sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O HOMEM QUE DEVE MORRER - Capítulo 78


Novela de Janete Clair

Adaptação de Toni Figueira

CAPÍTULO 78

Participam deste capítulo

Baby  -  Claudio Cavalcanti
André  -  Paulo José
Ricardo  -  Edney Giovenazzi
Daniel  -  Paulo Araújo
Pé-na-Cova  -  Antonio Pitanga
Pedrão  -  Waldir Onofre
Cesário  -  Carlos Eduardo Dolabella
Otto  -  Jardel Filho
Comendador Liberato  -  Macedo Neto


CENA 1 -  VALONGO  -  MINAS  -  GALERIA M-13  -  INTERIOR  -  DIA

BABY  -  Temos de mandar dinamitar este pedaço para aprofundar mais a galeria e aproveitarmos melhor o veio de carvão. Como está, não dá mais nada!

BABY ABRIRA O MAPA DAS GALERIAS INTERNAS E MOSTRAVA UM PEQUENO TRECHO, COM O INDICADOR.

ANDRÉ  -  E o que tenho de fazer?

BABY  -  Me traga 3 dinamitadores. Vá. Espero aqui.

BABY LIBERATO RETIROU A PEQUENA GARRAFA DE UÍSQUE DO BOLSO TRASEIRO E ENGOLIU UMA DOSE DA BEBIDA. SENTIU A GARGANTA ARDER E A CABEÇA RODAR.

CORTA PARA:

CENA 2  -  ADMINISTRAÇÃO DAS MINAS  -  ESCRITÓRIO  -  INTERIOR  -  DIA

ANDRÉ SUBIU, ATRAVESSANDO TRÊS ETAPAS DE GALERIAS E CORREU AO ESCRITÓRIO. LÁ ESTAVA O HOMEM COM QUEM DESEJAVA FALAR. RICARDO, O ENGENHEIRO.

ANDRÉ  -  Baby está na galeria M-13.

RICARDO  -  Sozinho?

ANDRÉ  -  Não. Com três dinamitadores. Ele deu ordem para dinamitar aquele trecho e aprofundar mais a galeria.

RICARDO  -  (empalideceu) Aquele trecho? Vá até lá e diga a Baby que  ele  não  pode  dinamitar  aquela  área.  Por  ali passa um rio subterrâneo e é perigoso. É preciso ter muito cuidado. Nós temos de abandonar aquela galeria. Vamos abrir outra, indo pelo lado contrário.

ANDRÉ  -  Por que não vai dizer isso a ele?

RICARDO  -  Porque estou inspecionando outro trabalho importante. Vá você até lá e repita a ele minhas palavras. Entendido?

ANDRÉ  -  Entendido, sim senhor.

CORTA PARA:

CENA 3  -  MINAS  -  GALERIA M-3  -  INTERIOR  -  DIA

ANDRÉ VIU BABY DANDO ORDENS AOS TRÊS ESPECIALISTAS EM DINAMITAÇÃO. NOTOU A EMBRIAGUEZ DO CHEFE.

ANDRÉ -  Deve parar com isso, Seu Baby. Dr. Ricardo mandou lhe dizer que é perigoso. Por aqui passa o rio subterrâneo e vai inundar as galerias.

BABY  -  (irritou-se com a intromissão) Dr. Ricardo não sabe nada! Manda o Dr. Ricardo às favas! (virou-se para os homens, nus da cintura para cima) Continuem! Eu é que dou as ordens.

UM DOS HOMENS ERGUEU O CORPO E OS DEMAIS O IMITARAM. BABY FAREJOU QUALQUER COISA NO AR.

BABY  -  Por que pararam?

OS HOMENS DEPOSITAVAM INTEIRA CONFIANÇA NO ENGENHEIRO E TINHAM OUVIDO A ADVERTÊNCIA.

HOMEM 1  -  Disculpe, patrão! (e falando para os outros) A gente num vai fazê burrada!

BABY PERDEU A COMPOSTURA E A DIGNIDADE DE EMPREGADOR. INVESTIU CONTRA OS OPERÁRIOS.

BABY  -  Seus idiotas! Ninguém vai dinamitar isto aqui em hora de trabalho! Vamos esperar terminar o expediente.

ANDRÉ  -  Desculpe, patrão. Eles tem razão. Sem ordem do engenheiro, acho loucura continuar!

BABY  -  Tá bem! Tá bem! Vão embora! Sumam daqui! Eu não preciso da ajuda de vocês! Sumam! Vamos!

OS DINAMITADORES LARGARAM OS CARTUCHOS E FERRAMENTAS NO CHÃO NEGRO DA GALERIA E AFASTARAM-SE PELO CORREDOR ESTREITO. ANDRÉ SEGUIU-OS, DEIXANDO BABY SOZINHO.

BABY  -  (olhou o relógio de pulso) Ainda há tempo... tenho duas horas... duas horas de sobra... duas horas de espera... de pensamento... de recordação... e de torturas. Quando todo mundo sair... quando não restar mais nenhum mineiro aqui dentro... eu acendo o estopim. Tudo estará terminado... para sempre! (enquanto pensava alto, trabalhava com rapidez – cortou os fios de ligação e instalou as bananas em diversos setores da galeria) Eu espero... esperei tanto tempo... duas horas passam depressa. Ouço daqui a sirene...os empregados vão embora... eles pensam que eu saí e eu finjo que saio com eles. Quando não tiver mais ninguém, eu volto... e acabo com tudo... e até com as recordações. Adeus, Baby Liberato, filhinho de papai rico.   Adeus,   desmiolado,   inconseqüente.  Não...  não  sou  tão inconseqüente assim. Se fosse... não ia esperar a sirene tocar... para ficar sozinho... e me enterrar sozinho... aqui.

TINHA ACABADO DE INSTALAR O EXPLOSIVO E SENTARA-SE SOBRE O CARVÃO ENDURECIDO. TORNOU A OLHAR O RELÓGIO. PUXOU A GARRAFA DO BOLSO E ENTORNOU OUTRO GOLE DA BEBIDA. LIMPOU OS LÁBIOS COM O DORSO DE MÃO SUJA.

UMA HORA TINHA-SE PASSADO. BABY DORMIA ESCONDIDO ENTRE DUAS VIGAS DE AMPARO, ENCOLHIDO SOBRE O CHÃO ENEGRECIDO DE MINÉRIO. A GARRAFA CONTINUAVA PRESA À MÃO. ABRIU OS OLHOS E TORNOU A BEBER UM POUCO MAIS. QUASE VAZIA!

O RELÓGIO A CENTÍMETROS DOS OLHOS DAVA-LHE NOÇÃO DO TEMPO.

BABY  -  Ainda tenho uma hora. Uma hora...

CORTA PARA:


CENA 4  -  MINAS  -  GALERIA M-3  -  INTERIOR  -  DIA

DE REPENTE O RAPAZ DESPERTOU COM O ZUMBIDO ESQUISITO. VIU, APAVORADO, O PASSEIO DO FOGO EM DIREÇÃO ÀS BANANAS DE DINAMITE. ALGO TINHA ACONTECIDO. BABY LEVANTOU-SE DE UM SALTO. O CHEIRO DE PÓLVORA ENCHIA TODA A GALERIA. TENTOU APAGAR O ESTOPIM COM O PÉ. SONOLENTO E MEIO BÊBADO, TINHA OS MOVIMENTOS LENTOS. O FOGO CONTINUAVA SEU TRAJETO NA DIREÇÃO DA MORTE. OLHOU O RELÓGIO.

BABY  -  Hora de expediente! Os trabalhadores! (correu a gritar pelas   galerias)   Cuidado!   Vai  explodir!   Todos   para  fora!  Vai explodir! (a voz ecoava por entre túneis e recantos) A câmara 20 vai explodir!

BABY ENTROU PELA GALERIA PRINCIPAL APINHADA DE OPERÁRIOS. OS MINEIROS IMOBILIZARAM-SE ANTE A ADVERTÊNCIA DO CHEFE.

DANIEL PERCEBEU O DESESPÊRO DO CUNHADO PUXOU-O PELO BRAÇO.

DANIEL  -  Se assusta assim, não. Só explode o trecho da câmara 20. A gente aqui não tem nada com isso!

BABY  -  (atônito) Não! O trecho está todo condenado! Podem explodir outras galerias! Tem gente na câmara 18! Na 19! Eles correm o maior perigo!

PEDRÃO  -  (berrou, alto e forte) Toca o alarme, gente!

DANIEL  -  Vamo avisá o pessoal das outras câmara! 18 e 19! Correm perigo!

MARTINS VIBROU O ALARME, ENSURDECENDO OS MAIS PRÓXIMOS. O TEMPO ESCOAVA. BABY CORRIA DE UM LADO PARA OUTRO.

PÉ-NA-COVA E DANIEL ALCANÇARAM A ENTRADA DAS GALERIAS CONDENADAS ONDE SEIS HOMENS TRABALHAVAM DESATENTOS AO SINAL.

PÉ-NA-COVA  -  Não tão ouvindo o alarme? Sai todo mundo!

OS MINEIROS ATIRARAM AS PÁS E PICARETAS NO CHÃO E SE PREPARARAM PARA SAIR. TUDO ACONTECEU COMO SE UM TERREMOTO ABALASSE O SOLO, REDUZINDO-O A FRANGALHOS.

TONELADAS DE CARVÃO DE PEDRA ROLARAM PELAS GALERIAS ENQUANTO A POEIRA ENEGRECEU O AMBIENTE, E UM BARULHO INFERNAL DAVA A IDÉIA DE QUE O MUNDO TINHA VINDO ABAIXO.

BABY  -  (gritava, fora de si) Os homens! Os homens estão lá!

O PÂNICO GENERALIZARA-SE NO SUBSOLO.

PEDRÃO  -  (as costas lanhadas e negras de pó de carvão) Vamos pedir socorro!

COMO UM FORMIGUEIRO ENTUPIDO DE FUMAÇA, A BOCA DA MINA EXPELIA PÓ PRETO E DEZENAS DE HOMENS SAÍAM, EM DESESPÊRO, ATIRANDO-SE NA VEGETAÇÃO DA PRAÇA. ALGUNS CEGOS DE POEIRA, OUTROS SURDOS PELA REPETIÇÃO SONORA DA EXPLOSÃO. A MAIORIA COM ESCORIAÇÕES PELO CORPO, CAUSADA PELA QUEDA DE BLOCOS DE MINÉRIO E VIGAS DE SUSTENTAÇÃO. A MINA LEMBRAVA UM CAMPO DE LUTA.

CORTA PARA:

CENA 5  -  ADMINISTRAÇÃO DAS MINAS  -  ESCRITÓRIO  -  INTERIOR  -  DIA

OTTO  -  Um irresponsável! Um louco!

O COMENDADOR LIBERATO CHEGARA PRESSUROSO. FÔRA CHAMADO ÀS PRESSAS.

OTTO  -  O senhor é o responsável por isso! Não deu a ele a direção das minas? Está aí o resultado!

COMENDADOR  -  Creio que não é hora de apontar responsabilidades. É hora de agir, você não acha, Otto? Há vítimas?

OTTO  -  Claro que há! Talvez a esta hora estejam todos mortos! Ai... estou cansado!

LIBERATO DIRIGIU-SE A PASSOS APRESSADOS EM DIREÇÃO À ENTRADA DAS MINAS. RESPEITOSAMENTE OS HOMENS AFASTAVAM-SE DANDO PASSAGEM AO MILIONÁRIO.

CORTA PARA:

CENA 6  -  MINAS  -  GALERIA M-3  -  INTERIOR  -  DIA

NO FUNDO DA TERRA, BABY QUASE DESISTIRA. O SILENCIO ERA CONSTRANGEDOR. NINGUÉM RESPONDIA AOS CHAMADOS DOS MINEIROS.

CESÁRIO  -  Sabe por quê? Porque tão tudo morto!

BABY  -  (berrou, imundo, sujo de carvão da cabeça aos pés) Mentira!

CESÁRIO  -  Tão tudo morto, sim! E sabe quem matou? Um mocinho rico, metido a fazê graça! Desta vez quis fazê graça com a vida dos outro!

RICARDO  -  (ordenou, enérgico) Vamos, continuem o trabalho! Temos de tirar os homens daí!

CESÁRIO  -  Morto... de que vai adiantá?

OS MINEIROS CONTINUAVAM CAVANDO COM DESTREZA, AFASTANDO OS BLOCOS DE MINÉRIO E AS VIGAS RACHADAS QUE IMPEDIAM O ACESSO ÀS GALERIAS SINISTRADAS.

FIM DO CAPÍTULO  78





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