doutor Rodrigo César, eu... não sabia... tinham me falado num negro doente...
     -Êste homem foi vítima de uma violência, Falcão. Quero que você registre a queixa.
     Falcão mostrava-se indeciso, lembrando-se das ordens do coronel. Eram claras: “não registre a queixa, se quiser continuar mandando em Coroado”.
     -Sim, é justo, mas não é este o garimpeiro que roubou um diamante de Pedro Barros? Tenho já a denúncia contra ele... o senhor devia era mandar prender ele, não defender, seu doutor...
     -Mesmo que este homem fosse um ladrão, Pedro Barros não tem o direito de espancar ninguém. Exijo que você registre  a queixa e que abra inquérito para apurar a violência de que foi vítima este homem.
     -Tá certo... vou fazer o que o senhor está mandando, seu doutor.
     Falcão, com ira nos olhos, preencheu o documento exigido pelo Promotor Rodrigo César.


 FIM DO CAPÍTULO 9
 NÃO PERCA O 10. CAPÍTULO DE IRMÃOS CORAGEM!!!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

 CAPÍTULO 8

     Na fazenda de Pedro Barros Maria de Lara acabava de desmontar do cavalo. Cabelos alvoroçados, rosto corado. Juca Cipó dirigiu-se á moça.
     -Dona Maria de Lara. Tá todo mundo desde onte... feito doido procurando pela senhora. Até o delegado Falcão tá no seu encalço.
     Lara evitava fitar a cara do assassino.
     -Mande entregar este cavalo ao dono. É um tal de João e é garimpeiro.
     Juca perguntou, com raiva:
     -Será o João Coragem?
     Lara já tinha entrado em casa. A pergunta do capanga de Pedro Barros se perdeu no silencio da madrugada.



O sol já enchia de luz o verde dos campos quando um cavaleiro se aproximou do portão da fazenda. Era João Coragem. Das imediações do curral, onde orientava o trabalho de ordenha, Lourenço divisou o jovem e partiu, receoso, em sua direção.
     -Que quer aqui, João?
     -Queria dar duas palavrinhas com seu coronel Pedro Barros.
     -Veio comprar briga?
João Coragem (Tarcísio Meira)

     -Não, vim em missão de paz.
     Lourenço abriu a porteira, desconfiado.
     -Tá bem, entra...
     -Aproveito, também, pra sabê se... se meu cavalo alazão tá por aqui. Se a moça que me roubou ele, mora aqui. Uma moça bonita, fina... que não tem cara de ladrona.
     Do alto da escada, Lara e Pedro Barros assistiam á chegada do irmão Coragem. Lara tentou descer em direção ao homem que lhe prestara  auxílio na estrada deserta. Pedro Barros segurou-a fortemente, por detrás.
     -Vá pro seu quarto, menina.
     Lara olhou-o, desafiadora.
     -Quero falar com o moço, e não é o senhor quem vai me impedir.
     Barros apertou mais o braço da filha.
     -Num quero você metida com essa gente.
     -Por quê? Tem medo que eu descubra o que o senhor faz com eles?
     -Depois a gente conversa. Anda. Vá pro seu quarto, se não quer me fazer perder a paciência.
     -Vai fazer comigo... o mesmo que fez com Braz Canoeiro?
     -Obedece e não amola!
     Barros empurrou a filha até a porta de seu quarto enquanto João e Lourenço penetravam na sala da casa grande.
     A figura estranha de Pedro Barros destacava-se na moldura da escadaria. Charuto na boca, Barros descia lentamente, tentando aparentar uma calma que, na verdade, não possuía.
     Lourenço se aproximou do chefe e cochichou ao seu ouvido, deixando em seguida a sala. João, impassível, assistia á cena.
     -Que é que você quer, João?
     -Bom dia, meu coronel, como está passando?
     -Bem, muito bem, com a graça de Deus. Vá dizendo logo o que tem a me dizer.
     O coronel sentou-se a um canto da sala. João permaneceu de pé.
     -Vim pra conversá feito gente... pra pôr o senhor em dia com os acontecimentos de Coroado. Tem acontecido tanta coisa ruim em seu nome, que eu acho que o senhor deve de ignorar pelo menos a metade.
     -Que é que você quer dizer com esse palavreado todo?
     -Que tou aqui pra ver se desperto dentro do senhor... êsse sentimento de caridade... pela pessoa humana. Porque o que tá acontecendo aqui, é coisa que revolta até mesmo um santo. É barbaridade. É desumanidade. E eu não acredito que meu coronel esteja de acordo.
     Barros procurou mostrar-se inocente.
     -Eu... eu não sei que acontecimentos são esses. Não sei do que você está falando.
     João retrucou, decidido.
     -Tou falando das maldades que fizeram com o pobre do Braz Canoeiro.
    -É um ladrão de diamantes! – gritou o coronel.
     -Tou aqui pra lhe jurá... pra lhe dá minha palavra de honra, de como Braz Canoeiro tá inocente.
     -Não se meta naquilo que não é da sua conta. Me deixe trabalhar em paz.
     João sentia a ira aumentar a cada palavra do coronel. Suas feições estavam transtornadas. Face dura. Pedro Barros continuou:
     -Não posso fazer nada pelo Braz Canoeiro. Não sei o que você quer que se faça por um ladrão.
     -Vim apelá... pra seu sentimento de justiça... o home ta muito ferido... com a surra que seus home dero nele. Ta necessitando de socorro médico. A gente aqui em Coroado num tem recurso, nenhum hospital. Mas na cidade mais próxima, tem. Vim lhe pedir pro senhor mandá levar o pobre home pra lá.
     O coronel respondeu, impiedoso.
     -Ora, eu não tenho essa obrigação. Se está muito condoído da sorte dele, leve você. Eu não vou socorrer ladrão de diamante.
     João deu alguns passos pela sala e se dirigiu secamente ao dono do garimpo.
     -Não vou lhe tomar mais tempo, seu coronel. Só queria lhe dizê que... vou ser obrigado a pedir auxílio pras autoridades... pra poder internar o Braz num hospital. E, pedindo auxílio... vou ter de dar queixa do castigo que dero nele. Isso pode não ser bão pro senhor.
     Pedro Barros levantou-se colérico.
     -Pois dê a queixa! Faça o que quiser. Eu não tenho medo de nada. Quero que você e o Braz vão pro inferno! E fique sabendo que, nesta terra, quem faz a lei sou eu!
     João deu as costas e saiu rápido da sala.



     Na cidade de Coroado só se falava no baile em homenagem ao Duda. A cidadezinha se vestia de alegria com a presença do filho famoso. Na casa de Maciel, o médico do lugar, eternamente embriagado, Ritinha e Domingas conversavam.
     -Não diga que estou engordando, que eu te esgano! Eu vou ao baile do Duda. Também se o bandido não me reconhecer, nunca mais olho pra cara dele. Risco ele da minha vida.
     Domingas aproveitou a deixa para o conselho.
     -É melhó riscá desde já, Rita. Olha, tão dizendo umas coisa por aí.  Chegô uma mulher da cidade, no mesmo trem que ele. Se hospedô na pensão do Gentil Palhares, uma mulher meio da misteriosa... tão dizendo que é mulhé dele. E mais, que tem jeito de mulhé-dama...
     -Domingas! – recriminou Ritinha. – Duda não é casado. Se fosse, Sinhana, mãe dele, não ia saber?
     -Uai... pra ter mulher, não precisa sê casado...


FIM DO CAPÍTULO 8  

 NÃO PERCA O 9. CAPÍTULO DE IRMÃOS CORAGEM