quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O HOMEM QUE DEVE MORRER - Capítulo 74


Novela de Janete Clair

Adaptação de Toni Figueira

CAPÍTULO 74

Participam deste capítulo

Comendador Liberato  -  Macedo Netto
Inês  -   Betty Faria
Enfermeira Dirce  -  Sônia Ferreira
Conceição  -  Zeni Pereira


CENA 1  -  PALACETE DO COMENDADOR LIBERATO  -  ESCRITÓRIO  -  INTERIOR  -  DIA

INÊS AGUARDAVA UMA OCASIÃO PARA REPOR A CARTA NA ESCRIVANINHA DO COMENDADOR. A CURIOSIDADE A LEVARA A ABRIR O MÓVEL E ROUBAR O PAPEL QUE, HÁ ANOS, AUGUSTO LIBERATO MANTINHA GUARDADO A SETE CHAVES.

INÊS ABRIU A PESADA PORTA DE MADEIRA. O CORAÇÃO A BATER AGITADO. PÉ ANTE PÉ ENTROU NO APOSENTO. VIU A GRANDE MESA DE PÉS MACIÇOS E AS ESTANTES LATERAIS. O AMBIENTE DE TOTAL ESCURIDÃO. TINHA DE ABRIR A GAVETA E JOGAR O ENVELOPE DENTRO, OU PELO MENOS ENFIÁ-LO PELA FRESTA E COM UM LEVE EMPURRÃO ATIRÁ-LO AO FUNDO DO MÓVEL. PREFERIU ABRIR A GAVETA. SABIA ONDE ENCONTRAR A CHAVE E – QUEM SABE? – DISPORIA DE TEMPO PARA LER OUTRA CARTA. ELAS REVELAVAM TODA A VERDADE SOBRE A VIDA DO COMENDADOR E DO MARIDO, BABY.

LEMBROU-SE DA MUDANÇA OPERADA NO RAPAZ. AGORA, MAIS AMIGO, BONDOSO E DEDICANDO UM POUCO DE SUA EXISTÊNCIA À MULHER. PELO MENOS JÁ A CONVIDAVA PARA SAIR E ALGUMAS VEZES PROCURAVA-A À NOITE. AS MÃOS DE BABY! OS SEUS LÁBIOS! PENSAVA EM TUDO ISSO QUANDO A PORTA SE ABRIU E UM FOCO DE LUZ ILUMINOU O ESCRITÓRIO DO MILIONÁRIO. INÊS SENTIU AS PERNAS BAMBAS E A FALA PRESA NO FUNDO DA GARGANTA. TENTOU FUGIR DALI, MAS O VELHO RETEVE-A PELO BRAÇO.

INÊS  -  (gaguejou) O senhor... me... desculpe! Eu vim só... guardar uma coisa... mas... já ia... embora... me deixa sair... por favor! (tremia da cabeça aos pés) Me deixa... sair!

COMENDADOR  -  Está nervosa, Inês?

INÊS  -  É claro! O senhor pode pensar mal de mim! Eu... eu não estou aqui... por nada!

COMENDADOR  -  Eu sei que você está aqui por curiosidade, mas pode pagar caro por isso, Inês...

O COMENDADOR SORRIU, ZOMBETEIRO, E FECHOU A PORTA À CHAVE.

INÊS  -  Comendador... espera aí... o senhor não pode fazer isso comigo! Me deixa sair, por favor!

COMENDADOR  -  Por quê? Está com medo de mim? Já que estamos aqui... só os dois... vamos conversar. Você tem fugido de mim nos últimos dias. Parece até que eu a ofendi. Eu não lhe disse nada por você ter entrado aqui, disse?

INÊS  -  Não, o senhor não disse. Mas parece que tá zangado comigo!

APONTANDO PARA A GAVETA, AINDA ABERTA, AUGUSTO LIBERATO LEMBROU À MOÇA.

COMENDADOR  -  Aqui existia um segredo... que você desvendou. Não acha que deve pagar por isso? (juntou as cartas num pequeno monte, envolvendo-as com um elástico. Estava calmo, sem nervosismo) Não é verdade... que você desvendou?

INÊS  -  (pôs a mão na boca) Não pensei... que fosse tão horrível.

COMENDADOR  -  Afinal, você ficou sabendo que fui traído por minha mulher... e que ela teve um filho... que criei como se fosse meu!

INÊS  -  O que justifica muita coisa que tenho visto nesta casa...

COMENDADOR  -  Sim... Talvez justifique alguma coisa...

INÊS BUSCOU APOIO NA AMIZADE QUE O VELHO SEMPRE LHE DEMONSTRARA.

INÊS  -  Olha... o senhor me deixa ir embora. A gente fala depois... Leandro vai chegar aqui de repente... fica mal pro senhor. Sabe como ele é.

COMENDADOR  -  Não... ele não vai chegar aqui de repente. Foi não sei aonde. Vi os dois no carro... agarradinhos... cruzei com eles, na rua, quando vinha para cá. Ele gosta de Tula, você sabia? Não gosta de você... como eu gosto!

INÊS  -  (afastando-se do velho) Eu sei por que o senhor tá me dizendo isto! Eu sei! Agora, eu entendo tudo, viu? O senhor não gosta dele. Claro, não podia gostar. O senhor tem uma idéia, desde que ele nasceu! Tudo o que faz é pra castigar ele... pelo que a mãe dele fez! Ela não morreu... quando ele nasceu, não! Ela morreu só três meses depois. Li a carta. Pensa que não li? Ela escrevia pro cara, pai do menino.  Um estrangeiro... desconhecido.  Nome complicado. Alemão, parece... ou austríaco. Pedia socorro a ele. Tava com medo do senhor... tava sim, pensa que eu não sei? Ela morria de medo do senhor! Eu só quero dizer... que sei que o senhor não gosta do Leandro. E sempre mentiu pra ele que a mãe dele morreu de parto... Tudo o que faz é pra castigar o rapaz. Até a mim o senhor tem usado... pra castigar ele. Se me trancou aqui, no escritório... também é pra castigar ele!

HAVIA UM BRILHO MAU NOS OLHOS DO VELHO MILIONÁRIO. TODA A MALDADE DA JUVENTUDE PARECIA TER RETORNADO NUM SEGUNDO.

COMENDADOR  -  (sombrio e ofegante) Talvez não, Inês. Você é alguma coisa muito à parte. Alguma coisa diferente que aconteceu na minha vida sempre vazia. Independente de tudo... independente da aversão que eu sinto por ele... eu gosto de você. E não é pra castigar ninguém. Foi até muito bom você ficar sabendo de tudo. Porque assim, tem a certeza de que não estou cometendo nenhum crime... (encarou fundo os olhos da mulher à sua frente) quando digo que estou apaixonado por você! (aproximou-se lentamente da nora) Louco por você!

INÊS  -  (ameaçou, apavorada com a revelação) Se o senhor não abrir essa porta... eu grito!

LIBERATO NÃO TOMOU CONHECIMENTO E APERTOU O SEIO DA JOVEM, ENTRE AS MÃOS. PEQUENO E DURO. INÊS DESVENCILHOU-SE COM UM PULO.

COMENDADOR -  Não vou lhe fazer nada... mas queria que você soubesse...

INÊS  -  Eu grito!

COMENDADOR  -  Não tenho culpa. Aconteceu... e eu não pude me proteger. Foi a única coisa boa que aconteceu comigo... em 25 anos de martírio.

INÊS  -  (implorou) Por favor! Me deixe sair.

COMENDADOR  -  Elisa me traiu... e eu a odiei. Encontrei em você... o que perdi com Elisa.

INÊS  -  Me deixa sair.

COMENDADOR  -  Não quero que me leve a mal... nem tenha medo de mim. Desejo apenas que saiba... que me perdi de amores por você. Doidamente.

INÊS CORREU À PORTA, BATENDO COM OS PUNHOS, FORTEMENTE.

INÊS  -  Vera! Zoraida! Vera! Zoraida!

CORTA PARA:
Inês (Betty Faria)

CENA 2  -  FLORIANÓPOLIS  -  PERIFERIA  -  CHOUPANA DE CONCEIÇÃO  -  INTERIOR  -  NOITE

A NEGRA CONCEIÇÃO ATIÇAVA O FOGO, QUANDO ALGUÉM BATEU À PORTA DA CHOUPANA.

CONCEIÇÃO  -  Ué, Dona Dirce! Que milagre foi esse? Entre.

AFASTOU O CORPO GORDO, PERMITINDO QUE A JOVEM ENTRASSE NA PEQUENA SALA DO CASEBRE. DIRCE PUXOU UM BANCO E SENTOU-SE.

CONCEIÇÃO  -  Já jantou?

DIRCE  -  Já. Obrigada. Soube que esteve doente. Melhorou?

CONCEIÇÃO  -  Num foi nada, não, moça. O que me faz falta é um pouco de paz. Um pouco de paz.

DIRCE  -  Talvez isto, Conceição... lhe traga um pouco de paz.

PUXOU UM ENVELOPE BRANCO, MEIO SUJO, DO FUNDO DA BOLSA, E ENTREGOU-O À VELHA ADMIRADA.

CONCEIÇÃO  -  O que é?

DIRCE  -  A certeza... de que seu filho não tinha mais do que alguns minutos de vida. A prova definitiva de que o Dr. Cyro Valdez é inocente!

A VELHA NÃO ENTENDERA BEM O SIGNIFICADO DE TUDO AQUILO. OLHOU O ENVELOPE E, ABRINDO-O MECANICAMENTE, RETIROU O ESTRANHO PAPEL COM TRAÇOS NEGROS SOBRE LINHAS CRUZADAS.

CONCEIÇÃO  -  A prova? Como? O que é isto, moça?

DIRCE  -  Os exames que desapareceram do cofre do hospital!

CONCEIÇÃO ARREGALOU OS OLHOS. MAL PODIA ACREDITAR NO QUE LHE REVELAVA A ENFERMEIRA.

CONCEIÇÃO  -  Os exames... o tal... do eletro?

DIRCE  -  É. O eletro... Conceição!

CONCEIÇÃO  -  Eu num entendo nada... mas vou levá pra quem entende, vê.

DIRCE  -  Leve pra quem você quiser, Conceição. E pode dizer que uma enfermeira sem sentimentos roubou estas provas, instigada por um repórter sem caráter, que queria incriminar o Dr. Cyro Valdez! (sentia-se sufocar à medida que se castigava pelo erro) Diga... também... que esse repórter não tinha interesse nela... só pretendia obrigá-la a cometer esse ato sujo. Diga ainda... que depois de tudo... ele a abandonou porque era casado e tinha filhos!

CONCEIÇÃO  -  Foi a senhora que... fez uma maldade dessas?

A JOVEM FEZ QUE SIM COM UM LEVE MOVIMENTO DE CABEÇA. COMEÇAVA A CHORAR, INCONTIDAMENTE. 

DIRCE  -  Fui eu... fui eu!

CONCEIÇÃO  -  Num pudia ter entregado isso, antes... daquelas coisas tudo acontecê?

DIRCE  -  Não esperava que acontecesse! E tinha medo de me comprometer! Nunca pensei que as coisas poderiam chegar aonde chegaram... Dr. Cyro desprezado por todos... Todo o futuro de um cientista jogado no lixo! O menino Ivanzinho morto... Conceição, eu precisava me aliviar... confessar a alguém, não envolvido nas tramas contra o Dr. Cyro Valdez , a verdade de tudo!  De nada adiantava revelar a verdade ao Senhor Otto e Dona Catarina. Eu contei tudo ao Dr. Paulus, mas preferiu me acusar de criminosa, para evitar que a verdade viesse limpar o nome manchado do Dr. Cyro. Agora, não importa mais nada. A senhora pode fazer o que quiser com estas provas. Leve pra polícia... leve para os médicos do hospital... leve para os jornais... Faça, faça o que desejar. E diga que fui eu que roubei!

CORTA PARA:

CENA 3  -  PALACETE DO COMENDADOR LIBERATO  -  ESCRITÓRIO  -  INTERIOR  -  NOITE

COMENDADOR  -  Não adianta você chamar. Não há ninguém em casa. Não precisa tremer de medo, nem ficar assustada. Eu vou abrir a porta e você vai sair calmamente.

RODOU A CHAVE NA FECHADURA E ABRIU A PORTA.

INÊS  -  Sei que o senhor não...

COMENDADOR  -  (cortou) Você ficou por dentro de um segredo da minha vida e eu não fiz nada para isso.

INÊS  -  Eu não digo a ninguém! Não conto a ninguém! Juro que, por mim, Leandro nunca vai saber que o senhor não é o pai dele... e odeia ele.

COMENDADOR  -  Não convém dizer a ele porque não posso amá-lo, como não é conveniente revelar que a mãe dele... não morreu... e pode encontrá-la, se quiser, em São Paulo, usando nome falso... um nome de guerra... desses vulgares... muito comuns no meio em que vive. É uma Margô, qualquer... ou Suzete... ou Naná...

INÊS ESTREMECIA, DE SURPRESA EM SURPRESA.

INÊS  -  A mãe dele? A mãe dele?

COMENDADOR  -  Prostituta!

INÊS  -  Se ele sabe disso.. ele... morre de desgosto!

COMENDADOR  -  Justamente, e é para ele não saber disso... é para ele não morrer de desgosto... que você vai abandoná-lo de uma vez. Porque eu quero, porque eu exijo. Porque se a mãe dele me fez sofrer... ele também não tem o direito de viver bem. Com ninguém. Tem de sofrer até o fim!

INÊS  -  (apavorada) Agora eu sei! Agora entendo tudo!

CALMO E FRIO, AUGUSTO LIBERATO TORNOU A FALAR. HAVIA ENERGIA REFREADA EM SUA VOZ E UM TOM AUTORITÁRIO DE QUEM SE ACOSTUMARA A MANDAR DURANTE TODA A VIDA.

COMENDADOR  -  Quero que você deixe esta casa hoje mesmo. E que nenhuma palavra dita aqui seja repetida a quem quer que seja. É a condição para não matar o Baby de desgosto... Ele tem de morrer aos poucos... lentamente... como a mãe dele fez comigo.

COMO UM SÁDICO LOUCO, O COMENDADOR FITOU UM PONTO VAGO NO CASARÃO, ENQUANTO INÊS CORRIA, SUBINDO A ESCADARIA DO PALACETE.  

FIM DO CAPÍTULO 74




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