terça-feira, 28 de junho de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 39


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair

CAPÍTULO 39

PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:

MARIA DE LARA
JOÃO
PEDRO BARROS
ESTELA
PADRE BENTO
JERÔNIMO
SINHANA
PEDRO BARROS
DUDA
PAULA
CRIADA
JUIZ
HERNANI
GARIMEPIROS
JAGUNÇOS


CENA 1  -  FAZENDA DE PEDRO BARROS  -  CASA-GRANDE  -  SALA  -  INT.  -  NOITE.
 
Maria de Lara descia a passos lentos as escadas que conduziam aos aposentos superiores da casa. Todos os olhares se voltaram para a moça. A pele muito alva e os olhos mortiços davam-lhe a impressão de uma freira. Padre Bento e o juiz se preparavam para a cerimônia do casamento. No meio dos presentes, Pedro Barros mal se mantinha de pé, ébrio e iracundo. Aproximou-se de João Coragem.


PEDRO BARROS  -  Voce venceu, João. Está aí minha filha!

Ele olhou para a moça, emocionado, feliz; levantou-lhe o rosto, erguendo-lhe a ponta do queixo. Ela o encarou amorosa. De mãos dadas seguiram para o improvisado altar.

CORTA PARA:

CENA 2  -  CASA DO RANCHO CORAGEM  -  EXT.  -  NOITE.

A impaciência provocava dores nervosas em todo o abdome de Jerônimo Coragem. Seus olhos furavam a escuridão da noite, qual fachos de luz de um farol.


SINHANA  -  Nada inda, Jerome?

JERÔNIMO  -  Nada,não, mãe.

SINHANA  -  Não acha que tão demorando muito?

JERÔNIMO  -  O tempo certo. O casamento de Duda não foi demorado, também?

SINHANA  -  Um pouco menos. E foi na igreja. Não havia perigo de nada, apesar de ter sido também um casamento forçado.  (benzeu-se)  Deus que me perdoe! Até parece praga! Meus filho tem sempre que se casá obrigado. Isso é sangue quente. Veja se ao menos ocê toma jeito! Se case direitinho, com preparação e tudo. Não assim, de repente, pra salvá honra de moça.
   
JERÔNIMO  -  A situação do mano é muito diferente, mãe. O Duda não queria se casá... todo mundo é que forçava. O João, não. Ele é quem quis... e ninguém mais...

SINHANA  -  Bem... lá isso é verdade, filho. Ele ficava maluco se não se unisse a essa moça.

CORTA PARA:

CENA 3  -  FAZENDA DE PEDRO BARROS  -  CASA-GRANDE -  SALA - INT. - NOITE.

E a união, enfim, se legalizava diante da lei de Deus e da lei dos homens. João colocava meigamente a aliança no dedo anular de Maria de Lara.


JOÃO  -  (falou baixinho)  Peço desculpas pela simplicidade da aliança...

MARIA DE LARA  -  Ora... isso não tem importância...

JOÃO  -  Comprei aqui mesmo... em Coroado. Foi a que eu achei.

MARIA DE LARA  -  Por favor...

JOÃO  -  Mas, dentro de um mês, espero comprá uma de diamante pra lhe dá...

MARIA DE LARA  -  Não precisa...

JOÃO  -  Quando você pudê vir pra minha companhia, conforme o trato...

MARIA DE LARA  -  Eu sei...

JOÃO  -  (João levantou um pouco mais o tom de voz) Aí, o padre abençoa de novo as aliança, não é, padre?

PADRE BENTO  -  Naturalmente. Se Deus quiser.

O padre fez o Pelo-Sinal e pediu um Padre-Nosso pela felicidade dos nubentes. João e Lara continuavam de mãos dadas, sorridentes.

Barros se aproximou.


PEDRO BARROS  -  A gente tem um trato. Eu cumpri a minha palavra; quero ver se vai cumprir a sua.

JOÃO  -  (com firmeza)  Eu cumpro.

PEDRO BARROS  -  Então, tudo termina aqui...

JOÃO  -  (mirando a esposa)  Por enquanto...

PEDRO BARROS  -  Que seja... pode se retirar levando seus papéis. Minha filha fica comigo.

Estela chegou apressada e com ar feliz.

ESTELA  -  Meu Deus, Pedro. Pelo menos deixe-nos cumprimentar os noivos.

Severo, o coronel balançou a cabeça em sinal de negativa.


PEDRO BARROS  -  Não, nada de cumprimento. Tenho pressa de acabá com isso.

Filha e mãe se abraçaram chorando. A voz de João, forte e grossa, despertou a jovem.

JOÃO  -  Lara!

A moça voltou-se para o marido.

JOÃO  -  Não se esqueça... Dentro de um mês venho te buscar.  (Lara o fitava deslumbrada)  Todo mundo é testemunha: a palavra das duas partes tem que sê cumprida.

Lara subiu as escadas com os olhos fixos no belo e corajoso homem que, desde aquele instante, unira sua vida á dela. Não havia mais dúvidas em seu pensamento: mesmo sem o saber, amava apaixonadamente o jovem João Coragem.

CORTA PARA:

CENA  4 -  COROADO  -  PENSÃO DE GENTIL PALHARES  -  INT.  -  NOITE.

 
Pelo barulho que se ouvia na pensão de Gentil Palhares, Jerônimo calculava que a festa era das mais animadas. Tinha ouvido dos garimpeiros a história do casamento do irmão, e as manobras traiçoeiras da jagunçada evitadas, apenas, com a presença em número muito superior dos companheiros de garimpo dos irmãos Coragem.

Agora, Jerônimo procurava o irmão no hotel-pensão do Gentil.

JERÔNIMO  -  (abraçou com afeto e recém-casado)  Então, deu tudo certo...

JOÃO  -  (segurando o mano pelos ombros)  Ela tava bunita pra burro, irmão!  E com ar de santa... e com aquele ar... riu pra mim... falou comigo... e senti emoção na sua voz.

Os olhos do rapaz se perdiam no infinito ao recordar a mulher que amava.


JERÔNIMO  -  (sacudiu-o)  Qual! Tá perdido mesmo de amor! Num tem mais remédio, não!

JOÃO  -  Eu senti, irmão, que ela num tava querendo cumpri o trato.
   
JERÔNIMO  -  E por que não aproveitou e num trouxe ela com você?

JOÃO  -  Palavra é palavra. Pedro Barros cumpriu a dele. Eu tenho que cumpri a minha. Um Coragem não pode fugir á palavra empenhada!
  
JERÔNIMO  -  (desconfiado)  Ele cumpriu obrigado. Pode te atraiçoá. É melhor ocê não confiá muito.

JOÃO  -  (pediu, com ar triste)  Não me desanima, irmão.

JERÔNIMO  -  Qual nada! Bola pra frente. Agora, tudo vai sê mais fácil. Vou até beber pela tua felicidade!

Bebem juntos um caneco de chope gelado. Por entre a espuma da bebida, borbulhante e branca, João Coragem vê a imagem da mulher.

CORTA PARA:

CENA 5  -  FAZENDA DE PEDRO BARROS  -  CASA-GRANDE - QUARTO DE LARA  -  INT.  -  NOITE.


Maria de Lara, pensativa, observava a noite sem lua do alto da janela. A brisa fresca e curiosa ouvia seus pensamentos e procurava levá-los ao marido, distante. Lara recordava feliz a cena da aliança; as palavras amorosas do másculo garimpeiro e sua advertência final: - “Venho buscá-la dentro de um mês”. Oh, se fosse hoje! – pensava Lara, sentindo-se envergonhada consigo mesma. Diante da janela os sonhos começaram por dominá-la. João estava presente em todos os instantes de sua vida futura...

CORTA PARA:

CENA 6  -  RIO DE JANEIRO  -  APARTAMENTO DE DUDA  -  SALA  -  INT.  -  DIA.

   
PAULA  -  (recomendou á criada)  Veja quem é, antes de abrir!

CRIADA  -  Quem é?

DUDA  -  (off)  Leiteiro!

A empregada abriu a porta, confiante, e Duda entrou fora de si, empurrando a mulher para o lado. Paula voltava da cozinha. Viu o ex-amante e sua expressão de ódio.

PAULA  -  Por que deixou ele entrar?   
 
DUDA  -  Ah, você tinha proibido minha entrada, não é?  (esticou o dedo grande diante da cara da mulher)  Muito bem. Agora nós vamos ajustar umas contas. Eu te disse que vinha! Não disse? E que ia te esganar, caso não encontrasse minha mulher aqui.

PAULA  -  Pois é, mas sua mulher deixou este apartamento, porque quis. Eu não obriguei. Disse que ia ter paciência de esperar.

DUDA  -  Invenção sua! Você deve ter feito qualquer coisa pra ela se sentir desesperada... e aceitar a ajuda  do pilantra do seu irmão!  (e  furioso)  Cadê ele? Eu arrebento você e ele, os dois juntos! É capaz até de ter matado a pobrezinha...

Paula encolheu-se, horrorizada.

PAULA  -  Ai, que horror! Não seja exagerado, Duda! Eu não fiz nada contra ela, juro!

O rapaz perdera a paciência e a qualquer instante esmurraria a antiga companheira.

DUDA  -  Mas, onde ela está? Onde ela está? Me diga antes que eu perca a cabeça!

PAULA  -  Sei lá!

Avançou contra a mulher, controlando-se no último segundo.

DUDA  -  Isto é lá resposta pra quem está neste desespero! “Sei lá...” Você não tem vergonha na cara, sua idiota!

Paula procurava recuperar-se da extrema angústia de que estava possuída. Não esperava tamanha reação de Duda.

PAULA  -  O que eu sei é que ela saiu com meu irmão. Desde terça-feira, também ele desapareceu. Eu acho que quem deve saber dela é Carmen, mulher do Neco. Eu vi quando ela telefonou para Carmen.

Duda completou a ligação e soube da ida de Carmen para Petrópolis. Ritinha não poderia estar na casa do amigo.

Onde estaria, então?


A resposta de sua indagação íntima estava chegando. A porta abriu-se e Hernani deparou com o jogador.

Duda avançou, feroz.


DUDA  -  Aí está ele, o bandido!

Hernani assustou-se e Duda o agarrou violentamente pela gola do paletó.

DUDA  -  Miserável! Patife! Onde está a minha mulher?
   
HERNANI  -  (resfolagava)  Espera... Es... espera, Duda!

DUDA  -  (desesperado)  Que foi que você fez com minha mulher?

HERNANI  -  Ela saiu daqui... desatinada...
 
PAULA  -  Não foi por minha culpa...

HERNANI  -  Essa não, mana. Diga a verdade. Você trouxe toda a sua tralha pra cá e fincou  pé, dizendo: daqui não saio, daqui ninguém me tira...

PAULA  -  Claro, não é!  Tive que desocupar meu apartamento e não tinha para onde ir.

A expressão de Duda era de um homem enlouquecido.

DUDA  -  Coitadinha! Coitadinha dela! Como é vítima!

PAULA  -  Ah, Duda, não enche, tá?

DUDA  -  Essa história, depois nós vamos discutir. Continue, Hernani.

HERNANI  -  Aí... eu não deixei que ela saísse daqui sozinha, quebrando a cabeça... embora não quisesse aceitar a minha ajuda, eu insisti e a levei para a casa de Matilde, a mulher do massagista do Flamengo...
  
DUDA  -  (com uma ponta de ciúme)  E... você ficou lá, também?

HERNANI  -  Eu me mandei, Duda. Só voltei hoje de manhã, pra saber como ela estava passando... e pra avisar que você já estava de volta.

Duda percebeu algo de errado.

DUDA  -  E daí?

HERNANI  -  Daí?

DUDA  -  É. E daí? Que foi que houve com ela?

HERNANI  -  Bem... (sem saber por onde começar)  Ritinha já não estava mais lá... e a Matilde me entregou esta carta... pra dar a você...

Eduardo arrancou, excitado, a carta da mão do ex-amigo.

DUDA  -  Carta! De Ritinha!

HERNANI  -  É. Com certeza ela explica para onde foi... porque a Matilde não sabia... ela só pegou as malas, mandou chamar o taxi... e sumiu.

DUDA  -  Sumiu...

A fisionomia de Duda revelava desespero e ódio, misturados. Os músculos da face estavam duros, enrijecidos e algumas rugas construíam riscos ondulados em sua testa.

DUDA  -  Sumiu... Ritinha... foi embora... é isso que você quer dizer?

HERNANI  -  Eu não sei... juro que não sei... Fiz o que pude, Duda.

A carta balançava entre as mãos do rapaz. Faltava-lhe coragem para abri-la e tomar conhecimento de sua verdade.

DUDA  -  Ela foi embora... e foram vocês... que fizeram isso. Eu... acabo com vocês. Juro. Vou ler esta carta. (levantou-se, mostrando aos irmãos)  E volto para acabar com a raça de vocês dois... E, outra coisa... este apartamento ainda é meu, por lei... você trate de se mandar daqui.  (dirigia-se de forma rude á mulher)  Quando eu voltar, não quero te ver aqui...

FIM DO CAPÍTULO 39
O casamento de João e Lara (2)
E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

*** SINHANA DEPÔE NA DELEGACIA, COMPLICANDO AINDA MAIS A SITUAÇÃO DO DR. MACIEL NO CASO DA MORTE DE SUA ESPOSA.

*** DOMINGAS TEM UMA ENORME SURPRESA COM A CHEGADA DE RITINHA A COROADO.

*** DUDA FICA DIVIDIDO:  CUMPRIR SEUS COMPROMISSOS PROFISSIONAIS OU IR PARA COROADO ATRÁS DE RITINHA?


NÃO PERCA O CAPÍTULO 40 DE 

segunda-feira, 27 de junho de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 38


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair

CAPÍTULO 38
 PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:

JOÃO
JERÔNIMO
RODRIGO
POTIRA
RITINHA
PAULA
HERNANI
DUDA
DALVA
MARIA DE LARA
PADRE BENTO

ESTELA
DELEGADO FALCÃO
JUCA CIPÓ
SEBASTIÃO
JAGUNÇOS
GARIMPEIROS



CENA 1  -  RANCHO CORAGEM  -  QUARTO DE JOÃO  -  INT.  -  DIA.

João se preparava para a cerimônia de casamento, preocupado com as perspectivas de uma possível represália do coronel. O homem não sabia perder, e muito menos perdoar aos que o conseguiam superar. Jerônimo o ajudava a se vestir. Incomodava-o o nó apertado da gravata; o sapato pesava-lhe nos pés.


JOÃO  -  (convidou o irmão)  Cê num vem, irmão?

JERÔNIMO  -  Só se for preciso.

JOÃO  -  Eu quero sua presença.

JERÔNIMO  -  Prefiro ficá com os home tocaiando a casa. Qualqué enguiço, eu entro na festa!

JOÃO  -  Assim não. Se ajeite bem e vem comigo...

JERôNIMO  -  Na casa de Pedro Barros?  Não, eu tenho vergonha.

JOÃO  -  Isso é indireta?

JERôNIMO  -  Você tem seus motivo. Eu não tenho.

CORTA PARA:

CENA 2  -  RANCHO CORAGEM  - SALA  -  INT.  - DIA.

Rodrigo aparecia para oferecer sua ajuda e se despedir. Viajaria para o Rio no dia seguinte. Viera dar um abraço no amigo que casava e na mestiça que amava profundamente.


RODRIGO  -  Você me espera, índia. Vou e levo você no meu pensamento. É sua imagem a única recordação boa que levo daqui. Sua inocência, sua pureza me dão a esperança de que é possível uma vida melhor. Uma vida de que eu preciso, índia. Calma, simples, pura... pra compensar todo o ódio que guardo dentro de mim.  (estreitou a noiva nos braços)  Adeus, índia. Eu volto.

CORTA PARA:

CENA 3  -  RIO DE JANEIRO  -  APARTAMENTO DE DUDA  -  SALA  -  INT.  -  TARDE.

   
RITINHA  -  Desde a manhã estou tentando uma ligação com Porto Alegre, moça. Será que vai demorar tanto assim?  (fez uma pausa)  É este número mesmo... é de um hotel... Oito horas! É muita coisa. Mas tente, por favor!

Ritinha sentia o corpo estranho dentro de seu lar. Paula, lixando as unhas displicentemente, deixava escapar pelo nariz afilado dois jatos de fumaça esbranquiçada.

PAULA  -  (irônica)  Conseguiu a ligação?

RITINHA  -  (com azedume)  Não.  Há demora de oito horas e eu não agüento mais uma hora em sua companhia.

PAULA  -  (sugeriu displicente)  Só há uma solução, minha cara...

RITINHA  -  A minha raiva é que nem a polícia me ajudou. Nem deram bola. Acho que pensaram que fosse trote.
 
PAULA  -  (riu gostosamente)  Simplesmente... eu telefonei depois desmentindo sua queixa. Questão de cabeça, linda menina da roça... Questão de cabeça...

Hernani acabava de chegar e, sem permissão, penetrou no apartamento.

HERNANI  -  Paula, vim te buscar.

PAULA  -  Pra quê, irmãozinho?

HERNANI  -  Você não pode ficar aqui, Paula. Isto não está direito!

Hernani falava com sinceridade e procurava sensibilizar a irmã para a situação da rival.

HERNANI  -  Dona Rita de Cássia, eu não estou de acordo com isso...

Ritinha se descontrolou de vez com a chegada do homem que Eduardo detestava por motivos óbvios...

RITINHA  -  Agora é que eu não fico nem mais um minuto aqui. Os dois... é que eu não agüento. Você soube dar o golpe, Paula. Você venceu. (voltou-se para a cozinha)  Isaura! Venha me ajudar a arrumar as malas! Vamos de qualquer jeito mesmo. Vai levando tudo isso para o elevador.  (agrupou algumas malas e embrulhos junto á porta de saída e a criada os levou para o hall de espera)  Vamos sair daqui, imediatamente.

Rita de Cássia tirou o fone do gancho e discou.

RITINHA  -  De onde fala? A Carmen está? Não? Vai demorar?  (a expressão era de desespero ao ouvir o que lhe informavam do outro lado)  Foi viajar? Pra onde? Petrópolis? Como? Um mês fora? Não, não quero deixar recado... Não, obrigada.

Hernani se aproximou, prestativo.

HERNANI  -  Posso lhe ser útil em alguma coisa?

RITINHA  -   (com raiva, olhos faiscantes)  Não Você e sua irmã só atrapalham a minha vida!

PAULA  -      (maliciosa)  Quer a chave? Pode levá-la no meu carro, Hernani .  Ela precisa de sua ajuda, maninho. E muito...

RITINHA  -  Mas eu não quero ir no carro de ninguém. E não preciso de sua companhia!  (a voz lhe embargava)  Eu... me arrumo sozinha. Não sou tão tonta como vocês pensam!

Hernani estava penalizado com a situação da moça. Buscava um meio de ganhar-lhe a confiança e de lhe ser útil na trama enredada pela irmã.

HERNANI  -  Eu a levo para um lugar decente...

Ritinha não acreditava na atitude leal do rapaz.

RITINHA  -  Mas eu não quero! Não preciso.

HERNANI  -  Orgulho nesta hora não vai adiantar... Vamos, dê-me esta mala.

Segurou-a pelo braço, evitando o safanão que a jovem ameaçou dar. A criada tremia de medo, encostada á porta do elevador.

HERNANI  -  (puxando-a com força)  Ora, vamos indo...

Rita chorava ao cruzar o grande portão de ferro espelhado do edifício.

CORTA PARA:

CENA 4  -  APARTAMENTO DE DUDA  -  SALA  -  INT.  -  TARDE.


O telefone tilintou duas, três vezes. Paula arrancou o fone do gancho, enfurecida.


PAULA  -  Alô! Ah, de Porto Alegre? Pode ligar.

Duda entrou na linha.

DUDA  -  Alô, Ritinha? Ela não está? Quem está falando? Paula? Que é que você está fazendo ai? O que?
 
PAULA  -  (explicava, histérica e mentirosa)   Sua mulher acaba de sair daqui, agora mesmo. Ela quis desocupar o apartamento. Disse para esperar por você. Nada fiz para obrigá-la, meu bem.

DUDA  -  Por que... ela fez isso? Para onde foi?  (aguardou resposta)  Não sabe? Como é que pode? Quem levou? Hernani?

A revelação descontrolou-lhe os nervos. Duda gesticulava e cerrava os punhos, como se discutisse com alguém a poucos centímetros de suas mãos.

DUDA  -  Mas... eu disse a ela que não tinha de aceitar favores do Hernani. E você fez muito mal em fazer negócio com o apartamento que eu alugava. Vamos ajustar as nossas contas!  Agora, quero saber o que foi feito da minha mulher.  (gritava nervoso do outro lado do bocal)  É isso mesmo! O que foi feito da minha mulher? Se ela sumir... você é quem vai me pagar, está me ouvindo? Você e aquele calhorda do seu irmão. Manda ele ligar pra mim. Manda ele ligar! Imediatamente!

Duda desligou, possesso.

CORTA PARA:

CENA 5  -  FAZENDA DE PEDRO BARROS  -  QUARTO DE LARA  -  INT.  -  TARDE.
   
Dalva manifestava seu desagrado com o casamento de Lara e confessava isso á sobrinha nos instantes que entecediam a cerimônia. Não perdoava a atitude submissa de Pedro Barros. Para ela, a união de Lara com João Coragem era uma desgraça...


DALVA  -  Você está se deixando dominar completamente pela “outra”. Não devia aceitar essa união.

MARIA DE LARA  -  Não posso mais fugir a isso.

DALVA  -  Porque gosta dele...

MARIA DE LARA  -  E que culpa tenho disso?

DALVA  -  Então, confessa duma vez. Você ama esse sujeito!

MARIA DE LARA  -  (confessou, cabisbaixa)  Pelo menos não consigo deixar de pensar nele.

DALVA  -  (maldosa)  Sabe o que é isso?  É a outra sujeita. Vai acabar perdendo sua própria personalidade. E nunca mais quero olhar para você, porque sinto nojo de gente dessa espécie!

MARIA DE LARA  -   (implorou, com os olhos marejados)  Titia, por favor, não me torture mais.

DALVA  -  Lembre-se. Eu não vou descer... Até o último momento, você pode desistir. Se não conseguir, é uma prova de sua fraqueza.

CORTA PARA:

CENA 6  -  FAZENDA DE PEDRO BARROS  -  SALA  -  INT.  -  TARDE.

   
Os poucos convidados conversavam baixinho, aguardando o início da cerimônia. Padre Bento pediu silencio.


PADRE BENTO  -  Dona Estela... acho que não é preciso apresentar João...

ESTELA  -  (sorrindo graciosa para o garimpeiro)  Já nos conhecemos.

João fez as apresentações.

JOÃO  -  Meu pai, minha irmã de criação...

Olhou para trás e viu a jagunçada de Lourenço armada até os dentes. Juca Cipó se destacava, impaciente.
DELEGADO FALCÃO  -  (interpelou o noivo)  Sabe? Casamento desta espécie é palhaçada.

JOÃO  -  Talvez o senhor teja querendo o meu lugar...

DELEGADO FALCÃO  -  Voce me roubou ele... não é natural que eu queira reaver?

JOÃO  -  Pra isso trouxe a jagunçada?

DELEGADO FALCÃO  -  Quem sabe?

João sorriu. Fez um discreto sinal para as bandas do terreiro.


JOÃO  -  Pois bem... acho então que tenho o direito de me defender...

Lentamente, os garimpeiros assomaram á porta da casa-grande, armados de facas e revólveres. Padre bento se espantou e fez o sinal da cruz.

PADRE BENTO  -  Meu Deus do céu, mas o que é isso?
  
JOÃO  -  (para todo mundo ouvir)  São meus convidados,  Padre Bento. (e dirigindo-se aos companheiros)  Vocês não provoque, mas reaja, em caso de necessidade.

Braz antecipou-se, como sempre ansioso pela vingança.


BRAZ  -  Pode deixá, João! A gente sabe se portá como gente... Lá fora tem mais home, mas acho que não vai sê preciso fazê entrá...


FIM DO CAPÍTULO 38 
O casamento de |João Coragem e Maria de Lara

E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

JOÃO CORAGEM E MARIA DE LARA CASAM-SE.

DUDA CHEGA AO SEU APARTAMENTO, ENCONTRA PAULA  E FICA POSSESSO AO SABER QUE RITINHA FOI EMBORA DEIXANDO UMA CARTA DE DESPEDIDA!


NÃO PERCA O CAPÍTULO 39 DE

domingo, 26 de junho de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 37


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair

CAPÍTULO 37
PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:
PAULA
RITINHA
ISAURA
CRIADA DE PAULA
PADRE BENTO
JOÃO
SINHANA
DR. MACIEL
DELEGADO FALCÃO
DOMINGAS
PEDRO BARROS
 
CENA 1  -  RIO DE JANEIRO  -  APARTAMENTO DE DUDA  -  INT.  -  DIA.

Duda tinha retornado á equipe e, sob protesto do técnico Fausto Paiva, jogara e fôra o melhor homem em campo na partida contra o Internacional. Mesmo assim, estava ameaçado de sofrer a multa de 60% no ordenado. No Rio, Ritinha lia um romance, com os sentidos tranqüilizados. Duda a queria, o resto não importava. Ouviu a voz da criada atendendo á porta.


CRIADA  -  Que deseja?

PAULA  -  Rita de Cássia está aí?

Reconhecera a voz de Paula. A outra entrou e encaminhou-se para o quarto de Rita de Cássia.

CORTA PARA:

CENA 2  -  APARTAMENTO DE DUDA  -  QUARTO  -  INT.  -  DIA.


RITINHA  -  (irritada, deixando o livro sobre a mesinha de cabeceira)  Não mandei a senhora entrar .

PAULA  -  Acho que não preciso de ordem para entrar no meu apartamento. Olhe, minha cara, infelizmente, tenho péssimas notícias. Fui obrigada a desocupar meu apartamento e não tenho para onde ir.

RITINHA  -  Não tenho nada com isso...

PAULA  -  Tem sim, porque vou me mudar para cá imediatamente. Me transfiro com toda a minha bagagem.
  
RITINHA  -  (já vermelha de raiva)  Isto, se eu deixar...

PAULA  -  O apartamento é grande. Tem três quartos. Eu ocupo um e deixo o resto pra você.

RITINHA  -  (já de pé)  Não posso ficar vivendo aqui com você .

PAULA  -  Pois então... mude-se.

Paula foi até a porta e fez um sinal para fora.


PAULA  -  Ei! Está dormindo? Venha!

CORTA PARA:

CENA 3  -  APARTAMENTO DE DUDA  -  SALA.  -  INT.  -  DIA.

A empregada da ex-amante de Duda entrou na sala, carregada de malas e embrulhos. Ritinha se perturbou.


RITINHA  -  Não vou permitir isso, Paula.

A outra nem tomou conhecimento da observação da jovem esposa do jogador.


PAULA  -  Venha, traga tudo para cá... (encaminhou-se para o interior do apartamento)  Eu ocupo o quarto dos fundos. Viu como sou boazinha e compreensiva? Se fosse outra, exigia o quarto da frente.  (empurrou enérgica a empregada)  Leve tudo pra lá. É o terceiro do corredor. Depois vá buscar o resto...

Ritinha se lembrou do que Duda lhe dissera, e o telefone ali estava, solitário, á sua disposição.

RITINHA  -  Sabe o telefone do Distrito, Isaura?

A lista telefônica foi percorrida com rapidez. Ali estava o número: 23754... Ritinha discou, nervosa, o dedo mal enchendo o círculo dos algarismos. Paula percebeu tudo.

PAULA  -  Não adianta chamar a polícia, minha cara. Chegam aqui e vão me dar razão. Afinal, eu te dei tempo para desocupar o apartamento.

RITINHA  -  Não é o tempo dentro da lei.

PAULA  -  Mas, se não tenho pra onde ir, sou obrigada a morar aqui.

O telefone tilintou na outra extremidade do fio.

RITINHA  -  Alô! Da polícia? Quero falar com o delegado. Comissário mesmo, serve. Escuta aqui, quem ta falando é uma senhora que está passando por uma dificuldade. Meu nome é Rita de Cássia Coragem... Qual o problema? Invasão de domicílio! É sim, senhor! Peço uma providencia imediata! Tome nota do endereço...

A empregada de Paula parou, amedrontada.

CRIADA DE PAULA  -  Que é que a gente faz? Negócio com polícia não é comigo, não. Dá enguiço.
   
PAULA  -  (sem medo)  Vá por mim. Leve tudo para dentro. Quero ver se existe polícia que possa me tirar daqui. Anda, manda brasa!

CORTA PARA:

CENA  4  -  RANCHO CORAGEM  -  SALA  -  INT.  -  DIA.

Era cedo quando Padre Bento bateu á porta do rancho dos Coragem. Batina pardacenta, cheia de pó, procurava João.


SINHANA  -  (para dentro da casa)  João! Padre Bento ta aqui, querendo te falá!
   
JOÃO  -  (apareceu correndo)  Oh, padre... já lhe esperava... bom dia!

PADRE BENTO  -  Bom dia, meu filho! Deus te abençoe... Parece que Pedro Barros resolveu agir com bom senso.

JOÃO  -  Ele se conformou? Tá tudo certo pra hoje?

PADRE BENTO  -  Está, está...

JOÃO  -  Também não tinha outro remédio.

O vigário revelou a conversa que tivera com o dono da fazenda grande, e as exigências por ele enumeradas para que desse permissão a Lara para  casar. O padre ia falando e, á medida que esclarecia as determinações do homem, João acenava com a cabeça. Aceitava as imposições do coronel, com exceção da que o brigava a negociar a pedra preciosa.

JOÃO  -  Eu espero.  Sou paciente. Levei tantos ano pra encontrá uma pedra. Espero mais um mês pra vivê com minha mulhé.

PADRE BENTO  -  (meio sem jeito)  Tem outro coisa, João. Tudo será feito muito discretamente,  na casa dele.

SINHANA  -  Na casa dele! Isso é golpe, pra gente não poder ir. Pode ser até um golpe pra você, meu filho.

JOÃO  -  Calma, mãe! Eu não tenho medo de nada!  (e dirigindo-se ao padre)  A que horas tá marcado?

PADRE BENTO  -  Temos tempo ainda, filho. Será ás 7 horas da noite. Mandei que preparassem um altar lá mesmo, na sala...

CORTA PARA:

CENA 5  -  COROADO  -  CASA DO DR. MACIEL  -  SALA   -  INT.  -  DIA.

 
Muito a contragosto,  aborrecido por ter de cumprir ordem que o punha em posição antagônica ao coronel, o delegado Falcão ouvia o depoimento do Dr. Maciel. Domingas servia café forte e o médico denotava na expressão cansada o constrangimento de que estava possuído.


DR. MACIEL  -  Como lhe disse, minha esposa faleceu em consequência de uma moléstia traiçoeira... e posso provar isso.

Retirou de dentro de um envelope um maço de papéis amarelados pela ação do tempo.

DR. MACIEL  -  Tenho aqui os resultados de exames realizados em hospitais do Rio e de Belo Horizonte... e que confirmam minhas palavras. Eu lhe peço pra ver.

Falcão parecia distante, completamente desligado do trabalho policial que executava.

DOMINGAS  -  Sou Falcão... seu doutô tá lhe falando...

O delegado voltou a si do devaneio.


DELEGADO FALCÃO  -  Hein!?

DR. MACIEL  -  Os exames da minha senhora...

DELEGADO FALCÃO  -  Desculpe. Vamos deixar isto pra outro dia. É hoje o casamento de dona Lara, não é? Pois eu não posso afastar essa desgraça da minha cabeça. Minha vontade é acabar com a raça dos Coragem.
 
DR. MACIEL  -  Eu também. É por causa deles que estou, neste momento, relembrando o falecimento de minha saudosa esposa. Não perdôo essa gente. Nem que viva mil anos, não vou perdoar. Só sinto que meu neto vá ser também um Coragem.

Não podia passar pela cabeça do delegado o porquê do afrouxamento do coronel ao consentir, tão de repente, no casamento de sua filha única com o seu mais terrível inimigo.

DELEGADO FALCÃO  -  Agora, o senhor me explica. Como pode? Como é que Pedro Barros vai consentir numa coisa destas?
   
DOMINGAS  -  Dizem que foi obrigado. E que a moça...

DELEGADO FALCÃO  -  (cortou)  Essa,  não! É forte demais, dona Domingas!

A porta se abriu e a figura de Pedro Barros surgiu, carrancuda, batendo com o chicote de couro amarelado na parte lateral da grossa calça de casimira.

PEDRO BARROS  -  Estão confabulando... contra mim? (pôs a mão no ombro de Falcão)  Muito enfezado, meu caro?

DELEGADO FALCÃO  -  Decepcionado, coronel. Arrasado com a traição que estão fazendo comigo.

PEDRO BARROS  -  Não desanima, homem. Tenho meus planos! As coisas não são tão ruim como parecem.

DELEGADO FALCÃO  -  Mas... o senhor consentiu no casamento de sua filha com João... e me fala em ânimo, coronel!

PEDRO BARROS  -  Só lhe digo que fui forçado, mas que estou disposto a não deixar minha filha se unir a ele. Impus uma condição que eu não sei... ele não vai poder cumprir.

DELEGADO FALCÃO  -  Qual?

PEDRO BARROS  -  É um assunto muito particular e não costumo discutir minha vida nem com meu maior amigo. Mas você, Falcão, é o meu maior amigo, e só posso te dizer: o casamento que vai se realizar hoje, num altar improvisado, na minha casa, não vai ter o menor valor...

Barros abaixou a cabeça, cofiando a barba longa e cada vez mais grisalha.

PEDRO BARROS  -  (resmungou, como se falasse consigo)  Hoje... vou me embebedar. No casamento de minha filha com meu inimigo... não quero estar no meu estado normal. Me acompanhe, doutor. Sei que o senhor nisto é boa companhia. (virando-se para a ama)  Mingas, veja aí uma boa cachaça pra mim.

FIM DO CAPÍTULO 37
João (Tarcisio) e Jerônimo (Claudio Cavalcanti)

E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...


*** DESESPERADA COM A INVASÃO DE SEU APARTAMENTO, RITINHA ENTREGA OS PONTOS E DECIDE IR EMBORA!

*** O CLIMA ESTÁ TENSO NA FAZENDA DE PEDRO BARROS, NOS MOMENTOS EM QUE ANTECEDEM O CASAMENTO DE JOÃO E LARA, COM A PRESENÇA DOS GARIMPEIROS EM PESO, LADO A LADO COM A JAGUNÇADA DO CORONEL.


NÃO PERCA O CAPÍTULO 38 DE

  

quarta-feira, 22 de junho de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 36


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair

CAPÍTULO 36

PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:

DUDA
RITINHA
JOÃO
PEDRO BARROS
JERÔNIMO
LOURENÇO
JUCA CIPÓ
BRAZ CANOEIRO
GARIMPEIROS
CAPANGAS DE PEDRO BARROS


CENA 1  -  RIO DE JANEIRO  -  APARTAMENTO DE DUDA  -  INT.  -   NOITE.

O som estridente da campainha violentou o silencio do apartamento. Ritinha levantou-se célere.


DUDA  -  Sou eu! Abre, bem!

Sem acender a luz, Ritinha correu á porta, cobrindo o busto com as mãos. Fazia calor no Rio.


RITINHA  -  Puxa! Você veio! Nem te esperava mais!

Duda abraçou a mulher, beijando-lhe ávido a boca e o pescoço.

DUDA  -  Ficava maluco se não te visse hoje, amor!

A moça aninhou-se nos braços do marido, o busto nu esmagado de encontro ao peito do esposo.

RITINHA  -  Parece um sonho que esteja aqui.

Duda afastou-a meio metro e admirou-lhe segundos o corpo despido. No assoalho as unhas brancas decoravam pés pequenos e mimosos que sustentavam pernas e coxas de carnes firmes e morenas. A discreta calota do ventre,  um pouco entumescida, anunciava a gravidez em início. Duda extasiava-se descobrindo belezas no corpo de Ritinha. Puxou-a para si, com o sangue ardendo...

DUDA  -  Não tá certo voce ficar aqui, assim...

CORTA PARA:

CENA 2  -  APARTAMENTO DE DUDA  -  BANHEIRO  -  INT.  -  NOITE.

Pulando sob as águas do chuveiro, Duda lamentava o tempo perdido, das viagens que o obrigavam a separar-se da mulher por tanto tempo. Friccionou o corpo cabeludo com a toalha de desenhos geométricos. Sentia o sangue ferver, apesar do banho frio e da brisa que penetrava pela portinhola aberta do banheiro. Enrolado na grossa toalha de banho, encaminhou-se para o quarto onde “ela” o estaria esperando.


CORTA PARA:

CENA 3  -  APARTAMENTO DE DUDA  -  QUARTO  -  INT.  -  NOITE.


DUDA  -  Olhe aqui  (deitando-se ao lado da mulher)  não deixe o apartamento, não tome conhecimento das ameaças de ninguém. A lei dá muito tempo pro inquilino. Me espera voltar dessa excursão.

Ritinha acenou que sim, olhando fundo nos olhos do marido.


DUDA  -  Preste bem atenção no que estou dizendo: não abra a porta pra ninguém.

RITINHA  -  Tá certo. Entendi tudo, mas agora fica quieto que eu tenho uma surpresa pra você.  (agarrou a mão do rapaz e colocou-a sobre a barriga e ordenou)  Fica quieto... daqui a pouco você vai ver uma coisa...

DUDA  -  O quê?

RITINHA  -  Ele pular.

DUDA  -  Já? Tá brincando!

Rita confirmou.

DUDA  -  Então... já está destinado. Vai ser jogador de futebol.

Sorriu satisfeito, pensando na cara de Fausto Paiva e nos companheiros da equipe abraçados, certamente, aos confortáveis travesseiros do hotel. Recordou-se do desentendimento havido na hora da partida.

DUDA  -  Desafiei o time todo... vou agüentar com as conseqüências desta viagem... só pra vir aqui... e sentir os pulinhos de meu filho! Amanhã vou contar pra turma! Vão se divertir ás pampas!

Chegou-se para junto da esposa e beijou-lhe o ombro. As luzes do quarto se apagaram, enquanto outras luzes clareavam-lhe a mente: amava Ritinha. Os corpos estreitaram-se ainda mais, paralelos, formando um imenso desenho negro na brancura imaculada do lençol. Os sonhos começavam com antecipação.

CORTA PARA:

CENA 4  -  FAZENDA DE PEDRO BARROS  -  CASA-GRANDE  -  SALA  -  INT.  -  DIA.

   
JOÃO  -  Me dissero que o sinhô queria falá comigo.

João Coragem protestara contra a presença no rancho dos capangas do coronel, mas aquiescera em comparecer á fazenda, para se entrevistar com Pedro Barros. O convite, de certa forma, o surpreendeu, já que o duelo de interesses levara as duas famílias a uma luta de morte. Lourenço lhe garantira que nada lhe aconteceria de mal. Pedro Barros desejava apenas esclarecer alguns ângulos, ainda obscuros, de seu romance com a moça Diana. Apesar dos protestos de Jerônimo, João partiu para a fazenda, acompanhado pelos asseclas do coronel. Agora, encaravam-se, frente a frente. João, meio desconfiado; Pedro Barros tentando aparentar uma calma que não possuía.

PEDRO BARROS  -  (ríspido)  Entre!

João aceitou o convite. O coronel indicou o sofá.
  
PEDRO BARROS  -  Ouvi dizer, João, que você ta querendo se casar com minha filha. E que já tem até casamento marcado pra amanhã. Certo?

JOÃO  -  Deve de tê ouvido dizê, também, que não fiz isso contra a vontade dela. Não ia arrumá papel de casamento se não estivesse de acordo.

PEDRO BARROS  -  (cenho franzido)  Pode ter sonhado que ela estava de acordo.

JOÃO  -  Vamo deixá de muita prosa. O senhô tá sabendo, como eu sei, que a gente precisa se casá de qualquer jeito. Não é o sinhô que prega moral nessa cidade? Não é o salvador das honra? Pois salva agora a de sua própria filha.

PEDRO BARROS  -  Andou falando com o médico da cidade?

JOÃO  -  Andei. E tou ciente de tudo...

Pedro Barros procurara conter a ira e não elevar a voz. O assunto tinha de ser tratado em bases pacíficas.


PEDRO BARROS   -  Sabe que eu podia até te matar pelo que fez?

Breve silencio pairou sobre a sala. Barros acendia o cachimbo, chupando furiosamente o cano de ébano.

PEDRO BARROS  -  Voce me pegou no pulo dessa vez, João. Mas não vou te ceder minha filha de mão beijada.

JOÃO  -  Tou disposta até a aceitar a condição.

PEDRO BARROS  -  A condição se resume em dois pontos: vocês casam,  mas Maria de Lara terá de permanecer na fazenda até que você possua  meios de lhe dar o conforto por ela gozado. E ainda lhe facilito as coisa, pra alcançá seu objetivo: quero comprá sua pedra.

Estava claro o intuito do coronel, a trama chantagista que elaborara para ficar de posse da cobiçada pedra.

PEDRO BARROS  -  Pra isso mandei trazer ela. Quero ver a preciosidade. Dizem que é uma pedra do outro mundo. Pois eu quero ver, para crer.
   
JOÃO  -  (enfurecido com a ambição do outro)  Então... o senhor não me chamou aqui pra salvar a honra de sua filha... me chamou pra fazê negócio.
  
PEDRO BARROS  -  (com cinismo) A gente pode unir as duas coisas. Quero ver o diamante!

Alguma coisa, um sexto-sentido, avisava o rapaz que era chegado o momento. Tudo se decidiria a partir do instante em que o valioso diamante passasse ás mãos do coronel: a paz ou a guerra definitiva. Lentamente, como se retirasse do poço toneladas  de minério, João puxou do bolso a preciosidade. Colocou-a cuidadosamente sobre a mesa, os olhos perscrutando o ambiente.

PEDRO BARROS  -  Deixa a pedra aí, home! Ta com medo que eu te roube ela?

Pedro Barros abriu a pequena bolsa de couro e seus olhos pareceram saltar das órbitas.


PEDRO BARROS  -  Deus de misericórdia!

A exclamação do coronel atraíram á sala os capangas de Lourenço e Juca Cipó. Um a um aproximaram-se, rodeando covardemente o garimpeiro. Barros permanecia extasiado.

JOÃO  -  (cutucando as costas do coronel)  O que é isso? O que é que eles tão fazendo aqui?

PEDRO BARROS  -  Calma, João... a gente ta realizando um negócio. Tenho que tomar as precauções habituais.

A cilada fora preparada com requintes pelo coronel. Não havia saída para o outro e, mesmo que tentasse qualquer reação, a pedra jamais lhe voltaria ás mãos. Os homens, mal encarados, prestavam atenção a todos os movimentos do rapaz. Lourenço se adiantou e se postou ao lado de Pedro Barros.

LOURENÇO  -  (empalideceu)  Virge mãe!

PEDRO BARROS  -  Cala a boca, Lourenço! Você não entende muito disso!

Examinou a pedra por alguns instantes, movendo-a entre os dedos. Foi á janela e, contra a luz do sol, observou a radiação, os efeitos de luz. Barros engendrava a jogada na base do blefe...

PEDRO BARROS  -  Ela só tem aparência. Não é pura. Conheço isso longe. Chama “engana-trouxa”...

JOÃO  -  Então, me dá ela.

PEDRO BARROS  -  Mas espera. Ainda assim... eu faço negócio com você... mas visando ao bem-estar da minha filha... Eu te dou por ela... e por muito favor... só pra você fazer uma casa decente... deixe ver...  (encostou dois dedos na fronte, em atitude pensativa)... cinqüenta milhões de cruzeiros. Velhos.

João revoltou-se com a exploração.

JOÃO  -  Absurdo. Eu não quero vender nada. Me dê...

PEDRO BARROS  -  Vou lhe fazer um favor...

JOÃO  -  (decidido)  Eu não quero.

PEDRO BARROS  -  Desculpe... mas vai ser obrigado!

João Coragem sondou o ambiente. Estava cercado e sem chance de readquirir a pedra. A voz de Jerônimo, firme e clara, fez com que todos os olhares se voltassem para a porta.

JERÔNIMO  -  Acho que chegamos em boa hora!

Atrás do Presidente da Associação do Garimpeiros, Braz, Antonio e uma dezena de outros companheiros armados e prontos para a ação. O grupo entrou lentamente na sala do coronel. Barros espumava de cólera. 

JERÔNIMO  -  A gente veio... tomá parte no negócio. (e firme para o coronel)  Entrega a pedra pra ele.

O cano do revólver distava dois metros do coração de Barros. Um excelente alvo.
   
JERÔNIMO  -  (insistiu mais uma vez)  Vamo, dê o diamante ao mano.

Barros hesitava, entre perplexo e raivoso. As duas facções se entreolhavam, com ódio.

PEDRO BARROS  -  Então, Jerônimo, você se fez chefe dos homens... pra formar uma quadrilha?
   
JUCA CIPÓ  -  (cínico)  Viraro bandoleiro, meu patrão.

JERÔNIMO  -  Bandoleiro é aquele que rouba. A gente só defende os direito. No nosso caso, quem é o bandoleiro são os do seu lado.

João balançou a cabeça para a direita, num gesto típico de irritação.

JOÃO  -  Anda. A minha pedra.
  
BRAZ CANOEIRO  -  (gritou do fundo, com a voz emocionada)  A gente ta disposto a tudo.

De má vontade e sem outro recurso, Pedro Barros entregou o diamante ao verdadeiro dono. Havia ódio na máscara facial do coronel.

PEDRO BARROS  -  Agora dêem o fora!

João colocou as duas mãos espalmadas acima do peito, em sinal de calma.

JOÃO  -  Ainda não. Falta o principal. Quero saber se amanhã ta tudo certo pro casamento.

PEDRO BARROS  -  Voce sabe qual a minha condição.

JOÃO  -  Pois eu repito que aceito. A moça só vai viver comigo quando eu tiver conforto de riqueza pra lhe dá. Muito bem. Isso não vai demorá pra acontecê. (voltou-se para os amigos) Irmão, minha gente, cês tão ouvindo. Pedro Barros deu uma condição e eu aceitei. Me caso com a filha dele, mas ela só vem pra mim quando eu  tiver dinheiro...
  
JERÔNIMO  -  (enérgico)  Ele vai ter que cumprir a palavra.

BRAZ CANOEIRO  -  (com ânsia de vingança)  A gente obriga ele a cumprir!

Protegido pelos companheiros, João Coragem deixou a sala da casa-grande.


FIM DO CAPÍTULO  36
Sinhana (Zilka), João (Tarcísio) e Dr. Maciel (Enio Santos)

E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

*** PAULA CHEGA AO APARTAMENTO DE RITINHA COM MALAS E BAGAGENS, DIZENDO QUE VEIO PARA FICAR. RITINHA DECIDE CHAMAR A POLÍCIA E É DESAFIADA PELA AMANTE DO MARIDO.

*** PADRE BENTO COMUNICA A JOÃO QUE O CASAMENTO SERÁ REALIZADO NA FAZENDA DE PEDRO BARROS.

*** O DELEGADO FALCÃO NÃO SE CONFORMA COM O CASAMENTO DE JOÃO E LARA.


NÃO PERCA O CAPÍTULO 37 DE



segunda-feira, 20 de junho de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 35


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair


CAPÍTULO 35
PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:
DR. RAFAEL
MARIA DE LARA
DUDA
FAUSTO PAIVA 


CENA 1  -  FAZENDA DE PEDRO BARROS  -  CASA-GRANDE  -  EXT.  -  MANHÃ.
  
Eram 5 horas da tarde quando o Dr. Rafael, segurando a mala, dirigiu-se para o jardim da casa-grande, onde Maria de Lara o aguardava.  Caminhavam lentamente. A tarde caía e o sol avermelhado tingia de púrpura o horizonte. Lara ouvia as explicações do psiquiatra. Era necessário que tomasse conhecimento da terrível verdade, mas por intermédio de quem dispusesse de entendimento, boa vontade e habilidade, para não chocar os sentimentos e os nervos já abalados da moça. O médico se referiu ao incidente do dia anterior, á aparição de Diana Lemos e á revelação de suas relações íntimas com o garimpeiro João Coragem.


DR. RAFAEL  -  Lara... você está grávida! Vai ser mãe!

A moça chorava silenciosa, amparada nos braços do médico.

DR. RAFAEL  -  Era preciso que ficasse ciente desta realidade. Agora, já sabe da existência de uma outra personalidade sua... e que a essa outra personalidade se devem os fatos que lhe aconteceram. É dela a voz que costuma ouvir. (depois de pequena pausa,  prosseguiu)  Já sabe da importância de João Coragem na vida de Diana. Já sabe que há um casamento marcado com ele e as razões por que não pode fugir... desta situação. Acha que pode aceitá-la?

MARIA DE LARA  -  Eu... eu não sei, doutor... Preciso de tempo... para raciocinar sobre tudo isso. Nunca pensei que isto pudesse me acontecer!

DR. RAFAEL  -  Dou-lhe uma esperança de cura.  Deve confiar em mim. Infelizmente, não posso permanecer aqui, ao menos para saber qual será sua resolução. Espero ter feito tudo para ajudá-la.
  
MARIA DE LARA  -  (tristonha)  Já vai, doutor?

DR. RAFAEL  -  Tenho compromissos no Rio de Janeiro, mas me comunicarei permanentemente com seus pais.
   
MARIA DE LARA  -  Papai... como recebeu... a noticia?

DR. RAFAEL  -  Muito mal. Mas acho que tudo depende muito mais de você do que dele.

MARIA DE LARA  -  Vou pensar, doutor... se devo ou não... aceitar esse casamento... com... com João Coragem.

Rafael estendeu-lhe as duas mãos e apertou suavemente as que a moça lhe ofereceu, finas e geladas.


DR. RAFAEL  -  Não desanime. Fique confiante. Estou certo de que este primeiro passo será em seu benefício.
   
MARIA DE LARA  -  Adeus, doutor... e obrigada por tudo.

CORTA PARA:

CENA 2  -  SÃO PAULO  -  GRANDE HOTEL  -  CORREDOR  -  INT.  -  NOITE.
  
O elevador desceu e Duda, apalermado com a inesperada aparição de Fausto Paiva, deixou-se ficar,  estático, á espera da reação, por certo violenta, do técnico. E, de fato, o homem despejou torrentes de palavrões e de ameaças. Duda fumava nervoso, desobedecendo a um dos itens mais rigorosos da relação de proibições do técnico.


FAUSTO PAIVA  -  Já disse tudo o que tinha a dizer. Agora, se quer fazer esta burrada, o resto é com você.

DUDA  -  Já sei, já sei de tudo. Há uma hora que o senhor está dizendo coisas que eu estou cansado de saber. Mas acontece que minha mulher...
   
FAUSTO PAIVA  -  (cortou, colérico)  Há mais de uma hora que estou lhe falando e pensei que tivesse um pouco de juízo.  Acho que há uma hora estou falando pras paredes!

Duda fez um gesto de enfado, erguendo a palma da mão e enfrentando com firmeza o olhar do técnico.


DUDA  -  Não adianta, seu Fausto. Tomei a decisão. Vou para o Rio agora mesmo.

Fausto saiu bufando.

FIM DO CAPÍTULO 35
Dalva (Mirian Pires) e Lara (Gloria Menezes)

E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

*** DUDA, APAIXONADO, ADVERTE RITINHA QUE NÃO ABRA A PORTA PARA NINGUÉM.

*** PEDRO BARROS ATRAI JOÃO CORAGEM Á SUA FAZENDA E ARMA UMA CILADA: PEDE PARA VER O DIAMANTE E, PROTEGIDO PELO BANDO DE JAGUNÇOS,  DECIDE NÃO DEVOLVER AO GARIMPEIRO!


NÃO PERCA O CAPÍTULO 36 DE

sábado, 18 de junho de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 34


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair 

CAPÍTULO 34

PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:

DUDA
RITINHA
NECO
FAUSTO PAIVA
PEDRO BARROS
DR. RAFAEL
ESTELA
DALVA

CENA 1  -  SÃO PAULO  -  VISTA PANORÂMICA E GRANDE HOTEL  -  EXT.   E INT.  -  NOITE

O jogo terminara. Duda se retirou apressado para o confortável apartamento do hotel. Vista do alto, São Paulo lembrava um gigantesco anúncio luminoso. As luzes da cidade enchiam de meios-tons os céus garoentos, onde o ruído dos aviões quebrava o silencio da noite. Deitado na cama de lençóis alvos e frios, Eduardo esticou o braço e colou o fone ao ouvido.


DUDA  -  Telefonista? Aqui é o Duda, do Flamengo. Pedi uma ligação para depois do jogo, se lembra? Ahan... pode completar.

O ruído da ligação interestadual se fez ouvir. Alguém falava do outro lado.

DUDA  -  Alô, Ritinha? Amor, sou eu!

Duda encolheu as pernas e abraçou o travesseiro. Ouvia a voz da esposa a centenas de quilômetros.

RITINHA  -  Puxa, bem, estava aflita pra você ligar! Gostei do seu jogo, hoje! Ouvi inteirinho!
  
EDUARDO  -  Não fale em futebol agora. Quero saber de você.

RITINHA  -  Bem... as coisas estão correndo normalmente... mas você não imagina o que aconteceu... Estou sendo intimada a deixar nosso apartamento!

Eduardo se sentou na cama, num movimento automático. A notícia o atordoara.

DUDA  -  Intimada... ora essa! Por quê?
  
RITINHA  -  Paula comprou ele, Eduardo! Comprou com o dinheiro que você deu a ela!

DUDA  -  Paula! Mas não é possível, Ritinha!

RITINHA  -  Agora, está me forçando a mudar. Eu disse que não saio até você chegar; ela disse que vou ser despejada. Que é que eu faço?

Levantou-se da cama, peito nu, a sunga branca contrastando com a pele queimada dos muitos sóis dos estádios.

DUDA  -  Voce... você me espera, ouviu? Não saia, não ligue pra ameaça... não dê confiança a coisa alguma. Não faça nada até eu voltar. Me entendeu? Olha, Rita, vamos fazer uma coisa... eu vou pegar um avião hoje mesmo e vou aí pra falar com você...  (olhou o relógio de pulso perdido entre os pelos negros. Eram 11:30 da noite).

A voz meiga de Ritinha se insinuava do bocal do aparelho.

RITINHA  -  Vem mesmo, você pode?
    
DUDA  -  Se puder ou não, eu vou. Me espera, ta?

Neco ouvira o diálogo, sentado com as pernas em cima do sofá.

NECO  -  Que foi que houve?

Em poucas palavras, Duda pôs o companheiro a par dos acontecimentos.

NECO  -  Pense bem no que vai fazer...  Amanhã a gente tem que estar em Porto Alegre.

DUDA  -  Vou ao Rio hoje e volto amanhã.  Dane-se! Eu vou depois. Vocês me esperam lá. Avisa ao Fausto o que aconteceu. Quando ele estrilar, já estou longe. Assim, não vai me impedir de ver minha mulher...

Neco lembrou-lhe a dureza do técnico e a violência de que era capaz, quando contrariado em suas ordens.


NECO  -  Isto é indisciplina. Você vai ser multado.

DUDA  -  Multado, punido, que me importa?

Acabou de vestir a roupa e, com a maleta de viagem a tiracolo, abandonou o quarto em direção ao elevador. Apertou o botão de descida. A porta correu e a figura de Fausto Paiva surgiu, enchendo o quadrilátero de aço. Duda sentiu fugirem-lhe as pernas.

FAUSTO PAIVA  -  (vociferou, feroz)  Ia sair, Duda?

CORTA PARA

CENA 2  -  FAZENDA DE PEDRO BARROS  -  CASA-GRANDE  -  SALA  -  INT.  -  DIA


Depois dos acontecimentos da casa abandonada, o Dr. Rafael já não tinha dúvidas quanto ao diagnóstico do caso de Maria de Lara. Impressionava-o o problema da gravidez e a maneira de revelar á família o tipo de relações que a filha do coronel vinha mantendo com João Coragem, quando investida da personalidade demoníaca de Diana Lemos. Era visível a apreensão do médico diante da família reunida. Barros, cachimbando nervoso e com certa irritação, deu início á conversa.


PEDRO BARROS  -  É sobre minha filha?

DR. RAFAEL  -  Sim. Mas é preciso que todos estejam preparados. O problema envolve, também, o senhor João Coragem...
    
PEDRO BARROS  -  (tremeu imperceptívelmente)    Que história é essa? Que é que minha filha tem a ver com esse homem?

DR. RAFAEL  -  Estou falando de Diana Lemos. É Diana que tem um caso muito sério com esse rapaz.

Pedro Barros se ajeitou no sofá, soltou uma baforada, visivelmente contrariado.

PEDRO BARROS  -  Mas Diana Lemos não é minha filha!

Estela e Dalva se entreolharam significativamente.

DR. RAFAEL  -  Apelo para sua compreensão, senhor Barros, e vou lhe falar em termos científicos, dentro das concepções médicas da psiquiatria: Diana e Lara são uma só pessoa...

As contrações faciais de Pedro Barros preocuparam o interlocutor. O sangue fugiu-lhe do rosto. Ficou lívido. Estela segurou-lhe a mão e tentou falar. O coronel, num gesto grosseiro, empurrou-a e fixou duramente os olhos do especialista.

PEDRO BARROS  -  O senhor diz uma bobagem destas e quer que eu compreenda?

ESTELA  -  Pedro, tenha calma e procure entender a realidade.

O médico fez uma breve pausa, enquanto abria uma caderneta de capa de couro negro. Fez algumas anotações a lápis, meditando nas palavras exatas que devia dirigir á família Barros.

DR. RAFAEL  -  (ergueu os olhos e falou, glacial)  É, de fato, um caso difícil de entender. O que pude concluir, até agora, é que se trata de um caso raro, mas não inédito na história da medicina.  Num certo ponto do passado, quando Lara era menina, talvez, sua personalidade se desdobrou em duas outras diferentes.

Barros cortou grosseira e deseducadamente as palavras do médico.
PEDRO BARROS  -  Que besteira! É o senhor quem tá precisando de tratamento pra cabeça!

DR. RAFAEL  -  (prosseguiu, sem se importar com a ignorãncia do coronel)   Na realidade o que aconteceu com ela é que se transformou em duas mulheres diferentes, de temperamentos e caráter opostos. A moça que vive santamente nesta casa, religiosa e recatada, é uma destas mulheres. A outra, que, segundo me disseram, roubou a caixa da igreja e mantém um romance com o garimpeiro, que não tem freios na língua, briga, desafia, é agressiva, impulsiva... nessas ocasiões, é a que diz se chamar Diana Lemos e sempre tenta sair...
   
PEDRO BARROS  -  (perguntou, aéreo)  Sair de onde?

DR. RAFAEL  -  Do corpo de sua filha.

PEDRO BARROS  -  (benzendo-se)  Isso... isso é bruxaria!

DR. RAFAEL  -  O que, antes de mais nada, quero que compreendam, é que não se trata de fingimento dela, mas de um distúrbio mental que realmente existe. Ela não finge, nem tenta enganar... simplesmente não pode evitar o que acontece.

Estela conhecia a verdade, desde a última aventura de dois dias, quando Lara se transformara na presença dela.

ESTELA  -  (apreensiva)  Isso... é loucura, doutor?
    
DR. RAFAEL  -  (tranquilizou-a)  Não, não quer dizer que ela seja uma psicopata, compreendem?

PEDRO BARROS  -  Não compreendo e não aceito!
 
ESTELA  -  E o que queria nos dizer a respeito de João Coragem?

A esta indagação, o psiquiatra percebeu a transformação ambiente. Como se uma carga de eletricidade houvesse percorrido a sala de ponta a ponta. Olhou automáticamente para o rico garimpeiro. As feições  de Barros se enrijeceram.
DR. RAFAEL  -  (disse abruptamente)  Diana Lemos está de casamento marcado com ele no próximo dia 7. Padre Bento sabe disto.

O choque fora maior do que o médico supusera.

PEDRO BARROS  -  (esbravejou, alucinado)  Isto é um disparate!

DR. RAFAEL  -  É a realidade.  É um casamento necessário. As conseqüências de um romance desta natureza são sérias.

Fora de si, Pedro Barros partiu para agredir o psiquiatra. Estela e Dalva colocaram=se á sua frente, impedindo a consumação da violência. Rafael se mantinha impassível, frio.
PEDRO BARROS  -  (berrava a altos brados)  Não aceito isso! Não aceito! Eu mato este sujeito! Eu mato ele! É tudo invenção!
FIM DO CAPÍTULO 34
Rodrigo (José Augusto Branco) e Jerônimo (Claudio Calvalcanti)

E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

*** DR. RAFAEL REVELA A MARIA DE LARA QUE ESTÁ GRÁVIDA E QUE JOÃO CORAGEM ESTÁ DE CASAMENTO MARCADO COM DIANA!

*** DUDA E O TÉCNICO FAUSTO PAIVA DISCUTEM POR CONTA DA DECISÃO DO JOGADOR DE IR PARA O RIO VER A MULHER.


NÃO PERCA O CAPÍTULO 35 DE


quinta-feira, 16 de junho de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 33


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair 

CAPÍTULO  33


PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:

MARIA DE LARA
DR. RAFAEL
JERÔNIMO
POTIRA


CENA 1  -  FLORESTA   -   EXT.  -  DIA.

Durante algum tempo, Maria de Lara perambulou pelas imediações da fazenda. Acordara pela madrugada e, após as orações da manhã, se decidira pelo passeio ao campo. O vestido leve e rodado facilitava-lhe os movimentos e a moça, correndo de árvore em árvore, admirava as flores, a algazarra dos pássaros, o lento curso do riacho de águas claras. Afastara-se demais da casa-grande e agora avistava o casebre abandonado, um ponto branco no fundo verde da floresta. Dirigiu-se para lá.

CORTA PARA:


CENA 2  -  CASEBRE NA FLORESTA  -  INT.  -  DIA.

A desordem no interior da construção rústica dava-lhe a impressão de um bazar desarrumado. Sobre o velho baú, um vestido estampado chamou-lhe a atenção. Colocou-o diante do corpo.  As sandálias atiradas no chão; sobre a mesinha de madeira, gasta pelo tempo, uma bolsa de couro cru, de alças longas. Lara sentiu, mais do que ouviu, o ranger da porta que se abriu. Rafael apareceu.


DR. RAFAEL  -  Bom dia, Lara. Preciso falar com você.

Lara voltou-se, surpresa. Havia certo descontrole em seus gestos. O médico percebeu-lhe o nervosismo e a indecisão.

DR. RAFAEL  -  Queria conversar mais um pouco com você.

MARIA DE LARA  -  O senhor quer saber o que eu penso de tudo isto? Acho que estou perdendo o juízo. Que estou ficando louca!

DR. RAFAEL  -  (comedido)   Não, não, tire isso da cabeça.

A expressão da jovem se modificou.

MARIA DE LARA  -  Eu não lhe disse ontem... eu ouço vozes. Hoje... ela voltou a falar comigo...

DR. RAFAEL  -  Quem?

MARIA DE LARA  -  Uma voz somente... que me persegue!

DR. RAFAEL  -  Há quanto tempo ouve esta voz?

MARIA DE LARA  -  Já há algum tempo... desde que cheguei aqui, creio.

DR. RAFAEL  -  E que lhe diz a tal voz?

MARIA DE LARA   -  Ela... ela me diz certas coisas. Ir contra o meu pai e minha mãe, por exemplo. Manda-me ir sempre... ao encontro de João Coragem!
   
DR. RAFAEL  -  (curioso)  A senhora ama este homem?
   
MARIA DE LARA  -  (transtornada)  Eu... eu não sei... eu creio que sim, doutor, mas ele é um homem rústico... muito diferente... e não é isso... eu não quero me casar, não quero gostar de ninguém... luto contra isso! E esta voz me manda justamente fazer aquilo que eu não quero.  (voltou-se patética para o especialista)  Diga a verdade, isto é loucura?

Rafael balançou a cabeça lentamente. Encarava o semblante da moça, analisando seus menores movimentos.

DR. RAFAEL  -  De fato, isto é grave. Mas você se amedronta com essa voz porque reconhece nela um sintoma de doença. Se estivesse ficando louca, o que a voz lhe diz poderia amedrontá-la, não a voz em si, compreende?

MARIA DE LARA  -  O senhor não quer dizer... mas o senhor sabe. Qualquer um sabe que quem ouve vozes que não existem não pode estar em seu juízo perfeito. Não pode!

A coisa aconteceu inesperadamente. Lara colocou as mãos sobre a fronte e premiu-a fortemente.

MARIA DE LARA  -  Outra vez a dor de cabeça!

O médico sentiu que o momento era oportuno. Com a voz pausada, leu o papel que trouxera consigo.

DR. RAFAEL  -   Conhece Diana Lemos? (repetiu, mais lentamente)  Conhece Diana Lemos?

Lara se ajoelhara no chão duro de barro. Apertava com força as têmporas, os cabelos caindo-lhe em cascata pelo rosto.

MARIA DE LARA  -  Que dor horrível!
 
DR. RAFAEL  -  (insistia, sem pena)  Sabe quem é Diana Lemos?

Aos poucos os dedos se afrouxaram e as lágrimas começaram a rolar. O choro fraco se transformou num riso zombeteiro, irônico.O médico observava espantado a metamorfose da moça, sem entender direito o que lhe acontecia. Compreendia que algo de extraordinário estava para ocorrer. Quem sabe o segredo de tudo? Ajudou a moça se levantar do chão.

DR. RAFAEL  -  Está se sentindo melhor?

MARIA DE LARA  -  (com expressão diferente)  Muito melhor.

DR. RAFAEL  -  Que foi que sentiu? Dor de cabeça?
 
MARIA DE LARA  -  (orgulhosa)  Não tive dor nenhuma. Ela teve, não eu.

DR. RAFAEL  -  Ela?

MARIA DE LARA  -  Sim, ela. Sempre tem essas dores de cabeça quando eu quero sair. Ela é uma boba, não acha?

Rafael procurava compreender a estranha observação da cliente.

DR. RAFAEL  -  De quem está falando?

MARIA DE LARA  -  De Lara!  (e  provocante)  Sabe que você é simpático? Aposto que dança muito bem...

DR. RAFAEL  -  Voce não é Lara Barros?

MARIA DE LARA  -  Que Lara! Sou Diana Lemos e você sabe disso.

A moça falava com desenvoltura e atrevimento, movimentando-se intensamente no interior da pequena sala. O especialista finalmente compreendera tudo. Olhava o papel e Lara, á procura de um elo de ligação. Diana retirava roupas do interior do baú, jogando-as sobre a mesa.

MARIA DE LARA  -  É aqui que guardo minha roupa. Estou só procurando um vestido de casamento.

DR. RAFAEL  -  Vai casar?

MARIA DE LARA  -  Que remédio? No duro, no duro, gosto do cara. Gosto muito. É o tal de quem Lara foge...

DR. RAFAEL  -  O garimpeiro...

MARIA DE LARA  -  É. A idiota tem preconceitos... coisas de educação... diferença social... besteira. Não tenho nada disso. Sou livre... (rodopiou com o vestido sobre a cabeça) Será que este aqui está bom para a cerimônia?

O médico fez que sim com a cabeça.

MARIA DE LARA  -  Olha,  não queria me amarrar. Sério. Nunca me preocupei com isso. Mas o caso com o grandalhão ficou muito sério. E vem conseqüências por aí... Sabe como é, as coisas acontecem...

DR. RAFAEL  -  Você está... grávida? Tem certeza?

MARIA DE LARA  -  Absoluta! Sabe, faço tudo o que a outra tem medo de fazer. Mas, também, não tenho o direito de desgraçar com a vida dela desse jeito...

Prosseguiu, rindo, com ar de caçoada.

MARIA DE LARA  -  É uma coitada. Mas não pense que não me cansei de aconselhá-la a não ser assim.

Rafael lembrou-se do que Lara lhe tinha dito.

MARIA DE LARA  -  Sim, ela me disse que ouvia uma voz. Que espécie de conselhos você lhe dava?
   
MARIA DE LARA  -   Que conselhos? Ela é gamadona pelo garimpeiro, pensa que eu não sei? Pois reage e tem medo de se entregar a um sentimento mais forte. Vê coisas na casa dela entre o pai e a mãe.. agüenta firme, não faz nada! Mando que ela reaja contra aquele outro tipo. (referia-se a Lourenço)  Ela agüenta tudo quanto é desaforo. Ah, se fosse eu! Já dei na cara dele! Tirei carne das fuças do cretino! Tentei até matar ele.

Diana conversava á vontade. Vez por outra aplicava um tapa de intimidade nas pernas do médico. 

MARIA DE LARA  -  Um dia vou sair e não vou voltar!

DR. RAFAEL  -  Como “sair”?  Você quer dizer... impor a Lara sua personalidade, como agora?

MARIA DE LARA  -  (sorridente)  Isso mesmo!
   
DR. RAFAEL  -  E é sempre possível... “sair, como você diz, sempre que quer?
   
MARIA DE LARA  -  (suspirou, tristonha e irritada)  Quem me dera! Ás vezes posso. Ás vezes, não. Mas lhe garanto uma coisa: está se tornando cada vez mais fácil. Ela está ficando cada vez mais fraca e eu mais forte. Um dia destes, domino-a por completo. E então... adeus, Maria de Lara!

Rafael ouvia atentamente as explicações. Mentalmente organizava um quadro da moléstia. Tudo se lhe abria como num passe de mágica. As duas personalidades conflitantes entravam em choque dentro de um mesmo corpo. Nítido caso de dupla personalidade.

MARIA DE LARA  -  Acho bom aconselhar a coitada a se casar com o grandalhão, doutor! Olha bem o que eu contei. Pode ser que ela reaja e não me deixe “sair”, como deixou agora. O casamento é no dia 7. O padreco está ajeitando tudo.
  
DR. RAFAEL  -  E... se ela não aceitar esse casamento?

MARIA DE LARA  -  Já disse: por mim, não tem nada. Mas por ela...  (riu desenfreadamente)  Nem quero pensar no que vai acontecer... quando ela descobrir. Vou morrer de rir só em pensar na cara dela!  (Imitou Lara benzendo-se)  Meu Deus, que horror! Nem quero pensar!

Os risos aumentaram de intensidade, confundindo-se com os soluços e as lágrimas que denotavam a mudança de personalidade. Diana se afastava e Lara voltava a existir. Rafael observava detidamente as expressões e modificações radicais que se processavam diante de seus olhos.

DR. RAFAEL  -  Por que está chorando?

A voz de Lara expressava timidez e angústia.

MARIA DE LARA  -  (quase num sussurro)  Desculpe-me, doutor... mas tenho tanto medo... de enlouquecer!
  
DR. RAFAEL  -  (falou para si mesmo)  Espantoso! Lara!

O mistério de Diana Lemos deixara de existir.

CENA 3  -  RANCHO CORAGEM  -  QUARTO DE JOÃO E JERÔNIMO  -  INT.  -  DIA.

O quarto dos irmãos Coragem pela manhã era a imagem inequívoca do desleixo masculino. Colchas, travesseiros, roupas e objetos atirados para todos os lados. Potira tentava pôr uma ordem na bagunça.  Imersa em pensamentos, quase não percebeu a presença de Jerônimo.

JERÔNIMO  -  Potira, vem cá!

O rapaz se sentou na beira da cama, puxando-a para perto de si. Rodou a aliança no dedo moreno da mestiça.

JERÔNIMO  -  Tá contente, não tá? Vai sê mulhé de doutô!

Potira deitou meigamente a cabeça nos joelhos do amado. As mãos correram-lhe das pernas ao peito, numa carícia animal.

JERÔNIMO  -  (alisando-lhe os cabelos)  É o sonho de muita moça... arranjá bom casamento.

POTIRA  -  (ergueu os olhos súplices)  O sonho... é casá por amor.

JERÔNIMO  -  Cê gosta dele depois...

POTIRA  -  Não fala nada. É melhor... Cê não me perdeu. Não tou casada. Mãe disse que entre nós não existe nenhum mal. Padrinho fez um juramento...

JERÔNIMO  -  Eu sei. Ela me disse.

POTIRA  -  Basta você querê, Jeromo. Basta uma palavra sua... um sinal seu... e eu me entrego a você de corpo e alma.

As mãos crispadas pelo desejo magoavam  o peito do rapaz. A proximidade de Potira, a ânsia refletida em seus olhos, a respiração curta e acelerada esmagavam a resistência de Jerônimo.
 
JERÔNIMO  -  (carinhosamente, afastou de si o corpo sensual da mestiça)  Cê pensa bem, índia. Pensa na maldade que ia fazê com meu melhor amigo. O home que realizô uma coisa que eu desejava há tanto tempo. Um home que tem sido nosso amigo do peito. Que arrisca a vida por uma causa. Que pensa nos outros sem egoísmo. Que decidiu terminá com as injustiça nessa terra e conseguiu... Um home bão, justo, honesto...

Potira, desesperada, agarrou-se ao rapaz.


POTIRA  -  Sei de tudo isto, mas ele não é seu irmão. É só um amigo.

JERÔNIMO  -  Mas gosta de você e pediu você em casamento...

POTIRA  -  E a gente vai sacrificá uma coisa tão bonita que é tudo o que a gente sente um pelo outro. E vou casá com ele... sem gostá... Vou fazê ele ainda mais desgraçado... Tudo porque ele é bão e você seu melhor amigo?

Jerônimo apertou amorosamente a moça contra seu peito. Seus lábios tocaram de leve a pele morena e acetinada. O calor dos corpos unidos acendia o fogo dos instintos, renovando o desejo incontrolável que o impelia a possuí-la inteiramente para si. A visão de Rodrigo feliz, sorridente se interpôs entre os dois.

JERÔNIMO  -  Cê me esquece, índia...

POTIRA  -  Vou fazê força, Jeromo. Só quero um beijo de despedida.

Os lábios se uniram num longo beijo.

FIM DO CAPÍTULO 33
Jerônimo (Claudio Cavalcanti) e Potira (Lucia Alves)

E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

***PREOCUPADO COM A SITUAÇÃO DE RITINHA EM TER QUE DEIXAR O APARTAMENTO, DUDA FAZ AS MALAS E PREPARA-SE PARA VIAJAR PARA O RIO EM SEGRÊDO, QUANDO O TÉCNICO FAUSTO PAIVA O SURPREENDE, DE MALA NA MÃO!

***DR. RAFAEL REVELA A PEDRO BARROS, SUA MULHER ESTELA E TIA DALVA QUE MARIA DE LARA É DIANA LEMOS E QUE A FILHA DO CORONEL PRECISA CASAR COM JOÃO CORAGEM. FURIOSO, PEDRO BARROS PARTE PRA CIMA DO PSIQUIATRA!


NÃO PERCA O CAPÍTULO 34 DE

sexta-feira, 10 de junho de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 32


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair 
CAPÍTULO 32
PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:
JOÃO
JERÔNIMO
RODRIGO
PEDRO BARROS
BRAZ
JUCA CIPÓ
DALVA
DR. RAFAEL
MARIA DE LARA
SINHANA
SEBASTIÃO
POTIRA
ESTELA

CENA 1  -  COROADO  -  ASSOCIAÇÃO DOS GARIMPEIROS  -  EXT.  -  DIA.


João apontava para a porta da Associação e conversava com Potira. A índia se mostrava impulsiva, forçando a todo instante entrada na sede, á procura de notícia das eleições. Apesar das manobras desleais do coronel, tudo se processara num ambiente de calma. O episódio da rua fora a derradeira tentativa de Pedro Barros de tentar impedir a realização do pleito. Depois, não se registrara anormalidade.

JOÃO  -  (animado)  Olha só praquilo, índia. Acha que se Jerônimo tivesse perdido, tava naquela alegria?

E, de fato, o garimpeiro mal podia dar um passo, abraçado, apertado, por centenas de companheiros, falando em voz alta e gesticulando excessivamente. A muito custo conseguiu alcançar a rua e se aproximar dos familiares.

Abraçaram-se, emocionados.

JERÔNIMO  -  Quase nem acredito! Será que tou sonhando?

Rodrigo reuniu-se aos dois, radiante, extravasando alegria.


RODRIGO  -  (sorridente)  Temos agora nas mãos uma arma infalível na luta contra as pouca-vergonhas desta cidade.

Jerônimo via os garimpeiros se aproximarem. Com um aceno, pediu-lhes silencio. Pedro Barros se encostou na traseira do carro. Os olhos faiscavam-lhe de ódio. A voz do garimpeiro chegava-lhe possante aos ouvidos.

JERÔNIMO  -  ...agora, a gente pode botá lei no garimpo... pode fazê muita coisa por todos vocês. Pelo menos, ninguém vai sê mais explorado. Isto eu garanto!

O coronel, sisudo, ouvia as palavras de encorajamento do novo presidente da Associação dos Garimpeiros. Estava rubro, quase roxo, da ira que o consumia.

João percebeu a reativação do clima de desordem. Mais alguns minutos e tudo poderia se modificar da calma para a violência e – quem sabe? – até para o crime. Interveio seguro, ponderado, puxando o irmão para longe do grupo.

JOÃO  -  Larga mão da provocação, mano. Agora, não carece mais.

Braz e seus garimpeiros abandonaram a praça, eufóricos, gritando o nome do novo presidente. Pedro Barros, cabeça baixa, atravessou a praça e, seguido de perto por Juca Cipó e seus jagunços, tomou o rumo da delegacia.

PEDRO BARROS  -  Preciso conversar com o delegado Falcão.

CORTA PARA:

CENA 2  -  FAZENDA DE PEDRO BARROS  -  QUARTO DE LARA  -  INT.  -  DIA.

Maria de Lara ouviu as leves batidas na porta do quarto. Dalva entrou com um senhor de cabelos ligeiramente grisalhos, rosto jovem e sorriso encantador.

DALVA  -  Lara, este é o Dr. Rafael, de quem lhe falei.

DR. RAFAEL  -  Muito prazer, Maria de Lara.

MARIA DE LARA  -  Prazer, doutor...

O médico apertou confiante a mão da jovem. Notou-lhe as olheiras, o olhar triste e os gestos nervosos. As mãos de Lara tremiam, apoiadas á borda da cama.

DR. RAFAEL  -  É preciso que tenha confiança em mim. Absoluta. Sua tia me disse que tem sentido dores de cabeça muito fortes... e certas crises. Pode me explicar que tipo de crises?

Lara se mexeu, nervosa, procurando o termo exato para responder ao médico.

MARIA DE LARA  -  Não sei explicar. Ás vezes penso que seja amnésia... é isso mesmo. Crises de amnésia.
  
DR. RAFAEL  -  Amnésia é falta de memória. É isso que lhe acontece?

MARIA DE LARA  -  Acho que sim. Uma, duas vezes por semana. Primeiro, vem essa dor de cabeça, uma coisa terrível... e, então... as crises.

DR. RAFAEL  -  Quando diz crises, quer dizer que tem desmaios ou qualquer coisa semelhante?

MARIA DE LARA  -  Não, não é bem isso... não chega a ser um desmaio. Vem a dor de cabeça e tudo desaparece... Da última vez, acordei numa casa abandonada que existe por aqui.

Durante longo tempo o especialista conversou com a jovem, anotando mentalmente todos os pontos essenciais da entrevista. Formava um quadro clínico, após a delicada anamnese.

CORTA PARA:

CENA 3  -  FAZENDA DE PEDRO BARROS  -  SALA  -  INT.  -  DIA.


DALVA  -  E então, doutor?

DR. RAFAEL  -  (sério)  Bem, D. Dalva, á primeira vista, trata-se de um caso extremamente complexo.


CENA 4  -  CASA DO RANCHO CORAGEM  -  SALA  -  INT.  -  NOITE.

A velha Sinhana admirava a personalidade e a firme decisão do promotor de Coroado. Ele fornecia, diante das atenções da família Coragem, os pormenores de sua vida. Os esforços empreendidos para alcançar a posição privilegiada que o tinham elevado, de garoto pobre e órfão, a promotor de uma cidade pequena mas importante na extração e no comércio de pedras preciosas. Acabara de concluir o relato. Voltou-se para o velho Sebastião.

RODRIGO  -  Falei muito de mim... e até agora, não me disseram se consentem no meu casamento com Potira.

Jerônimo levantou-se perturbado. Tentou sair. Sinhana, discretamente, segurou-o pelo braço.

SEBASTIÃO  -  (expressão feliz)  Já disse que faço muito gosto!

JOÃO  -  Da minha parte... eu concedo... só falta Jerônimo e mãe falá.
   
RODRIGO  -  (encorou o companheiro)  O que me diz, Jerônimo? E a senhora, dona Sinhana?

A velha permanecera atenta, á espera da pergunta. Conhecia a paixão que envolvia o filho e a filha adotiva, e a luta interna que convulsionava naquele instante, os sentimentos de Jerônimo. Procurou adiar a solução.

SINHANA  -  A gente acha... que é bão esperá mais um pouco.

RODRIGO  -  Eu espero. Não digo que posso me casar já... mas quero ficar, desde já, comprometido.

JOÃO  -  (em favor do amigo)  Mãe, seu promotô é nosso amigo. A gente não pode recusá um pedido deste... A gente deve muita coisa a ele. A defesa das nossas terra do Matão... se não fosse ele, essa cambada tinha interditado a nossa mina e a Justiça vinha pra cima de nós, pra me tirá o diamante. Mas ele fez tudo pra prová que a nossa escritura era verdadeira. Além disso, Jerônimo conseguiu o que queria... Agora é presidente da Associação dos Garimpeiros. Isso é muito importante pra nós, que até onte era dominado por um home só. Atenta nisso, mãe...como é que a gente pode negá alguma coisa pro seu dotô?

Jerônimo deu um passo á frente, pousando a mão direita no ombro do amigo e protetor. Suas palavras saíram da garganta com dificuldade.

JERÔNIMO  -  É claro... seu doutô... tem sido muito nosso amigo. A gente tem que sê leal, honesto pra ele. E a Potira tá de acordo...

Sorridente  com a decisão, Rodrigo retirou do bolso uma caixinha com duas alianças douradas.

João chamou a mestiça, que a tudo assistia sem dizer palavra, olhos voltados para o chão, dedos entrelaçados, expressão de desgosto.

JOÃO  -  Vem cá, índia!

Potira se aproximou, tímida, meio assustada.

JOÃO  -  Bota aí o anel no dedão dela. E tá comprometido!

CENA 5  -  FAZENDA DE PEDRO BARROS  -  SALA DE JANTAR  -  INT.  -  DIA.

Bolo de milho, café forte, queijo fresco, broa e muito leite. A mesa do coronel era farta. A manhã nascera radiante, sol quente, pouco vento. O cheiro do gado penetrava as dependências da casa-grande trazido pela brisa.   O mugir rouquenho dos bois contrastava com o pipilar agudo da passarada nos arvoredos.

Pedro Barros cumprimentava o Dr. Rafael que, desacostumado á vida de fazenda, atrasara-se para o café.

PEDRO BARROS  -  Senta aí e come, home!

Os modos rudes do coronel não chegaram a surpreender o psiquiatra. Conhecia a natureza dos homens do sertão.

PEDRO BARROS  -  Que é que minha filha tem? É grave?

DR. RAFAEL  -  Estou ainda estudando o caso, seu Barros. Não tenho uma resposta por enquanto. Parece-me um caso raro, mas não fora do comum. Pelo que pude deduzir, Lara não consegue enfrentar determinada realidade... pelo menos a realidade que ela conhece. E foge dela. Meu trabalho consiste em descobrir quais as razões que a levam a procurar essa fuga.

Dalva retirou do seio um papel amarelado, entregando-o ao médico.

DALVA  -  Doutor, quero que o senhor leia esse papel. É um documento de... de uma moça que se chama Diana... e que se parece muito com Lara. Eu já lhe falei sobre isso. Ela deu sua filiação nesse documento ao delegado Falcão... e é muito estranho que os nomes dos pais dela... sejam os nomes... dos avós de Lara.
   
ESTELA  -  (completou)  Nome do nosso pai e de nossa mãe, doutor.

O médico examinou demoradamente o documento.

DR. RAFAEL  -  Onde está Lara?

DALVA  -  (entendera a preocupação do especialista e rezava intimamente para que tudo desse certo)  Saiu cedo para o campo.

DR. RAFAEL  -  Com licença!

O médico levantou-se e  deixou a sala.

FIM DO CAPÍTULO 32
Jerônimo (Claudio Cavalcanti) e Duda (Claudio Marzo)

E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

# O PROMOTOR RODRIGO CESAR OFICIALIZA SEU NOIVADO COM A ÍNDIA POTIRA

# O DR. RAFAEL SAI Á PROCURA DE MARIA DE LARA E DESVENDA O MISTÉRIO DE DIANA LEMOS!

     

NÃO PERCA O CAPÍTULO 33 DE