segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O HOMEM QUE DEVE MORRER - Capítulo 103


Novela de Janete Clair

Adaptação de Toni Figueira

CAPÍTULO 103

Participam deste capítulo

Cyro  -  Tarcisio Meira
Prof. Valdez  -  Enio Santos
Ricardo  -  Edney Giovenazzi
Naná  - 
Baby  -  Claudio Cavalcanti
Inês  -  Betty Faria
Cesário  -  Carlos Eduardo Dolabella
Coice de Mula  -  Dary Reis
Otto  -  Jardel Filho
Catarina  -  Lidia Mattos
Lia  -  Arlete Sales
Paulus  -  Emiliano Queiroz


CENA 1  -  CASA DE DONA BÁRBARA  -  SALA  -  INTERIOR  -  DIA

O PROFESSOR VALDEZ AJEITOU OS ÓCULOS E SE CONCENTROU NA NOTÍCIA QUE OCUPAVA TRÊS COLUNAS DO JORNAL.

PROF. VALDEZ  -  (leu em voz alta) “Esposa de eminente figura de nossa sociedade aparece após muitos anos de ausência. Esposa legítima do Comendador Augusto Liberato vai reclamar na Justiça direitos sobre a fortuna Liberato.” Mas... o que é isso?

RICARDO  -  Um escândalo atingindo Baby. Escândalo que poderá ter sérias consequências.

PROF. VALDEZ  -  São declarações do prefeito!

RICARDO  -  Exato. Declarações de Otto Muller.

PROF. VALDEZ  -   Elisa Liberato ou Naná, do cabaré de Porto Azul, é a mãe verdadeira de Baby Liberato! Mas onde se viu? Onde se viu coisa assim?! Isto vai ser um choque para o Baby!

CORTA PARA:

CENA 2  -  MANSÃO DE OTTO MULLER  -  SALA  -  INTERIOR  -  DIA

NA MANSÃO DOS MULLER, OTTO SORRIA, AO LADO DA MÃE, DE PAULUS E DE LIA.

OTTO  -  É o que devia ter sido feito há muito tempo. Meu beijo, mamãe... Tou bonito, hoje?

CATARINA  -  Otto, você está certo de que esse escândalo vai ajudá-lo? Afinal de contas... nós também podemos ser atingidos...

OTTO  -  Por quê? Não podemos ser culpados pelos erros de titia Elisa!

CATARINA  -  Nossa família! Nosso nome!

OTTO  -  Vamos lamentar, vamos nos aborrecer muito... mas isto precisava ser feito mamãe!

FOI COM ESPANTO QUE TODOS OS OLHOS SE MOVERAM PARA A PORTA DE ENTRADA E PARA A MULHER QUE, EMPURRANDO COM BRUTALIDADE A CRIADA, ENTROU PELA CASA ADENTRO. ERA NANÁ.

A MULHER PARECIA INTEIRAMENTE TRANSTORNADA E SE DIRIGIU A OTTO MULLER, ATIRANDO-LHE O JORNAL NA CARA.

NANÁ  -  Olha aqui, seu careca sem-vergonha! Eu vim te dizer que isto não me mete medo! Você não pense que pode fazer o que pretende contra meu filho!

OTTO  -  Seu filho vai morrer de vergonha quando ler este jornal!

NANÁ  -  Ele pode morrer de vergonha, mas você não vai conseguir o que pretende, está me ouvindo?

OTTO  -  Vou mandar fechar seu cabaré!

NANÁ  -  Você desconhece que existe lei e que um simples desejo do prefeito não pode resolver nada? Feche, se puder. Mas de mim você não vai conseguir nada!

E QUANDO A MULHER AMEAÇOU AVANÇAR CONTRA O HOMENZARRÃO, OTTO ESCONDEU-SE, AMEDRONTADO, POR TRÁS DA MÃE, AGARRANDO-LHE O BRAÇO COM NERVOSISMO. DAVA SALTINHOS HISTÉRICOS.

OTTO  -  Faça essa mulher sair daqui!

CORTA PARA:

CENA 3  -  CASA DE BABY E INÊS  -  SALA  -  INTERIOR  -  NOITE.

JÁ ERA NOITE FECHADA QUANDO RICARDO ALCANÇOU A PORTA DA MODESTA RESIDENCIA DE BABY E INÊS. SEM MUITA CONVERSA, O ENGENHEIRO ENTREGOU O JORNAL ABERTO AO RAPAZ.

BABY  -  O que é?

RICARDO  -  Leia. Vai entender.

À MEDIDA QUE TOMAVA CONHECIMENTO DA MATÉRIA, AS FEIÇÕES DE BABY SE TRANSTORNAVAM. ERAM AGORA AS DE UM HOMEM ENVELHECIDO E ANGUSTIADO.

BABY  -  Como... é possível? O que é isso?! É a revelação de tudo... de toda a minha vida. A verdade sobre... sobre Naná!

INÊS ESPANTOU-SE VENDO A TRANSFORMAÇÃO DO MARIDO.

INÊS  -  Gente... o que foi?!

BABY  -  Aquele vigarista! Eu disse a você, Inês... e não me enganei. Veja isto aqui. Declarações de minha... minha mãe, imagine!

INÊS  -  O que é que ela diz, Leandro?

BABY  -  Que voltou e vai reclamar na Justiça seus direitos sobre a fortuna Liberato! Era isso o que ela queria, viu? Agora está se mostrando! Botou as garras de fora! E você, muito penalizada, ainda achava que eu estava sendo cruel com a coitadinha!

INÊS  -  Não acredite nisso, Leandro! Não pode ser! Sua mãe não faria isso com você. Ela nunca demonstrou interesse por dinheiro.

BABY  -  (bateu com a mão espalmada na folha de jornal) Mas está aqui, não está? Revelações dela!

RICARDO  -  Baby, sou seu amigo e você sabe disso. Não quero defender ninguém, mas... como podemos afirmar que essas declarações foram dadas por sua mãe? Os jornais estão à procura de sensacionalismo. Infelizmente, há uma parte da imprensa que lida com essas coisas... essa espécie de matéria desagradável. Só o escândalo tem valor para esse tipo de jornal. Não é toda a imprensa... reconheça. Você se recorda que Cyro foi vítima de uma campanha igual. E veja as declarações... são também de Otto Muller. Isto já é um voto de descrédito na validade de qualquer reportagem.

INÊS  -  Dr. Ricardo tem razão, Leandro. Não faça juízo precipitado à primeira vista. A gente tem de saber das coisas antes de tudo. Ter certeza se Dona Naná disse mesmo isso.

BABY  -  Diz aqui que ela vai embargar a posse dos bens que doei aos meus companheiros....

INÊS  -  Não acredite, Leandro!Ela não está pensando em fazer isso, te garanto!

CORTA PARA:
Pé-na-Cova (Antonio Pitanga), Das Dores (Ruth de Souza) e Cesário (Carlos Eduardo Dolabella)

CENA 4  -  VILA DOS PESCADORES  -  CHOUPANA DE CYRO  -  INTERIOR  -  DIA

CYRO  -  Está mais calma?

NANÁ  -  Estou.

NANÁ AINDA NÃO SE RECUPERARA DO ABALO QUE A NOTÍCIA HAVIA LHE PRODUZIDO. E PROCURARA CYRO VALDEZ PARA SER O PORTADOR DE TODA A VERDADE AO FILHO.

NANÁ  -  Vou esperar que ele me procure. E se for necessário... eu estarei disposta a dar minha autorização em qualquer momento que necessitar.

CYRO  -  (apertando-lhe as mãos) Eu direi a ele, sim.

NANÁ  -  (visivelmente emocionada, os olhos lacrimosos) Só quero... que ele me procure. Que ele mesmo me peça isso. Não é por nada... é um prazer que eu quero ter... de ajudar a meu filho... pessoalmente, de alguma forma.

CYRO  -  Vá tranquila, eu direi.

CORTA PARA:

CENA 5  -  PORTO AZUL  -  CABARÉ  -  INTERIOR  -  NOITE

O MOVIMENTO NO CABARÉ ERA INTENSO ÀQIELA HORA, QUANDO A TARDE CAÍA SOBRE PORTO AZUL. VÁRIOS CARROS DE REPORTAGEM ESTAVAM ESTACIONADOS DE UM LADO E OUTRO DA RUA LARGA, SOMBREADA PELOS ARVOREDOS.

DEBRUÇADO NO BALCÃO, CESÁRIO BEBIA SÔFREGAMENTE, ENQUANTO OS REPÓRTERES ASSEDIAVAM A DONA DO CABARÉ.

REPÓRTER 1  -  Uma palavra para o Jornal da Tarde, Dona Naná. A senhora é mesmo a mãe de Baby Liberato?

REPÓRTER  -  2  -  Vai reclamar a herança na Justiça?

REPÓRTER 1  -  Há quanto tempo estava ausente?

REPÓRTER  3  -  Que pretende fazer com tanto dinheiro?

REPÓRTER  2  -  Vai montar uma rede de cabarés?

REPÓRTER  1  -  Onde morou durante todo esse tempo?

REPÓRTER  2  -  Qual é o seu nome verdadeiro?

REPÓRTER 3  -  Onde es...

NANÁ  -  (explodiu, enfurecida, face vermelha, olhos arregalados) Chega! Eu não vou reclamar nada... não vou montar prostíbulos... nem chamar vagabundas para trabalhar comigo. Nada. Por que não me deixam em paz?Eu não tenho nada a dizer. E agora, sumam todos daqui! Sumam!

COM ENERGIA, NANÁ FOI EMPURRANDO OS JORNALISTAS PARA FORA DO ESTABELECIMENTO. OS FOTÓGRAFOS BATIAM CHAPAS APROVEITANDO O INCIDENTE QUE FARIA, COM CERTEZA, A MANCHETE DO DIA SEGUINTE. VENDA GARANTIDA DE TODA A EDIÇÃO.

CESÁRIO PERCEBEU A PRESENÇA DE COICE DE MULA AO SEU LADO E COMPLETOU A DOSE QUE IA PELA METADE.

CESÁRIO  -  Ahhh!

COICE DE MULA  -  Que é que foi, rapaz?

CESÁRIO  -  Estava te esperando. Preciso de você, meu amigão (e apertou o braço musculoso do capataz das minas) Você é ou não é meu amigão?

VALTER CARPINELLI PENSOU UM POUCO, ANTES DE RESPONDER. NÃO ATINAVA COM AS RAZÕES QUE TINHAM LEVADO CESÁRIO A CHAMÁ-LO E A SE MOSTRAR TÃO ESQUISITO.

COICE DE MULA  -  Sou, sou... mas quero saber que bicho te mordeu. Dizem que tu anda fazendo bobagens por aí...

CESÁRIO ARREGALOU OS OLHOS COMO SE VISSE UM FANTASMA. MOVEU A CABEÇA EM CÍRCULO POR TODO O RECINTO DO CABARÉ.

CESÁRIO  -  Válter... ela... aquela mulher anda me perseguindo!

COICE DE MULA  -  (em voz baixa) Quem?

CESÁRIO  -  Júlia! (Carpinelli espantou-se) Anda atrás de mim o tempo todo! Conhece meus passos, onde eu vou, ela está atrás! Aqui mesmo... ela deve estar por aí, me vigiando. Ali... ali está ela, Válter! (esticou o dedo, apontando um ponto na junção de duas paredes. Coice de Mula olhou. Não havia nada) Manda essa mulher embora daqui. Ela quer me matar, Válter! Quer me matar da mesma forma como morreu!

COICE DE MULA  -  Você está sofrendo da bola! Vamos sair daqui!

FIM DO CAPÍTULO 103

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