segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 10

 CAPÍTULO 10


     O frescor da madrugada, o clarão da lua iluminando a vastidão dos campos, o cantar dos primeiros pássaros, serviam de pano de fundo para as recordações de Duda e Ritinha.
     Ao longe, o marulho do riacho, eterno viajante dos caminhos do sertão. O casal passeava de mãos dadas. De repente Ritinha apontou um trecho das águas.
     -Veja se se lembra deste lugar.
     -Me lembro. A gente vinha nadar aqui todas as tardes.
     -Bandido! Um dia você escondeu a minha roupa. Tive de ir de maiô para casa, enrolada na toalha. O pai quase me matou de pancada.
     No tronco de uma árvore, meio apagado pelo tempo, os dizeres la estavam, escritos á ponta de canivete.
     “Duda e Ritinha. Amor para sempre”.
     O rapaz fez a proposta:
     -Vamos cair n’água, como antigamente?
     Os risos do casal podiam ser ouvidos no silencio da madrugada. Os corpos se uniam no sentimento da saudade. E os lábios respondiam ás perguntas que não precisariam ser feitas.

     De repente a lembrança do tempo sacudiu a moça. Os raios de sol já se refletiam, dourados, sobre o leito do riacho.
Ritinha (Regina Duarte) e Duda (Claudio Marzo)

     -Seu maluco! Sabe que horas são?
     -Não, nem quero saber.
     -Acho que umas cinco e meia. O sol já ta nascendo.
     Duda olhou espantado para o céu.
     -O quê? Puxa, Ritinha, que coisa! Não dá vontade de pedir pra Deus parar a vida aqui?
     -Que dá, dá. Só assim você não fugia mais de mim.
     Beijam-se novamente. Terna e demoradamente.
     Rita murmurou ao ouvido do amado:
     -Queria nunca mais te deixar.
     Lembrou-se de que ele não demoraria muitos dias em Coroado. Obrigava-se a retornar ao Rio, ao Flamengo, logo que terminasse o prazo da licença. Uma nuvem de tristeza vedou o semblante da moça. Eduardo notou.
     -Sim. Devo voltar daqui a uns dois ou três dias.
     -E tudo vai ficar como antes. Juro que nunca mais, nunca mais vou ver o sol nascer, só pra não me lembrar de você.
     -Diga o que quer que eu faça...
     -Quero que não me deixe, que me leve com você.
     Duda segurou docemente o rosto de Ritinha, contornando com as mãos a curva da fronte, a forma do nariz, a linha dos lábios. Beijou-lhe os olhos. As faces. Até que seus lábios se colassem, parecendo a eles que a natureza era um carrossel a girar, a girar, a girar...
     Eduardo ainda conseguiu responder:
     -Agora... não posso, Ritinha. Mas eu volto um dia qualquer pra te buscar.

     Na porta da casa do Doutor Maciel havia uma agitação incomum para aquela hora. Domingas olhava as pessoas que passavam rumo ao trabalho. Maciel, mais ébrio que nunca, sentava-se numa enorme pedra na entrada da casa. Foi quando perceberam o casal que se aproximava. Domingas voltou-se, tensa, para o médico viciado. Eduardo falou primeiro.
     -Eu... eu trouxe a Ritinha... A gente... andou passeando... recordando os tempos de criança...
     -A gente não sentiu passar as horas, pai.
     Maciel não pôde controlar a cólera, aumentada com doses excessivas de cachaça.
     -Seus... seus desavergonhados!
     Ritinha tentou falar. Maciel não deu chance.
     -Seu cachorro da cidade! Pensa que pode abusar das moças do interior? Pensa que pode vir, almofadinha... fazer aqui o que lhe der na telha?
     Duda ripostou, com energia.
     -Doutor, o senhor está me ofendendo.
     Maciel não tomou conhecimento da revolta do moço.
     -Vai ter que pagar por isso. Vai ter que pagar, seu cachorro.
     Ameaçador, suspendeu a bengala na direção do rapaz.
     -Pai, a gente não fez nada de mal.
     -Se não fez, mesmo, vai ter que dar conta na polícia. Esses safados da cidade... pensam que a filha da gente é lixo.
     -O senhor está muito enganado. Passamos a noite conversando, brincando... sem maldade.
     Maciel não acreditava.
     -Vem dizer isso a mim? A mim?
     Domingas interveio:
     -Deixa a menina entrá, patrão. Pra acabá com o escândalo.
     -Entrá, onde? Nesta casa? Ela que fique na rua. Na rua com este sujeitinho. Pra voltar a passar nesta porta, só depois de casar na polícia.
     Duda reagiu, colérico.
     -O senhor... o senhor está bêbado.
     Maciel apontava o dedo para as serras que se viam no horizonte.
     -Rua! Rua! Os dois. Rua!
     Duda abraçou Ritinha e, juntos, saíram correndo ante os olhos escandalizados dos vizinhos e das pessoas que por ali passavam ás primeiras horas da manhã. Coroado saberia de tudo logo que a boca do povo começasse a espalhar a triste nova da filha do Dr. Maciel.

FIM DO CAPÍTULO 10


NÃO PERCA O 11 CAPÍTULO DE IRMÃOS CORAGEM

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 9

CAPÍTULO 9

Sinhana (Zilka Salaberry) e Ritinha (Regina Duarte)
     O cheiro do churrasco, da carne assada na brasa, enchia o salão da prefeitura de Coroado, engalanado para o baile em homenagem a Eduardo Coragem. Barris de chope amontoavam-se a um canto e um conjunto regional animava a festa. Os pares dançavam no estilo roceiro das cidadezinhas do interior. Simplicidade em tudo. Nas cadeiras rústicas que envolviam o salão, matronas e solteironas comentavam a vida dos presentes. De repente o delegado Falcão correu para a porta. Duda chegava, seguido da comitiva que não o largava desde o instante em que pisara na cidade.
     -Oh, mas aí está o rei da festa! – saudou o delegado.
    E o prefeito:
     -Seja bem-vindo! Esta é a nossa prefeitura, enfeitada pra receber o orgulho de nossa cidade.
     Duda agradeceu, olhando detidamente as pessoas que se movimentavam no grande salão. Divisou Sinhana sentada numa das cadeiras de pista. Partiu em direção á mãe, rodeado de admiradores.
     Ritinha procurava a oportunidade de falar com Eduardo. Era coisa que não lhe saía da cabeça, desde que tomou conhecimento da visita que ele faria a Coroado. Mas agora, ao lado de Sinhana, procurava fugir á presença do jovem. Sinhana reteve-a pela mão.
     -Fica aí, menina.
     -Não quero passar vergonha.
     Duda alcançara a mãe.
     -Olá, mãe... com quem a senhora veio?
     Sinhana respondeu, perguntando:
     -Tu não se lembra aqui desta moça, Duda?
     -Desculpe, não tou lembrado não.
     Sinhana não se deu por vencida.
     -Olha bem, Duda. – E virando-se para a moça: - Sorri para ele, menina. Eu acho que o sorriso dela ocê não pode ter se esquecido. Vai se lembrá de todo um passado... um passado que tá muito ligado a esse sorriso...
     Duda fixou os olhos no rosto da jovem. Rebuscou a memória. Nada.
     -Meu Deus, me perdoe, mas eu não sei quem é.
     De repente Ritinha levantou a cabeça, olhou nos olhos de Duda e sorriu meigamente para ele. Duda empalideceu.
     -Jesus! Ou estou ficando doido... ou essa é a... a Rita de Cássia! A Ritinha!
     Ritinha sorriu-chorando, mesclando a alegria com as lágrimas da emoção que lhe tomava a alma. Duda a reconhecera. Num instante o rapaz abraçava a amiga de infância, levantando-a no colo, esquecendo-se por completo das pessoas que observavam a cena. Rita de Cássia ria mais. E chorava mais...
     A festa varava a madrugada.


     As dependências rústicas da cadeia de Coroado traduziam a realidade da região. Pobreza em tudo. Até na vida sem diversões ou interesses. Coroado, zona rica em pedras preciosas, nada oferecia á sua população humilde. Ao longe ouvia-se o ruído do baile da prefeitura. Três homens conversavam. João Coragem, Rodrigo, o novo promotor, e o negro Braz Canoeiro.
     Rodrigo indagou:
     -É este o homem?
     -É este, seu doutô promotor... trouxe aqui pro senhor vê... e mais o seu doutô delegado Diogo Falcão.
     -Falcão está no baile, mas já mandei chamá-lo.
     Rodrigo voltou-se para Braz Canoeiro, sentado no banco central da sala. O negro mostrou-lhe os ferimentos por todo o corpo.
     -Então, meu amigo, o que foi isso?
     -Quisero me mandá pro outro mundo, seu doutô.
     João esclareceu.
     -Dero purga nele e depois a sova brava. Veja aí, ta todo ferido.
     O promotor espremeu os olhos, horrorizado.
     -Uma desumanidade! É aquilo mesmo que eu lhe disse, João. Isto precisa ter um fim.
     O delegado Falcão chegava, enraivecido, acompanhado pelo cabo do grupamento policial da cidade.
     -Isto é um desafôro. Me arrancar do baile a uma hora destas, para tomar conhecimento de uma queixa!
     Rodrigo retrucou, severo:
     -Fui eu que lhe mandei chamar, Falcão.
     O delegado mudou de atitude.
     -Seu Doutor Rodrigo César, eu... não sabia... tinham me falado num negro doente...
     -Êste homem foi vítima de uma violência, Falcão. Quero que você registre a queixa.
     Falcão mostrava-se indeciso, lembrando-se das ordens do coronel. Eram claras: “não registre a queixa, se quiser continuar mandando em Coroado”.
     -Sim, é justo, mas não é este o garimpeiro que roubou um diamante de Pedro Barros? Tenho já a denúncia contra ele... o senhor devia era mandar prender ele, não defender, seu doutor...
     -Mesmo que este homem fosse um ladrão, Pedro Barros não tem o direito de espancar ninguém. Exijo que você registre  a queixa e que abra inquérito para apurar a violência de que foi vítima este homem.
     -Tá certo... vou fazer o que o senhor está mandando, seu doutor.
     Falcão, com ira nos olhos, preencheu o documento exigido pelo Promotor Rodrigo César.


 FIM DO CAPÍTULO 9
 NÃO PERCA O 10. CAPÍTULO DE IRMÃOS CORAGEM!!!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

 CAPÍTULO 8

     Na fazenda de Pedro Barros Maria de Lara acabava de desmontar do cavalo. Cabelos alvoroçados, rosto corado. Juca Cipó dirigiu-se á moça.
     -Dona Maria de Lara. Tá todo mundo desde onte... feito doido procurando pela senhora. Até o delegado Falcão tá no seu encalço.
     Lara evitava fitar a cara do assassino.
     -Mande entregar este cavalo ao dono. É um tal de João e é garimpeiro.
     Juca perguntou, com raiva:
     -Será o João Coragem?
     Lara já tinha entrado em casa. A pergunta do capanga de Pedro Barros se perdeu no silencio da madrugada.



O sol já enchia de luz o verde dos campos quando um cavaleiro se aproximou do portão da fazenda. Era João Coragem. Das imediações do curral, onde orientava o trabalho de ordenha, Lourenço divisou o jovem e partiu, receoso, em sua direção.
     -Que quer aqui, João?
     -Queria dar duas palavrinhas com seu coronel Pedro Barros.
     -Veio comprar briga?
João Coragem (Tarcísio Meira)

     -Não, vim em missão de paz.
     Lourenço abriu a porteira, desconfiado.
     -Tá bem, entra...
     -Aproveito, também, pra sabê se... se meu cavalo alazão tá por aqui. Se a moça que me roubou ele, mora aqui. Uma moça bonita, fina... que não tem cara de ladrona.
     Do alto da escada, Lara e Pedro Barros assistiam á chegada do irmão Coragem. Lara tentou descer em direção ao homem que lhe prestara  auxílio na estrada deserta. Pedro Barros segurou-a fortemente, por detrás.
     -Vá pro seu quarto, menina.
     Lara olhou-o, desafiadora.
     -Quero falar com o moço, e não é o senhor quem vai me impedir.
     Barros apertou mais o braço da filha.
     -Num quero você metida com essa gente.
     -Por quê? Tem medo que eu descubra o que o senhor faz com eles?
     -Depois a gente conversa. Anda. Vá pro seu quarto, se não quer me fazer perder a paciência.
     -Vai fazer comigo... o mesmo que fez com Braz Canoeiro?
     -Obedece e não amola!
     Barros empurrou a filha até a porta de seu quarto enquanto João e Lourenço penetravam na sala da casa grande.
     A figura estranha de Pedro Barros destacava-se na moldura da escadaria. Charuto na boca, Barros descia lentamente, tentando aparentar uma calma que, na verdade, não possuía.
     Lourenço se aproximou do chefe e cochichou ao seu ouvido, deixando em seguida a sala. João, impassível, assistia á cena.
     -Que é que você quer, João?
     -Bom dia, meu coronel, como está passando?
     -Bem, muito bem, com a graça de Deus. Vá dizendo logo o que tem a me dizer.
     O coronel sentou-se a um canto da sala. João permaneceu de pé.
     -Vim pra conversá feito gente... pra pôr o senhor em dia com os acontecimentos de Coroado. Tem acontecido tanta coisa ruim em seu nome, que eu acho que o senhor deve de ignorar pelo menos a metade.
     -Que é que você quer dizer com esse palavreado todo?
     -Que tou aqui pra ver se desperto dentro do senhor... êsse sentimento de caridade... pela pessoa humana. Porque o que tá acontecendo aqui, é coisa que revolta até mesmo um santo. É barbaridade. É desumanidade. E eu não acredito que meu coronel esteja de acordo.
     Barros procurou mostrar-se inocente.
     -Eu... eu não sei que acontecimentos são esses. Não sei do que você está falando.
     João retrucou, decidido.
     -Tou falando das maldades que fizeram com o pobre do Braz Canoeiro.
    -É um ladrão de diamantes! – gritou o coronel.
     -Tou aqui pra lhe jurá... pra lhe dá minha palavra de honra, de como Braz Canoeiro tá inocente.
     -Não se meta naquilo que não é da sua conta. Me deixe trabalhar em paz.
     João sentia a ira aumentar a cada palavra do coronel. Suas feições estavam transtornadas. Face dura. Pedro Barros continuou:
     -Não posso fazer nada pelo Braz Canoeiro. Não sei o que você quer que se faça por um ladrão.
     -Vim apelá... pra seu sentimento de justiça... o home ta muito ferido... com a surra que seus home dero nele. Ta necessitando de socorro médico. A gente aqui em Coroado num tem recurso, nenhum hospital. Mas na cidade mais próxima, tem. Vim lhe pedir pro senhor mandá levar o pobre home pra lá.
     O coronel respondeu, impiedoso.
     -Ora, eu não tenho essa obrigação. Se está muito condoído da sorte dele, leve você. Eu não vou socorrer ladrão de diamante.
     João deu alguns passos pela sala e se dirigiu secamente ao dono do garimpo.
     -Não vou lhe tomar mais tempo, seu coronel. Só queria lhe dizê que... vou ser obrigado a pedir auxílio pras autoridades... pra poder internar o Braz num hospital. E, pedindo auxílio... vou ter de dar queixa do castigo que dero nele. Isso pode não ser bão pro senhor.
     Pedro Barros levantou-se colérico.
     -Pois dê a queixa! Faça o que quiser. Eu não tenho medo de nada. Quero que você e o Braz vão pro inferno! E fique sabendo que, nesta terra, quem faz a lei sou eu!
     João deu as costas e saiu rápido da sala.



     Na cidade de Coroado só se falava no baile em homenagem ao Duda. A cidadezinha se vestia de alegria com a presença do filho famoso. Na casa de Maciel, o médico do lugar, eternamente embriagado, Ritinha e Domingas conversavam.
     -Não diga que estou engordando, que eu te esgano! Eu vou ao baile do Duda. Também se o bandido não me reconhecer, nunca mais olho pra cara dele. Risco ele da minha vida.
     Domingas aproveitou a deixa para o conselho.
     -É melhó riscá desde já, Rita. Olha, tão dizendo umas coisa por aí.  Chegô uma mulher da cidade, no mesmo trem que ele. Se hospedô na pensão do Gentil Palhares, uma mulher meio da misteriosa... tão dizendo que é mulhé dele. E mais, que tem jeito de mulhé-dama...
     -Domingas! – recriminou Ritinha. – Duda não é casado. Se fosse, Sinhana, mãe dele, não ia saber?
     -Uai... pra ter mulher, não precisa sê casado...


FIM DO CAPÍTULO 8  

 NÃO PERCA O 9. CAPÍTULO DE IRMÃOS CORAGEM

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

    


    CAPÍTULO 7

                                                                     
     Na casa do rancho Coragem a família reunida jantava em companhia de Duda. João não havia chegado do encontro que tivera com os negociantes estrangeiros. A graciosidade de Potira chamara a atenção do moço. Os olhos de Duda acompanhavam os movimentos da jovem.
     -Essa índia ficou uma beleza!
     Jerônimo, sem que ninguém notasse, voltou os olhos para Potira. O amor que nascera entre os dois, apesar das negativas do rapaz, era coisa que só motivo de sangue poderia impedir. A própria Sinhana sentira isso e tentava cortar as ilusões de ambos antes que as coisas piorassem... Ela, também, secretamente, acreditava que a bela índia fosse filha do marido. O amor de ambos nascera como o próprio mato da região e crescia a cada instante.
     O velho Bastião ouvia Duda contar a história de sua vida na cidade grande.
     -Lá também a gente tem de se defender como pode. Duas vezes fui parar no Juizado de Menores. Duas vezes fui preso. Passei fome, pai. Quando saí daqui não tinha profissão, nem nada. Mal sabia ler,  se lembra?
     -E dispois, como é que ocê chegou a ser jogador, mesmo?
     -Ah, isso foi depois de uns dois ou três meses. Morrendo de fome, dormindo em praças, fugindo dos guardas, um dia fui jogar uma pelada num campo de subúrbio. Um cara lá me viu e perguntou se eu queria ir treinar no Flamengo. Eu fui e me botaram no juvenil. Daí a coisa foi fácil.
     Sinhana entrou na conversa.
     -E esse tal de Flamengo... é time bão?
     -O maior time do mundo, mãe!
     Duda passou a mostrar fotos de sua presença nos estádios.
     -Esta ao lado de Pelé... aqui com Garrincha... este é o Rubens.
     Uma voz encheu de calor o recinto da sala.
     -E este aqui é Duda e João...
     Todos os olhos se voltaram para João Coragem, que acabara de chegar, braços abertos, sorriso largo. Os dois irmãos se abraçaram, demoradamente.
     -Veja só, tá um home o safado! E famoso. Aquele gato pingado... tá famoso! Jogador de futebol, veja só.
     Sebastião aproximou-se dos filhos.
     -Vamo todos tomá um gole. Hoje é dia de alegria na casa de Sebastião Coragem. Vamo beber em honra a esse tal de doutô Flamengo!




NÃO PERCA O CAPÍTULO 8 DE IRMÃOS CORAGEM!!!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011


CAPÍTULO 6


  Em Coroado, a festa atingira o auge. Duda, abraçado á mãe e ao irmão Jerônimo, ouvia o discurso de saudação do prefeito Jorginho. A emoção lhe provocava lágrimas. A cada frase o povo aplaudia.
      Ritinha permanecia inerte, olhar no rosto de Duda, como a esperar um sorriso do amigo de infância. Em certo instante os olhares se cruzaram. O coração da jovem palpitou mais forte. Fôra um momento só. Duda não a reconhecera. A voz do prefeito se destacava no vozerio geral.
      -Se me permitem o trocadilho, Duda saiu de Coroado de cabeça limpa e voltou com a coroa do rei. Viva o nosso Duda! Viva o nosso rei!
      A banda reiniciou o dobrado, enquanto a multidão carregava sobre os ombros o novo ídolo da cidade.
      Lágrimas espocavam dos olhos de Ritinha.
      A decepção ferira-lhe o amor-próprio. E com as lágrimas a banhar-lhe a face, deitou o rosto sobre os ombros de Domingas, sua confidente e mãe de criação.
      -Toma jeito, Rita. Não fica assim. Chorando que nem bebê por uma coisa á toa...
      Jerônimo, que assistia á cena, aproximou-se da moça.
      A banda se afastava, enquanto os brados de Viva Duda! Se confundiam com os gritos da multidão.
      Ritinha, levantando os olhos, notou a presença do irmão de Duda.
      -Ele nem me reconheceu, Jerônimo.
      -Pudera, Ritinha. Quando saiu daqui, ocê era menina, feia,  sardenta, de trancinha. Agora tá uma moça... bonita que nem sei.
      Domingas interveio.
      -Já disse prela. Num falta home bão que te queira. Fica aí pensando no Duda, dia e noite, feito uma boba.
      -Me leva embora, Domingas. Não quero nunca mais ver a cara dele. Nem a raça de vocês.
      Ritinha se afastou a passos rápidos, quase correndo, na tentativa de conter as lágrimas que não cessavam de cair. Jerônimo, tristonho, observava a retirada da jovem. Ao longe o carro de Duda se perdia no meio da turba.

 

      No chão do rancho o velho Sebastião permanecia desacordado. Um filete de sangue traça um risco escuro no alto da fronte do garimpeiro idoso. Potira estacou repentinamente ao ver o corpo do pai de criação. Mestiça de cabelos longos e olhos sombrios, desde criança fora criada pela família Coragem. Amava o velho garimpeiro com amor de filha verdadeira. E havia quem dissesse que a indiazinha dos Coragem era produto de antiga paixão do velho de Sinhana, durante suas andanças pelo sertão de Goiás.
      Potira sacudiu o pai de criação e o arrastou para uma esteira, no quarto de Jerônimo. Retirou a rôlha de uma garrafa de aguardente e despejou um gole na boca do ancião.
     Sebastião voltou a si, meio zonzo.
      -Me fala, padrim... que lhe aconteceu?
      O velho, gemendo, colocou a mão na cabeça.
      -Um galo feio. Alguém lhe bateu?
      -Os maldito... dos jagunço de Barros... tiveram aqui, Potira.
      -Os home de Pedro Barros?
      -Viero me assustá. Se aproveitaro... os marvado... de eu ser velho e doente. Com meus filhos eles não se mete...
      -Diz pros menino, conta tudo. Os menino dá uma lição neles.
      -Não... não. Depois da festança eu conto.

 

      -Tá melhor, moça?
      Na cabana de Braz Canoeiro o negro gemia, amparado pelos braços de Cema. O castigo de Juca Cipó fora terrível.
      João Coragem observava as reações da jovem que vira no carro do coronel Pedro Barros. Era bela. De traços finos e sorriso triste.
      -Sim, um pouco, obrigada... mas por que esse homem está gemendo tanto?
      -É Braz Canoeiro. Deram uma purga nele e ainda por cima quase mataram ele de pancada...
      -Quem bateu nele?
      Cema apareceu na sala.
      -Os bandido de Pedro Barros.
      A moça estremeceu.
      -Meu Braz era meia-praça dele. Antes donte os home cismaro que meu Braz engoliu um diamante. Quase mataro ele pra devolvê o que ele num tinha.
      Cema continuou o relato.
      -Esse ainda escapou com vida. Mês passado mataro um alugado porquê num queria mais trabalhá preles.
      João Coragem interveio, sério.
      -Todos nós somos, mais ou menos, escravo de Pedro Barros... ele é o dono de quase todas as serra do garimpo. Todos sofremo a opressão do domínio dele. Eu nem tanto, que tenho meu próprio garimpo e coragem pra enfrentá esse home.
      No quarto Braz gemeu mais alto, um gemido rouco, quase estrangulado. João e Cema correram para o local.
      Só, na sala, a jovem não se sentia bem. Pela janela viu o cavalo do homem que lhe prestara ajuda. O tropel despertou a atenção de João Coragem. Correu para a porta. Era tarde. A moça já se perdia na escuridão da estrada.
      -Danada! Fugiu no meu cavalo!


 NÃO PERCA 0 7. CAPÍTULO DE IRMÃOS CORAGEM!!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011




   CAPÍTULO 5

    Na sala – em silencio – Lourenço abraçava Estela. Lábios unidos na expressão do desejo. O choque de Lara foi imenso. Em segundos a visão do passado surgiu-lhe viva, real. O pai – quinze anos mais moço – arma em punho, esbofeteava a mãe. O revólver imenso apontado contra o peito. A mão enorme num vaivém incessante. Ao fundo a figura sinistra do homem indefinido, assistindo á cena. Uma visão que a acompanhava desde menina. Lara levou as mãos á cabeça.  “Aquela dor maldita...” Atravessou a sala e num gesto de desespero, desapareceu pela mesma porta onde, minutos antes, o pai, encolerizado, saíra aos gritos de “Juca Cipó”.
    Estela e Lourenço afastaram-se ante a inesperada visão da moça.
    -Lara! Maria de Lara! Minha filha!
    Reinava silencio na casa grande.
                     


Ritinha (Regina Duarte)
    Na pequena estação de Coroado o apito do trem deu início á loucura.
    -Pessoal, lá vem o trem!
    Durante todo o dia a vida da cidadezinha se transformara num esperar-que-não-tinha-fim. Os preparativos para a chegada começaram manhã cedinho. Por ordem do prefeito foi decretado feriado municipal. O velho juiz de direito, severo e resoluto, adiara seus compromissos – “casamento só amanhã” – e o delegado Falcão, terno branco, camisa aberta ao peito, palito no canto da boca, arregimentara todos os seus homens – quatro ou cinco, se tanto – para conter os excessos de alegria com a promessa de xadrez. Bebia-se como nunca em Coroado.
    -Pessoal, o trem chegou!
    A um sinal do prefeito, a banda atacou, enchedo de som a pracinha. A multidão delirava.
    Ritinha sentia o coração desordenar-se. As palavras de Sinhana ecoavam em seus ouvidos - ... de mim que sou sua mãe, eu sei que se lembra...” Eduardo menino. Quanta recordação!
    De repente o ranger de freios.
    -Duda tá chegando, Ritinha.
    O trem sustinha o ritmo. Começava a parar. Num dos degraus um jovem acenou á multidão. Ritinha não se conteve:
    -Olha lá ele! É o Duda!
    O povo acompanhava o coro enquanto a bandinha acelerava o ritmo do dobrado militar.
    -Duda chegou! Viva o Duda!


   
    O velho Bastião suportava a solidão de espera. Nem mesmo a volta triunfal de seu menino pudera levantar-lhe as forças. O danado do mal tinha coisa do diabo – pensava lá consigo. Leve tropel, distante, dizia-lhe que alguém se aproximava do rancho humilde. “Devia ser o Duda”. O garimpeiro ajeitou os fiapos de cabelos, esticou os vincos corroídos da calça surrada e procurou conter as emoções que talvez não pudesse suportar. Não teve tempo para muito... Lourenço, Juca Cipó e dois capangas aparecerem no momento em que seus braços fracos – abriam-se para acolher o filho que regressava.
    -Vamos dar um susto no velho, Juca. Ele já foi moço. Assustou muita gente.
    -Deixa comigo.
    Bastião recuou, apavorado.
    -É mais um conselho, velho. Um aviso pro seu filho não ser besta de vender diamante pros gringos.
    Juca suspendeu o revólver e o baixou violentamente sobre a cabeça encanecida do garimpeiro.



    ”Caminho longo” – pensava João Coragem. – “Esticada pra macho”. A estrada serpenteava, banhada pela luz da lua. O trote macio do cavalo levava o jovem ao encontro de Coroado. De repente o grito. O vulto que cambaleava. Da margem da estrada a moça divisou o cavaleiro. No alto, a lua lembrava um diamante colossal.
    Maria de Lara caiu ao chão. O pensamento longe, voltado para a fazenda de Pedro Barros. Os olhos de João Coragem não queriam acreditar. Reconhecera a jovem.
    -Santo Deus! O rubim do coronel!
    Rápido o rapaz saltou da montaria e suspendeu nos braços o corpo inanimado da moça. Lembrou-se da casa de Braz Canoeiro. Sim, era ali perto. Próximo a um riacho que corria da serra. João Coragem percebeu alguém ás margens das águas. “É Cema, mulher do Braz”, pensou. A jovem mulher recolhia ervas á beira do riacho numa expressão de sofrimento.
    -Cema! – gritou João. Quer me ajudar aqui?
    Cema ergueu os olhos. Reconheceu João Coragem, com a moça desmaiada, os cabelos dourados caindo-lhe sobre os ombros.
    -Que é que a gente faz quando uma mulher tem esse negócio que parece que tá morta, mas não tá?
    -Jogá água na cara dela, seu João.
    Cema se levantou, na mão um punhado de ervas.
    -E eu lhe pergunto. O que é que a gente faz quando tem na garganta uma revolta, como eu?
    -Revolta, Cema, de que?
    -Então...não soube o que fizeram com o meu Braz?
    -Braz! Aquele santo home? O que fizeram com ele?
    -Tá morrendo, seu João! Tá morrendo!
    Com um soluço a mulher do garimpeiro correu em direção á casa, distante alguns metros do local.
    João voltou os olhos para a moça, deitada na margem do riacho. Os raios prateados da lua aumentavam-lhe a brancura da face. Com as mãos em concha,  salpicou pingos de água fresca do riacho sobre o rosto impassível. A jovem reagiu, balançou a cabeça com gestos nervosos. João segurou-a pelos ombros. Os olhos grandes fitaram com espanto a fisionomia do rapaz.
    -Quem é você?
    -Sou João, moça. Tá em companhia de gente de bem.
    A desconhecida olhou longamente a região. Parecia desligada de tudo.
    -O que estou fazendo aqui?
    -Eu é que pergunto. Encontrei você meio zonza, andando pela estrada. Parecia carecer de ajuda. Apeei do meu cavalo e lhe ajudei. Foi a sorte. A moça virou os olhos e caiu nos meus braços.
    -Eu caí?
    João pareceu esquecer a pergunta.
    -Não sei se tou enganado, mas parece que já lhe vi em outro lugar.
    A jovem tentou levantar-se, nervosa.
    -Acho que está enganado. Eu não sou daqui.
    -Tá bem, eu acredito, mas você ta precisando de ajuda. Eu lhe levo até na casa do Braz Canoeiro, que é aqui perto. Depois dum cafezinho, vai se sentir mais forte.
    Os dois seguiram para o casebre próximo.


    NÃO PERCA O 6. CAPÍTULO DE IRMÃOS CORAGEM!!




segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

      CAPÍTULO 4

    No alpendre da casa grande da fazenda, Estela e Pedro Barros conversavam. Típica construção do interior, com salas imensas, varandas largas, paredes fortemente caiadas e interiores decorados com ostentação e mau gosto. No terreiro algumas galinhas ciscavam á procura de alimento. Vários homens tentavam aquietar a indocilidade de um touro nas cercanias do curral. Maria de Lara acabava de chegar. Os pais foram ao encontro da filha.
    -Então? Gostou da cidadezinha? Muita diferença?
    -Não sei, pai. Saí daqui tão criança que nem me lembrava mais. Algumas coisas sim... algumas coisas tinham ficado na minha memória.
    -Mas a cidade não mudou nada – interveio Estela. – Aquele mesmo atraso. Aquela mesma gente inexpressiva.
    -Sim, mas a miséria do povo... Porquê há tanta miséria, pai, numa região tão rica?
    -É a gente que é preguiçosa, não quer trabalhar. Acham um diamantezinho, um olho de mosquito, vem aqui, vendem e só voltam a trabalhar depois que o dinheiro acaba.
    -Mas a maioria não é empregada no seu garimpo?
    Pedro Barros titubeou. Era visível seu aborrecimento. “Este assunto não deveria interessar a mulheres”  - pensou.
    -É preciso vigiar dia e noite pra não me roubarem. Ontem mesmo um deles engoliu uma pedra. Tivemos de lhe dar uma dose dupla de óleo de rícino e o desgraçado, ainda assim, não devolveu a pedra. Nem com purga, nem com sova. Negro danado...
    A criada apareceu anunciando o almoço. Os gestos grosseiros impressionavam a jovem desacostumada a suas maneiras rudes. Era duro no falar, duro nas expressões. Um pai que não se ajustava ao seu modo de proceder e de ver as coisas. Voltou ao tema.
    -O povo de Coroado parece gente muito triste, mesmo vivendo num lugar onde se tem tudo para ser alegre.
    -Alegre? Aqui? Neste fim de mundo? – comentou Estela. – Isto é um buraco horroroso.
    Pedro Barros eriçou-se.
    -Mas é aqui que eu ganho a vida.
    -Sim, é aqui que você enche a pança. Mas é aqui que eu enterro minha mocidade, Pedro. Você está podre de rico, mas até hoje eu ainda não vivi. Presa neste desterro sem ver o mundo.
    -Papai tem razão. Esse é o negocio dele.
    -Você diz isso porquê sempre viveu na cidade. Queria que você vivesse aqui. Como eu. Em meio a essa gente porca e ignorante.
    Pedro Barros isolara-se do mundo. Nada ouvia. Devorava um frango, mãos ensebadas, tirando dos ossos a carne gorda. Restos de comida caíam-lhe pelos cantos da boca. Estela enojava-se com a visão repelente do marido.
    -Ô homem, vê se não se lambuza tanto! Parece um animal.
    -Comer frango sem se lambuzar, não tem graça.
    Lara se incomodava com as reprimendas e reações da mãe.Via o pai, animalesco, desligado das etiquetas, inteiramente absorvido no ato de comer. A seu lado a mãe -  jovem ainda nos seus quarenta anos – revoltada contra anos de maus tratos e solidão forçada. “É moça ainda” – pensava.
    Lourenço entrou intempestivamente. Era homem de meia-idade – bem conservado, com certo charme – de modos decididos. Sólido como a própria região do garimpo. Entrou com a naturalidade do hábito diário.
    -Boas tardes, coronel.
    A presença de Lara desconcertou-o um pouco.
    -Não sabia que tinha visita.
    O coronel respondeu sem levantar os olhos do prato – voz embargada pelo frango gordo.
    -É minha filha Lara. Maria de Lara. Chegou ontem do Rio. Esteve lá estudando. Voltou doutora.
    Estela corrigiu.
    -Que doutora, Pedro. Professora.
    -É a mesma coisa.
     E voltando-se para a filha.
    -Êsse é o Lourenço, meu braço-direito aqui em Coroado.
    Os olhos da moça e os do recém-chegado encontraram-se durante fração de segundos. Das mãos grossas e calosas do capataz sobressaiam dedos fortes. Cabeludos. Lara fixou o brilho dos anéis. Pedras coruscantes, imensas. Lembrou-se da gente humilde das redondezas. Casas de barro, coberturas de sapé, chão de terra. Vidas miseráveis. E das palavras do pai – “...é preciso vigiar dia e noite para não me roubarem...”
    Lourenço dirigiu-se ao coronel.
    -O senhor sabe qual foi a resposta que o patife do João Coragem lhe mandou?
    Pedro Barros ergueu a cabeça, atento, limpando os lábios com o dorso das mãos.
    -Ele e o irmão mandaram dizer que vão vender diamantes  pros gringos ou pra quem quiser.
     Uma chispa de cólera transpareceu nos olhos do velho chefe. Pedro Barros levantou-se num repelão.
    -Pois eu quero ver alguém vender diamante pros gringos. Vou pagar pra ver isso.
    A ira do coronel crescia amedrontadoramente.
    -Juca! Juca Cipó! Onde se meteu esse desgraçado?
    Pedro desapareceu pela porta. Lourenço ainda falou:
    -Fique descansado, coronel. Tou vigilante. Tem homem por todo canto da cidade e eles não vão ser bestas de trair a gente...
    Os gritos de Pedro Barros ecoavam no interior da casa – “Juca! Moleque safado!” Dentro de Estela ecoavam gritos diferentes. Dirigiu-se ao homem.
    -Porquê não tem vindo aqui? Esqueceu que eu existo?
    Lourenço respondeu num balbucio.
    -Muito trabalho. Muito trabalho.
    Parou a poucos passos do capataz. Olhos vidrados. Voz adocicada.
    -E durante todo este tempo não sentiu um pouquinho de saudade de mim? Jura?
    Os berros de Pedro morriam na distancia – “Juca! Moleque desgraçado!”



    NÃO PERCA O 5. CAPÍTULO DE IRMÃOS CORAGEM

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011


     CAPÍTULO  3


    Na outra banda da cidade, os tratores desvirginavam o solo á cata de diamantes. Chapelão caído sobre os olhos, o Coronel Pedro Barros enxugava a testa com um lenço úmido de suor. O trabalho se desenvolvia com a ajuda de novas máquinas. Trabalho penoso, amenizado pela força do aço que abria sulcos na pele dura da terra. Pedro Barros dava ordens, gesticulava, gritava. Seus cabelos e barba, grisalhos, embebidos de suor. O sol queimava. Depois de alguns minutos afastou-se em direção ao rio. O garimpo faiscava. Dezenas de homens peneiravam, pés submersos, água na altura dos joelhos, á procura das gemas que não lhes pertenciam. Da fortuna que jamais lhes serviria no futuro. Braz Canoeiro era um deles. Negro, de bonita estampa, leal, bom caráter. O suor que lhe escorria das costas parecia refletir, qual espelho, o olho coruscante do sol. Juca Cipó acabava de chegar.Desmontou e observou o bando em atividade. Seus olhos fixaram a figura em negro de Braz Canoeiro e se concentraram em seu gesto natural de limpar os lábios com o dorso da mão.
    -Peguem esse homem!
    -Qual homem, seu Juca? – interveio o capanga.
    Juca correu na direção do negro.
    -Braz Canoeiro. Ele engoliu um diamante!
    O garimpo parou de estalo para assistir á cena. Vencido pelo jagunço, Braz foi lançado ao solo, de encontro ao cascalho.
   -Cês tão enganado... eu não engoli nada, não.
    -Engoliu sim. Eu vi. Vi quando ocê passô a mão na boca, nego nojento.
    -Passei sim, mas não engoli nada... juro.
    Braz empalideceu. Abriu a boca com as duas mãos. O Coronel Pedro Barros se aproximou do local. Severo nos seus sessenta e poucos anos.
    -Que foi que houve aí?
    -Esse crioulo sujo, seu coroné. Engoliu um diamante.
    -Façam ele botar pra fora.
    Braz reagiu amedrontado.
    -Não é verdade, seu coroné. Eu não engoli nada. Juro por Deus, pela minha mãe.
    -Façam ele cuspir o diamante. Por cima ou por baixo. Cadê o óleo de rícino?
    De um salto o jagunço chegou á cabana onde estavam guardados o material de trabalho, alimentos e remédios de uso permanente. Voltou com uma garrafa na mão. Braz gritava, enlouquecido, apavorado.
    -Não! Eu não engoli nada. Eu não engoli...
    Juca Cipó puxou do revólver, puxou com violência a cabeça do negro e encostou o cano na têmpora encarapinhada.
    -Vamos, bebe ou morre!
    Braz ingeriu todo o conteúdo. E caiu ao solo.


João (Tarcisio Meira) e Lara (Gloria Menezes)


    Na igrejinha branca, o papel de seda multicolorido, cortado em tiras, se destacava qual pintura em alto-relevo. A cidade vivia. Coroado se engalanava para receber seu filho famoso. De um lado para outro da rua estreita, a faixa se destacava – SEJA BEM-VINDO, DUDA. Pés no chão, calça de brim, rota, aqui e ali desenhada de remendos coloridos, um tabaréu palitava os cacos de dentes, debruçado no balcão sujo da bodega. Deu uma bicada, cuspindo o pardo do fumo de mistura á brancura da aguardente que queimava. Ao longe um sino tangia. Na rua  um moleque pregava  o “sabor da cocadinha de côco”. O bimbalhar do chocalho conduzia o jumento da água ao seu destino. No  armarinho-tem-de-tudo, Dona Ana vendia rendas e peças  de chita .A cidade vibrava.  Coroado estava em festa. De repente o monstrengo estremeceu a rua . João Coragem surgia num fordeco 34, caindo aos pedaços . Sinhana de vestido novo, sorridente. Jerônimo, medalhão sobre o peito, admirando as novidades e João, feliz, na direção do calhambeque. Mostrou a faixa embalada pelo vento.
    -Olha, mãe. Vou lê: SEJA BEM-VINDO, DUDA.
    -Como é que já souberam? – indaga ao filho.
    -Todo mundo sabe. Tão preparando um festão pra quando ele chegá.




    A moça apareceu na esquina. Quase correndo no seu andar lépido e aprumado. Rita de Cássia era toda excitação. O vestido florido, de saia rodada, escondia formas firmes e arredondadas. Os seios saltavam a cada movimento da jovem, na tentativa de libertar-se da prisão do pano. As faces vermelhas acentuavam o rubor no esforço da pressa.
    -João.
    -Rita.
    A velha Sinhana interveio. Rita conteve o entusiasmo.
    -Oh, Sinhana... É verdade que ele chega mesmo amanhã?
    João apontou a faixa, orgulhoso:
    -Tu não ta vendo? Tem faixa na rua. Banda ensaiando. Parece até deputado em véspera de eleição.
    -Eu quase não acreditei. Faz tanto tempo...
    -Sete anos, Ritinha. Sete anos – esclareceu Sinhana. Quando saiu daqui, tinha 16. Ta um home.
    -Será que ele ainda se lembra da gente?
    -Intão num havia de se lembrá, Ritinha? De mim, que sou mãe dele?
    Rita desconcertou-se.
    -Eu... espero que não tenha me esquecido, também.
    Era visível a preocupação da moça. Naquele momento via o pai sair da farmácia e se aproximar do grupo. Ritinha se despediu apressadamente.
    -Té logo, Sinhana. Té logo, João.
    Enquanto Ritinha se afastava, Sinhana comentou com o filho:
    -Por quê tanto assanhamento dessa menina?
    -Não se lembra, mãe? Ela foi namorada do Duda.
    -Ah, é verdade...




    O cadilaque de Pedro Barros estacionou pouco atrás do fordeco. Maria de Lara deixara a quietude da fazenda em busca do rebuliço de Coroado. Quase ninguém conhecia a filha do coronel na cidadezinha agitada dos garimpos. Desde menina, presa nos limites da fazenda, quando moça fora para o Rio e só agora retornara, professora, para a tranqüilidade das terras do coronel. Comentava-se a beleza, a bondade da filha do coronel – um oásis no clima de violência da fazenda do pai. O carro permanecia parado. No rosto da moça a doçura, a meiguice. Foi isto que mais impressionou João Coragem ao se aproximar do veículo. “Bela demais...” pensou. As palavras de Jerônimo despertaram-no do repentino enlevo.
    -Quê que ce viu aí dentro, mano?
    -Um diamante, Jerônimo. Um rubim daqueles!
    -Num é o carro de Pedro Barros?
    -É. Mas ela quem é?
    -Sei lá, João. Vamo simbora. Isso é bamburra demais pra nós.

    NÃO PERCA O 4. CAPÍTULO DE IRMÃOS CORAGEM!!!
        

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

    



        CAPÍTULO 2

     Peitos nus, tostados pelo sol, os garimpeiros catavam a riqueza. As peneiras rudes passando, mão-a-mão, num ritmo de máquina. O trançado fino deixando escapar fios cristalinos de água do rio, retendo o cascalho bruto, as peneiras rolavam ns dança das mãos. Peneira na água. Peneira no sol. De mão-para-mão. Barro no rio. Cascalho no sonho que não se acabava. Era a cata do diamante.
     Jerônimo apareceu correndo. Telegrama na mão.
     -João! Ô João!
     O homem rijo susteve a peneira. Era um jovem másculo de peito largo, irmão Coragem de olhos negros, mãos calosas do trabalho duro de sol-a-sol. Fez sinal ao outro que esperasse. Era todo concentração no dançar das pedras. Jerônimo avizinhou-se, impaciente.
     -Bamburrou, mano?
     -Nada. É um chibiu, pedrinha miúda.
     -Olho de mosquito...
     -Que era que tu vinha gritando, feito maluco?
     -Trago notícia, Jão. Chegou telegrama do Rio. Do Duda... ele vai vir depois de amanhã.
     João virou-se risonho.
     -Duda? Vai vir aqui?
     -Pode lê o telegrama, mano.
     João segurou o telegrama com a mão molhada e suja de barro.
     -E mesmo. Puxa, há quanto tempo não vejo aquele sem-vergonha. Vai ser uma alegria pros velhos...
     -Tão chorando de alegria.
     -Menino, vai sê uma festança!



     Dois homens se aproximavam a cavalo. Um deles, tipo estranho, de gestos afeminados, conhecido em toda a região do garimpo. Juca Cipó. Homem de feições traiçoeiras, onde a maldade se mostrava clara. Caráter formado em anos de crime contra a gente simples do garimpo. Juca era temido. Rostos sombrios, ele e o companheiro alcançaram a margem do rio. Súbito silencio quebrou a alegria dos presentes.. O próprio ar pareceu parar de repente.
     -Tardes...
     -Tardes...
     -Como vai o garimpo, gentes? Bamburrando muito?
     -Que o quê.... só farinhada, quando muito.
     -Trago um recado do patrão procês. Do coroné Pedro Barros.
     Todos os olhos se voltaram a um  só tempo.
     -Que recado? – perguntou João Coragem.
     -Avisar a ocês que tem gringo na cidade. O coroné manda prevenir que quem vender diamante pra eles vai se dá mal...
     Jerônimo sentiu o rosto ferver. Tentou sacar da arma que descansava na bainha. Deu um passo á frente na direção do capanga. João, pressentindo a aproximação do perigo, num gesto rápido, conteve a fúria do irmão. Juca Cipó permanecia atento, o riso sarcástico na boca feminina. Jerônimo retrucou, impetuoso:
     -Pois diga lá ao “seu” coronel Pedro Barros que quem vai se dar mal é ele. Nós vendemos nossas pedra pra quem quisé.
     -Calma, Jerônimo... – e dirigindo-se a Juca Cipó. – Este garimpo é nosso. “Seu” coronel Pedro Barros manda lá, no garimpo dele.
     Impassível, acariciando a crina do animal, Juca observava a reação dos Coragens. Jerônimo apertou os olhos, nervosamente. Juca respondeu.
     -Tá certo. Mas na hora de vendê as pedras ocês tem que vendê pra ele.
     -A gente sempre vende.
     -E ele se aproveita pagando o que qué...
     -Até o dia que a gente quisé vendê a outro, porquê a gente é livre, Juca. – A explosão de João irritou o cavaleiro.
     Juca sorriu, irônico. João chegou perto da montada.
     -Hôme, vou até lhe dizê... Tenho encontro marcado com os gringos e vou vendê minhas pedras pra eles.
     Pois vamos vê... O recado ta dado. O resto é com ocês. Vamo.
     Juca partiu a galope seguido do capanga. Os irmãos permaneceram rígidos, como que tocados por um vendo de morte. Ao longo os cavalos se perdiam numa curva da estrada. O tropel cessara.
     -Que vontade, Jão, de dar uma surra nesse jagunço desgraçado.
     -Calma, mano. Nada de gastá vela com mau difunto...
     João estreitou o irmão num abraço e caminhou com ele até a beira do rio.
     -Anda. Vem me ajudá a catá um pouco. Esta noite sonhei que estava correndo atrás de um boi.
     -Sonhar com boi é pedra grande na certa!
     -E o boi era zebu.
     -Melhor ainda.
     O cascalho acumulava-se á margem do rio. Macias as águas rolavam acariciando o fundo barrento. O ritmo da peneirada voltou a alegrar os homens rudes e a confundir-se com a movimentação da natureza – o rio a correr, os pássaros a voar, o vento a embalar a copa das árvores. João lembrou-se do telegrama e da chegada do irmão.
     -Como será que ta o Duda, mano?
     -Tá um home. É jogadô de futebol, de fama.
     -Vivo que ele é. Encontrou uma mina nos pés, o safado. E a gente aqui, a dá duro feito um escravo...

                             





     
     NÃO PERCA O 3. CAPÍTULO DE IRMÃOS CORAGEM!