quarta-feira, 28 de setembro de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 70


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair 
CAPÍTULO 70

PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:
DELEGADO FALCÃO
JOÃO
HORÁCIO
DOMINGAS
MARIA DE LARA
PADRE BENTO
RODRIGO
POTIRA

CENA 1  -  COROADO  -  DELEGACIA  -  INT.  -  DIA.

João, com as mãos algemadas, sentou-se no meio de dois guardas. Diante dele, os homens e o delegado, que falava com alguém ao telefone, num ponto qualquer da cidade. A conversa estava no meio quando João entrou.


DELEGADO FALCÃO  -   ...é a arma que sua filha perdeu. Está aqui, intacta. Não foi deflagrado nenhum tiro. (automàticamente, retirou as balas do tambor)  Estou avisando que é pro senhor ficar tranqüilo. A história que Diana Lemos contou é verdadeira.. (desligou satisfeito. O palito dançava-lhe nervoso entre os dentes afilados)  Diana Lemos! Espírito mau! Qual! Se fosse minha filha, ou minha mulher, eu ensinava a ela...  

JOÃO  -  De que tá falano?  (perguntou, tentando erguer-se. Os guardas seguraram-no com energia).

DELEGADO FALCÃO  -  Das loucuras que a filha de Pedro Barros pratica, em nome de outra mulher.

JOÃO  -  (com voz alterada)  A filha de Pedro Barros é minha mulher!

DELEGADO FALCÃO  -  Está bem...  (apontou para o cara de malvado)  Este homem se divertiu com ela uma noite inteira... onde mesmo?

HORÁCIO  -  Num bar... perto do clube aí do Souza.  Depois ela quis me fazer de trouxa. Dei uma rasteira nela, ela tirou a arma da bolsa, tentou me acertar. Eu me defendi, joguei a arma fora e ela fugiu num carro.

João era um feixo de nervos tensos.

JOÃO  -  O senhô tem que sabê. Ela é uma moça doente. Faz as coisa sem ta sabeno o que faz. Me entende? Ela... num é ela, certas vez...

DELEGADO FALCÃO  -  Isso é conto da carochinha, João. Me admira que você acredite numa coisa destas.

JOÃO  -  (revoltado)  O que o doutô sabichão pensa que é, então?

DELEGADO FALCÃO  -  Pra mim, alguém ta querendo enganar alguém. Ou o médico, ou Dona Lara. Me desculpe, João! Mas isto é pura tapeação. Dizem que o médico dela é bonitão. Ora... ele deve estar querendo tirar proveito...

A cólera assumira proporções incontroláveis no cérebro do garimpeiro. Percebia, nìtidamente, as provocações premeditadas do policial, procurando torná-lo vulnerável e levá-lo de vez ás grades, por muitos anos. Tentou avançar, mesmo com as mãos algemadas. Os guardas, auxiliados pelo Cabo Elias, impediram os movimentos do rapaz, jogando-o ao solo com brutalidade.


DELEGADO FALCÃO  -  (ordenou)  Levem ele pra cela.

JOÃO  -  (ainda tenso, ameaçou, com ódio)  Eu vou sair daqui, Falcão. Vou sair mais cedo do que tu pensa. Mas vou te avisá: sai do meu caminho, se quer ter o direito de viver...

CORTA PARA:

CENA 2  -  FAZENDA DE PEDRO BARROS  -  CASA-GRANDE  -  QUARTO DE LARA  -  INT.  -  DIA.

Lara acordara triste. Os acontecimentos transformavam-se num interminável novelo de angústias e aborrecimentos. Domingas, depois de atender os afazeres da casa, subiu para despertar a jovem filha do coronel.


DOMINGAS  -  Se alegra, moça. Tenho novidade.

MARIA DE LARA  -  (sem animação)  Que é, Mingas?

Domingas ajudava a moça a vestir a blusa fina, de padrão discreto.


DOMINGAS  -  Seu pai deixou a gente ir no casamento da índia com o seu promotor Rodrigo César.

MARIA DE LARA  -  (com alegria)  Verdade?

DOMINGAS  -  Me chamou agora mesmo e disse: “Se apronte. Sei que minha filha quer ir no casamento da índia. Você pode levá ela”. (e concluiu)   Na hora do casamento... enquanto o padre reza, ocê dá uma escapulida até na cadeia. Eu juro que finjo que não vejo.

MARIA DE LARA  -  (abraçou meigamente a boa mulher)  Você é ótima.

DOMINGAS  -  O casamento é de tardinha. Se arrume. A gente vai bem bunita na cidade. Ocê vai se distraí, vai vê João... que ninguém nos ouça... e vai se alegrá um pouco.

Espalhando os vestidos sobre a cama, Maria de Lara escolhia aquele que mais combinasse com os seus cabelos claros e suas feições tristonhas.

CORTA PARA:

CENA 3  -  COROADO  -  IGREJA  -  INT.  -  TARDE.


A igreja de Padre Bento recebia Coroado em peso. Amigos de Rodrigo. Garimpeiros das duas facções políticas. Gente de alguns dos ranchos da imediações. O casamento da índia com o promotor era a grande novidade do dia. Há vários minutos Rodrigo permanecia diante do altar, em posição quase militar, mãos cruzadas, diante do corpo, pés retos e expressão intraduzível no olhar. Sinhana aguardava do lado contrário. Onde a noiva deveria estar na ocasião em que o sacerdote desse início ao ato religioso. Em dado momento o vigário fez sinal para o alto e a igrejinha se encheu de sons. Alguém executava a marcha nupcial, ao órgão. Potira surgiu á entrada do templo, morena, uma estátua parda, destacando-se da brancura imaculada do vestido de cauda longa. Andava cadenciado, amparada pelo braço ainda firme do velho juiz. Rodrigo estremeceu e abrandou a rigidez da atitude. A mestiça chegara ao seu lado e, ambos, num só gesto, ajoelharam-se diante do altar de Cristo. Padre Bento dava início á cerimônia. Os círios acesos, as flores decorando o ambiente sacro e o órgão espalhando sons celestiais davam as tintas derradeiras no drama vivido pela mestiça.

CORTA PARA:

CENA  4  -  COROADO  -  IGREJA  -  INT.  -  TARDE.

 
Um vulto aproximou-se da porta do templo, vestido com a simplicidade que lhe era habitual – calça surrada, camisa larga de punhos rendados e um lenço em nó, no pescoço. Mais revoltos que nunca, os longos cabelos esvoaçavam-se por sobre o ombro, encobrindo-lhe parte do rosto. Jerônimo olhou demoradamente o interior da igreja. As pernas tremiam-lhe e as unhas se lhe cravavam dolorosamente nas palmas das mãos.


Mal percebeu a mulher que lhe fechou o campo de visão. Era Lara. Saíram ambos para o exterior do templo. Jerônimo perturbado. Lara apreensiva.

CORTA PARA:

CENA  5  -  COROADO  -  DELEGACIA  -  INT.  -  TARDE.


MARIA DE LARA  -  Boa tarde, delegado!

DELEGADO FALCÃO  -  Dona Lara! Que surpresa!

MARIA DE LARA  -  Posso ver João?

O policial levantou-se com idéias a fervilharem nos miolos.

DELEGADO FALCÃO  -  Pode, pode! Tem direito! Mas eu estava mesmo querendo conversar com a senhora sobre certas coisas que lhe interessam.

MARIA DE LARA  -  Estou ás suas ordens.

DELEGADO FALCÃO  -  Não entendo bem essa coisa de Diana Lemos. No duro eu acho a senhora uma grande atriz.

MARIA DE LARA  -  Atriz!

DELEGADO FALCÃO  -  No início eu me enganei. Ah, jurava que eram duas moças diferentes. Me tapeou, direitinho, Dona Lara!

MARIA DE LARA  -  Eu... não tapeio ningúem, delegado!

DELEGADO FALCÃO  -  Tem gente aí que acredita em coisa de espírito.

MARIA DE LARA  -  Por que se julga no direito de me falar sobre isso?

DELEGADO FALCÃO  -  Porque da última vez que a senhora esteve aqui, mandou brasa nesta cadeia. Veio com ordem do juiz para ver o João e me deixou numa situação ruim. Fez até escândalo.

MARIA DE LARA  -  (calmamente)  Não fui eu.  E não gosto de falar sobre isso. Não sou responsável... pelos atos de Diana Lemos.

DELEGADO FALCÃO  -  (sorriu irônicamente)  Gozado! Fala dela como se fosse outra pessoa!

MARIA DE LARA  -  Ela é outra pessoa! Por Deus, deixe-me ver o João.

DELEGADO FALCÃO  -  No duro, no duro, eu prefiro a Diana (disse,  movendo o palito entre os dentes alvos) Gostaria de ver essa transformação de perto. (deu dois passos até a porta e gritou)  Elias! Deixe aí a mulher do João Coragem ver ele. (fez um gesto teatral com a mão direita)  Pode entrar, Dona Lara. (e com cinismo)  Tenho um bom remédio para essa espécie de coisa. Se o caso fosse comigo... digo, se a senhora fosse minha mulher, eu curava sua doença em dois tempos. Mas ia escolher. Entre as duas eu preferia ficar com a outra...

Lara baixou o rosto e entrou no recinto escuro.

CORTA PARA:

CENA  6  -  DELEGACIA  -  CELA DE JOÃO  -  INT.  -  TARDE.


João, de cabeça baixa, apenas ergueu os olhos.

MARIA DE LARA  -  Não... se alegra por me ver, João?

JOÃO  -  A quem devo dá meus cumprimentos pela visita: a Lara ou Diana?

MARIA DE LARA  -  João, você não acredita mais em mim?

JOÃO  -  Não sei se acredito ou não. Só sei que tou cheio de passá por tanta coisa, sem poder fazê nada pra me defendê. Chega um sujeito aí, um tipo qualquer, e me diz: - Eu me diverti com tua mulher. Ela brigô, eu tirei a arma dela. E eu, o que posso fazê? Mesmo vendo os outro ri, aqui, na minha cara. E tenho que aguentá o cinismo revoltante desse delegado sem-vergonha, envenenando a coisa. Falando até do teu médico, aquele que te trata. Olha aqui... eu não quero mais passá por trôxa, tá me ouvino? Não quero mais tratamento com médico nenhum!

MARIA DE LARA  -  (procurou segurar-lhe as mãos. Falou súplice, com a voz nos limites do chôro)  João, eu necessito de tratamento... para curar... para poder me dedicar a você. (abraçou-o num repente)  Eu te quero tanto, João... eu te amo, tanto. Você tem que confiar em mim. Eu só tenho você, pra me defender.

João amolecia. Abrandava as defesas.


JOÃO  -  Confiá... confiá como? Se eu tou aqui preso, amarrado, impedido de agir... e você só faz besteira por aí?

MARIA DE LARA  -  Não sou eu, João, entenda isso. E é dessa mulher, desse mal que me domina, que eu quero me libertar.

JOÃO  -  Eu já nem sei, Lara... nem sei se acredito nessa coisa. Pra mim... pra mim é até invenção tua e do teu médico.

MARIA DE LARA  -  João, não fique assim...

JOÃO  -  Olha aqui. Pra servi de caçoada aí, pros outro, eu não sirvo, não. Ou ocê se domina... e se livra desse mal, ou eu acabo com ocê, comigo... com nós dois! Nesta gaiola é que eu não fico. Minha paciência tá se esgotano. E quando eu saí daqui, eu acerto as coisa com muita gente. Com ocê, principalmente...

Virou as costas para a mulher, segurando as grades com as duas mãos.

MARIA DE LARA  -  (contendo as lágrimas)  Eu não esperava ouvir estas palavras de você.

JOÃO  -  Não sou santo! Não aguento mais as coisa. Tou de um jeito que uma hora minha revolta arrebenta estas parede. Eu já nem sei mais o que faço.

João mostrava-se desesperado e enterrava as mãos por entre os cabelos negros, num gesto de dor moral.

MARIA DE LARA  -  João... eu tenho que ir embora. Você não me diz nenhuma palavra que seja, de ânimo?

JOÃO  -  Eu é que preciso de palavras de ânimo. E ocê não me dá ânimo, nem esperança. Ocê tá me torturano mais ainda, me pisano... com as loucuras da... Diana Lemos.

MARIA DE LARA  -  Você já não acredita em mim. Já não acredita em mim... Você está mudado, João. Mas eu sei. Você não pode ser acusado por isso. (deu um passo em direção á porta de ferro)  Adeus, João!

Lara saiu e o cabo cerrou a porta, girando a chave na fechadura enorme.

CORTA PARA:

CENA  7  -  COROADO  -  IGREJA  -  EXT.  -  TARDE.

Os noivos deixavam a igreja sob uma chuva de arroz e pétalas de flores. Potira sorria, forçadamente.

CENA  8  -  RUAS DE COROADO  -  AUTOMÓVEL DE RODRIGO  -  INT.  -  NOITE.


O carro partiu em marcha reduzida. Rodrigo procurava reter as mãos da esposa. Potira abandonou-se contrafeita. A tarde morria e as sombras da noite cobriam Coroado. Com um movimento rápido o promotor pisou no freio, calcou a embreagem e jogou o carro em ponto-morto.

CENA  9  -  COROADO  -  CASA DE RODRIGO  -  EXT.  -  NOITE.

Rodrigo saltou do carro e abriu a porta para a mulher.


RODRIGO -  Aqui está sua casa, seu lar, minha senhora.

Beijou demoradamente os lábios da mulher e, erguendo-a nos braços, entrou em casa com a cabeça repleta de sonhos e de desejos. Potira estreitou-se entre os braços possantes do marido.


POTIRA  -  (com os lábios tocando-lhe de leve o ouvido esquerdo)  Rodrigo, quero dizer uma coisa a ocê. Que ocê é o home mais melhor... melhor... do mundo. E que eu prometo... eu juro... por tudo quanto é mais sagrado... que vou te fazê feliz!

FIM DO CAPÍTULO  70
Rodrigo e Potira casam-se
E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...
*** com a maior frieza dos dirigentes do clube, Duda é informado que foi vendido ao Coríntians!
*** enquanto Pedro Barros fazia um discurso na praça, João, ajudado pelos companheiros, fugiu da prisão!
NÃO PERCA O CAPÍTULO 71 DE 

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 69


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair 
CAPÍTULO 69

PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:
JOÃO
JERÔNIMO
SINHANA
POTIRA
RODRIGO
SOUZA
DELEGADO FALCÃO
HORÁCIO

CENA 1  -  COROADO  -  DELEGACIA  -  CELA DE JOÃO  -  INT.  -  DIA.

Na cela Jerônimo transmitia ao irmão as idéias que vinham amadurecendo há vários dias. João perturbou-se diante da insistência.


JOÃO  -  Que plano é esse?

Antes de abrir a boca, Jerônimo olhou cuidadosamente para fora do xadrez. Sua voz era quase inaudível, quando tornou a dirigir-se ao irmão.

JERÔNIMO  -  Eu e mais Braz Canoeiro. A gente te tiramo daqui.

JOÃO  -  Só os dois?

JERÔNIMO  -  Braz é o único que ficou do teu lado. Não se pode contá com mais nenhum dos garimpeiro. Até contra mim, eles tão. (descansou a mão no ombro do irmão)  O plano é perfeito. Não falha. Eu e ele estudamo muito a melhor maneira. A gente depende, agora, só de uma palavra tua.

JOÃO  -  (meditou por alguns instantes e falou sombrio, entredentes)  E tu? Que vai sê da tua vida? Acha que vou te arrastá na minha desgraça?

JERÔNIMO  -  Eu deixo tudo... todas as minha idéia de grandeza.

JOÃO  -  E fica em paz com ocê mesmo, mano?

JERÔNIMO  -  (inexpressivo)  Isso num tem mais importância.

JOÃO  -  Tem sim, Jerônimo. Tu sempre foi, de nós três, o mais impulsivo, o mais agressivo. E tudo porque queria subi na vida... e não via jeito. Agora, te aparece a oportunidade... tu tá subino... já conseguiu um cargo bão... pode subi mais... pode sê prefeito de Coroado! (falava com a cara quase colada á do irmão)  Já pensou bem no que é isso procê, irmão?

JERÔNIMO  -  (sacudiu a cabeça, desconsolado)  Se eu pensei, João? Se eu pensei! Essa oportunidade veio pelas mãos do homem que gosta da mulher que eu amo.

JOÃO  -  As coisa da vida são assim, Jerônimo.  A gente num recebe uma graça de Deus sem tê que dá alguma coisa em troca. Me entende? A gente tem sempre que pagá um preço... (pesou por alguns segundos o resultado de suas palavras. Jerônimo ouvia, cabisbaixo)  Não é o teu caso, Jerônimo. Tua ambição é mais forte que teu amor por Potira. Chance como esta, nunca mais vai aparecê na vida! Tu tem que sê prefeito de Coroado. Pra começá. Porque tua ambição vai te levá muito mais alto, ainda!

JERÔNIMO  -  (sorriu um sorriso triste)  Tudo isso... é pra me dizê que não aceita a minha ajuda?

JOÃO  -  Tudo isso... é pra acordá teu juízo. A idéia da fuga é uma tentação pra mim. Tou enlouquecendo dentro destas quatro paredes. Mas eu agüento um pouco mais... e é por ocê. Pra te salvá enquanto é tempo. Porque tu também é arrimo da mãe. Tem que sê o orgulho da família.

Jerônimo levantou-se, desvencilhando-se das mãos do irmão. Deu um passo até as grades, agarrando-as com força. Experimentou a resistência do ferro.

JERÔNIMO  -  Eu acho que tu num sabe, mas os garimpeiro tão tudo contra ocê. E vão exigi que eu rompa pùblicamente com ocê... (antes que João respondesse, concluiu)  Isso eu num faço!

Deixou a cela, a passos largos, enquanto João ficou sozinho, entregue aos seus pensamentos. Ao lado um bêbado gemia sofridamente.

CORTA PARA:

CENA 2  -  COROAODO  -  CASA DE RODRIGO E POTIRA  -  INT. E EXT.  -  DIA.


Potira acabara de visitar a casinha modesta, de cores alegre e móveis modernos, que Rodrigo montara para a vida de casado. O promotor não podia esconder a alegria, coisa que a índia vira desaparecer, com a proximidade do ato nupcial. O casamento seria no dia seguinte. Sem explicações, deu as costas ao noivo e desapareceu, porta a fora, á procura de Sinhana que a esperava no jardim.


SINHANA  -  Se tu num tem juízo, eu te sento o chicote!

POTIRA  -  Pode me sentá!  Pode me matá. É mais melhó de bão...

SINHANA  -  Num tem vergonha de fazê um papel desses?

POTIRA  -  É justo que eu me case... enganando ele?

SINHANA  -  Escuta, Jeromo desapareceu durante o dia de hoje. Pra fugi de ocê. Porque ele já escolheu o caminho que deve de segui. O caminho, sem você.

A mestiça retirou a anel que Rodrigo lhe havia entregue. Lembrança da falecida mãe.


POTIRA  -  Juro... por este anel, por tudo o que Rodrigo disse. Se Jeromo não me quisé... – e vai prová esta noite, véspera do meu casamento – eu deixo ele em paz.

Sinhana aproximou-se. Havia qualquer coisa de estranho em suas feições sofridas.

SINHANA  -  Tu jurô, índia. Fartá com juramento é pecado.

POTIRA  -  Eu cumpro.  Chama Rodrigo, faz favô.

A velha voltou-se para a casa e chamou o promotor.

RODRIGO  -  Meu bem, o que você tem?

POTIRA  -  Se preocupa não. Eu tou muito nervosa, pensando apenas na tua felicidade. (abriu a mão e entregou a jóia ao noivo)  Toma isto!

RODRIGO  -  (ressentido)  Não quer usar o anel que te dei?

POTIRA  -  Eu vou usá, Rodrigo, mas... só amanhã... é que eu vô merecê andá cum ele. Dia de nosso casamento. Antes disso, não.

CORTA PARA:

CENA 3  -  COROADO  -  DELEGACIA  -  INT.  -  DIA.


Antes mesmo do comércio adquirir a agitação comum do dia-a-dia, manhã ainda, Falcão recebeu a visita dos dois homens. Souza e um indivíduo desconhecido.


SOUZA  -  Bom dia!

DELEGADO FALCÃO  -  Dia!

SOUZA  -  Delegado Falcão?

DELEGADO FALCÃO  -  Eu mesmo.

SOUZA  -  Sou Rodolfo Souza, diretor do Clube Campestre. (virou-se para o homem que o acompanhava)  Trouxe aqui o meu amigo Horácio, que tem uma coisa pra lhe entregar.

DELEGADO FALCÃO  -  Pois não.

Com visível má vontade, o homem retirou da culatra um revólver usado, de cabo de madrepérola e colocou-o sobre a mesa de Falcão. A ferrugem corroia parte do cano e da coronha.


DELEGADO FALCÃO  -  (perguntou, meio desconfiado)  O que é isso?

HORÁCIO  -  (com azedume)  É um revólver, não tá vendo?

DELEGADO FALCÃO  -  Eu quero saber que significado tem essa arma!

SOUZA  -  Eu explico. Seu Horácio retirou ela das mãos de Diana Lemos.

DELEGADO FALCÃO  -  (estremeceu)  Como assim?

SOUZA  -  Ela se engraçou com ele, uma noite...

HORÁCIO  -  A zinha queria me passá pra trás! (grunhiu)  Depois de ter me tapeado durante uma noite inteira.

Falcão observava a arma meticulosamente. Rodou-a entre os dedos.

DELEGADO FALCÃO  -  Eu reconheço este revólver. É do pai dela.

SOUZA  -  Foi o que eu pensei.  Uma mulher esteve ontem no clube, procurando pela arma. A tia da moça. Eu tive o trabalho de procurar o Horácio. Por sorte ele pegou a arma depois que a moça desapareceu.

DELEGADO FALCÃO  - Bem... um momento. (refletiu apressadamente)  Eu acho bom vocês contarem essa história pro marido dela. João Coragem. Está aqui, preso. (curvou o tronco e gritou para o interior das celas)  Cabo Elias! Vai chamar o Coragem. (ao mesmo tempo discou para o centro telefônico de Coroado)  Minha filha, me liga para a casa do Coronel Pedro Barros.

FIM DO CAPÍTULO 69
João, Sinhana e Jerônimo
E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

*** PARA DESESPÊRO DE JERÔNIMO, POTIRA CASA-SE COM RODRIGO!

*** LARA VISITA O MARIDO NA CADEIA, MAS O CASAL NÃO SE ENTENDE!


NÃO PERCA O CAPÍTULO 70 DE

sábado, 24 de setembro de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 68


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair 

CAPÍTULO 68
PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:
DELEGADO FALCÃO
DIANA
FAUSTO PAIVA
MOREIRA
DR. RAFAEL
DALVA

CENA 1  -  COROADO -  DELEGACIA  -  INT.  -  DIA.

Diogo Falcão jamais poderia identificar naquela mulher contida, tímida, pesarosa, vestida com simplicidade e moderação, a outra, atrevida, satânica, desbocada. Para ele, a mulher que ali estava era...


DELEGADO FALCÃO  -  ... Dona Lara, boa noite! Que prazer em rever a senhora!

Estendeu a mão, mas a mulher recuou, num gesto brusco. Falcão encolheu-se.


DIANA  -  Quero ver meu marido!

DELEGADO FALCÃO  -  Que pena! Sinto muito, Dona Lara, mas não é possível.

DIANA  -  Por quê?

DELEGADO FALCÃO  -  Porque... ele está proibido de receber visitas. Sabe, andou fazendo besteiras... agredindo meus homens. É uma puniçãozinha necessária.

Aos poucos, Diana se revelava. E a atitude sarcástica do delegado contribuía para isso.


DIANA  -  Quer tirar a máscara, Falcão? Você foi proibido por Pedro Barros de me deixar entrar. Recebeu ordem dele, não?

DELEGADO FALCÃO  -  Dona Lara, a senhora me ofende!

DIANA  -  Você pensa que eu não sei quem você é, Falcão? Você está tirando sua vingança pessoal pra cima do João!

DELEGADO FALCÃO  -  Dona Lara!

DIANA  -  Que dona Lara, nem meia dona Lara! Me deixa ver João antes que eu acabe com essa porcaria desta cadeia.

DELEGADO FALCÃO  -  Eu não posso deixar a senhora entrar.

DIANA  -  Seu vendido! Seu sujo! Vou chamar o advogado! O juiz! O promotor! Você vai ser obrigado, por lei, a me deixar entrar! Seu calhorda!

No interior da cela João levantou-se e segurou as grades, fortemente. Ouvira a voz da esposa. Seus dentes trincaram-se e os punhos fecharam-se diante da total impossibilidade de reação.

CORTA PARA:


CENA 2  -  RIO DE JANEIRO  -  MARACANà -  EXT.  -  DIA.

Torcedores, aos milhares, se agrupavam diante dos grandes portões internos do Maracanã, á espera da saída dos jogadores. A partida fôra duramente disputada e, apesar dos esforços do time e da força moral da torcida, o Flamengo havia perdido por um a zero. Bandeiras em preto e vermelho haviam enchido tres quartas partes do “Maior Estádio do Mundo” e, findo o jogo, seguiam elas, tristonhas, para o longo descanso dos derrotados.

De repente, a massa humana agitou-se sobressaltada e o corpo metálico do ônibus emergiu do subsolo. No alto, á frente, em letras negras lia-se CR FLAMENGO. Batedores da polícia abriram caminho para a passagem do coletivo. Cabisbaixos os jogadores evitavam os olhares críticos daqueles a quem deviam riqueza, prestígio e fama.


Fausto Paiva entrou no Dart azul-metal. Irônico. Com um sorriso de lado a lado na boca antipática. Notou a aproximação de Paulo Moreira. O diretor do Flamengo acabava de engolir um comprimido. Doía-lhe a cabeça. Fausto arrancou uma primeira lenta e aproximou-se do homem.


FAUSTO PAIVA  -  Convencido agora?

MOREIRA  -  Não. Ainda não.

FAUSTO PAIVA  -  Então, continue insistindo com ele. Continue e vocês vão entrar por um cano que não tem mais tamanho.

Moreira voltou-lhe as costas, fugindo á gozação do técnico e á indiscrição da torcida que já se avizinhara do local. Fausto encaixou uma segunda e deslizou em direção ao portão central.

Quieta e desiludida, a multidão deixava o estádio.

CORTA PARA:

CENA 3  -  FAZENDA DE PEDRO BARROS  -  CASA-GRANDE  -  QUARTO DE LARA  -  INT.  -  NOITE.

O médico reconheceu que a moça fingia dormir. E não poupou palavras rudes. Diana deitara-se pouco antes, ao regressar de suas andanças pelo centro de Coroado. Rafael segurou-lhe os pulsos com brutalidade.


DR. RAFAEL  -  Não acha que está passando dos limites? Até quando teremos de suportas as suas loucuras? Sabe o que eu vou fazer com você? Vou mandar trancá-la, não na clínica de repouso, mas no hospício. Ouviu? No hospício. Vou chamar os homens do seu pai para colocá-la no carro e levo você comigo para a capital, agora!

DIANA  -  (abriu os olhos, agressiva)  Experimente, se for homem...

Tentou levantar-se. Rafael agarrou-a com firmeza.

DR. RAFAEL  -  Você não pode comigo, Diana.

DIANA  -  Você passou pro lado deles. Estão todos contra mim e fazendo o possível pra calar minha boca. E você os está ajudando!

DR. RAFAEL  -  Não há nada que você possa fazer a favor de João.

DIANA  -  Mas desmascaro Pedro Barros!

DR. RAFAEL  -  Quer você queira ou não, Pedro Barros é seu pai. E não é justo que você faça escândalo em torno do nome dele.

DIANA  -  Já vi tudo!  Você passou, sim para o lado dele. (saltou, lépida, para o chão, e ameaçou, decidida)  Lara não vai mais voltar.

DR. RAFAEL  -  (endireitou-se e respondeu com severidade)  Pois bem... serei obrigado a cumprir minha palavra.

Com os olhos vidrados, Diana apressou-se a obstruir a porta com o corpo.

DIANA  -  Você não pode ter coragem...

DR. RAFAEL  -  Necessito falar com Lara!  Se você não a deixar voltar, faço o que prometi.

A moça, aveludou a voz e modificou, abruptamente, a atitude.


DIANA  -  Eu sou Lara...

DR. RAFAEL  -  (segurou-a pelos braços e balançou-a como a um ramo de arbusto)  É muito cínica! Você não é Lara, é Diana!  Mas vai fazer com que Lara volte, neste instante. Vai dormir, Diana, e deixar Lara dominar seu corpo...

A moça virou o rosto e fechou os olhos. Rafael tentava impor sua vontade.

DIANA  -  Você não me domina...

DR. RAFAEL  -  Olhe para mim... olhe firme... (tomou-lhe o queixo entre as mãos e fitou profundamente os olhos da mulher)  Olhe firme, Diana... olhe bem. Você é mulher, fraca, não pode comigo. Relaxe-se bem... relaxe-se... isso, assim. Vai dormir, Diana... para ir embora... e só voltar quando eu quiser. Entendeu bem? Quando eu quiser... Quando eu chamar... só quando eu chamar. (bateu de leve no rosto inerte da paciente)  Lara! Lara! Que está sentindo?

Lara encolheu-se, apertando o crânio entre as mãos finas. Gemia e choramingava, ante os olhos atentos do médico.

MARIA DE LARA  -  Minha cabeça dói... dói muito!

DR. RAFAEL  -  Pode se levantar, Lara. Você já vai melhorar.

Lentamente, Lara sentou-se, enfraquecida. Rafael autorizou a entrada de Dalva no quarto extremamente confortável e decorado com requinte.


DALVA  -  Lara!

DR. RAFAEL  -  (disse à tia)  Lara precisa da senhora.  Não a faça falar, nem lhe pergunte nada. Precisa descansar.

Lara permanecia paralisada, com as mãos friccionando as têmporas, completamente alheia ao mundo.

FIM DO CAPÍTULO  68
Diana (Glòria Menezes)

E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

*** JERÔNIMO E BRAZ ESTÃO DECIDIDOS A TIRAR JOÃO DA CADEIA, MES ESTE RESISTE À IDÉIA DO IRMÃO.

*** RODRIGO LEVA POTIRA E SINHANA PARA VER A CASA ONDE VAI MORAR COM  A ÍNDIA APÓS O CASAMENTO.


NÃO PERCA O CAPÍTULO 69 DE

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

IRMÃOS CORAGEM -CAPÍTULO 67


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair 

CAPÍTULO 67

PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:
PEDRO BARROS
DALVA
DUDA
FAUSTO PAIVA
RITINHA
JERÔNIMO
DR. RAGAEL
ENFERMEIRO
ENFERMEIRA
MOREIRA
DIANA
BRANCA

CENA 1  -  FAZENDA DE PEDRO BARROS  -  CASA-GRENDE  -  SALA  -  INT.  -  DIA.

Pedro Barros vivia um de seus dias de felicidade. Era todo sorrisos. De há muito o pessoal da fazenda não via o coronel tão satisfeito. Distribuía cigarros aos empregados, bajulava os capangas e, tolerante, admitia que os rapazes tomassem uma dose extra, “para esquentar antes de dormir”. Ria descontroladamente ao telefone, ante os olhares abismados dos familiares.


PEDRO BARROS  -  Essa não, Falcão! Essa não! Me conta outra porque essa é muito forte! Só pode ser boato! Não acredito! (as lágrimas chegavam a escorrer-lhe pelo rosto, entranhando-se nas barbas grisalhas)  É muito grande a piada. É demais! Demais! Tá bem. Eu te espero. Vem jantar com a gente! (ria, ainda, ao colocar o fone no gancho negro. Voltou-se para os amigos sentados á mesa) Vocês não podem imaginar! Só faltava esta!

DALVA  -  Estou curiosa por saber a razão de tanta graça...

Pedro Barros não se controlava. Ria a não mais poder.


PEDRO BARROS  -  Os Coragem... tiveram a coragem... desculpe o trocadilho infame... de fazer Jerônimo se candidatar pra eleição de prefeito de Coroado! (o coronel se engasgava de tanto rir. Um criado apareceu com um copo de água gelada. Pedro Barros bebeu o líquido de uma só vez)  Não é uma piada? Uma grande piada? O irmão preso... criminoso... com todo mundo revoltado com ele... e ele ainda tem a pretensão! Só rindo, Dalva!

As gargalhadas do velho varavam as dimensões da casa e se perdiam na vastidão de suas terras.

CORTA PARA:

CENA 2  -  RIO DE JANEIRO  -  SEDE DO FLAMENGO  -  CONCENTRAÇÃO  -  EXT.  -  DIA.

Durante toda a manhã, Duda praticou exercícios físicos, de conjunto. Correu, flexionou o tórax, chutou bola, pulou corda. Sob tensão nervosa, os médicos do Flamengo anotavam as reações do jogador. Fausto Paiva, a um canto, comentava com seu auxiliar os resultados do primeiro teste a que submetiam o grande craque da Gávea. Era visível a má vontade do treinador. Nem mesmo os mais otimistas aceitavam o retorno de Duda á forma anterior. Reunidos os jogadores ouviam as orientações técnicas e as ordens do severo treinador de campo. Logo depois os rapazes deixaram o gramado e partiram lépidos para os chuveiros.

CORTA PARA:

CENA 3  -  RIO DE JANEIRO  -  CASA DE DUDA  -  INT.  -  DIA.

Ritinha abriu a porta e Duda entrou.


RITINHA  -  Como foi tudo, bem?

DUDA  -  Um treino só, Ritinha. Temos que ter paciência.

RITINHA  -  Não sentiu dor nenhuma?

Duda descalçou a bota e atirou-a para debaixo do sofá.

DUDA  -  Não. Mas isso não é nada. Vamos ver quando começarem os treinos intensivos.

Ritinha achegou-se ao marido e sentou-se num de seus joelhos. Duda abraçou-a pela cintura.


RITINHA  -  Eduardo (tirou um envelope do bolso da blusa)  chegou uma carta para você, hoje. De Coroado.

Tomando o envelope, Duda procurou o endereço do remetente.


DUDA  -  É de Jerônimo. (leu, silenciosamente. Á medida que seus olhos passeavam pelo papel, as feições se fechavam)  Diabo! João tá preso, acusado de um crime que não cometeu!

RITINHA  -  (tapou a boca com a mão)  Nossa Senhora, Eduardo! Como é que pode?

Jerônimo relatava o roubo, a viagem do irmão a Morrinhos e sua tentativa de reaver o diamante. As perseguições, as tramas de Pedro Barros e a posterior prisão na gruna causaram impressão desoladora ao rapaz. Ritinha chorava em silencio.


VOZ DE JERÔNIMO  -  (off)  “De Potira e Rodrigo  (dizia a carta)  as notícias são melhores. Os dois vão casá breve. Ele tá muito animado. Ela, também. Vai sê um casamento muito simples. A gente não pode tê alegria, com a perda do nosso querido pai e com a prisão do mano...”

Duda levantou-se, sufocando um soluço. Jogou a carta sobre a mesinha de mármore.

DUDA  -  Quanta coisa acontece com a gente! E por que, Santo Deus? Por quê? Será que a gente perdeu o direito de viver bem? De achar uma pedra? De vencer na vida? De ter nome? (andava de um lado para outro, na sala)  Cada um que procure o seu diamante. Cada um que procure vencer! Pôxa vida! Cada um que lute a seu modo! Mas, que lute por bem, não com arma suja!

Bateu com os punhos cerrados contra a vidraça do terraço, partindo-a em mil pedaços. Uma fina linha vermelha, de traço irregular, surgiu-lhe no dorso da mão. Ferimento superficial. Duda sugou o sangue, com os olhos fechados.

CORTA PARA:

CENA 4  -  RIO DE JANEIRO  -  CONSULTÓRIO DO DR. RAFAEL  -  INT.  -  DIA.


Rafael acabara de entrar no consultório recém-arrumado. A enfermeira veio ao seu encontro, nervosa.

ENFERMEIRA  -  Bom dia, doutor! Tenho más novidades.(o médico estacou, aguardando o pior)  Sua paciente... Dona Diana Lemos... conseguiu fugir... à noite passada.

DR. RAFAEL  -  (a  surpresa deixou-o aparvalhado)  Fugiu?

ENFERMEIRA  -  Ajudada por ele, doutor! Por ele! (com o indicador esticado, a mulher acusava o jovem louro, de nariz afilado e pele espinhenta).

DR. RAFAEL  -  (ordenou, autoritário)  Digam... o que foi que aconteceu com Diana?

ENFERMEIRO  -  (confessou, tìmidamente)  Eu... eu caí na lábia dela!

ENFERMEIRA  -  Combinaram encontro e... tudo o mais!

O rapaz contou a história. A promessa de encontro, um giro numa das boates da zona sul e depois... o sonho... um quarto de hotel, a cama de lençóis brancos... Depois o jato de água morna. A bebida gelada e o sabor do cigarro fumado a dois. Rafael enervava-se com o relato.


DR. RAFAEL  -  O senhor será punido. Proibido de trabalhar, durante um mês. Sem vencimentos... Quanto á senhora, providencie uma ligação urgente para Coroado. O número está ali, no meu caderno de endereços. Casa de Pedro Barros. Temos de avisar a família.

A moça procurou o número pedido pelo médico, pegou o fone e discou.

ENFERMEIRA  -  Interurbano, urgente, por favor!

CORTA PARA:

CENA 5  -  SEDE DO FLAMENGO  -  SALA DO DIRETOR  -  INT.  -  DIA.

Fausto Paiva tremia de raiva, mas se obrigava, como empregado do clube, a prestar obediencia aos diretores.


FAUSTO PAIVA  -  Olha aqui, seu Moreira. Desse jeito eu não sei trabalhar. Quando vim para o Flamengo, vocês me deram carta branca. Agora, tá todo mundo querendo dar palpite, em pressão de todo lado. Assim, a coisa não vai!

O impasse atribulava a vida do homenzarrão, mas o diretor procurava acomodar a situação.

MOREIRA  -  Quero que você entenda, a pressão não é nossa, é da torcida. Você sabe o que é a torcida do Flamengo. Vale pela torcida de todos os clubes do mundo. Lembra-se do último jogo? O time foi vaiado. O Maracanã estava cheio de faixas: Queremos Duda.

FAUSTO PAIVA  -  E eu com isso? Quem escala o time sou eu, não a torcida.

MOREIRA  -  Mas, quem paga a você é esta mesma torcida que você procura diminuir...

Fausto emudeceu por instantes.

FAUSTO PAIVA  -  Eu não posso escalar um jogador sem condições.

MOREIRA  -  Pelo menos meio tempo, pra dar uma satisfação á torcida.

FAUSTO PAIVA  -  (não  voltou atrás. Irredutível)  Nem cinco minutos.

MOREIRA  -  É sua última palavra?

FAUSTO PAIVA  -  É.

O diretor colocou a pá de cal na conversa.

MOREIRA  -  Pois a diretoria decidiu, ontem, em reunião. Duda vai jogar a próxima partida!

FAUSTO PAIVA  -  (estourou)  Então, a diretoria que escale o time! Eu peço demissão!

Desceu os degraus da arquibancada, bufando de raiva.

CENA 6  -  COROADO  -  FAZENDA DE PEDRO BARROS  -  SALA  -  INT.  -  DIA.

A primeira coisa que Dalva avistou foi a perna de uma mulher. Depois um jornal aberto. E no sofá, por inteiro, o corpo da dona das pernas. Dalva respirou fundo.


DALVA  -  Você?

DIANA  -  Não me esperava?

DALVA  -  (estava em dúvida sobre a personalidade dominante. Lara ou Diana?) Não... isto é... você fugiu há dois dias da clínica. Pensei que... que tivesse voltado para lá.

DIANA  -  É... mas não voltei. Estou aqui, pra encher todo mundo. (não havia dúvida. A maneira vulgar de falar, denunciava a dona do corpo: Diana Lemos. Lara permanecia oculta nas trevas da mente. Ou da alma)  Já tomou suas providencias? Avisou ao delegado pra não me deixar ver João?

DALVA  -  (nervosa)  Não... não aconteceu nada disso.

DIANA  -  Se não aconteceu, melhor. Eu vim disposta a desmascarar todo mundo. Vim pra arrasar, pra bagunçar o coreto de muita gente. Seu, do meu pai e da fulana que está hospedada aqui.

Dalva controlou a voz, que lhe saiu esganiçada como a de uma criança amedrontada.

DALVA  -  Está pensando que pode... defender João?

DIANA  -  Estou pensando, não! (desafiou)  Eu vou defender João. Vou fazer o que aquela outra idiota não fez, por medo. Eu não tenho compromisso com ninguém.

Barros aproximava-se lento, movido pela curiosidade. Ouvira vozes na sala ao lado.


DALVA  -  Nem com seu pai?

DIANA  -  Eu não tenho pai!

O coronel ativou as passadas e adentrou a sala.

PEDRO BARROS  -  Nem precisa dizer nada. Basta olhar na cara dela pra gente ver que tá dominada por aquela alma ruim.

DIANA  -  Alma ruim porque diz as verdades. E quem tem muitos podres, não pode enfrentar verdades. Por exemplo: a de que você preparou o golpe contra João. Que mandou roubar o diamante dele.

PEDRO BARROS  -  (gritou, alterado)  Isto não é verdade!

DIANA  -  Como não é verdade? E as marcas que eu tenho nas minhas costas? Por que fizeram aquilo comigo? Pra me impedir de contar ao João toda a verdade.

PEDRO BARROS  -  É mentira!

DIANA  -  Não é não! E vocês sabem que ele não matou Lourenço. Desconfiam até de mim. Por isso não tem certeza de ter sido ele. Mas fazem carga contra o pobre. E acusam ele. E deixam aquela sujeita que está aqui exigir justiça! Aquela tonta, imbecil! Que procura defender o marido... mais safado que o diabo pôs no mundo!

Branca ouvia as palavras acres da moça. Desceu as escadas. Não reconhecia na jovem atrevida a filha tímida do Coronel Pedro Barros.


BRANCA  -  Essa é... Lara?

DIANA  -  Não. Eu não sou Lara. Sou Diana. Nunca ouviu falar de mim? Sou aquela que seu marido mandou surrar, pra evitar dizer as verdades.

BRANCA  -  Como? Eu não entendo...

DIANA  -  Sabe quem era Lourenço D’Ávila? (olhou para todos, um a um)  Ladrão e traidor, dona! Traiu Pedro Barros nas barbas dele. E Pedro Barros tinha ódio dele. Não lhe disseram isso? (sorriu, irônicamente. Branca empalidecera mortalmente)  E você está representando bem o seu papel de vítima.

PEDRO BARROS  -  Já chega...

DIANA  -  (cortou)  Não, não chega. Sabe por que Pedro Barros finge que quer justiça?(segurou a mulher pelo vestido, balançando-a como um boneco de molas)  E sabe por que mantém você aqui? Porque tem interesse em se livrar do João. Mas eu garanto que foi ele quem mandou matar Lourenço. E agora quer jogar a culpa toda em cima do João.

PEDRO BARROS  -  (babava-se de raiva)  Eu não vou ouvir mais nada! Leva ela embora daqui, Dalva!

A tia tentou pegar no braço da jovem. Com um hábil movimento ela esquivou-se à mão da mulher.


DIANA  -  Eu vou porque quero. Vou desandar por aí com Pedro Barros. E com o ladrão do Lourenço. E com a esposa vítima. E com a tia malvada.

Deixou a sala, rindo alto, estridente, ante a cara fechada dos que assistiram ao seu ataque. Diana reinava absoluta no corpo de Maria de Lara.


Ritinha (Regina Duarte)
FIM DO CAPÍTULO  67

E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

*** DIANA VAI À DELEGACIA PARA VER JOÃO E BRIGA COM FALCÃO, QUE NÃO PERMITE A VISITA.

*** DR. RAFAEL EXIGE QUE DIANA DEIXE LARA VOLTAR, MAS ELA RESISTE!

 

NÃO PERCA O CAPÍTULO 68 DE


domingo, 18 de setembro de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 66


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair 

CAPÍTULO 66
PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:
DELEGADO FALCÃO
JOÃO
SINHANA
JUCA CIPÓ
CABO ELIAS
JERÔNIMO
RODRIGO
DR. RAFAEL
DIANA

CENA 1  -  GARIMPO DOS CORAGEM  -  EXT.  -  AMANHECER.

A madrugada apontava nos céus. O mundo se iluminava aos poucos, variando os tons de vermelho-claro ao vermelho-vivo, com tintas alaranjadas e meios-tons em azul-celeste. O olho do sol abria-se, preguiçosamente, por detrás das montanhas.


DELEGADO FALCÃO  -  (irritado)  Quer saber de uma coisa? Vou dar um fim nisso. Já me cansei. Agora, vai ser pra valer. Quem for valente, que me acompanhe. (fez com a mão o gesto de convite á ação)  Vai todo mundo entrar na gruna., agora, disposto a matar ou morrer.

SINHANA  -  Falcão, não faça isso! Você vai fazer de meu filho um criminoso! Ele tá só revoltado, mas não quer matá ninguém. Não obriga ele a fazê o que ele não quer.

DELEGADO FALCÃO  -  Não quer matar ninguém, não é? Vamos lá ver.

Os homens agiam com rapidez e cautela, aproximando-se da entrada da gruna. João percebeu o movimento de assalto.

JOÃO  -  (gritou com ferocidade)  Não vem ninguém! Tou pronto pra tudo!

DELEGADO FALCÃO  -  Vou te dar uma chance! (gritou)  Vou contar até 10 pra você sair. Se não obedece, vai entrar todo mundo aí atirando pra te acertar. Se você atira, também vai ser pior pra todos nós. Vou te dar um tempo. Você sai, se não quer morrer!

Diogo Falcão, com a arma em punho, iniciou a contagem. No interior da gruna, João acompanhava, esticando-se contra o chão úmido e barrento. A voz do delegado chegava-lhe, nítida, aos ouvidos acostumados ao silencio.

DELEGADO FALCÃO  -   ...3 ...4 ...5 ...6 ...7...

João conferiu o tambor da arma e tateou a munição ao lado, próximo à cabeça.


Juca Cipó acabara de chegar, trazendo mais homens, do bando do coronel. A empreitada deixava de ser da justiça, para se caracterizar em manobra de interesse pessoal do coronel, dono de Coroado.

CABO ELIAS  -  (gritou, vendo Juca desmontar, rápido)  Chegaro em boa hora! Tamo preparando uma armadilha pro João!

DELEGADO FALCÃO  -  Está esgotando o tempo, João! Vai sair ou não vai?

JUCA CIPÓ  -  (estimulava o bando)  Fogo nele! Fogo nele, Falcão! Qué que eu ajude?

DELEGADO FALCÃO  -  (fez sinal para o cabo, chamando-o)  Você entra atirando e nós seguimos na sua trilha. Assim que der o primeiro tiro, deite-se na entrada da gruna e continue a atirar. Feito? (e para João Coragem)  É a última chance, João! – 8... 9...

JERÔNIMO  -  (gritou) Cuidado, João!

DELEGADO FALCÃO  -  10...

Cabo Elias entrou atirando para o fundo do buraco. Os estampidos repetiram-se um após outro e o cabo Elias caiu, estendido, com a perna ferida. Arrastou-se, aflito, num esforço doloroso. A perna doía-lhe e o sangue empapava-lhe a calça.

JOÃO  -  (berrou, ameaçador)  Eu avisei, cambada de vagabundo, a sôldo do coronel! Eu avisei! Vai embora daqui. Vão todos pras profundas do inferno! Num acreditô, Falcão? Vem vê, de perto! Vem você, patife!

Dois ou tres companheiros arrastaram o ferido para longe da zona de tiro.


CABO ELIAS  -  Ele tá com o diago no corpo!

JERÔNIMO  -  (avançou e levantou a mão, em sinal de paz)  Pera aí, Falcão. A gente tem direito de tentá resolvê as coisa por bem. Dê um voto de confiança pra minha mãe. Ela vai lá, tentá fazê meu irmão se entregá.

DELEGADO FALCÃO  -  Pois bem!  É a última chance. A situação dele piora cada vez mais. Se o cabo Elias morrer, ele vai ter que responder por mais uma morte.

RODRIGO  -  Foi em legítima defesa, Falcão. Ou você quer torcer a lei?

Falcão fechou a cara num trejeito de ódio.


JERÔNIMO  -  Vai, mãe!  A senhora ele ouve.

Sinhana se aproximou da gruna, a passo firme.


SINHANA  -  (da entrada, avisou ao filho acuado)  João, tou indo aí pra falá com ocê.

JOÃO  -  (desconfiado)  Tá sozinha, mãe? Ou vem com algum cabra do Falcão?

SINHANA  -  Sozinha, filho. Palavra de honra!

JOÃO  -  Entra, mãe!

CENA 2  -  GARIMPO  -  INTERIOR DA GRUNA  -  INT.  -  DIA.

A mulher alcançou o ponto onde o filho permanecia emboscado. Sujo, barbado, com as mãos rasgadas pelas arestas cortantes das rochas do rio. Sinhana abraçou o filho sem demonstrar medo ou covardia.


SINHANA  -  Num vim te censurá.  Nem reclamá pelo que tu tá fazendo. Acho que tu reage como home injustiçado. Também, num digo que tu faça bem e que teu procedimento deve sê imitado. Só quero te dizê uma coisa: que te compreendo. Mas vai chegá a um ponto que tu num tem mais razão, nem saída. Te acusam de um crime que tu não cometeu. Mas há pouco tu atirô num home. Se ele morrê ocê vai arcá com toda a culpa, mesmo tudo mundo vendo que tu atirô em legítima defesa. O home atirô primeiro. Mas, pro safado do Falcão, o que vai valê é a tua resistencia.

JOÃO  -  A senhora veio pedi pra me entregá. Pra que tanto rodeio? Diz logo e acaba com isso.

SINHANA  -  O que tu me responde?

JOÃO  -  Que num dianta. Eu num me entrego!

SINHANA  -  Tu perdeu a crença, a fé?

JOÃO  -  Perdi tudo. Até o amor de Deus!

SINHANA  -  (se benzeu, recriminando o filho)  Num diz assim que é pecado!

JOÃO  -  (desiludido)  Deus me deixô.  Eu prefiro acreditá que não existe do que acreditá que ele também me traiu.

SINHANA  -  Deus tá aqui, junto de nós, filho, e tá me mandando dizê procê alimentá sua fé. Tua atitude num leva a nada. Ou melhó, leva á disgraça. E não é pouca a que caiu em riba de nós. Teu irmão mais novo taí, e precisa de ocê. Os sonho dele vão sê cortado e é por sua causa.

JOÃO  -  (com rispidez)  Eu num nasci grudado com meu irmão!  Cada um tem sua vida, seu destino. O meu, já vi que é o pior de todos. Ele que siga o dele.

SINHANA  -  (bateu com as duas mãos nas coxas grossas)  Tua resposta é não?

JOÃO  -  É. Não.

A velha procurou uma rocha saliente no solo úmido e se sentou, prendendo a saia entre os joelhos.

SINHANA  -  Tá bão. Então eu fico com ocê. O que te acontecê de mal, acontece a mim, também. Prefiro morrê, varada por uma bala do Falcão, do que vê meu filho acuado como uma fera perigosa. (João tentou dizer qualquer coisa; Sinhana cortou-lhe a palavra)  E num dianta. Daqui só saio morta, ou com ocê, pra se entregá por bem.

CORTA PARA:

CENA 3  -  GARIMPO  -  EXT.  -  DIA.

O dia ia alto, quando Sinhana despontou na bôca do esconderijo.


SINHANA  -  Trago uma resposta do meu filho.

JERÔNIMO  -  Ele vai se entregá, mãe?

SINHANA  -  Vai. Por minha causa. Pra que se acabe com essa situação. Mas, tem que tê garantia de que ninguém vai traí ele.

DELEGADO FALCÃO  -  Manda ele entregá as armas (ordenou)  E tem minha palavra de que nada lhe acontece.

Sinhana voltou-se para a entrada da gruna e chamou pelo filho.

DELEGADO FALCÃO  -  (ordenou, enérgico)  João vai se entregar, minha gente! Ninguém atira. Eu me responsabilizo por ele!

O rapaz apareceu na boca da caverna, empunhando o revólver e com a mão esquerda á guisa de anteparo sobre os olhos, protegendo-se da luminosidade do dia. Era uma figura coberta de barro. O cabelo tornara-se amarelado, com pedaços de terra grudados ás longas mechas negras. No rosto, barro. No peito, barro. João parecia uma figura talhada em barro, a despontar na entrada escura da gruna.

DELEGADO FALCÃO  -  Jogue sua arma fora! (gritou,  atento aos movimentos do rapaz)

SINHANA  -  (reforçou a ordem)  Filho, tu prometeu!

Num gesto de indignação, João Coragem atirou as armas no meio das águas tranquilas do rio. Sinhana correu a abraçá-lo.
JUCA CIPÓ  -  (gritou, histèricamente)  Agarra ele, gente! Agarra! Ele escapa...

DELEGADO FALCÃO  -  Fique quieto, Juca... Tudo vai dar certo.

A um sinal do delegado, os homens agarraram o garimpeiro, dobrando-lhe os braços por trás das costas. João não reagiu. Acomodou-se ao seu destino. Dias piores estariam por chegar.

CORTA PARA:

CENA 4  -  RIO DE JANEIRO  -  CONSULTÓRIO DO DR. RAFAEL  -  INT.  -  DIA.


O médico insistia, Diana reagia. Rafael avizinhou-se da moça, com ar divertido. Diana fumava, soltando baforadas contra o rosto do especialista.

DR. RAFAEL  -  Está querendo se divertir comigo, Diana?

DIANA  -  Não estou fazendo nada, meu bonitão. É você que está me obrigando a mofar aqui, nesta sala, enquanto eu tenho tanta coisa pra fazer lá fora. Há duas horas, ou mais, sei lá, que estamos aqui, como dois paspalhões, um olhando para o outro, sem fazer nada. Ao menos... se você tivesse uma vitrola, com alguns discos bacanas, a gente podia dançar. Que tal a idéia? Assim o tempo passa mais depressa...

DR. RAFAEL  -  Diana, estou aguardando sua resposta. Vamos acabar com essa brincadeira. Me diga, honestamente, o que fez da arma de seu pai.

DIANA  -  De que adianta eu dizer, se você não acredita em mim? Pra você eu não passo de uma mentirosa, de uma imoral e não sei o que mais.

DR. RAFAEL  -  Eu quero acreditar.  Conte tudo o que lhe aconteceu naquela noite em que você saiu disposta a matar Lourenço.

Lara tornou a sentar-se sobre a mesa, cruzando as pernas, sem se importar com a presença do homem á sua frente. Alisou as pernas, sensualmente, antes de responder.

DIANA  -  Legal! Vou te dar o serviço direitinho. Escuta só. Como já disse, saí armada da casa de Pedro Barros. Peguei o carro, etc., etc., e fui parar no clube, onde eu sabia que aquele cachorro costumava ir. Lá me disseram que ele estava bebendo num bar que há ali perto. Um bar vagabundo. Sabe como é? Esses de estrada, cheio de mulher pilantra... Aí eu fui pra lá. Procurei o sem-vergonha e o dono do bar me disse que ele já havia estado lá, mas que tinha saído. Resolvi tomar um trago, pra esquentar... Logo, um cara se engraçou comigo. Topei a brincadeira. Estava a fim de me divertir, já que não havia encontrado Lourenço. Bebi mais. Bebi muito e saí fora do sério. O cara me convidou: “Como é, beleza, vamos embora?” – Disse pro otário: - “Não vou a lugar nenhum com você. Não sei quem você é... Aí ele veio com a história de que não tinha pago toda a bebida pra levar um fora. Tentou me agarrar. Esperneei, enquanto todo mundo ria, dentro do bar. O cara me arrancou pra fora e me levou pro caminhão dele. Era chofer de estrada. Foi aí que tirei o revólver da bolsa e o ameacei. “Tá pensando que eu sou de graça, mocinho?” O cara era vivo e forte e, num descuido meu, roubou minha arma, jogando-a fora. Foi aí que corri, entrei no meu carro e saí em disparada. O sujeito ficou esbravejando feito um touro que perde a vaquinha na hora H. Tá aí toda a história da arma. O camarada jogou ela longe. A sorte foi que ele se conformou e não me seguiu. Se você acredita ou não, é problema seu. Mas, a gente pode ir ao tal bar e você vai ver como todo mundo diz que foi verdade. Quem sabe o carinha não anda por lá, ainda?

DR. RAFAEL  -  Não acredito na sua história.  Só estou desolado vendo as complicações em que você se envolve. Aonde quer que Diana vá. Maria de Lara irá também. E isso quer dizer que, se você se portar mal, quem sofrerá as consequencias será ela.

DIANA  -  Já sei, já sei (disse, impaciente)  Não me venha de novo com aquela história da camisa-de-força e grades de ferro.

DR. RAFAEL  -  É o destino que te espera, Diana, se você não se portar bem!  

Diana fez uma pequena pausa para acender outro cigarro.

DIANA  -  Bem, em resumo, o que vai ser de nós duas? Quem vai vencer no final da história, eu ou ela?

DR. RAFAEL  -  Na verdade, há poucos casos como o seu na literatura médica. Minha primeira esperança é achar em vocês uma maneira de conseguir uma personalidade estável.

DIANA  -  Como?

DR. RAFAEL  -  Fazendo com que vocês duas se fundam numa só, se é que isso pode ser atingido. Combinando as melhores qualidades de cada uma, para fazer um caráter forte e consciente. (tirou um lenço do bolso e enxugou a testa, molhada de suor)  Bem... agora pode se despedir, Diana. Eu já sei o suficiente. Quero falar com Lara.

A moça fez um muxôxo e abanou a cabeça, em sinal de negação. Soprou mansamente a fumaça para o teto. Ao falar a voz não traía a mínima emoção.


DIANA  -  Quem disse que eu quero ir embora? (olhou para o médico com ar zombeteiro, sorrindo silenciosamente)  Agora, chegou a minha vez, doutor. Ela que se arranje. Eu não vou voltar tão cedo. Vou ficar até... quando quiser. E tem mais: já vou dando o fora. Isto aqui, tá cada vez mais chato...

Foi até a porta, endireitou a saia e desapareceu sem dar tempo ao médico de tentar impedi-la. Rafael correu ao telefone. Na portaria alguém atendeu.


DR. RAFAEL  -  Alô! Aqui é o Dr. Rafael. Minha cliente, Diana Lemos, vai tentar deixar a clínica. Impeçam-na de qualquer maneira. Não a deixem sair! Chego já aí!

Desligou, batendo com força o fone no gancho.

FIM DO CAPÍTULO  66
Sinhana entra na gruna e tenta convencer o filho a se entregar.
e no próximo capítulo...

*** DUDA E RITINHA, NO RIO DE JANEIRO, FICAM DESOLADOS AO RECEBER NOTÍCIAS DE COROADO E SABER QUE JOÃO ESTÁ PRESO!

*** FAUSTO PAIVA, MUITO ABORRECIDO COM A INSISTENCIA DOS DIRETORES DO FLAMENGO EM MANTER DUDA NO TIME, PEDE DEMISSÃO!

*** DIANA REAPARECE EM COROADO, NA CASA DO PAI, DIZENDO QUE VAI DESMASCARAR TODO MUNDO!

NÃO PERCA O CAPÍTULO 67 DE

     

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 65


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair 

CAPÍTULO 65

PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:
JERONIMO
SINHANA
POTIRA
JOÃO
DELEGADO FALCÃO
RODRIGO
DR. RAFAEL
DIANA
CENA 1  -  CASA DO RANCHO CORAGEM  -  SALA  -  INT.  -  NOITE.

Jerônimo cerrou a cortina, acendeu o lampião e revelou á mãe:


JERÔNIMO  -  Olha, velha, tenho de avisá João. Vão pegá ele distraído!

SINHANA  -  Vamo pelo atalho que nós chega antes dessa cambada.

Jerônimo vestiu, apressadamente, o paletó de couro, auxiliado por Potira.


JERÔNIMO  -  Anda, índia. Num tenho tempo a perdê.

CORTA PARA:

CENA 2  -  GARIMPO DOS CORAGEM  -  GRUNA  -  EXT.  -  NOITE.


Galopando célere, com a velha Sinhana ao lado, Jerônimo alcançou as margens do rio. Ao longe divisou a luz embaçada do candeeiro. Um ponto claro na boca escura da caverna. João estava sentado, comendo um pedaço de carne-sêca. Ouviu a voz da mãe.


SINHANA  -  João!

JOÃO  -  Velha!

SINHANA  -  Vim te avisá. Os home do Falcão vem aí. Toma cuidado, filho!

O rapaz movimentou-se, hàbilmente, no interior da gruna. Alinhou as armas e preparou-se para o combate. Sinhana desapareceu por entre as árvores.

O delegado se aproximava com os homens atentos, armas engatilhadas. Chegou-se á boca da gruna.


DELEGADO FALCÃO  -  João! Tu tá me ouvindo? (não houve resposta)  Não adianta você tentar resistir. É ingenuidade sua, pensar que pode mofar aí dentro.

Como resposta um tiro sibilou de encontro á rocha. Os homens atiraram-se ao chão, como um todo.

O delegado deu rápidas ordens de comando e tornou a dirigir-se para o interior da gruna:


DELEGADO FALCÃO  -  Vou te dar quinze minutos pra sair daí!

Como da boca de um monstro pré-histórico, a voz enlouquecida do rapaz partiu da garganta escura da gruna:

JOÃO  -  Eu liquido o safado que tivé a corage de botá os pé aqui dentro! Liquido um por um. E tou torceno procê vir em primeiro lugá, Falcão. Se atreva... venha você primeiro... mostre que é home! Venha você primeiro, Falcão!

O delegado protegeu-se, ocultando-se por trás de uma rocha.


DELEGADO FALCÃO  -  (gritou, com as mãos em concha)  Está me ouvindo, João? O dia vai amanhecer. Você vai nos abrigar a ficar aqui até quando?

JOÃO  -  Até você se cansar, Falcão.

DELEGADO FALCÃO  -  É teimosia sua que não leva a coisa alguma! Sua munição vai acabar e eu estou disposto a esperar.

JOÃO  -  Até lá muita coisa pode acontecer. Eu tenho muita munição.

DELEGADO FALCÃO  -  Você está se obrigando a um sacrifício inútil, porque eu vou tirar você daí, á força. Estou começando a perder a paciencia!

JOÃO  -  Pois perde e entra aqui! (convidou, irônicamente)  Entra pra vê o que te acontece. Experimenta, capanga do coronel! Que entre o primeiro valentão, disposto a me tirá daqui, à força! Experimenta!

Houve um breve silencio, enquanto o delegado cochichou com os homens, traçando os planos de investida. Abria os braços traçando formas no espaço. Os homens escutavam, atentos, as orientações do chefe. Rodrigo e Jerônimo aproximaram-se do grupo. Falcão avistou-os.


DELEGADO FALCÃO  -  Dr. Rodrigo, ele está mesmo disposto a tudo. O pior é que é uma perda de tempo. Não pode dizer isso a ele?

RODRIGO  -  (perguntou, apontando com o polegar para a boca da gruna)  Está me pedindo para entrar?

DELEGADO FALCÃO  -  É amigo dele, não é? Pode ser que ao senhor ele atenda.

Sinhana interveio na conversa, deixando o esconderijo entre as árvores.

SINHANA  -  Não. É melhor Jerônimo ir.

JERÔNIMO  -  Eu acho.  A mim ele tem que atender.

DELEGADO FALCÃO  -  Então, tente (autorizou,  com esperança nos olhos)  Faça ver a ele a inutilidade desta atitude.

Jerônimo distanciou-se e ameaçou entrar na gruna.

JERÔNIMO  -  João, sou eu. Vou entrar.

JOÃO  -  Não entre! Eu disse que não quero tu aqui. Vai embora! Vai embora ou eu atiro pra acertá!

JERÔNIMO  -  Tu tá ficano maluco, João. Assim, também, é demais!

JOÃO  -  É pra tu sabê de vez que não te quero nisso!

Rodrigo avizinhou-se da entrada do buraco.


RODRIGO  -  João! Aqui é o Rodrigo! Você deve se entregar! Você tem as garantias que a lei lhe dá. Você pode se defender, se está inocente!

JOÃO  -  Eu já disse que tou inocente e ninguém acreditô em mim, Doutô Rodrigo.

RODRIGO  -  Mas esta sua  atitude é  uma confissão de culpa!

JOÃO  -  (replicou, feroz)  Não senhor! É confissão de revolta! É isso que eu quero que entendam! Eu tou inocente, mas acabo com o mundo, se não me deixam em paz. Sai todo mundo daí. Sai porque eu tou com o diabo no corpo! Leva Jerônimo, mãe. Eu, sozinho, dou conta do miserável do Falcão! Vai todo mundo embora!

Ás margens do rio não havia quem não percebesse a decisão do garimpeiro. Ou tudo ou nada. Liberdade ou morte. Falcão pensava nisto e na melhor maneira de impor a lei.

CORTA PARA:

CENA 3  -  RIO DE JANEIRO  - CONSULTÓRIO DO DR. RAFAEL  - SALA DE ESPERA  -  INT.  -  DIA.

Lara finalmente chegara ao Rio, depois de uma viagem cansativa e demorada. Há dois dias se encontrava na cidade e pela terceira vez visitava o consultório do Dr. Rafael. Dalva permanecia na sala de espera, folheando uma revista colorida.

CENA 4  -  RIO DE JANEIRO  -  CONSULTÓRIO DO DR. RAFAEL  -  INT.  -  DIA.


No interior, deitada numa cama confortável, de pés altos e largo colchão de molas, a moça ouvia, longìnquamente, a voz do médico.

DR. RAFAEL  -  Diana Lemos!

Era como se as duas cabeças de uma rainha , num jogo de cartas, alternassem posições. Lara, Diana, Lara, Diana...

De repente a outra equilibrou-se no tôpo da carta. Diana sobrepujou Lara e surgiu, frenética, gargalhando com ironia.


DIANA  -  Oi!

DR. RAFAEL  -  Diana?

DIANA  -  Passei um susto danado nela, hem? (levantou-se, desembaraçada, descontraída, movimentando-se alegremente pelo quarto)  Isto que o senhor fez agora, facilitou minha saída. (olhou os quatro cantos do consultório, ante o olhar observador do médico)  Não gosto disso aqui, mas quis ver como era, de perto. Lara até se sentiu um pouco melhor, mas ainda está apavorada.

DR. RAFAEL  -  (com acento crítico na voz)  Você acha bonito, bem feito, tudo o que andou fazendo?

DIANA  -  Só porque não queria voltar? Não voltei de propósito, meu chapa. Não gosto de ser dominada. Ela quis que eu voltasse, eu me recusei. Eu mando na minha vontade. Quero que diga a ela. Isto tem que ficar muito claro. Não é ela quem me domina. Sou eu quem domina ela.  (rodopiou pela sala, mexendo nos aparelhos e nos livros de altos estudos psiquiátricos e psicológicos)  Só quis castigar a cretina, pra que ela entenda isso. (Rafael observava, silencioso, analisando as reações da paciente)  Olha, se eu cismar a domino completamente. E aproveito, já que estou aqui, pra ficar pra sempre...

DR. RAFAEL  -  Está satisfeita com as coisas que andou fazendo contra ela?

DIANA  -  Não fiz nada. Ela é que inventou coisas a meu respeito.

O médico atravessou o quarto e se sentou diante da escrivaninha de madeira-de-lei.

DR. RAFAEL  -  Nós sabemos que Lara não inventa coisas. Quem faz as coisas erradas é você. Mas eu tenho que alertá-la: está saindo fora do sério. Meteu-se numa embrulhada e isto pode ser muito ruim para as duas. Qualquer que seja a confusão em que você se meter, Lara  será considerada uma psicopata e tanto você quanto ela serão trancadas num lugar adequado, com barras de ferro nas janelas e camisa-de-força. Será que fui claro?

DIANA  -  Sai daí! Por que a bronca? Que foi que eu fiz de tão errado?

RAFAEL  -  (pensou um pouco, antes de acusá-la)  Você matou Lourenço D’Ávila, Diana.

Durante alguns segundos, a mulher fitou o rosto do especialista. Logo após, explodiu numa gargalhada satânica.

DIANA  -  (ria, ainda, quando falou ao médico)  Ora, doutor! Nem vem! Nem vem, tá?

DR. RAFAEL  -  (insistia na acusação, convicto)  Foi você, não foi, Diana? Diga a verdade. Foi você quem matou o capataz do seu pai.

Retirando um cigarro da caixa de madeira, sobre a escrivaninha, Diana riscou um fósforo e soltou uma baforada em linha reta, para o rosto do médico. Sentou-se, á vontade, sobre o tampo da mesa, erguendo a saia em atitude lasciva.

DIANA  -  Por quê acha que eu matei aquele patife?

DR. RAFAEL  -  Você o havia ameaçado várias vezes. Eu estou lembrado disso. E na noite em que ele morreu, você roubou a arma de seu pai e saiu para ver se o encontrava pela cidade. Eu acho que encontrou...

DIANA  -  Saí mesmo!  Saí disposta a tudo e tinha dado cabo daquele sem-vergonha se tivesse achado ele. Mas... não achei.

DR. RAFAEL  -  Não acredito.

DIANA  -  (furiosa)  Por que não acredita?

DR. RAFAEL  -  Porque você mente. Você não tem juízo. Não tem moral, não tem nada. Você fez tudo para prejudicar Lara e levá-la ao estado a que ela chegou. Você seria capaz de matar Lourenço, como seria capaz de mentir que não o matou.

Diana esmurrou a mesa, com os dentes crispados.

DIANA  -  Mas não matei, ô cara! Não matei e não tenho razão para mentir. Se tivesse acabado com ele, sou muito mulher para aguentar as consequências.

DR. RAFAEL  -  Se não matou... por que deu fim ao revólver?

DIANA  -  Ué! De médico virou detetive?

DR. RAFAEL  -  Responda, Diana, com franqueza. Que fim deu á arma de seu pai?


FIM DO CAPÍTULO  65
João, acuado na gruna, desafia Falcão a entrar!

E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

*** TODOS TENTAM CONVENCER JOÃO A SAIR DA GRUNA E SE ENTREGAR Á POLÍCIA. SINHANA É A ÚLTIMA ESPERANÇA, ANTES QUE O DELEGADO E SEUS HOMENS ENTREM  NO LOCAL, ATIRANDO. CONSEGUIRÁ SINHANA CONVENCER O FILHO A SE ENTREGAR?

*** DIANA FOGE DA CLÍNICA!


NÃO PERCA O CAPÍTULO 66 DE

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 64


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair 

CAPÍTULO 64
PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:
BRAZ CANOEIRO
JOÃO
PEDRO BARROS
DELEGADO FALCÃO
BRANCA
SINHANA
JERÔNIMO

 CENA 1  -  GARIMPO  DOS CORAGEM  -  EXT.  -  DIA.

Isolado de todos João Coragem jogava o cascalho ao ar e aparava as pedras num jogo hábil de mãos, onde os movimentos adquiriam características de balé clássico. Trabalhava, assim, desde os primeiros instantes da madrugada. O sol já o encontrara ás voltas com o garimpo. Cavava forte, quando a voz de Braz Canoeiro chegou-lhe aos ouvidos.


BRAZ CANOEIRO  -  João! Joããão!

Girou no calcanhar e divisou o negro que chegava.

JOÃO  -  Pode vir, home! Ou tu tá com medo de pegá doença?

BRAZ CANOEIRO  -  (pisou nas águas frias do rio)  Que bobage é essa que tu tá dizeno?

JOÃO  -  Não sabe que eu tou cum doença ruim?

BRAZ CANOEIRO  -  (espantado)  Num sei de nada!

JOÃO  -  Todo mundo foge de mim, na cidade, tu não sabe? Tua mulhé, mesmo, fugiu com medo de mim! Tava apavorada!

BRAZ CANOEIRO  -  Cema... Cema não anda boa.  Tá esperano criança.

JOÃO  -  Pois é. Tá esperano criança e pensô que eu fosse fazê mal pro filho dela!

BRAZ CANOEIRO  -  Tou pra descobri o que tá aconteceno com a minha mulhé, João...

JOÃO  -  (resmungou, aborrecido)  Ela me traiu, Braz. É tua mulhé, mas me traiu...  Não sei por que passô pro lado dos meus inimigo...

BRAZ CANOEIRO  -  Num diz isso dela, João. A gente não sabe. Pode sê que ela têja certa... eu não sei. Não posso dizê nada.

JOÃO  -  (falou, com azedume)  Ela deve tê sido comprada, Braz, pelo Pedro Barros.

BRAZ CANOEIRO  -  (se ofendeu com a dureza da palavra)  Veja como fala, amigo. Assim, também, não. Cema é mulhé direita. Num se vende!

João Coragem andou até a margem e se sentou numa larga rocha esverdeada. Durante as enchentes as águas do rio cobriam-na, totalmente. Atirou a peneira como um disco por sobre a grama e fixou o céu.

JOÃO  -  Se não se vendeu, então, a causa é outra! Tu procura que vai encontrá, Braz. Cema mudô.

BRAZ CANOEIRO  -  (no fundo, tinha medo de saber a verdade)  Que razão tu pensa que é?

JOÃO  -  Eu... eu... sei lá! Coisa boa não deve de sê!

BRAZ CANOEIRO  -  É tu que tá imaginando, João.

JOÃO  -  Não imagino nada. Num tenho direito de lançá veneno na vida de ninguém. Nem mesmo depois de todo mundo tê lançado veneno na minha vida. Mas, nem assim, eu quero te envenená...

BRAZ CANOEIRO  -  (descontrolou-se inteiramente)  Tu tá dizeno coisas... sem sabê! Fala por falá. Tá cheio de problema e quer jogá a culpa deles pra cima da minha mulhé.

JOÃO  -  Eu jogo... porque ela se passô pro lado do nosso inimigo!

Braz chegara ao fim da paciência. Explodiu como uma bomba de profundidade.


BRAZ CANOEIRO  -  Não seja bêsta, home! Olha pra tua frente! Num foi Cema, num foi ninguém que te lançô nesta situação. Veja bem! Foi tua própria mulhé! Ela é filha do Pedro Barros, não é? Por que tu te casô com ela? Por que te amarrô nela? Tu... está contra tu, mesmo. Não é Cema. Não sou eu. Tá me ouvino? Não somos nós dois, não. É tua mulhé! Entendeu?

O sol atingira uma posição quase perpendicular. Os raios queimavam a terra e brincavam  na copa das árvores. Braz deixou o garimpo com os grossos lábios apertados e uma expressão feroz na cara negra.


CORTA PARA:

CENA 2  -  COROADO  - DELEGACIA  -  INT.  -  DIA.


O delegado se recompunha. Vestia o paletó para atender o coronel e Dona Branca, mulher do falecido Lourenço D’Ávila.


PEDRO BARROS  -  (justificou a presença de ambos)  Dona Branca estava aflita para falar com o senhor.

DELEGADO FALCÃO  -  (esticou a mão, num gesto clássico, oferecendo-lhe o banco tôsco da delegacia)  Ah, pois não, tenha a bondade.

BRANCA  -  Eu quero saber o que está sendo feito para punir a morte do meu marido.

DELEGADO FALCÃO  -  (moveu o palito entre os dentes, com nervosismo)  Bem... como já devem saber, concluí o inquérito e o enviei ao promotor e ao senhor juiz.

PEDRO BARROS  -  (indagou, ávido)  Concluiu pela culpa de João Coragem?

DELEGADO FALCÃO  -  Exatamente, pela culpa dele.

BRANCA  -  E por que ele ainda continua solto pelas ruas desta cidade, como se nada tivesse acontecido?

PEDRO BARROS  -  (aproveitou-se para jogar mais lenha na fogueira)  E o que é pior... Cometendo outros atos que não deve. O infeliz Doutor Maciel ainda está de cama, da sova que levou dele.

DELEGADO FALCÃO  -  É, isso até que pegou muito mal.  Acontece que o promotor, que é amigo dele, está botando seus obstáculos para retardar a prisão dele.

PEDRO BARROS  -  Como assim?

DELEGADO FALCÃO  -  Declarou que as provas eram insuficientes.

BRANCA  -  Mas... isto é um absurdo!  (reagiu, enfurecida)  Como, insuficiente, se ele era a única pessoa que ameaçou meu marido e que foi atrás dele, para matá-lo!

DELEGADO FALCÃO  -  O juiz pode não ser da opinião do promotor. E, se o juiz estiver de acôrdo comigo, ele pede a prisão de João, ainda hoje.

CORTA PARA:

CENA 3  -  COROADO  -  DELEGACIA  -  INT.  -  DIA.

Barros esperou hora e meia, conversando com a mulher de Lourenço. De repente o delegado entrou, movimentando um papel á guisa de bandeira.


DELEGADO FALCÃO  -  Aqui está, meu coronel! Aqui está! A justiça tarde, mas não falha!

A cara cínica de Pedro Barros transfigurou-se na do cidadão honesto, defensor da justiça e da liberdade.


PEDRO BARROS  -  O juiz assinou?

DELEGADO FALCÃO  -  Assinou! Desta vez, vencemos o promotor!

PEDRO BARROS  -  Ainda bem. Isso é que tinha de acontecer, Falcão.

BRANCA  -  Quando vai prender o assassino?

DELEGADO FALCÃO  -  Com isso... posso prendê-lo imediatamente, Dona Branca.

BRANCA  -  Então, o que está esperando?

DELEGADO FALCÃO  -  Nada, Dona Branca. Vou só providenciar alguns homens. João anda espalhando valentia por aí. E se tornou perigoso. Tenho que me precaver. Mas vou agir imediatamente!

Pedro Barros, com expressão feliz, sorveu um longo trago do charuto e levantou-se.

CORTA PARA:

CENA 4  -  CASA DO RANCHO CORAGEM  -  EXT.  -  NOITE.

Falcão não perdera tempo. Reuniu alguns de seus auxiliares e tomou rumo da casa dos Coragem. Era noite e as primeiras rãs coaxavam no riacho. As estrelas piscavam nas alturas. Sinhana foi á porta, atraída pelo tropel que se aproximava.


SINHANA  -  Jerônimo!  É o delegado com os home dele! Vem cá, depressa!

O rapaz correu a atender a mãe. Olhou pelo quadro da janela.


JERÔNIMO  -  Não abre, mãe. A gente vai recebê eles á bala! Cadê minha arma?

SINHANA  -  João levô.  Levô tudo quanto era arma desta casa para a gruna!

A voz  do delegado feriu o silencio do rancho.

DELEGADO FALCÃO  -  João Coragem! Você está aí?

Sinhana apareceu á janela, protegida pela escuridão.

SINHANA  -  É melhor falá com ele que João num tá aqui.

JERÔNIMO  -  E eu vou perdê a oportunidade de mandá esse cara pras quintas dos inferno?

A velha decidiu abrir a porta.

Falcão avançou, com dois soldados de escolta.


JERÔNIMO  -  (destemido)  Pode ir dando o fora!  Meu irmão num tá aqui e ninguém vai aguentá de novo a sua cara. Trata de ir se mandano!

DELEGADO FALCÃO  -  (conteve a ira e falou, pausadamente)  É pena, mas vocês vão ter de aguentar a minha cara e a dos meus homens, até João decidir a se entregar.

JERÔNIMO  -  João num tá aqui!  Acho que é besteira procurá ele.

SINHANA  -  Meu filho num tá mentino. João foi trabalhá na gruna. E lhe deixô um recado.

DELEGADO FALCÃO  -  (sorriu com a notícia)  Ah, está na gruna, hem! Na gruna...

JERÔNIMO  -  É. Na gruna, sim, e não adianta ninguém ir lá pra pegá ele. Mandô avisá que tá armado e vai lhe recebê á bala... Coisa que eu devia fazê... se ele não tivesse levado todas as armas que existiam nesta casa.  (apontou o dedo para a entrada)  Agora, vai dando o fora!

DELEGADO FALCÃO  -  Vá devagar, Jerônimo.  Vá devagar...

SINHANA  -  É isso mesmo, filho. Bota esse cara no ôlho da rua. Ninguém aqui tá disposto a aguentá a cara dele.

Com ar desconfiado, Falcão afastou-se. Fez sinal aos homens para que o seguissem. Os cavalos partiram em trote ligeiro.

FIM DO CAPÍTULO  64
Sinhana recebe Falcão, que veio à procura de João

E NO PRÓXIMO CAPÍTULO...

*** NA GRUNA, JOÃO, ACUADO, DESAFIA FALCÃO E SEUS HOMENS A ENTRAREM, SE QUISEREM LEVAR CHUMBO!

*** LARA CHEGA AO RIO DE JANEIRO PARA SE TRATAR COM O DR. RAFAEL.


NÃO PERCA O CAPÍTULO 65 DE