sexta-feira, 29 de abril de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 7


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair

CAPÍTULO 7
PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:
DUDA
RITINHA
SINHANA
JOÃO DIANA
CEMA
RODRIGO
SEBASTIÃO
PEDRO BARROS
DR. MACIEL
DOMINGAS
LOURENÇO
JUCA CIPÓ    


CENA  1  -  CASA DO RANCHO CORAGEM  -  INT.  -  DIA.


Duda procurava as malas e algumas roupas trazidas do Rio, para a estada no rancho da família. Entrou no quarto dos irmãos. Deparou com Ritinha, sentada ao fundo, dobrando algumas peças do seu vestuário.

 DUDA  -  Oi... você está aí?

 RITINHA  -  Tava te esperando, Duda.

 DUDA  -  Pra que tava me esperando?

 RITINHA  -  Pra te dizer o quanto lamento tudo o que está acontecendo com a gente. E pra lhe dizer também... que não quero te forçar a nada. Não quero que se case comigo obrigado. Mesmo porque não tem graça, não é? Você se casar sem gostar.

Eduardo se sentou na cama e forçou a moça a fazer o mesmo.

DUDA  -  Não. Não é esse o problema, Ritinha. O caso... é que não tenho condições de me casar nem com você... nem com ninguém. A minha vida é dura... é dura, viu? Uma vida sem parada. Hoje eu estou aqui, amanhã posso estar em São Paulo, Recife. Não é vida que a gente possa se dedicar a uma mulher. Não é a vida que mulher nenhuma deseje ter.
   
RITINHA  -  (abraçou-o com ternura)  Duda. Se fosse só isso... eu te digo: estou disposta a enfrentar qualquer coisa. Disposta a me sacrificar por você, a passar a vida esperando por você... mas eu quero ser sua mulher. Mas o caso, Duda, eu sei... é que você não gosta de mim.

DUDA  -  Gostar, eu gosto, mas não é como você merece, Rita.

Rita de Cássia sentia que o sonho de sua vida poderia transformar-se em realidade. Bastava um pouco mais de estímulo para que tudo pudesse dar certo.

RITINHA  -  Se gosta um pouquinho, Duda, case comigo. Me leve com você... Eu não quero forçar, é claro. Mas gostaria tanto de partir com você. Desejo tanto ser sua mulher.

As feições de Eduardo traduziam o conflito que lhe ia n'alma.

DUDA  -  Eu sinto... mas não dá pé, Ritinha. Não tem jeito não.

Saiu apressadamente, com a mala segura pela mão. A velha Sinhana interveio, surgindo do fundo da casa.

SINHANA  -  Onde vai?

DUDA  -  Embora pro Rio, mãe. Aluguei um táxi que vai me levar de volta amanhã cedo.

SINHANA  -  Teu pai quer te dizer duas palavras.

DUDA  -  O que é, mãe?

SINHANA  -  Isso que você vai fazer, filho, não é próprio de gente de bem.

DUDA  -  Eu não quero ouvir mais nada.

SINHANA  -  Vem. O pai te espera.

CORTA PARA:

CENA 2  -  ESTRADA Á MARGEM DO RIACHO  -  EXT.  -  FIM DE TARDE.

 
Já próximo á choupana de Braz Canoeiro, João e a desconhecida beijaram-se ardentemente sobre a cela do cavalo. A moça saltou, lépida e, correndo pela margem do riacho, arrancou uma planta, atirando-a ao rosto do rapaz. Ele, perseguindo-a, conseguiu alcançá-la e, derrubando-a. a abraçou.


JOÃO  -  Sabe, moça, nunca vi ninguém como você.

DIANA  -  Nunca viu mulher?

JOÃO  -  Mulher, já. Não do seu jeito.

DIANA  -  E o que é que tem meu jeito?

JOÃO  -  Ocê tem cara de santa, mas... parece um demônio. Um demônio de tentação... de fogo...

O apelo era forte demais. Os braços de João Coragem envolviam o delicado corpo da moça. Seus lábios se uniram num desejo mútuo.

CORTA PARA:

CENA 3  -  CHOUPANA DE BRAZ CANOEIRO   -  EXT. -  NOITE.


Cema surgiu á porta da choupana, deparando com a cena amorosa. João percebeu a presença da mulher de Braz Canoeiro.


JOÃO  -  Vem cá, Cema. Eu trouxe essa moça pra ocê olhar pra ela. Olha bem pra cara dela. Veja se não é a mesma que roubou meu cavalo?

CEMA  -  Parecer, se parece muito. Só que a outra... não vi sorrir nenhuma só vez, Jão.

João pediu a Cema para hospedar a desconhecida por algum tempo no pobre casebre do garimpeiro.

CEMA  -  Pode, Jão. Tenho confiança em ocê.

JOÃO  -  O caso é que eu não tenho nela...

CEMA  -  Ocê fica á vontade. Amanhã... de manhãzinha eu tou de volta com meu Braz.

Cema saiu, trouxa á cabeça, deixando o rapaz no meio do terreiro, imerso em pensamentos. A voz da moça acordou-o das reflexões.

DIANA  -  Ei, João Coragem, vem ou não vem?

Amarrou o cavalo no tronco de uma árvore e, desajeitado, entrou apressadamente na choupana de Braz.

CORTA PARA:

CENA 4  -  CHOUPANA DE BRAZ CANOEIRO  -  INT.  -  NOITE.

O diálogo foi breve.


DIANA  -  Eu quero ser sua. Você não me comprou? Sim... a fiança... não foi meu preço?

JOÃO  -  Não vê que isso não pode ser. Cê tem que ter alguém que cuide de sua vida. Não pode ter vindo de qualquer lugar.

DIANA  -  E vim.

JOÃO  -  De onde?

DIANA  -  De uma cidade que você não conhece. Longe daqui. Mas eu acho que isso agora não tem grande importância.

JOÃO  -  Não tem?

DIANA  -  Porquê eu agora sou sua.

João observou a moça, espantado com a ousadia de suas palavras.

DIANA  -  Ou... você não me quer?

JOÃO  -  Escute aqui... você é doida? Fugiu de algum manicômio?

Encarando o olhar do rapaz, a moça principiou um sorriso até alcançar a intensidade de uma gargalhada.

JOÃO  -  Eu nem sei o seu nome!

DIANA  -  Diana. Diana Lemos.

A noite avançava. O silencio quebrado apenas pelo tritinar dos grilos na beira do riacho.

Diana e João dormiam.

CENA 5  -  RANCHO CORAGEM  -  SALA  -  INT.  -  DIA.



Duda e o pai, Sebastião, ouviam atentamente as ponderações do promotor, Dr. Rodrigo Cesar.

RODRIGO  -  Bem, Duda, sua recusa em casar com Ritinha poderá trazer sérias implicações para  todos voces. Há luta aberta entre a família Coragem e o grupo do coronel Pedro Barros. Luta de morte. E com a atitude que voce tomou, não aceitando limpar o nome da moça, quem sofrerá   as consequencias?  Claro que a família. Voce estará longe, no Rio, cheio de glórias. (fez uma pausa e continuou)  Pedro Barros está usando você para desmoralizar seus irmãos. Se você não se casar com essa moça, a cidade inteira vai ficar revoltada. Não só contra você, mas também contra sua família. Isso vai enfraquecer nossa luta, entende?

DUDA  -  Acho que estou começando a entender.  Mas, que diabo, eu não fiz nada. Dou minha palavra. Isso tudo é injusto. Se o senhor está aqui pra fazer justiça, deve começar por me defender dessa calúnia.

RODRIGO  -  Entenda, Duda. Numa cidade pequena, como esta, seu procedimento é indefensável. Para o povo daqui, cheio de preconceitos, o simples fato dessa moça ter passado uma noite fora de casa é o suficiente para desonrá-la.

Duda fixou os olhos do pai. De Sinhana, que acabava de entrar. De Rodrigo, o jovem promotor. Lutava intimamente á procura de uma solução para tudo aquilo. Pediu licença e saiu da sala. Lá fora um carro o esperava para levá-lo até Coroado.

CORTA PARA:

CENA 6  -  CASA DE BRAZ CANOEIRO  -  INT.  -  DIA.

A clarinada do galo no terreiro e o cocoricar de dezenas de outros, pelas redondezas, acordaram João, deitado na esteira esfiapada da casa de Braz Canoeiro. Abriu os olhos, como que admirado, não reconhecendo o lugar. De repente a lembrança chegou-lhe vívida. E ela? De relance procurou Diana na rêde. A rêde balançava, vazia.


JOÃO  -  Diana!

Correu até a porta. Apenas o bucolismo das árvores, das montanhas distantes. Voltou ao interior da casa. Diana não se achava em nenhum lugar.

CORTA PARA:

CENA 7   -  CASA DE BRAZ CANOEIRO  -  SEQUENCIA.  -  EXT.  -  DIA.



JOÃO  -  (murmurou)  Tentação do diabos...

Desorientado, João procurou o cavalo que havia amarrado, á noite, num tronco de árvore, no terreiro. O animal pastava tranqüilamente nos fundos da cabana. João desamarrou-o, selou-o e partiu em disparada. Diana não lhe saía do pensamento.

CORTA PARA:

CENA 8  -  COROADO  -  CENTRO.  -  EXT.   -  DIA.

No centro de Coroado e nas estradas de acesso á cidadezinha, os capangas de Pedro Barros, armados de garruchas e rifles, esperavam o carro de Duda. A ordem era inflexível: se o rapaz conseguisse deixar a cidade, não ultrapassaria os limites de Coroado. O próprio Pedro Barros, acompanhado do Dr. Maciel, comandava as operações, das proximidades da Pensão do Gentil Palhares. Barros comentava com o médico:


PEDRO BARROS  -  Eu hoje decidi e vou ser padrinho de um casamento. O Padre está avisado. Desde ontem. A cerimônia é ás dez. Falei com o juiz, preparei tudo. Um casamento de urgência, o juiz ajeitou logo a papelada.

Maciel observava o carro parado diante da pensão.

DR. MACIEL  -  Eu sei que ele marcou viagem para as 8. O safado está pensando em fugir. E minha filha vai ficar... difamada.

CORTA PARA:

CENA 9  -  PENSÃO DE GENTIL PALHARES   -  QUARTO  -  INT.  -  DIA.

 
No interior do quarto, Duda ouve baterem na porta. Era Domingas. A mãe-de-criação de Ritinha. Parecia assustada.


DOMINGAS  -  Eduardo, eu não quero que nada te aconteça. É por isto que tou aqui. Falo, porquê sei como é que a Ritinha vai ficar se você... quero dizer... se os home de Pedro Barros te agarrá. Tá tudo de tocaia pelas estrada de Coroado. Por qualquer lado que você for... eles vão te agarrá!

CORTA PARA:

CENA 10  -  COROADO  -  RUA  -  EXT.  -  DIA.

 
Gentil Palhares colocava várias malas dentro do veículo, ante o olhar observador de Paula.

PEDRO BARROS  -  (apontando para a frente da pensão) Estão colocando as malas! Já vai sair o carro...

DR. MACIEL  -  Está fugindo!

PEDRO BARROS  -  Não vai longe, Doutor! Não vai longe!

CORTA PARA:

CENA 11   -  COROADO - ESTRADA  -  EXT.  -  DIA.

 
Na estrada, os capangas, de tocaia, aguardavam a ordem do capataz.


LOURENÇO  -  Lá vem o carro.
   
JUCA CIPÓ  -  (vibrando)  É esse mesmo. Se prepare!

Os dois sacaram do revólver, ao mesmo tempo e esperaram a aproximação do carro. Sob a mira das armas o chofer parou. Juca e Lourenço não queriam acreditar... Paula estava sozinha no interior do veículo.
  
LOURENÇO  -  Desculpe, moça. A gente pensava... que o jogador de futebol estivesse aí.

JUCA CIPÓ  -  E agora?

LOURENÇO  -  Bem... se a moça vai sozinha, a gente não tem nada com isso. Podemos deixar ela seguir viagem.

CORTA PARA:

CENA 12  -  COROADO  -  RUA  -  EXT.  -  DIA.

 
Lourenço saiu á procura de Pedro Barros em Coroado.


PEDRO BARROS  -  E então?

LOURENÇO  -  Nada do homem. Nem sombra.

DR. MACIEL  -  (gritando)  Mas o carro... ele saiu daqui de carro...

LOURENÇO  -  No carro a gente só achou a moça...

CORTA PARA:

CENA 13   -  COROADO  -  CASA DO DR. MACIEL  -  QUARTO DE RITINHA   -  INT  -  DIA.

 
Domingas olhava preocupada para o velho relógio de parede. As horas se aproximavam. O casamento estava marcado para as 10. João Coragem trouxera Ritinha e agora voltara ao rancho para buscar a família. 


DR. MACIEL  -  (impaciente)    Que diabo tem essa menina que não qué falar comigo?

RITINHA  -  Quem fez o que o senhor fez com minha mãe... que era uma santa mulher... tem mesmo coragem pra tudo.  
   
DR. MACIEL  -  (espumando)  O que eu fiz?

RITINHA  -  O senhor... tem a alma de um demônio. E eu não quero nunca mais olhar a sua cara!

Rita ameaçou sair do quarto. Maciel segurou-a, fora de si.

DR. MACIEL  -  Vem cá... me explica essa coisa direito. Quem foi que lhe disse... isso... do que eu fiz contra sua mãe? Eu não matei ela, está me ouvindo? Eu não matei...

RITINHA  -  Eu não disse isso. Mas se o senhor mesmo afirma é porque matou!

DR. MACIEL  -  Já sei. Foi aquela velha feiticeira. Sinhana. Foi ela que andou enchendo a sua cabeça.

RITINHA  -  Me deixe! Estamos em cima da hora. Temos um encontro marcado... pra passar por mais uma vergonha... na Igreja do Padre Bento.

FIM DO CAPÍTULO  7


E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

# NA IGREJA, JOÃO ENCONTRA LARA E A ACUSA DE TER ROUBADO A CAIXA DA SANTA.

# RITINHA FICA HUMILHADA AO OUVIR DUDA DIZER QUE CASOU CONTRA SUA VONTADE. OS DOIS DISCUTEM E A MOÇA DECIDE IR EMBORA.


NÃO PERCA O CAPÍTULO 8 DE...

quinta-feira, 28 de abril de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 6


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair

CAPÍTULO 6
 PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:

JERÔNIMO
POTIRA
SINHANA
DUDA
RITINHA
JOÃO
DIANA
LOURENÇO
PAULA
PADRE BENTO
DELEGADO FALCÃO


CENA 1  -  RANCHO CORAGEM  -  INT.  - DIA.

No rancho humilde da família Coragem, Jerônimo e Potira estavam almoçando. Sinhana acabara de colocar os pratos sobre a mesa e sentava-se também para acompanhar os filhos. De repente a porta da frente se abriu e Duda e Ritinha deram um passo em direção á sala. As atenções se concentraram no casal. Jerônimo, surpreso, não tirava os olhos dos dois.


DUDA  -  (quebrou o silencio repentino)  Entra, Ritinha, esta casa agora é sua.

Ritinha entrou, quase chorando.

DUDA  -  Vem, não se acanhe não. (E virando-se para os presentes)  O pai dela expulsou a pobre de casa.

Duda dirigiu-se para seus aposentos, no interior da casa.

JERÔNIMO  -  Que foi que andou fazendo com você, Rita?

RITINHA  -  Ninguém fez nada, gente. Não houve nada. A gente brincou sem mal. Se jogou na água. A gente... só se beijou... sem mal. Será que ninguém acredita nisso?
  
SINHANA  -  É. O mal todo é esse, menina. É que ninguém vai acreditar.

JERÔNIMO  -  E agora como vai ser?

Duda voltara do quarto após tomar banho.

DUDA  -  Já sei, vocês também estão pensando coisas horríveis a nosso respeito.
  
JERÔNIMO  -  (segurou o irmão pelos ombros, mãos firmes) A realidade é esta, mano: mesmo que não tenha acontecido nada... você vai ter que casar com ela.
  
DUDA  -  (chocado)  O que!? Ca... casar... com... com ela. Mas... isto é um disparate!
  
SINHANA  -  (incisiva)  Vai ter, Duda. Honra de moça é um negócio muito sério. Compreenda, filho. Não é problema se você errou ou não errou. O problema é ela ficar falada, desmoralizada.

JERÔNIMO  -  Vai ter que casar, Duda. Num tem pra onde.

CORTA PARA:

CENA 2  -  COROADO  -  RUA   -  EXT. -  DIA.

No centro da cidade vários homens se divertiam vendo o cavaleiro puxar uma moça enlaçada pela cintura. Descalça, sapatos atirados no meio da rua, a jovem vestida de chita, gritava e esbravejava.

DIANA  -  Desgraçado! Patife! Me solta!

O cavaleiro, objeto da fúria da moça, respondia aos insultos.


HOMEM 1  -  Devolve o dinheiro. Devolve, vagabunda. Ou vai ter de sambar na corda aqui pra gente ver.

HOMEM 2  -  Quem é ela?

HOMEM 1  -  Uma ladra. Roubou dinheiro da venda do Peixoto.

O grupo havia se afastado, dispersando-se. A jovem permanecera sozinha. Calçava os sapatos de fivela e ajeitava os cabelos revoltos. Uma voz surpreendeu o seu silencio.

JOÃO  -  Será que estou ficando doido ou você não é a moça que roubou meu cavalo?

DIANA  -  Epa... lá vem mais um. Será que nesta cidade todo mundo é gira?
 
JOÃO  -  (insistiu)  Nós dois...quero dizer... a gente já não se viu,  não?

DIANA  -  Nunca vi sua cara. Você viu a minha? Agora sou também ladra de cavalos. Olha aqui, nunca vi seu cavalo, e muito menos você, bonitão. Mas se quer que a gente se conheça melhor, não me custa nada. É só dizer... “me ajude”.

JOÃO  -  Olha, juro que rezei pra te encontrar de novo.

DIANA  -  Onde foi que você me viu? Eu não me lembro.

JOÃO  -  Por quê ta fingindo? Eu te socorri, te cuidei...

DIANA  -  Está brincando...se é desculpa pra gente entrar num entendimento, tá perdendo seu tempo.

JOÃO  -  Não... não é isso... eu precisava te ver de novo.

O Promotor Rodrigo Cesar aproximou-se.

RODRIGO  -  João!

JOÃO  -  (esqueceu por instantes a presença da moça)  Sei que esteve em minha casa.  ( Virando-se á procura da jovem misteriosa)  Aquela moça...cadê ela?

Mais uma vez a mulher desaparecera sem explicação.

CORTA PARA:

CENA 3  -  RANCHO CORAGEM  - EXT.  -  DIA.

Do interior da casa, Potira e Sinhana ouviram o galope do cavalo. Chegaram á porta do rancho. O cavaleiro era Lourenço, capataz de Pedro Barros.


LOURENÇO  -  O moço Duda ta aí?

SINHANA  -  Tá não. O que qué dele?

LOURENÇO  -  Recado do meu patrão. Ele que se prepare pra casar com a filha do Dr. Maciel, ainda hoje.

SINHANA  -  Meu filho não precisa ser obrigado. Se é o certo, ele casa. Se não é, ninguém obriga.

LOURENÇO  -  Certo ou não, ele vai casá. É uma ordem. Coroado em peso está esperando. E vai ser hoje. Na igreja do padre Bento.

Lourenço deu a volta ao cavalo e saiu em disparada.


CENA 4  -  COROADO  -  IGREJA  -  INT.  -  DIA.

Na igreja do Padre Bento reuniam-se João, Duda, Jerônimo e o vigário.

  
DUDA  -  Mas... o que está havendo?

JOÃO  -  A gente quer que ocê, meu irmão, tome uma atitude de homem no caso da Ritinha.

DUDA  -  Se eu não tivesse respeitado ela. Mas não houve nada, João. Coisa de louco.
 
JERÔNIMO  -  O nome dela caiu na boca do povo. Isso não é nada, Duda?

JOÃO  -  A gente não quer forçá, mas ocê não vai perder nada se casando com ela. É uma boa moça e gosta de você.

A voz viera da porta de entrada da igreja. Ninguém notara a presença estranha. Todos voltaram-se ao mesmo tempo.
PAULA  -  Mas ele não pode casar com ninguém.  Diga a eles, Duda, que você não pode se casar com essa moça.
  
DUDA  -  (grosseiro)  Cale a boca, Paula. Eu me defendo e não é preciso que você diga nada.

JOÃO  -  (sério)  Mas agora eu quero sabê.

PAULA  -  Eu e Duda somos... somos noivos. Estamos de casamento marcado.
 
JOÃO  -  (sem se dar por vencido)  Tão de casamento marcado, mas não tão de papel passado. Sinto muito, dona, mas a senhora acaba de perder um noivo.

PAULA  -  Está de acordo com isso, Duda?

DUDA  -  Ei! Esperem aí! De acordo coisa nenhuma. Quem decide a minha vida sou eu.

Mudo até aquele instante, Padre Bento sentiu a ameaça da explosão, diante dos rumos tomados pela conversa.

PADRE BENTO  -  Meus filhos...respeitem a casa de Deus.

Duda, acompanhado de Paula, deixou o recinto do templo. João e Jerônimo permaneceram ao lado do Padre.

JOÃO  -  Esse idiota vai dar pano pra manga... pros nosso inimigo zombar de nós. Eu, João Coragem, você, Jerônimo... O pai e a mãe... nossa família que tem fama de justiceira, de gente boa, sem mancha... a gente que só pensa em acabar com a maldade desta terra... que temos a nosso favor a confiança de todo o povo, vamos ser arrasado por causa de um erro do nosso irmão.

PADRE BENTO  -  Ele tem razão, Jerônimo. Nesta terra, quem lutar contra o Coronel Pedro Barros tem que ter a honra inatacável.

CORTA PARA:

CENA 5  -  COROADO  -  DELEGACIA  -  INT.  -  DIA.

A estranha ladra de Coroado dormia serenamente na cela da cadeia local. Fôra apanhada roubando dinheiro da caixa da Igreja. Esperava a visita de João Coragem, a quem dissera conhecer e mandara chamar, logo que fôra levada á delegacia.
João entrou, abruptamente, na sala do delegado. Falcão virou-se, atento.

DELEGADO FALCÃO  -  Olá, João. Aí está ela. Conhece?

DIANA  -  Olá, meu amigão. Me tira daqui que eu juro que não se arrepende.
  
DELEGADO FALCÃO  -  Seu irmão trouxe ela. Viu roubar todo o dinheiro da caixa da igreja. Conhece ela?

O espanto do rapaz se traduzia na expressão do rosto. Boquiaberto. Pasmo.

JOÃO  -  Claro que eu conheço. Tira ela daqui. Eu me responsabilizo por ela.
 
DELEGADO FALCÃO  -  (atônito)  Juro que não entendo mais nada. Pensei que fosse a filha do seu Pedro Barros.

João olhou espantado para a autoridade policial. E para a moça que saía calmamente do interior da cela.

JOÃO  -  Filha dele?

DELEGADO FALCÃO  -  Graças a Deus que não é. Ficou provado que não é. Telefonei e a moça estava lá. Por Deus, nunca vi duas pessoas se parecerem tanto.

DIANA  -  (aproximando-se do rapaz)  Então. Bonitão. Muito obrigada. Você é bacana pra burro.
  
JOÃO  -  (agarrando-a pelo braço)  Onde pensa que vai?

DIANA  -  Cuidar da minha vida!

JOÃO  -  Tá enganada. Agora sou responsável por você. Você vem comigo.

Ela tentou desvencilhar-se das mãos fortes do mancebo.

DIANA  -  Você não é meu dono!  Não me comprou!

A moça subiu a garupa do cavalo de João Coragem e o rapaz fez o animal galopar. Riam alegres. Durante alguns minutos atravessaram as ruas da pequena cidade, sob os olhos curiosos da população. Pouco depois ganharam o campo, num galope firme, decidido. Homem e mulher se confundindo com a natureza.
FIM DO CAPÍTULO 6


E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

# JOÃO CORAGEM E DIANA LEMOS ESTÃO CADA VEZ MAIS APAIXONADOS

# DUDA TENTA, DE TODAS AS MANEIRAS, ESCAPAR DO COMPROMISSO DE CASAR COM RITINHA

# PEDRO BARROS MANDA FECHAR TODAS AS SAÍDAS DA CIDADE PARA QUE DUDA NÃO FUJA!


NÃO PERCA O CAPÍTULO 7 DE...

quarta-feira, 27 de abril de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 5


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair

CAPÍTULO 5

PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:

DELEGADO FALCÃO
PREFEITO JORGINHO
SINHANA
RITINHA
DUDA
JOÃO
RODRIGO
BRAZ CANOEIRO
DR. MACIEL
DOMINGAS
E O POVO DE COROADO

CENA 1 - COROADO - SALÃO DA PREFEITURA - INT. - NOITE.

O cheiro do churrasco, da carne assada na brasa, enchia o salão da prefeitura de Coroado, engalanado para o baile em homenagem a Eduardo Coragem. Barris de chope amontoavam-se a um canto e um conjunto regional animava a festa. Os pares dançavam no estilo roceiro das cidadezinhas do interior. Simplicidade em tudo. Nas cadeiras rústicas que envolviam o salão, matronas e solteironas comentavam a vida dos presentes. De repente o delegado Falcão correu para a porta. Duda chegava, seguido da comitiva que não o largava desde o instante em que pisara na cidade.


DELEGADO FALCÃO  -  (saudando)  Oh, mas aí está o rei da festa! – saudou o delegado.
 
PREFEITO JORGINHO  -  Seja bem-vindo! Esta é a nossa prefeitura, enfeitada pra receber o orgulho de nossa cidade.

Duda agradeceu, olhando detidamente as pessoas que se movimentavam no grande salão. Divisou Sinhana sentada numa das cadeiras de pista. Partiu em direção á mãe, rodeado de admiradores.
Ritinha procurava a oportunidade de falar com Eduardo. Mas agora, ao lado de Sinhana, procurava fugir á presença do jovem.


SINHANA  -  (retendo-a pela mão)  Fica aí, menina.

RITINHA  -  Não quero passar vergonha.
  
DUDA  -  (alcançando a mãe)    Olá, mãe... com quem a senhora veio?
  
SINHANA  -  (respondeu, perguntando)  Tu não se lembra aqui desta moça, Duda?

DUDA  -  Desculpe, não tou lembrado não.
 
SINHANA  -  (sem se dar por vencida)  Olha bem, Duda.  ( E virando-se para a moça)   Sorri para ele, menina. Eu acho que o sorriso dela ocê não pode ter se esquecido. Vai se lembrá de todo um passado... um passado que tá muito ligado a esse sorriso...

Duda fixou os olhos no rosto da jovem. Rebuscou a memória. Nada.

DUDA  -  Meu Deus, me perdoe, mas eu não sei quem é.

De repente Ritinha levantou a cabeça, olhou nos olhos de Duda e sorriu meigamente para ele.

DUDA  -  (empalidecendo)  Jesus! Ou estou ficando doido... ou essa é a... a Rita de Cássia! A Ritinha!

Ritinha sorriu-chorando, mesclando a alegria com as lágrimas da emoção que lhe tomava a alma. Duda a reconhecera. Num instante o rapaz abraçava a amiga de infância, levantando-a no colo, esquecendo-se por completo das pessoas que observavam a cena. Rita de Cássia ria mais. E chorava mais...

A festa varava a madrugada.


CORTA PARA:

CENA 2 - COROADO - DELEGACIA - INT. - NOITE.

As dependências rústicas da cadeia de Coroado traduziam a realidade da região. Pobreza em tudo. Até na vida sem diversões ou interesses. Coroado, zona rica em pedras preciosas, nada oferecia á sua população humilde. Ao longe ouvia-se o ruído do baile da prefeitura. Três homens conversavam. João Coragem, Rodrigo, o novo promotor, e o negro Braz Canoeiro.

  
RODRIGO  -  É este o homem?

JOÃO  -  É este, seu doutô promotor... trouxe aqui pro senhor vê... e mais o seu doutô delegado Diogo Falcão.

RODRIGO  -  Falcão está no baile, mas já mandei chamá-lo.

Rodrigo voltou-se para Braz Canoeiro, sentado no banco central da sala. O negro mostrou-lhe os ferimentos por todo o corpo.

RODRIGO  -  Então, meu amigo, o que foi isso?

BRAZ CANOEIRO  -  Quisero me mandá pro outro mundo, seu doutô.
  
JOÃO  -  (esclarecendo)  Dero purga nele e depois a sova brava. Veja aí, ta todo ferido.
  
RODRIGO  -  (espremendo os olhos, horrorizado) Uma desumanidade! É aquilo mesmo que eu lhe disse, João. Isto precisa ter um fim.

O delegado Falcão chegava, enraivecido, acompanhado pelo cabo do grupamento policial da cidade.

DELEGADO FALCÃO  -  Isto é um desafôro. Me arrancar do baile a uma hora destas, para tomar conhecimento de uma queixa!
  
RODRIGO  -  (severo)  Fui eu que lhe mandei chamar, Falcão.
  
DELEGADO FALCÃO  -  (mudando de atitude)  Seu Doutor Rodrigo César, eu... não sabia... tinham me falado num negro doente...

RODRIGO  -  Êste homem foi vítima de uma violência, Falcão. Quero que você registre a queixa.

Falcão mostrava-se indeciso, lembrando-se das ordens do coronel. Eram claras: “não registre a queixa, se quiser continuar mandando em Coroado”.

DELEGADO FALCÃO  -  Sim, é justo, mas não é este o garimpeiro que roubou um diamante de Pedro Barros? Tenho já a denúncia contra ele... o senhor devia era mandar prender ele, não defender, seu doutor...

RODRIGO  -  Mesmo que este homem fosse um ladrão, Pedro Barros não tem o direito de espancar ninguém. Exijo que você registre  a queixa e que abra inquérito para apurar a violência de que foi vítima este homem.

DELEGADO FALCÃO  -  (com ira nos olhos, preencheu o documento exigido pelo Promotor Rodrigo César)  Tá certo... vou fazer o que o senhor está mandando, seu doutor.

CENA 3  -  BEIRA DE UM RIACHO - EXT. - NOITE

O frescor da madrugada, o clarão da lua iluminando a vastidão dos campos, o cantar dos primeiros pássaros, serviam de pano de fundo para as recordações de Duda e Ritinha.
Ao longe, o marulho do riacho, eterno viajante dos caminhos do sertão. O casal passeava de mãos dadas. 


RITINHA  -  (apontando um trecho das águas)  Veja se se lembra deste lugar.

DUDA  -  Me lembro. A gente vinha nadar aqui todas as tardes.

RITINHA  -  Bandido! Um dia você escondeu a minha roupa. Tive de ir de maiô para casa, enrolada na toalha. O pai quase me matou de pancada.

No tronco de uma árvore, meio apagado pelo tempo, os dizeres la estavam, escritos á ponta de canivete.
“Duda e Ritinha. Amor para sempre”.

  
DUDA  -  (propondo) Vamos cair n’água, como antigamente?

Os risos do casal podiam ser ouvidos no silencio da madrugada. Os corpos se uniam no sentimento da saudade. E os lábios respondiam ás perguntas que não precisariam ser feitas.

CORTA PARA:

CENA 4 - MARGEM DO RIACHO - SEQUENCIA - EXT. - AMANHECER.


Duda e Ritinha estavam deitados á margem do riacho,  de mãos dadas. De repente a lembrança do tempo sacudiu a moça. Os raios de sol já se refletiam, dourados, sobre o leito do riacho.

RITINHA  -  Seu maluco! Sabe que horas são?

DUDA  -  Não, nem quero saber.

RITINHA  -  Acho que umas cinco e meia. O sol já ta nascendo.
  
DUDA  -  (olhando, espantado, para o céu)  O quê? Puxa, Ritinha, que coisa! Não dá vontade de pedir pra Deus parar a vida aqui?

RITINHA  -  Que dá, dá. Só assim você não fugia mais de mim.

Beijam-se novamente. Terna e demoradamente.
 
RITINHA  -  (murmurou ao ouvido do amado)  Queria nunca mais te deixar.

Uma nuvem de tristeza vedou o semblante da moça.


RITINHA  -  Sei que  vai ter que voltar pra sua vida no Rio, no Flamengo...

DUDA  -  Sim. Devo voltar daqui a uns dois ou três dias. Logo que terminar o prazo da minha licença...

RITINHA  -  E tudo vai ficar como antes. Juro que nunca mais, nunca mais vou ver o sol nascer, só pra não me lembrar de você.

DUDA  -  Diga o que quer que eu faça...

RITINHA  -  Quero que não me deixe, que me leve com você.

Duda segurou docemente o rosto de Ritinha, contornando com as mãos a curva da fronte, a forma do nariz, a linha dos lábios. Beijou-lhe os olhos. As faces. Até que seus lábios se colassem, parecendo a eles que a natureza era um carrossel a girar, a girar, a girar...
  
EDUARDO  -  Agora... não posso, Ritinha. Mas eu volto um dia qualquer pra te buscar.

CORTA PARA:

CENA 5  -  COROADO  -  CASA DO DR. MACIEL - EXT. - DIA.

Na porta da casa do Doutor Maciel havia uma agitação incomum para aquela hora. Domingas olhava as pessoas que passavam rumo ao trabalho. Maciel, mais ébrio que nunca, sentava-se numa enorme pedra na entrada da casa. Foi quando perceberam o casal que se aproximava. Domingas voltou-se, tensa, para o médico viciado. Eduardo falou primeiro.


DUDA  -  Eu... eu trouxe a Ritinha... A gente... andou passeando... recordando os tempos de criança...

RITINHA  -  A gente não sentiu passar as horas, pai.

Maciel não pôde controlar a cólera, aumentada com doses excessivas de cachaça.
DR. MACIEL  -  Seus... seus desavergonhados!

Ritinha tentou falar. Maciel não deu chance.

DR. MACIEL  -  Seu cachorro da cidade! Pensa que pode abusar das moças do interior? Pensa que pode vir, almofadinha... fazer aqui o que lhe der na telha?
  
DUDA  -  (enérgico) Doutor, o senhor está me ofendendo.

Maciel não tomou conhecimento da revolta do moço.

DR. MACIEL  -  Vai ter que pagar por isso. Vai ter que pagar, seu cachorro.

Ameaçador, suspendeu a bengala na direção do rapaz.


RITINHA  -  Pai, a gente não fez nada de mal.

DR. MACIEL  -  Se não fez, mesmo, vai ter que dar conta na polícia. Esses safados da cidade... pensam que a filha da gente é lixo.

RITINHA  -  O senhor está muito enganado. Passamos a noite conversando, brincando... sem maldade.
 
DR. MACIEL  -  (sem acreditar)  Vem dizer isso a mim? A mim?
  
DOMINGAS  -  Deixa a menina entrá, patrão. Pra acabá com o escândalo.

DR. MACIEL  -  Entrá, onde? Nesta casa? Ela que fique na rua. Na rua com este sujeitinho. Pra voltar a passar nesta porta, só depois de casar na polícia.
 
DUDA  -  (reagindo, colérico)  O senhor... o senhor está bêbado.

Maciel apontava o dedo para as serras que se viam no horizonte.

DR. MACIEL  -  Rua! Rua! Os dois. Rua!

Duda abraçou Ritinha e, juntos, saíram correndo ante os olhos escandalizados dos vizinhos e das pessoas que por ali passavam ás primeiras horas da manhã. Coroado saberia de tudo logo que a boca do povo começasse a espalhar a triste nova da filha do Dr. Maciel.

FIM DO CAPÍTULO 5
João (Tarcísio Meira) e Maria de Lara (Gloria Menezes)


E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

#  DUDA CHEGA COM RITINHA AO RANCHO CORAGEM E OUVEM DA FAMÍLIA A SENTENÇA - VAI TER QUE CASAR!

#  DIANA LEMOS É PRESA, ACUSADA DE ROUBAR O DINHEIRO DA IGREJA

# O CAPATAZ DE PEDRO BARROS VAI AO RANCHO CORAGEM AVISAR QUE A CIDADE EM PESO ESTÁ ESPERANDO O CASAMENTO DE DUDA E RITINHA!


NÃO PERCA O CAPÍTULO 6 DE

segunda-feira, 25 de abril de 2011

IRMÃOS CORAGEM - histórias e curiosidades

Com a estréia, quarta-feira, de "IRMÃOS CORAGEM" roteirizada na íntegra,  no blog BISCOITO, CAFÉ E NOVELA, postaremos algumas curiosidades e detalhes da trama, publicados no livro NOSSA SENHORA DAS OITO, sobre a obra da saudosa autora Janete Clair:

Janete Clair arrebatou pela primeira vez o Brasil com esta novela que misturava garimpo, futebol e política, em meio aos habituais amores impossíveis de suas tramas. IRMÃOS CORAGEM conquistou a definitiva adesão do público masculino ás telenovelas. A inspiração veio quando, numa conversa da autora com Daniel Filho sobre o crescente sucesso mundial do western italiano, eles tiveram a idéia de transportar o gênero para o Brasil. A partir da leitura de livros como O GARIMPEIRO, de Herberto Salles, e A PÉROLA, romance de John Steinbeck, Janete resolveu criar uma novela de ação centrada no meio rural, mais específicamente nos garimpos do interior de Goiás. "A gente fez um "lelê" de novelas e histórias", define Daniel, lembrando que o "lelê" incluía também o filme AS TRÊS MÁSCARAS DE EVA", cuja protagonista inspirou a heroína de tripla personalidade vivida por Glória Menezes.

Precavida, a autora fez um dos três irmãos Coragem, Duda, ser um jogador de futebol do clube carioca Flamengo, para que o público urbano tivesse afinidade com a história.

IRMÃOS CORAGEM teve mesmo ares audaciosos. Exibida em tempos de ditadura, quando presos políticos eram torturados e mortos nos porões do regime militar, IRMÃOS CORAGEM mostrou sintonia com a realidade política do país ao apresentar na fictícia Coroado eleições, polícia e política controladas e corrompidas pelas elites latifundiárias.

O título de IRMÃOS CORAGEM foi idéia de Daniel Filho. Ao conversar com o diretor sobre a personagem Sinhana, mãe dos tres irmãos, a escritora contou que imaginava uma camponesa analfabeta, matriarca forte, no estilo de MÃE CORAGEM, personagem-título de uma das peças  do dramaturgo Bertold Bretch. Terminada a conversa, Daniel teve o estalo de batizar a novela de IRMÃOS CORAGEM.

Apostando alto na trama, a Globo escalou dois de seus mais populares casais de atores: Tarcísio Meira & Gloria Menezes e Cláudio Marzo & Regina Duarte. Regina lembra que adorou viver Ritinha, a namorada simplória de Duda, que na luta pelo amor do rapaz, se via envolvida nos bastidores pantanosos do futebol brasileiro. "Eu gostava muito dela pelo fato de ser uma caipirinha ingênua como eu, vinda do interior para a capital levada pelo amor. No caso dela, Duda, o jogador de futebol. No meu caso, a televisão, o teatro. Ritinha era deliciosa de interpretar porque, em sua simplicidade, tinha uma personalidade firme e um senso de humor muito especial. Algumas de suas cenas eram uma verdadeira comédia", rememora a atriz.

Curiosidades:

Antes do final da trama, a pedido da Rede Globo, Janete afastou da novela o casal formado por Regina Duarte e Claudio Marzo. Os dois atores deixaram o elenco para serem protagonistas de "Minha Doce Namorada", novela de Vicente Sesso, exibida a partir de abril de 1971, no horário das 19 hs.

Regina Duarte ficou grávida pela primeira vez quando já gravava "Irmãos Coragem". Janete Clair criou, então, uma gravidez para a personagem Ritinha, que ganhava uma filha, Gabriela. Regina deu á luz um menino, André, mas em 1973, grávida novamente, a atriz teria finalmente uma filha, batizada de Gabriela. Em 1995, já atriz profissional, Gabriela viveu Ritinha no remake de "Irmãos Coragem".

Os vilões caíram na preferencia popular no fim de "Irmãos Coragem". Pesquisa feita pela revista "Intervalo", em junho de 1971, detectou que Juca Cipó (Emiliano Queiroz) tinha a simpatia de 90% dos telespectadores consultados, enquanto o Coronel Pedro Barros (Gilberto Martinho) conquistava a adesão de 70% do público. Até o bandido Lázaro (Dary Reis), que se bandeou para o lado de João Coragem, era aprovado por 78% do público. 

Na reta final, a trama mobilizava e dividia opiniões. Numa cidade próxima de São Paulo, um homem foi esfaqueado por seu vizinho por torcer por João Coragem. O vizinho passional era a favor de Pedro Barros.

A novela incluiu no seu elenco de atores uma iniciante que ainda iria fazer muito sucesso no Brasil e no exterior: Sonia Braga, intérprete de Lídia, mulher de Jerônimo (Claudio Cavalcanti).

Claudio Cavalcanti aproveitou a popularidade de Jerônimo e gravou um disco como cantor, editado em outubro de 1970, durante a novela.

Um remake de "Irmãos Coragem" foi programado pela Rede Globo em 1995 para comemorar os 30 anos da emissora. Dias Gomes acusou o diretor de ter alterado o ritmo e linguagem da história. "Não dá para fazer uma comparação. A abordagem foi diferente", argumenta Gloria Menezes. "Sem desmerecer o trabalho dos colegas, houve até uma deturpação da história", opina Tarcísio Meira.

Por coincidência, no mesmo mês em que IRMÃOS CORAGEM está sendo lançada em box com 8 DVDs pela Globo Marcas, o blog BISCOITO, CAFÉ E NOVELAS começa a apresentar, em 3 capítulos semanais e na íntegra, em versão roteirizada, a maior obra de Janete Clair.




Estréia, a partir desta quarta.

domingo, 24 de abril de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 4


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair

CAPÍTULO 4

PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:

DUDA                                                         PEDRO BARROS
JERÔNIMO                                                RITINHA
JOÃO                                                          DOMINGAS
SINHANA                                                  LOURENÇO
MARIA DE LARA                                      SEBASTIÃO
JUCA CIPÓ                                                POTIRA


CENA 1 - RANCHO DOS CORAGEM - INT. - NOITE.

Na casa do rancho Coragem a família reunida jantava em companhia de Duda. João não havia chegado do encontro que tivera com os negociantes estrangeiros. A graciosidade de Potira chamara a atenção do moço. Os olhos de Duda acompanhavam os movimentos da jovem.


DUDA  -  Essa índia ficou uma beleza!

Jerônimo, sem que ninguém notasse, voltou os olhos para Potira. O amor que nascera entre os dois, apesar das negativas do rapaz, era coisa que só motivo de sangue poderia impedir. A própria Sinhana sentira isso e tentava cortar as ilusões de ambos antes que as coisas piorassem... Ela, também, secretamente, acreditava que a bela índia fosse filha do marido. O amor de ambos nascera como o próprio mato da região e crescia a cada instante.

O velho Bastião ouvia Duda contar a história de sua vida na cidade grande.


DUDA  -  Lá também a gente tem de se defender como pode. Duas vezes fui parar no Juizado de Menores. Duas vezes fui preso. Passei fome, pai. Quando saí daqui não tinha profissão, nem nada. Mal sabia ler,  se lembra?

SEBASTIÃO  -  E dispois, como é que ocê chegou a ser jogador, mesmo?

DUDA  -  Ah, isso foi depois de uns dois ou três meses. Morrendo de fome, dormindo em praças, fugindo dos guardas, um dia fui jogar uma pelada num campo de subúrbio. Um cara lá me viu e perguntou se eu queria ir treinar no Flamengo. Eu fui e me botaram no juvenil. Daí a coisa foi fácil.
 
SINHANA  -  E esse tal de Flamengo... é time bão?

DUDA  -  O maior time do mundo, mãe!

Duda passou a mostrar fotos de sua presença nos estádios.

DUDA  -  Esta ao lado de Pelé... aqui com Garrincha... este é o Rubens.

Uma voz encheu de calor o recinto da sala.


JOÃO  -  E este aqui é Duda e João...

Todos os olhos se voltaram para João Coragem, que acabara de chegar, braços abertos, sorriso largo. Os dois irmãos se abraçaram, demoradamente.

JOÃO  -  Veja só, tá um home o safado! E famoso. Aquele gato pingado... tá famoso! Jogador de futebol, veja só.
  
SEBASTIÃO  -  (aproximando-se dos filhos)  Vamo todos tomá um gole. Hoje é dia de alegria na casa de Sebastião Coragem. Vamo beber em honra a esse tal de doutô Flamengo!

CENA 2  -  FAZENDA DE PEDRO BARROS - CASA-GRANDE - EXT. - NOITE.

Na fazenda de Pedro Barros Maria de Lara acabava de desmontar do cavalo. Cabelos alvoroçados, rosto corado.


JUCA CIPÓ  -  (dirigindo-se á moça)  Dona Maria de Lara. Tá todo mundo desde onte... feito doido procurando pela senhora. Até o delegado Falcão tá no seu encalço.
 
MARIA DE LARA  -  (evitando olhar a cara do assassino)  Mande entregar este cavalo ao dono. É um tal de João e é garimpeiro.
  
JUCA CIPÓ  -  (com raiva)  Será o João Coragem?

Lara já tinha entrado em casa. A pergunta do capanga de Pedro Barros se perdeu no silencio da madrugada.

CORTA PARA:

CENA  3  -  FAZENDA DE PEDRO BARROS  -  PORTEIRA -  EXT. DIA.


O sol já enchia de luz o verde dos campos quando um cavaleiro se aproximou do portão da fazenda. Era João Coragem. Das imediações do curral, onde orientava o trabalho de ordenha, Lourenço divisou o jovem e partiu, receoso, em sua direção.

LOURENÇO  -  Que quer aqui, João?

JOÃO  -  Queria dar duas palavrinhas com seu coronel Pedro Barros.

LOURENÇO  -  Veio comprar briga?

JOÃO  -  Não, vim em missão de paz.
  
LOURENÇO  -  (abrindo a porteira, desconfiado)  Tá bem, entra...

JOÃO  -  Aproveito, também, pra sabê se... se meu cavalo alazão tá por aqui. Se a moça que me roubou ele, mora aqui. Uma moça bonita, fina... que não tem cara de ladrona.

CENA 4 - FAZENDA DE PEDRO BARROS - CASA-GRANDE - SEQUENCIA - EXT.  - DIA.

Do alto da escada, Lara e Pedro Barros assistiam á chegada do irmão Coragem. Lara tentou descer em direção ao homem que lhe prestara  auxílio na estrada deserta. Pedro Barros segurou-a fortemente, por detrás.


PEDRO BARROS  -  Vá pro seu quarto, menina.
  
MARIA DE LARA  -  (desafiadora)  Quero falar com o moço, e não é o senhor quem vai me impedir.

PEDRO BARROS   -  (apertando mais o braço da filha)  Num quero você metida com essa gente.

MARIA DE LARA  -  Por quê? Tem medo que eu descubra o que o senhor faz com eles?

PEDRO BARROS  -  Depois a gente conversa. Anda. Vá pro seu quarto, se não quer me fazer perder a paciência.

MARIA DE LARA  -  Vai fazer comigo... o mesmo que fez com Braz Canoeiro?

PEDRO BARROS  -  Obedece e não amola!

CENA 5 - FAZENDA DE PEDRO BARROS - CASA-GRANDE - INT. - SEQUENCIA - DIA.

Barros empurrou a filha até a porta de seu quarto enquanto João e Lourenço penetravam na sala da casa grande. A figura estranha do coronel destacava-se na moldura da escadaria. Charuto na boca, Barros descia lentamente, tentando aparentar uma calma que, na verdade, não possuía.

Lourenço se aproximou do chefe e cochichou ao seu ouvido, deixando em seguida a sala. João, impassível, assistia á cena.


PEDRO BARROS  -  Que é que você quer, João?

JOÃO  -  Bom dia, meu coronel, como está passando?

PEDRO BARROS  -  Bem, muito bem, com a graça de Deus. Vá dizendo logo o que tem a me dizer.

O coronel sentou-se a um canto da sala. João permaneceu de pé.

JOÃO  -  Vim pra conversá feito gente... pra pôr o senhor em dia com os acontecimentos de Coroado. Tem acontecido tanta coisa ruim em seu nome, que eu acho que o senhor deve de ignorar pelo menos a metade.

PEDRO BARROS  -  Que é que você quer dizer com esse palavreado todo?

JOÃO  -  Que tou aqui pra ver se desperto dentro do senhor... êsse sentimento de caridade... pela pessoa humana. Porque o que tá acontecendo aqui, é coisa que revolta até mesmo um santo. É barbaridade. É desumanidade. E eu não acredito que meu coronel esteja de acordo.
 
PEDRO BARROS  -  (mostrando-se inocente)  Eu... eu não sei que acontecimentos são esses. Não sei do que você está falando.
 
JOÃO  -  (decidido)  Tou falando das maldades que fizeram com o pobre do Braz Canoeiro.

PEDRO BARROS  -  (gritando)  É um ladrão de diamantes!

JOÃO  -  Tou aqui pra lhe jurá... pra lhe dá minha palavra de honra, de como Braz Canoeiro tá inocente.

PEDRO BARROS  -  Não se meta naquilo que não é da sua conta. Me deixe trabalhar em paz.

João sentia a ira aumentar a cada palavra do coronel. Suas feições estavam transtornadas. Face dura. 

PEDRO BARROS  -  Não posso fazer nada pelo Braz Canoeiro. Não sei o que você quer que se faça por um ladrão.

JOÃO  -  Vim apelá... pra seu sentimento de justiça... o home ta muito ferido... com a surra que seus home dero nele. Ta necessitando de socorro médico. A gente aqui em Coroado num tem recurso, nenhum hospital. Mas na cidade mais próxima, tem. Vim lhe pedir pro senhor mandá levar o pobre home pra lá.
  
PEDRO BARROS  -  (impiedoso)   Ora, eu não tenho essa obrigação. Se está muito condoído da sorte dele, leve você. Eu não vou socorrer ladrão de diamante.

João deu alguns passos pela sala.

JOÃO  -  (secamente)  Não vou lhe tomar mais tempo, seu coronel. Só queria lhe dizê que... vou ser obrigado a pedir auxílio pras autoridades... pra poder internar o Braz num hospital. E, pedindo auxílio... vou ter de dar queixa do castigo que dero nele. Isso pode não ser bão pro senhor.
  
PEDRO BARROS --  (levantou-se, colérico)    -Pois dê a queixa! Faça o que quiser. Eu não tenho medo de nada. Quero que você e o Braz vão pro inferno! E fique sabendo que, nesta terra, quem faz a lei sou eu!

João deu as costas e saiu rápido da sala.

CENA 6 - COROADO - CASA DO DR. MACIEL - SALA - INT. - DIA.

Na cidade de Coroado só se falava no baile em homenagem ao Duda. A cidadezinha se vestia de alegria com a presença do filho famoso. Na casa de Maciel, o médico do lugar, eternamente embriagado, Ritinha e Domingas conversavam.


RITINHA  -  Não diga que estou engordando, que eu te esgano! Eu vou ao baile do Duda. Também se o bandido não me reconhecer, nunca mais olho pra cara dele. Risco ele da minha vida.
  
DOMINGAS  -  (aconselhando)  É melhó riscá desde já, Rita. Olha, tão dizendo umas coisa por aí.  Chegô uma mulher da cidade, no mesmo trem que ele. Se hospedô na pensão do Gentil Palhares, uma mulher meio da misteriosa... tão dizendo que é mulhé dele. E mais, que tem jeito de mulhé-dama...

RITINHA  -  (recriminando)  Domingas!  Duda não é casado. Se fosse, Sinhana, mãe dele, não ia saber?

DOMINGAS  -  Uai... pra ter mulher, não precisa sê casado...

FIM DO CAPÍTULO  4
João Coragem (Tarcísio Meira)

E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

# O PROMOTOR RODRIGO EXIGE QUE O DELEGADO FALCÃO TOME PROVIDÊNCIAS NO CASO DO ESPANCAMENTO DE BRAZ CANOEIRO


# DUDA E RITINHA PASSAM A NOITE JUNTOS, RELEMBRANDO OS TEMPOS DE INFÂNCIA.


# DR. MACIEL EXPULSA A FILHA RITINHA DE CASA


NÃO PERCA O CAPÍTULO 5 DE 

sábado, 23 de abril de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 3


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair

CAPÍTULO 3


PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:

ESTELA
LOURENÇO
MARIA DE LARA
JERÔNIMO
RITINHA
JUCA CIPÓ
JOÃO
CEMA
PREFEITO JORGINHO
DUDA
POTIRA
SEBASTIÃO
BRAZ CANOEIRO
E O POVO DE COROADO

CENA 1 - FAZENDA DE PEDRO BARROS - CASA GRANDE - SALA - INT. - DIA.

Na sala – em silencio – Lourenço abraçava Estela. Lábios unidos na expressão do desejo. O choque de Lara foi imenso. Em segundos a visão do passado surgiu-lhe viva, real. O pai – quinze anos mais moço – arma em punho, esbofeteava a mãe. O revólver imenso apontado contra o peito. A mão enorme num vaivém incessante. Ao fundo a figura sinistra do homem indefinido, assistindo á cena. Uma visão que a acompanhava desde menina. Lara levou as mãos á cabeça.  “Aquela dor maldita...” Atravessou a sala e num gesto de desespero, desapareceu pela mesma porta onde, minutos antes, o pai, encolerizado, saíra aos gritos de “Juca Cipó”.

Estela e Lourenço afastaram-se ante a inesperada visão da moça.


ESTELA  -  Lara! Maria de Lara! Minha filha!

Reinava silencio na casa grande.

CENA 2 - COROADO - ESTAÇÃO - EXT. DIA.

Na pequena estação de Coroado o apito do trem deu início á loucura.


HOMEM   -  Pessoal, lá vem o trem!

Durante todo o dia a vida da cidadezinha se transformara num esperar-que-não-tinha-fim. Os preparativos para a chegada começaram manhã cedinho. Por ordem do prefeito foi decretado feriado municipal. O velho juiz de direito, severo e resoluto, adiara seus compromissos – “casamento só amanhã” – e o delegado Falcão, terno branco, camisa aberta ao peito, palito no canto da boca, arregimentara todos os seus homens – quatro ou cinco, se tanto – para conter os excessos de alegria com a promessa de xadrez. Bebia-se como nunca em Coroado.

HOMEM  -  Pessoal, o trem chegou!

A um sinal do prefeito, a banda atacou, enchedo de som a pracinha. A multidão delirava.

Ritinha sentia o coração desordenar-se. As palavras de Sinhana ecoavam em seus ouvidos  -  "... de mim que sou sua mãe, eu sei que se lembra...” Eduardo menino. Quanta recordação!

De repente o ranger de freios.


JERÔNIMO  -  Duda tá chegando, Ritinha.

O trem sustinha o ritmo. Começava a parar. Num dos degraus um jovem acenou á multidão. 

RITINHA  -  (sem se conter) Olha lá ele! É o Duda!

O povo acompanhava o coro enquanto a bandinha acelerava o ritmo do dobrado militar.

HOMEM 2  -  Duda chegou! Viva o Duda!

CENA 3 - RANCHO DOS CORAGEM - INT. - DIA.
  
O velho Bastião suportava a solidão de espera. Nem mesmo a volta triunfal de seu menino pudera levantar-lhe as forças. O danado do mal tinha coisa do diabo – pensava lá consigo. Leve tropel, distante, dizia-lhe que alguém se aproximava do rancho humilde. “Devia ser o Duda”. O garimpeiro ajeitou os fiapos de cabelos, esticou os vincos corroídos da calça surrada e procurou conter as emoções que talvez não pudesse suportar. Não teve tempo para muito... Lourenço, Juca Cipó e dois capangas aparecerem no momento em que seus braços fracos – abriam-se para acolher o filho que regressava.


LOURENÇO  -  Vamos dar um susto no velho, Juca. Ele já foi moço. Assustou muita gente.

JUCA CIPÓ  -  Deixa comigo.

Bastião recuou, apavorado
.

JUCA CIPÓ  -  É mais um conselho, velho. Um aviso pro seu filho não ser besta de vender diamante pros gringos.

Juca suspendeu o revólver e o baixou violentamente sobre a cabeça encanecida do garimpeiro.

CENA 4 - ESTRADA DE CHÃO - EXT. - NOITE.


João Coragem, em seu cavalo, dirigia-se ao rancho, em trote macio.

A estrada serpenteava, banhada pela luz da lua. De repente o grito. O vulto que cambaleava. Da margem da estrada a moça divisou o cavaleiro. No alto, a lua lembrava um diamante colossal. Maria de Lara caiu ao chão. Os olhos de João Coragem não queriam acreditar. 


JOÃO  -  (reconhecendo a jovem) Santo Deus! O rubim do coronel!

Rápido o rapaz saltou da montaria e suspendeu nos braços o corpo inanimado da moça.  

CENA 5 - RIACHO AO PÉ DA SERRA - EXT. - NOITE.

Próximo a um riacho que corria da serra, João Coragem percebeu alguém ás margens das águas. Reconheceu Cema, mulher de Braz Canoeiro.  A jovem mulher recolhia ervas á beira do riacho numa expressão de sofrimento.


JOÃO  -  (gritou) Cema!  Quer me ajudar aqui?

Cema ergueu os olhos. Reconheceu João Coragem, com a moça desmaiada, os cabelos dourados caindo-lhe sobre os ombros.

JOÃO  -  Que é que a gente faz quando uma mulher tem esse negócio que parece que tá morta, mas não tá?

CEMA  -  Jogá água na cara dela, seu João.  (levantou-se, na mão um punhado de ervas) E eu lhe pergunto.O que é que a gente faz quando tem na garganta uma revolta, como eu?
 
JOÃO  -  Revolta, Cema, de que?

CEMA  -  Então...não soube o que fizeram com o meu Braz?

JOÃO  -  Braz! Aquele santo home? O que fizeram com ele?

CEMA  -  Tá morrendo, seu João! Ta morrendo!

Com um soluço a mulher do garimpeiro correu em direção á casa, distante alguns metros do local.

João voltou os olhos para a moça, deitada na margem do riacho. Os raios prateados da lua aumentavam-lhe a brancura da face. Com as mãos em concha,  salpicou pingos de água fresca do riacho sobre o rosto impassível. A jovem reagiu, balançou a cabeça com gestos nervosos. João segurou-a pelos ombros. Os olhos grandes fitaram com espanto a fisionomia do rapaz.


MARIA DE LARA  -  Quem é você?

JOÃO  -  Sou João, moça. Tá em companhia de gente de bem.

MARIA DE LARA  -  (olhando longamente a região, parecendo desligada de tudo) O que estou fazendo aqui?

JOÃO  -  Eu é que pergunto. Encontrei você meio zonza, andando pela estrada. Parecia carecer de ajuda. Apeei do meu cavalo e lhe ajudei. Foi a sorte. A moça virou os olhos e caiu nos meus braços.

MARIA DE LARA  -  Eu caí?
  
JOÃO  -  (pareceu esquecer a pergunta) Não sei se tou enganado, mas parece que já lhe vi em outro lugar.
 
MARIA DE LARA  -  (tentando levantar-se, nervosa) Acho que está enganado. Eu não sou daqui.

JOÃO  -  Tá bem, eu acredito, mas você tá precisando de ajuda. Eu lhe levo até na casa do Braz Canoeiro, que é aqui perto. Depois dum cafezinho, vai se sentir mais forte.

Os dois seguiram para o casebre próximo.

CENA 6 - COROADO - PRAÇA - EXT. DIA.


Em Coroado, a festa atingira o auge. Duda, abraçado a mãe e ao irmão Jerônimo, ouvia o discurso de saudação do prefeito Jorginho. A emoção lhe provocava lágrimas. A cada frase o povo aplaudia.
Ritinha permanecia inerte, olhar no rosto de Duda, como a esperar um sorriso do amigo de infância. Em certo instante os olhares se cruzaram. O coração da jovem palpitou mais forte. Fora um momento só. Duda não a reconhecera. A voz do prefeito se destacava no vozerio geral.


PREFEITO  -  Se me permitem o trocadilho, Duda saiu de Coroado de cabeça limpa e voltou com a coroa do rei. Via o nosso Duda! Viva o nosso rei!

A banda reiniciou o dobrado, enquanto a multidão carregava sobre os ombros o novo ídolo da cidade.
Lágrimas espocavam dos olhos de Ritinha.  A decepção ferira-lhe o amor-próprio. E com as lágrimas a banhar-lhe a face, deitou o rosto sobre os ombros de Domingas, sua confidente e mãe de criação.


DOMINGAS  -  Toma jeito, Rita. Não fica assim. Chorando que nem bebê por uma coisa á toa...

Jerônimo, que assistia á cena, aproximou-se da moça.

A banda se afastava, enquanto os brados de Viva Duda! Se confundiam com os gritos da multidão.


RITINHA - (levantando os olhos, ao notar a presença do irmão de Duda)  Ele nem me reconheceu, Jerônimo.

JERÕNIMO  -  Pudera, Ritinha. Quando saiu daqui, ocê era menina, feia,  sardenta, de trancinha. Agora ta uma moça... bonita que nem sei.
  
DOMINGAS  -  Já disse prela. Num falta home bão que te queira. Fica aí pensando no Duda, dia e noite, feito uma boba.

RITINHA  -  Me leva embora, Domingas. Não quero nunca mais ver a cara dele. Nem a raça de vocês.

Ritinha se afastou a passos rápidos, quase correndo, na tentativa de conter as lágrimas que não cessavam de cair. Jerônimo, tristonho, observava a retirada da jovem. Ao longe o carro de Duda se perdia no meio da turba.

CORTA PARA:

CENA 7 - RANCHO DOS CORAGEM - INT. - DIA.

No chão do rancho o velho Sebastião permanecia desacordado. Um filete de sangue traça um risco escuro no alto da fronte do garimpeiro idoso. Potira estacou repentinamente ao ver o corpo do pai de criação. Mestiça de cabelos longos e olhos sombrios, desde criança fora criada pela família Coragem. Amava o velho garimpeiro com amor de filha verdadeira. E havia quem dissesse que a indiazinha dos Coragem era produto de antiga paixão do velho de Sinhana, durante suas andanças pelo sertão de Goiás.
Potira sacudiu o pai de criação e o arrastou para uma esteira, no quarto de Jerônimo. Retirou a rolha de uma garrafa de aguardente e despejou um gole na boca do ancião.
Sebastião voltou a si, meio zonzo.


POTIRA  -  Me fala, padrim... que lhe aconteceu?

O velho, gemendo, colocou a mão na cabeça.

POTIRA  -  Um galo feio. Alguém lhe bateu?

SEBASTIÃO  -  Os maldito... dos jagunço de Barros... tiveram aqui, Potira.

POTIRA  -  Os home de Pedro Barros?

SEBASTIÃO  -  Viero me assustá. Se aproveitaro... os marvado... de eu ser velho e doente. Com meus filhos eles não se mete...

POTIRA  -  (revoltada)  Diz pros menino, conta tudo. Os menino dá uma lição neles.

SEBASTIÃO  -  Não... não. Depois da festança eu conto.

CORTA PARA:

CENA 8  -  CABANA DE BRAZ CANOEIRO  -  QUARTO  -  INT. - DIA.

Braz Canoeiro gemia, amparado pelos braços de Cema. O castigo de Juca Cipó fora terrível.

CORTA PARA:

CENA 9  -  CABANA DE BRAZ CANOEIRO - SALA  -  INT. - DIA.


João Coragem observava as reações da jovem que vira no carro do coronel Pedro Barros. Era bela. De traços finos e sorriso triste.

JOÃO  -  Tá melhor, moça?

MARIA DE LARA  -  Sim, um pouco, obrigada... mas por que esse homem está gemendo tanto?

JOÃO  -  É Braz Canoeiro. Deram uma purga nele e ainda por cima quase mataram ele de pancada...

MARIA DE LARA  -  Quem bateu nele?
  
CEMA  -  (aparecendo na sala)  Os bandido de Pedro Barros.

A moça estremeceu.

CEMA  -  Meu Braz era meia-praça dele. Antes donte os home cismaro que meu Braz engoliu um diamante. Quase mataro ele pra devolvê o que ele num tinha. (e continuando o relato) Esse ainda escapou com vida. Mês passado mataro um alugado porquê num queria mais trabalhá preles.
  
JOÃO   -  (sério) Todos nós somos, mais ou menos, escravo de Pedro Barros... ele é o dono de quase todas as serra do garimpo. Todos sofremo a opressão do domínio dele. Eu nem tanto, que tenho meu próprio garimpo e coragem pra enfrentá esse home.

No quarto Braz gemeu mais alto, um gemido rouco, quase estrangulado. João e Cema correram para o local.

Só, na sala, a jovem não se sentia bem. Pela janela viu o cavalo do homem que lhe prestara ajuda. O tropel despertou a atenção de João Coragem. Correu para a porta. Era tarde. A moça já se perdia na escuridão da estrada.

JOÃO  -  Danada! Fugiu no meu cavalo!

FIM DO CAPÍTULO 3 
Sinhana(Zilka Salaberry) e Ritinha (Regina Duarte)


E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

#JOÃO CORAGEM VAI Á FAZENDA DE PEDRO BARROS Á PROCURA DE SEU CAVALO E MOSTRAR SUA INDIGNAÇÃO PELA VIOLENCIA PRATICADA PELOS JAGUNÇOS CONTRA BRAZ CANOEIRO, E DESAFIA O CORONEL.

#RITINHA, AUXILIADA POR DOMINGAS, SE ARRUMA PARA IR AO BAILE EM HOMENAGEM A DUDA.


NÃO PERCA O CAPÍTULO 4 DE

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 2


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair

CAPÍTULO 2


PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:

JUCA CIPÓ
BRAZ CANOEIRO
PEDRO BARROS
JOÃO
SINHANA
RITINHA
JERÔNIMO
MARIA DE LARA
ESTELA
LOURENÇO
GARIMPEIROS
JAGUNÇOS

CENA 1 – COROADO – GARIMPO DE PEDRO BARROS – EXT. – DIA

Na outra banda da cidade, os tratores desvirginavam o solo á cata de diamantes. Chapelão caído sobre os olhos, o Coronel Pedro Barros enxugava a testa com um lenço úmido de suor. O trabalho se desenvolvia com a ajuda de novas máquinas. Trabalho penoso, amenizado pela força do aço que abria sulcos na pele dura da terra. Pedro Barros dava ordens, gesticulava, gritava. Seus cabelos e barba, grisalhos, embebidos de suor. O sol queimava. Depois de alguns minutos afastou-se em direção ao rio. O garimpo faiscava. Dezenas de homens peneiravam, pés submersos, água na altura dos joelhos., á procura das gemas que não lhes pertenciam. Da fortuna que jamais lhes serviria no futuro. Braz Canoeiro era um deles.Negro,de bonita estampa, leal, bom caráter. O suor que lhe escorria das costas parecia refletir, qual espelho, o olho coruscante do sol.


Juca Cipó acabava de chegar.Desmontou e observou o bando em atividade. Seus olhos fixaram a figura em negro de Braz Canoeiro e se concentraram em seu gesto natural de limpar os lábios com o dorso da mão.


JUCA CIPÓ - Peguem esse  homem!

CAPANGA - Qual homem, seu Juca?
  
JUCA CIPÓ  -  (correndo na direção do negro)  -  Braz Canoeiro. Ele engoliu um diamante!

O  garimpo parou de estalo para assistir á cena. Vencido pelo jagunço, Braz foi lançado ao solo, de encontro ao cascalho.

BRAZ CANOEIRO  -  Cês tão enganado... eu não engoli nada, não.

JUCA CIPÓ  -  Engoliu sim. Eu vi. Vi quando ocê passô a mão na boca, nego nojento.

BRAZ CANOEIRO  -  Passei sim, mas não engoli nada... juro.

Braz empalideceu. Abriu a boca com as duas mãos. O Coronel Pedro Barros se aproximou do local. Severo nos seus sessenta e poucos anos.

 PEDRO BARROS  -  Que foi que houve aí?

 JUCA CIPÓ  -  Esse crioulo sujo, seu coroné. Engoliu um diamante.

PEDRO BARROS  -  Façam ele botar pra fora.

BRAZ CANOEIRO  -  (reagindo, amedrontado)  Não é verdade, seu coroné. Eu não engoli nada. Juro por Deus, pela minha mãe.

PEDRO BARROS  -  Façam ele cuspir o diamante. Por cima ou por baixo. Cadê o óleo de rícino?

De um salto o jagunço chegou á cabana onde estavam guardados o material de trabalho, alimentos e remédios de uso permanente. Voltou com uma garrafa na mão. 

 BRAZ CANOEIRO  -  (gritando, enlouquecido, apavorado)   Não! Eu não engoli nada. Eu não engoli...

Juca Cipó puxou do revólver, puxou com violência a cabeça do negro e encostou o cano na têmpora encarapinhada.

JUCA CIPÓ  -  Vamos, bebe ou morre!

Braz ingeriu todo o conteúdo. E caiu ao solo.

CORTE PARA:

CENA 2 - COROADO - CENTRO DA CIDADE - EXT. - DIA.


Na igrejinha branca, o papel de seda multicolorido, cortado em tiras, se destacava qual pintura em alto-relevo. A cidade vivia. Coroado se engalanava para receber seu filho famoso. De um lado para outro da rua estreita, a faixa se destacava – SEJA BEM-VINDO, DUDA. Pés no chão, calça de brim, rota, aqui e ali desenhada de remendos coloridos, um tabaréu palitava os cacos de dentes, debruçado no balcão sujo da bodega. Deu uma bicada, cuspindo o pardo do fumo de mistura á brancura da aguardente que queimava. Ao longe um sino tangia. Na rua  um moleque pregava  o “sabor da cocadinha de côco”. O bimbalhar do chocalho conduzia o jumento da água ao seu destino. No  armarinho-tem-de-tudo, Dona Ana vendia rendas e peças  de chita .A cidade vibrava.  Coroado estava em festa.

De repente o monstrengo estremeceu a rua . João Coragem surgia num fordeco 34, caindo aos pedaços . Sinhana de vestido novo, sorridente. Jerônimo, medalhão sobre o peito, admirando as novidades e João, feliz, na direção do calhambeque. 


JOÃO  -  (mostrando a faixa embalada pelo vento)  Olha, mãe. Vou lê: SEJA BEM-VINDO, DUDA.

SINHANA  -  (surpresa)  Como é que já souberam?

JOÃO  -  Todo mundo sabe. Tão preparando um festão pra quando ele chegá.

CORTE PARA

CENA 3 - COROADO - RUA - EXT. - SEQUENCIA - DIA.

A moça apareceu na esquina. Quase correndo no seu andar lépido e aprumado. Rita de Cássia era toda excitação. O vestido florido, de saia rodada, escondia formas firmes e arredondadas. Os seios saltavam a cada movimento da jovem, na tentativa de libertar-se da prisão do pano. As faces vermelhas acentuavam o rubor no esforço da pressa.


RITINHA  -  João.

JOÃO  -  Rita.

RITINHA  -  (contendo o entusiasmo, dirigindo-se a Sinhana)  Oh, Sinhana... É verdade que ele chega mesmo amanhã?

JOÃO  -  (apontando a faixa, orgulhoso)  Tu não ta vendo? Tem faixa na rua. Banda ensaiando. Parece até deputado em véspera de eleição.

RITINHA  -  Eu quase não acreditei. Faz tanto tempo...

SINHANA  -  Sete anos, Ritinha. Sete anos. Quando saiu daqui, tinha 16. Tá um home.

RITINHA  -  Será que ele ainda se lembra da gente?

SINHANA  -  Intão num havia de se lembrá, Ritinha? De mim, que sou mãe dele?

RITINHA  -  (desconcertada)  Eu... espero que não tenha me esquecido, também.

Era visível a preocupação da moça. Naquele momento via o pai sair da farmácia e se aproximar do grupo. 

RITINHA  -  (despedindo-se, apressada)  Té logo, Sinhana. Té logo, João.

Enquanto Ritinha se afastava, Sinhana comentou com o filho:

SINHANA  -  Por quê tanto assanhamento dessa menina?

JOÃO  -  Não se lembra, mãe? Ela foi namorada do Duda.

SINHANA  -  Ah, é verdade...

CORTE PARA:

CENA 4 - COROADO - RUA - EXT. - SEQUENCIA - DIA.

O cadilaque de Pedro Barros estacionou pouco atrás do fordeco. Maria de Lara deixara a quietude da fazenda em busca do rebuliço de Coroado. Quase ninguém conhecia a filha do coronel na cidadezinha agitada dos garimpos. Desde menina, presa nos limites da fazenda, quando moça fora para o Rio e só agora retornara, professora, para a tranqüilidade das terras do coronel. Comentava-se a beleza, a bondade da filha do coronel – um oásis no clima de violência da fazenda do pai. O carro permanecia parado. No rosto da moça a doçura, a meiguice. Foi isto que mais impressionou João Coragem ao se aproximar do veículo.


JOÃO  -  (murmurando)  Bonita  demais...

JERÔNIMO  -  Quê que ce viu aí dentro, mano?

JOÃO  -  (despertando do repentino enlevo)  Um diamante, Jerônimo. Um rubim daqueles!

JERÔNIMO  -  Num é o carro de Pedro Barros?

JOÃO  -  (sem tirar os olhos da moça)  É. Mas ela quem é?

JERÔNIMO  -  Sei lá, João. Vamo simbora. Isso é bamburra demais pra nós.

CENA 5 - FAZENDA DE PEDRO BARROS - CASA GRANDE - ALPENDRE - INT. - DIA.

No alpendre da casa grande da fazenda, Estela e Pedro Barros conversavam. Típica construção do interior, com salas imensas, varandas largas, paredes fortemente caiadas e interiores decorados com ostentação e mau gosto. No terreiro algumas galinhas ciscavam á procura de alimento. Vários homens tentavam aquietar a indocilidade de um touro nas cercanias do curral.


Maria de Lara acabava de chegar. Os pais foram ao encontro da filha.

PEDRO BARROS  -  Então? Gostou da cidadezinha? Muita diferença?

MARIA DE LARA  -  Não sei, pai. Saí daqui tão criança que nem me lembrava mais. Algumas coisas sim... algumas coisas tinham ficado na minha memória.

 ESTELA  -  Mas a cidade não mudou nada.  Aquele mesmo atraso. Aquela mesma gente inexpressiva.

 MARIA DE LARA  -  Sim, mas a miséria do povo... Porquê há tanta miséria, pai, numa região tão rica?

 PEDRO BARROS  -  É a gente que é preguiçosa, não quer trabalhar. Acham um diamantezinho, um olho de mosquito, vem aqui, vendem e só voltam a trabalhar depois que o dinheiro acaba.

 MARIA DE LARA  -  Mas a maioria não é empregada no seu garimpo?

 PEDRO BARROS  -  (titubeando, com visível aborrecimento)  É preciso vigiar dia e noite pra não me roubarem. Ontem mesmo um deles engoliu uma pedra. Tivemos de lhe dar uma dose dupla de óleo de rícino e o desgraçado, ainda assim, não devolveu a pedra. Nem com purga, nem com sova. Negro danado...

 A criada apareceu anunciando o almoço.

CENA 6 - FAZENDA DE PEDRO BARROS - CASA GRANDE - SALA DE JANTAR - INT. - DIA.

Pedro Barros, Maria de Lara e Estela almoçavam.

Os gestos grosseiros de Pedro Barros impressionavam a jovem desacostumada a suas maneiras rudes. Era duro no falar, duro nas expressões. Um pai que não se ajustava ao seu modo de proceder e de ver as coisas. 


MARIA DE LARA  -  (voltando ao tema) O povo de Coroado parece gente muito triste, mesmo vivendo num lugar onde se tem tudo para ser alegre.

ESTELA  -  Alegre? Aqui? Neste fim de mundo?  Isto é um buraco horroroso.
  
PEDRO BARROS  -  (eriçando-se)  Mas é aqui que eu ganho a vida.

ESTELA  -  Sim, é aqui que você enche a pança. Mas é aqui que eu enterro minha mocidade, Pedro. Você está podre de rico, mas até hoje eu ainda não vivi. Presa neste desterro sem ver o mundo.

MARIA DE LARA  -  Papai tem razão. Esse é o negocio dele.

ESTELA  -  Você diz isso porquê sempre viveu na cidade. Queria que você vivesse aqui. Como eu. Em meio a essa gente porca e ignorante.

Pedro Barros isolara-se do mundo. Nada ouvia. Devorava um frango, mãos ensebadas, tirando dos ossos a carne gorda. Restos de comida caíam-lhe pelos cantos da boca. 

ESTELA  -  (enojando-se com a visão repelente do marido)  Ô homem, vê se não se lambuza tanto! Parece um animal.

PEDRO BARROS  -  Comer frango sem se lambuzar, não tem graça.

Lara se incomodava com as reprimendas e reações da mãe. Via o pai, animalesco, desligado das etiquetas, inteiramente absorvido no ato de comer. A seu lado a mãe -  jovem ainda nos seus quarenta anos – revoltada contra anos de maus tratos e solidão forçada.

Lourenço entrou intempestivamente. Era homem de meia-idade – bem conservado, com certo charme – de modos decididos. Sólido como a própria região do garimpo. Entrou com a naturalidade do hábito diário.


LOURENÇO  -  Boas tardes, coronel. (desconcertando-se um pouco com a presença de Lara)  Não sabia que tinha visita.
 
PEDRO BARROS   -  (sem levantar os olhos do prato, voz embargada pelo frango gordo) É minha filha Lara. Maria de Lara. Chegou ontem do Rio. Esteve lá estudando. Voltou doutora.
  
ESTELA  -  (corrigindo) Que doutora, Pedro. Professora.

PEDRO BARROS  -  É a mesma coisa. (e voltando-se para a filha)  Êsse é o Lourenço, meu braço-direito aqui em Coroado.
   
Os olhos da moça e os do recém-chegado encontraram-se durante fração de segundos. Das mãos grossas e calosas do capataz sobressaiam dedos fortes. Cabeludos. Lara fixou o brilho dos anéis. Pedras coruscantes, imensas. Lembrou-se da gente humilde das redondezas. Casas de barro, coberturas de sapé, chão de terra. Vidas miseráveis. E das palavras do pai – “...é preciso vigiar dia e noite para não me roubarem...”

LOURENÇO  -  (dirigindo-se ao coronel)  O senhor sabe qual foi a resposta que o patife do João Coragem lhe mandou?

Pedro Barros ergueu a cabeça, atento, limpando os lábios com o dorso das mãos.

LOURENÇO  -  Ele e o irmão mandaram dizer que vão vender diamantes  pros gringos ou pra quem quiser.
  
PEDRO BARROS  -  (com uma chispa de cólera nos olhos, levantou-se num repelão)  Pois eu quero ver alguém vender diamante pros gringos. Vou pagar pra ver isso.

A ira do coronel crescia amedrontadoramente.

PEDRO BARROS  -  (desaparecendo pela porta) Juca! Juca Cipó! Onde se meteu esse desgraçado?
 
LOURENÇO  -  Fique descansado, coronel. Tou vigilante. Tem homem por todo canto da cidade e eles não vão ser bestas de trair a gente...

Os gritos de Pedro Barros ecoavam no interior da casa.

PEDRO BARROS  -  (off) “Juca! Moleque safado!”

ESTELA  -  (dirigindo-se ao homem, com intimidade)  Porquê não tem vindo aqui? Esqueceu que eu existo?
  
LOURENÇO  -  (num balbucio)  Muito trabalho. Muito trabalho.

ESTELA  -  (parando a poucos passos do capataz, olhos vidrados, voz adocicada)  E durante todo este tempo não sentiu um pouquinho de saudade de mim? Jura?

Os berros de Pedro morriam na distancia.

PEDRO BARROS  -  (off)  “Juca! Moleque desgraçado!”

FIM DO CAPÍTULO 2
Diana (Gloria Menezes) e João (Tarcísio Meira)


E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

# LARA SURPREENDE A MÃE E O CAPATAZ, LOURENÇO, BEIJANDO-SE E FICA CHOCADA.

# ENQUANTO COROADO ESTÁ EM FESTA COM A CHEGADA DE DUDA, OS CAPANGAS DE PEDRO BARROS RESOLVEM IR AO RANCHO DOS CORAGEM DAR UM SUSTO NO VELHO SEBASTIÃO.

# RITINHA SOFRE POR NÃO SER SIDO RECONHECIDA POR DUDA

#MARIA DE LARA FOGE COM O CAVALO DE JOÃO CORAGEM


NÃO PERCA O CAPÍTULO 3 DE... 

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 1


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair

CAPÍTULO 1

PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:

DUDA
SINHANA
SEBASTIÃO
JERÔNIMO
JOÃO
JUCA CIPÓ
JAGUNÇO
LOCUTOR
GARIMPEIROS


LETREIRO:
RIO DE JANEIRO  -  1965


CENA 1 -  ESTADIO DO MARACANà -    EXT.  -  DIA

O Maracanã estremecia. Bandeiras rubro-negras, aos milhares, agitavam-se no imenso anel do estádio. A cada finta, a cada passe, a multidão respondia com a cadencia do “olé”! Feições transtornadas, mãos que se apertavam em desespero, na solidariedade do sofrimento. Era o Flamengo na ânsia da vitória. Em todo o campo – num eco gigantesco – a voz dos locutores brotava de dezenas de milhares de transistores. O Brasil acompanhava atento a “tortura” de seu time mais querido. Frios, os ponteiros dos relógios assinalavam os instantes finais. O Flamengo insistia. 

LOCUTOR - (off)       ...Avança o Flamengo nos minutos derradeiros da partida. O placar permanece mudo. Só a vitória interessa á equipe da Gávea... Lá vai Gérson. Domina o couro.

Ultrapassa o meio do campo. Finta um adversário. Passa por outro e estende na direita a Carlos Alberto, que entrega a Duda – a maior figura em campo... O Brasil acompanha atento a “tortura” do seu time mais querido. Frios, os ponteiros do relógio assinalam os instantes finais. O Flamengo insiste! 

O repentino silêncio foi quebrado apenas pelo locutor nervoso

LOCUTOR - (off)      ...Duda investe pelo miolo. Vence um adversário. Dois. Penetra na área. Atenção. Pode marcar....

De repente a loucura. O grito da multidão em uníssono.

LOCUTOR - (off)    “Gooooooool! Goooooooool! Do Flamengo! Duda! Duda!

Espocavam foguetes, frenéticas as bandeiras são agitadas. No gramado, um inferno.

LOCUTOR -    “Uma pirâmide humana esmaga o ídolo da Gávea... Duda chora. O juiz olha o seu cronômetro. Vai terminar a partida. Há um delírio no Maracanã, senhoras e senhores. E atenção! – terminou o jogo... Flamengo, campeão carioca de 1965!

Surdos e tamborins misturam-se aos gritos de Mengo! No gramado verde, salpicado de papéis, os rádio-repórteres investiam de microfones volantes.


REPÓRTER -       E agora, Duda? Depois do título e do gol histórico...

DUDA -    Um só pensamento. Pedir licença ao clube para ver minha mãe. Visitar minha terra e abraçar meus irmãos, que não vejo há muitos anos. É tudo o que quero.

REPÓRTER -  Senhoras e senhores, que admirável exemplo de profissional. Dono da tarde, autor do gol que deu o campeonato ao Flamengo, Duda foge de qualquer outro compromisso para voltar á sua terra, rever sua gente e sua mãezinha, numa cidade distante, no interior do país...

CORTA PARA:

LETREIRO:   COROADO

CENA 2 –RANCHO CORAGEM  -  SALA DE JANTAR  -  INT.  -  DIA

Na casa rústica de Coroado, a velha Sinhana colocava o último prato sobre a mesa de pés maciços. Num canto da parede a imagem de São José. Sobre o baú secular – herança não se sabe de quem – algumas amostras sem valor de pedras da região. O cheiro do feijão bem temperado inundava a sala onde o garimpeiro Sebastião – pele curtida, enrugada, faces esquálidas – retirava a bota enlameada e gasta.


SINHANA   -      Sabe, velho,esta noite sonhei com o nosso Duda, o ingratão.

SEBASTIÃO  -  Se preocupa não. O menino tá mais arranjado na vida que os dois irmãos, o Jerônimo e o João.

Sinhana chegou á janela. Ao longe, na linha do horizonte, o risco das montanhas arranhava o céu. O verde das árvores tingia de alegria a solidão ambiente. A velha porteira, corroída pelo tempo, fechava os sonhos de liberdade do gado tristonho, a ruminar. Ao longe, um manto de poeira levantava-se da estrada de barro batido. Num galope cadenciado, um cavaleiro se aproximava.

SINHANA  -   (sotaque carregado)  Jerome vem aí.


CENA 3 – RANCHO CORAGEM  -  EXT.  -  DIA.

Era um jovem de traços belos, cabeleira revolta, gestos agressivos e expressão sofrida. O cavalo estacou retido pela pressão das rédeas, o suor do animal se confundindo com o suor do homem. Fôra longa a esticada de Coroado ao rancho humilde e pobre.

Ligeiro o jovem saltou da sela, atou o laço num tronco de árvore e dirigiu-se á casa, agitado.

CENA 4 – RANCHO CORAGEM  -  SALA  -  INT.  -  DIA


JERÔNIMO    -         Mãe! Mãe!

SINHANA    -   Que e isso, Jerome! Que escarcéu é esse? Será que achou rubim?

JERÔNIMO    -    Não. Mãe. Tava no garimpo, não. Vim da cidade, correndo pra lhe mostrá esse telegrama que seu Zequinha, do correio, me deu. É do Duda, mãe!

SINHANA   -    (estremeceu))  Duda? Que é que diz, meu filho? Má nova?

JERÔNIMO  -    (alegre)   Que ele chega depois de amanhã!

A noticia fôra forte demais. Sinhana escorou o corpo pesado de encontro á porta de madeira, com lágrimas a estourarem de seus olhos, O pensamento voltou aos dias de outros tempos. Ao filho ausente. Nascido ali. Na natureza agreste da região. Dali partira para a cidade grande. Aprendera a arte do futebol – “tão diferente das lutas do garimpo” – e hoje, famoso – “tava nos jornais e na boca de toda gente”.

JERÔNIMO  -   Chega depois de amanhã, mãe. Parece mentira...

SINHANA  -   Tu leu direito, filho? É verdade mesmo?

JERÔNIMO  -  Então. Mãe, eu não sei lê? Olha: (lê em voz alta) “Chego trem de quinta-feira. Duda”.

Sinhana pensava nos anos de ausência do filho. Nunca  escrevera uma linha, nunca mandara notícia... e as lágrimas deslizaram incontidas pela face da velha mãe. Jerônimo se aproximou. Com rudeza levantou as pontas do avental e enxugou as lágrimas da mãe.

SEBASTIÃO   -   Deixa isso pra lá, velha. Sei porquê ta chorando, mas cada um tem seu jeito de sê.

SINHANA  -  (voltou-se para o marido)   Se alegra, Bastião. Seu filho Duda vai chegar.

SEBASTIÃO   -  Ouvi tudo, mulher. Tou alegre. Você sabe que tou. (dirigindo-se ao filho) Seu irmão já sabe?

JERÔNIMO   -   João? Inda não.

SINHANA   -   Então corre, vai dizê pra ele. Tá  no garimpo.

CORTA PARA:

CENA 2 -  GARIMPO DOS CORAGEM  -  EXT.  -  DIA

Peitos nus, tostados pelo sol, os garimpeiros catavam a riqueza. As peneiras rudes passando, mão-a-mão, num ritmo de máquina. O trançado fino deixando escapar fios cristalinos de água do rio, retendo o cascalho bruto, as peneiras rolavam ns dança das mãos. Peneira na água. Peneira no sol. De mão-para-mão. Barro no rio. Cascalho no sonho que não se acabava. Era a cata do diamante. 



Jerônimo apareceu correndo.

 
JERÔNIMO  -  (telegrama na mão) João! Ô João!

O homem rijo susteve a peneira. Era um jovem másculo de peito largo, irmão Coragem de olhos negros, mãos calosas do trabalho duro de sol-a-sol. Fez sinal ao outro que esperasse. Era todo concentração no dançar das pedras. Jerônimo avizinhou-se, impaciente.

JERÔNIMO  -  Bamburrou, mano?

JOÃO  -  Nada. É um chibiu, pedrinha miúda.

JERÔNIMO  -  Olho de mosquito...

JOÃO  -   Que era que tu vinha gritando, feito maluco?

JERÔNIMO  -  Trago notícia, Jão. Chegou telegrama do Rio. Do Duda... ele      vai vir depois de amanhã.

JOÃO – (virando-se risonho)  Duda? Vai vir aqui?
   
JERÔNIMO – Pode lê o telegrama, mano.

JOÃO  -  (segurando  o telegrama com a mão molhada e suja de barro)  É  mesmo. Puxa, há quanto tempo não vejo aquele sem-vergonha. Vai ser uma alegria pros velhos...

JERÔNIMO  -  Tão chorando de alegria.

JOÃO  -  (feliz) Menino, vai sê uma festança!

Dois homens se aproximavam a cavalo. Um deles, tipo estranho, de gestos afeminados, conhecido em toda a região do garimpo. Juca Cipó. Homem de feições traiçoeiras, onde a maldade se mostrava clara. Caráter formado em anos de crime contra a gente simples do garimpo. Juca era temido. Rostos sombrios, ele e o companheiro alcançaram a margem do rio. Súbito silencio quebrou a alegria dos presentes.. O próprio ar pareceu parar de repente.

JUCA CIPÓ  -  Tardes...

JOÃO  -  Tardes...

JUCA CIPÓ  -  Como vai o garimpo, gentes? Bamburrando muito?

JOÃO  -  Que o quê.... só farinhada, quando muito.

JUCA CIPÓ  -  Trago um recado do patrão procês. Do coroné Pedro Barros.

Todos os olhos se voltaram a um  só tempo.

JOÃO  -  Que recado?

JUCA CIPÓ  -  Avisar a ocês que tem gringo na cidade. O coroné manda prevenir que quem vender diamante pra eles vai se dá mal...

Jerônimo sentiu o rosto ferver. Tentou sacar da arma que descansava na bainha. Deu um passo á frente na direção do capanga. João, pressentindo a aproximação do perigo, num gesto rápido, conteve a fúria do irmão. Juca Cipó permanecia atento, o riso sarcástico na boca feminina.

JERÔNIMO – (impetuoso)  -  Pois diga lá ao “seu” coronel Pedro Barros que quem vai se dar mal é ele. Nós vendemos nossas pedra pra quem quisé.

JOÃO - Calma, Jerônimo... ( e dirigindo-se a Juca Cipó)  Este garimpo é nosso. “Seu” coronel Pedro Barros manda lá, no garimpo dele.

Impassível, acariciando a crina do animal, Juca observava a reação dos Coragens. Jerônimo apertou os olhos, nervosamente.

JUCA  -  Tá certo. Mas na hora de vendê as pedras ocês tem que vendê pra ele.

JOÃO  -  A gente sempre vende.

JERÔNIMO  -  E ele se aproveita pagando o que qué...

JOÃO  -  (explodindo) Até o dia que a gente quisé vendê a outro, porquê a gente é livre, Juca!

Juca irritou-se. Sorriu, irônico.

JOÃO – (chegando perto da montada)  Hôme, vou até lhe dizê... Tenho encontro marcado com os gringos e vou vendê minhas pedras pra eles.

JUCA  -  Pois vamos vê... O recado tá dado. O resto é com ocês. Vamo.

Juca partiu a galope seguido do capanga. Os irmãos permaneceram rígidos, como que tocados por um vento de morte. Ao longe os cavalos se perdiam numa curva da estrada. O tropel cessara.


JERÔNIMO  -  Que vontade, Jão, de dar uma surra nesse jagunço desgraçado.

JOÃO  -  Calma, mano. Nada de gastá vela com mau difunto...

João estreitou o irmão num abraço e caminhou com ele até a beira do rio.

JOÃO  -  Anda. Vem me ajudá a catá um pouco. Esta noite sonhei que estava correndo atrás de um boi.

JERÔNIMO  -  Sonhar com boi é pedra grande na certa!

JOÃO  -  E o boi era zebu.

JERÔNIMO  -  Melhor ainda.

O cascalho acumulava-se á margem do rio. Macias as águas rolavam     acariciando o fundo barrento. O ritmo da peneirada voltou a alegrar os   homens rudes e a confundir-se com a movimentação da natureza – o rio a correr, os pássaros a voar, o vento a embalar a copa das árvores. João lembrou-se do telegrama e da chegada do irmão.

JOÃO  -  Como será que ta o Duda, mano?

JERÔNIMO  -  Tá um home. É jogadô de futebol, de fama.

JOÃO  -  Vivo que ele é. Encontrou uma mina nos pés, o safado. E a gente aqui, a dá duro feito um escravo...


FIM DO CAPÍTULO 1
Duda (Cláudio Marzo), Sinhana (Zilka Salaberry), João (Tarcísio Meira) e Jerônimo (Cláudio Cavalcanti)


E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

#  NO GARIMPO DO CORONEL PEDRO BARROS, SEUS CAPANGAS CASTIGAM O GARIMPEIRO BRAZ, ACREDITANDO QUE ENGOLIU UM DIAMANTE.

#  COROADO ESTÁ EM FESTA COM A CHEGADA DO ÍDOLO DO FLAMENGO.

#  RITINHA ESTÁ ANSIOSA PARA REVER SEU AMOR DE INFÃNCIA.

#  JOÃO CORAGEM SE IMPRESSIONA COM A BELEZA DE MARIA DE LARA, FILHA DE SEU INIMIGO, O CORONEL PEDRO BARROS.

 

NÃO PERCA O CAPÍTULO 2 DE IRMÃOS CORAGEM!!!