segunda-feira, 7 de julho de 2014

O HOMEM QUE DEVE MORRER - Capítulo 28


Novela de Janete Clair

Adaptação de Antonio Figueira

CAPÍTULO 28

Participam deste capítulo

Cyro – Tarcísio Meira
Ester  -  Gloria Menezes
Comendador Liberato  -  Macedo Neto
Baby  -  Claudio Cavalcanti
Tula  -  Lúcia Alves
Ricardo  -  Edney Giovenazzi
Orjana  -  Neusa Amaral
Paulus  -  Emiliano Queiróz
Júlia  -  Ida Gomes


CENA 1  -  PALACETE DO COMENDADOR LIBERATO  -  ESCRITÓRIO   -  INTERIOR  -  NOITE

A REUNIÃO SE PROLONGAVA. LIBERATO, RODEADO PELOS AMIGOS E ACIONISTAS, DISCUTIA ASPECTOS LEGAIS DE SEU AFASTAMENTO.

COMENDADOR LIBERATO  -  Tenho em mente uma preocupação fundamental: impedir o acesso de Otto à direção absoluta da Companhia. Seus métodos e temperamento são de conhecimento de toda a cidade. Otto Muller é classificado de louco, racista, prepotente, por grande parte das pessoas que o conhecem.

CORTA PARA:

CENA 2  -  PALACETE DO COMENDADOR LIBERATO  -  SALÃO  -  INTERIOR  -  NOITE

BABY CRUZOU O AMPLO SALÃO, SEGUIDO PELA FILHA DO ENGENHEIRO. TULA VESTIA UMA MINISSAIA ARROJADA, DANDO VISÃO ÀS SUAS COXAS ROLIÇAS, PROVOCANTES.

BABY  -  Vamos alegrar isso. Parece um velório.

ABRIU A ESTANTE DE DISCOS, SELECIONANDO UM GRUPO DE LPS DE MÚSICA MODERNA.

TULA  -  Você largou os estudos?

BABY  - Larguei a faculdade.

TULA  -  Não ia seguir arquitetura?

BABY  -  Ia, mas me enchi.

TULA ESCOLHEU UM DISCO E O ENTREGOU AO MILIONÁRIO. BABY COLOCOU-O NA VITROLA. O SOM ALEGROU O AMBIENTE. BABY PUXOU-A PARA DANÇAR.

TULA  -  Devia ter continuado a estudar.

BABY  -  Pra quê?

TULA  -  Me lembro quando você ainda estava no ginásio. Eu era garotinha, 10 anos. Uma vez, gamei doidamente por você. Se lembra?

DANÇAVAM UNIDOS.

BABY  -  Me lembro de você, magricela, dentuça. Não sabia que tinha se apaixonado por mim.

TULA  -  (apertou-se mais ao corpo do parceiro, estreitando-se em seus braços) Pois tinha. Sonhei com você muitas noites. Foi meu primeiro amor de infância.

BABY  -  E depois?

TULA  -  Você ficou muito antipático. Um dia olhou para mim, reparou no aparelho que eu trazia nos dentes, riu muito e disse: parece mordaça de cachorro! Aí eu me desiludi.

BABY  -  (riu gostosamente) A mordaça até que deu certo, hem, Tula? Você deixou de ser dentuça. Ficou uma garota pra lá de linda...

TULA  -  Você tem namorada firme?

BABY  -  Tenho. Várias. Agora, vou ter muito mais!

TULA  -  Por quê?

BABY  -  Ué? Sou o presidente da Companhia Carbonífera de Valongo! Vai ter mulher assim, atrás de mim!

TULA  -  (sorriu) Convencido!

VIU A ALGUNS METROS A FIGURA ELEGANTE DE CYRO VALDEZ.

TULA  -  (procurou atiçar o ciúme do rapaz) Homem bacana é aquele... (moveu o queixo no sentido do médico) Sério, cem por cento, mesmo.

BABY  -  (agastado) Sabe que ele pode ser seu irmão?

TULA  -  (fitou-o, espantada) Tá maluco, Baby?

BABY  -  No duro. Tou brincando, não. Dizem que ele veio de outro mundo... mas eu acho que quem tem de explicar direito essa história é seu pai!

TULA  -  (parou de dançar) Meu pai?

BABY  -  Foi noivo da mãe dele. Na hora H, tirou o corpo fora. Nove meses depois, ele nasceu!

TULA  -  Mentira sua!

BABY  -  Pergunta a ele... ou a quem quiser, garota. Eu não minto. Já ouvi dizer muita coisa dos dois. Olha só pro jeito deles...

ORJANA SEGURAVA AS MÃOS DO DR. RICARDO, ENQUANTO OS OLHOS DO ENGENHEIRO BUSCAVAM-NA, REFLETINDO UM SENTIMENTO PROFUNDO.

ORJANA  -  Que bom, Ricardo! Posso dizer ao meu filho que você dá o lugar para a mocinha?

RICARDO  -  Mas claro, Orjana. É um prazer servir de alguma forma a você e ao Cyro.

ORJANA  -  Ele me pediu hoje para arranjar trabalho para a moça...

RICARDO  -  Chegou a tempo. Por coincidência estamos precisando de uma governanta para o meu caçulinha.

OS OLHOS DE TULA ENFOCAVAM A CONVERSA ÍNTIMA E AS MÃOS AINDA ENTRELAÇADAS DO PAI E DA ELEGANTE MÃE DO MÉDICO.

ORJANA  -  (chamou o filho) Cyro!

O MÉDICO APROXIMOU-SE.

ORJANA  -  Aquele emprego que você me pediu para a filha do pescador... Por coincidência, Ricardo precisa de uma governanta para o caçula.

CYRO  -  (os olhos brilhando de satisfação) Ótimo. Vai ser muito bom para a moça.

RICARDO  -  Você não está falando de Inês! Filha do Mestre Jonas!

CYRO  -  (com uma ruga de preocupação) Dela mesma!

RICARDO  -  Ora, mas eu conheço muito aquela garota. Por sinal que... (olhou para Baby, ainda em conversa com a filha) Bem... isto não é da minha conta.

CYRO  -  Sei o que está pensando. Eu me responsabilizo por ela.

RICARDO  -  Certo. Confio em você. Mas francamente me espanta que sendo quem é... se preocupe com problemas dessa natureza!

CYRO  -  (estranhou as palavras do engenheiro) Sendo quem sou?

RICARDO  -  Um médico ilustre... um cientista!

CYRO  -  (modificou o tom, levemente irritado) Mas, sou gente, Dr. Ricardo. Ou o senhor acredita que eu não seja deste mundo?

RICARDO  -  Cyro... eu não quis dizer isto!

CYRO  -  Penso que o senhor é a única pessoa que não pode acreditar que eu vim de outro planeta!

ORJANA  -  Cyro!

CYRO  -  Bem... acho que já está um pouco tarde... Vamos embora, mamãe. Vou me despedir do comendador. Com licença.

CYRO AFASTOU-SE.

RICARDO  -  (emocionara-se com a acusação velada do rapaz) Você acha que ele pensa que... enfim... O que foi que você disse a ele?

ORJANA  -  Eu nunca disse coisa alguma!

RICARDO  -  Você não pode me acusar!

ORJANA  -  (olhou-o com frieza) Pode dormir tranquilo.

CYRO ALCANÇOU ESTER, QUE CONVERSAVA COM O DR. PAULUS.  O ADVOGADO DE OTTO FAZIA AMEAÇAS, LEMBRANDO-LHE O PASSADO TRÁGICO. ESTER RECUSAVA SEU CONVITE PARA DEIXÁ-LA EM CASA.

CYRO  -  Vamos, Dona Ester! (a voz do médico desconcertou o homem) Eu levo a senhora até sua casa.

UM CONFLITO SE ESTABELECEU NO CÉREBRO DE ESTER. TINHA DE ACEITAR A PROPOSTA DO ADVOGADO.

ESTER  -  Agradeço, Dr. Cyro, mas o Dr. Paulus se comprometeu com Otto a nos levar.

SEU TOM ERA HESITANTE E O MÉDICO PERCEBEU.

CORTA PARA:
Ester (Gloria Menezes) e Júlia (Ida Gomes)
CENA 3  -  MANSÃO DE OTTO MULLER  -  QUARTO DE ESTER  -  INTERIOR  -  NOITE

ESTER VESTIA LEVE E TRANSPARENTE CAMISOLA DE NOITE, COR-DE-ROSA, E SE SENTOU DIANTE DE SUA ESCRIVANINHA. ABRIU UMA DAS GAVETAS, COM UMA PEQUENA CHAVE PRATEADA. DO FUNDO, RETIROU UM MAÇO DE RECORTES DE JORNAIS, AMARELADOS PELO TEMPO. RELEU ALGUNS DELES, COLOCANDO-OS SOBRE A MESINHA. A FOTO DE UM BELO RAPAZ SE DESTACAVA, SOB A MANCHETE TRÁGICA: “AVIADOR APARECE MISTERIOSAMENTE ASSASSINADO”. MAIS EMBAIXO, A MANCHETINHA EXPLICATIVA: “OTÁVIO SALES, PILOTO PARTICULAR DO INDUSTRIAL CATARINENSE OTTO MULLER ENCONTRADO MORTO NA FAZENDA DO MILIONÁRIO”.

ESTER LIA EM VOZ ALTA, QUANDO JÚLIA, TAMBÉM EM TRAJES DE DORMIR, ENTROU NO QUARTO.

JÚLIA  -  Por que está revivendo isso?

ESTER  -  Estou procurando armas... e ao mesmo tempo vendo se adquiro coragem para lançar um desafio definitivo a Otto.

JÚLIA  -  Vai se arriscar. As armas podem voltar-se contra a senhora mesma.

ESTER  -  Eu sei, mas vou arriscar... tenho de arriscar, entende?

JÚLIA  -    Pense bem. Como vai se defender, perante o próprio Dr. Cyro?

ESTER  -  (ergueu-se, nervosa) Mas... eu não tive culpa, Júlia. Você sabe que eu não tive culpa!

JÚLIA  -  Quem lhe garante que o Dr. Cyro, e mesmo a justiça... acreditem nas suas palavras? (pegou nos recortes atirados sobre a mesa) Isto aqui... não prova nada contra o Senhor Otto... e ele pode desmentir tudo que disser contra ele. (dobrou cuidadosamente os papéis tornando a guardá-los no fundo da gaveta) Como vai provar que não teve culpa? Que defesa a senhora tem? Nenhuma.

ESTER  -  Paulus. Paulus é a única pessoa no mundo que pode me ajudar.

JÚLIA  -  Mas não vai ajudar, Dona Ester. Paulus só a ajudará em seu interesse próprio e ele a ama (fechou a gaveta e entregou a chave à patroa) Não vai dar a senhora de mão beijada para o rival...

ESTER  -  Você tem razão. E você pode me ajudar...

JÚLIA  -  Eu nada vi, nada sei, a não ser o que ouvi de sua boca. Posso ter minhas dúvidas quanto à verdade dos fatos...

ESTER  -  (gritou) Você sempre acreditou!

JÚLIA  -  (com frieza) Posso duvidar ás vezes, não posso? O que me garante que sua história seja verdadeira?

ESTER  -  (revoltou-se com a franqueza da secretária) Júlia, você não está querendo dizer que...

JÚLIA  -  (cortou, com autoridade incomum) Estou querendo dizer que a senhora não deve usar este caso como arma para se livrar do Senhor Otto. É perigoso, porque não há provas a seu favor. Entenda isso de uma vez por todas! E não se arrisque.

ESTER  -  (não escondia sua irritação) O que você me aconselha? A cruzar os braços e aceitar conformada a situação?

JÚLIA  -  Antes de conhecer esse médico... estava conformada!

ESTER  -  Nunca estive!

JÚLIA  -  É esse homem que está atrapalhando seu juízo. Vai fazer um grande bem a ele e a si mesma, se se afastar de sua vida.

O PENSAMENTO DE ESTER LIGOU-SE ÀS PALAVRAS DE CYRO, AO SEU COMPORTAMENTO DISCRETO DIANTE DOS FAMILIARES DE OTTO. TUDO LHE RECOMENDAVA LUTA. LUTA. UM DIA PODERIA LIBERTAR-SE DO PASSADO E BUSCAR A FELICIDADE COM O HOMEM A QUEM AMAVA.

FIM DO CAPÍTULO 28



... e na próxima quinta, capítulo inédito!

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